Criminal

1 Prólogo


Allison

Allison dormia profundamente até ser acordada pelo som estridente do telefone que tocava. O barulho a fez despertar de imediato, arrancando-a de seus sonhos. Ela levantou da cama contra a vontade e marchou até o escritório de seu pai, local onde o telefone mais próximo de seu quarto estava. Onde ele estaria? Olhou para o relógio em cima da escrivaninha do escritório. Àquela hora, seu pai saía para comprar o jornal, como de costume. Era manhã de domingo e apesar de ainda ser cedo, o sol já estava alto no céu e entrava resplandecente pela janela do aposento. Ela atendeu ao telefone que continuava a tocar impacientemente.

- Alô? – falou, com uma voz ainda um tanto sonolenta.

- O detetive Robins está? – a voz perguntou do outro lado da linha.

- Meu pai saiu. – ela respondeu, ao reconhecer a voz de Stanley Stewart, chefe de polícia da cidade e grande amigo de seu pai. – Mas não deve demorar que estará de volta. O senhor quer que eu passe algum recado?

- Não, preciso falar pessoalmente com ele. – disse Stanley.

O som da porta da frente se abrindo ecoou pela casa. Allison falou:

- Ah, ele acaba de chegar. Espere um instante, vou chamá-lo.

Ela colocou o gancho sobre a mesa e desceu as escadas correndo.

- Pai! – gritou, entrando na cozinha.

- Já está de pé, querida? – Ele olhou para ela surpreso enquanto largava o jornal do dia e uma sacola de compras em cima da mesa.

- O policial Stewart está no telefone. – Ela o avisou. – Ele não quis me passar o recado. Precisa falar pessoalmente com você.

O detetive Robins subiu as escadas e foi até seu escritório. Allison sabia que, quando o policial pedia para falar apenas com ele, o assunto era sério.

Passaram-se dez, vinte, trinta minutos. Nesse meio tempo, Allison havia voltado ao seu quarto, trocado o pijama por uma camiseta cinza de futebol americano e uma calça jeans velha e gasta, descido novamente à cozinha e preparado uma caneca de café e uma torrada para ela. Seu pai certamente já havia tomado café da manhã, então sentou-se sozinha à mesa e comeu em silêncio.

Já havia quase acabado de beber seu café quando reparou no jornal dobrado, ainda intocado, que seu pai largara às pressas para atender ao telefone. Ela o pegou e leu a manchete:

“Onda de assassinatos em pequena cidade assusta moradores. Número de vítimas já chega a sete.”

Abriu o jornal na página da notícia da manchete e a leu. Alguma coisa lhe dizia que era esse o motivo da demorada conversa que seu pai estava tendo com o policial Stewart.

A notícia não informava muita coisa, talvez porque o caso ainda era um completo mistério. Mas dizia tudo que qualquer pessoa desinformada como ela precisava saber.

Estranhos assassinatos vinham acontecendo na pequena cidade de Breaken Valley, não muito distante de onde ela morava. Allison nunca tinha estado lá, mas ouvira falar a respeito. Era uma cidade pacata e simples, sem muitas novidades. Porém, há pouco tempo, um assassino terrível – e ainda desconhecido – vinha cometendo diversos homicídios, deixando a população local com medo até de sair de casa. O sujeito continuava à solta, aumentando o número de casos de mortes em série, e o que era pior, sem deixar vestígios, de modo que a polícia da cidade não conseguia capturá-lo.

Allison fechou o jornal e o colocou sobre a mesa. Como nunca ouvira falar a respeito dessas notícias até então? Talvez, o prefeito de Breaken Valley não quisesse que a história se espalhasse. Talvez ele pensasse que poderia dar conta. Mas a coisa toda ficou cada vez maior para que ele deixasse tudo sob seu próprio controle.

Ela ouviu passos na escada. Seu pai finalmente desligara o telefone. Ele entrou na cozinha e ela voltou o rosto na direção dele, como se esperasse por algo.

- Más notícias. – falou o detetive. Ele olhou para a mesa por um instante, percebendo o jornal desdobrado. – Você leu a página principal?

- Sim. – Allison respondeu.

- Bom, então já me poupou metade das explicações. O caso é que essa onda de crimes está acontecendo, e a polícia de Breaken Valley é muito pequena e inexperiente para lidar com esse tipo de situação. Eles estavam segurando a barra durante as primeiras mortes, mas acho que perceberam que isso vai continuar se não fizerem alguma coisa.

- Já entendi tudo. – disse Allison. – Eles querem que você tome conta do caso.

- Mais do que isso. – seu pai falou, o tom de voz sério. – A polícia local de lá não tem nenhum detetive em sua equipe. Eles querem que eu chefie as investigações.

Os poucos segundos de silêncio que se sucederam foram suficientes para que Allison compreendesse tudo. Mas mesmo assim, seu pai falou em seguida:

- Melhor fazer as malas, Allie. Vamos nos mudar para Breaken Valley amanhã de manhã.