Escorada à janela do carro, Allison observava a paisagem repetitiva de árvores, céu e estrada. Ela estava um tanto chateada por ter de se mudar tão repentinamente. No dia anterior, apenas teve tempo de arrumar suas coisas e passar na casa de suas duas melhores amigas para se despedir. Fazia cinco anos que morava naquela cidade. Seu pai dirigia concentrado, mas, olhando pelo retrovisor, percebeu a expressão desanimada dela:

– Allison, sei que está triste por ter de deixar a cidade. Mas eu não poderia deixar você sozinha e partir para Breaken Valley. Não sei quanto tempo vão levar essas investigações.

– Não tem problema, pai. – ela respondeu, de jeito sincero. – Sabe que não levo muito tempo para fazer amigos. Eu só preciso de alguém para conversar e me apresentar a cidade. – Ela sorriu. – Vou me adaptar rápido.

– E você sabe, isso é temporário. Não precisamos ficar lá para sempre. – o detetive falou, abrindo um sorriso. Depois de alguns segundos de silêncio, ele completou:

– Só mais 40 minutos querida. Já estamos quase chegando.

Allison não respondeu. Deitou a cabeça no braço apoiado à janela e continuou olhando a paisagem.

* * *

– Allison, querida, acorde! – a voz de seu pai a despertou de seu cochilo. – Chegamos!

Ela abriu os olhos, piscando diversas vezes por causa da luz. Estavam cruzando por uma placa de beira de estrada que dizia “Bem-vindos a Breaken Valley”. Curiosa, olhava ora para um lado, ora para o outro, tentando captar os detalhes da cidade que agora seria o seu lar. Era realmente pequena se comparada àquela que haviam acabado de deixar para trás. Não havia prédios, e as maiores construções deveriam ter apenas dois andares.

Seu pai estacionou em frente a uma casa de madeira branca, de dois andares e com um pequeno quintal na frente.

– Essa aqui é a nossa casa agora. – disse ele. – O que acha dela?

– É bonita. – disse Allison.

– Venha, me ajude a tirar as malas do carro. – seu pai ordenou.

Ela pegou a sua mala e seu pai a dele. Entraram na casa e ficaram alguns instantes observando seu interior: era um imóvel mobiliado, que havia sido colocado a venda recentemente. Como eles tiveram de mudar-se imediatamente, a polícia de Breaken Valley entrara em um acordo com o antigo proprietário e conseguira que a casa passasse a ser deles, pelo tempo de que precisassem dela.

Quebrando o silêncio, seu pai falou:

– Allie, querida, vamos ver os quartos.

Eles subiram uma escada de madeira que ficava junto à parede, à direita da entrada da casa. No andar superior, havia um longo corredor com quatro portas: três quartos e um banheiro. Eles entraram em todos os quartos, e o detetive falou:

– Allison, pode escolher o quarto que você quiser. Dos dois que sobrarem, um será o meu e o outro vou usar como um escritório improvisado. Preciso de um lugar para trabalhar.

Allison andou ao longo do corredor, pensativa. Depois, apontou para primeira porta, perto do topo da escada à direita, e disse:

– Acho que vou ficar com aquele ali.

Era o quarto que dava vista para a rua, à frente da casa. Ela entrou e largou a mala sobre a cama.

– Certo, querida. – disse seu pai. – Nesse caso, acho que vou ficar com o quarto ao lado do seu. O último do corredor será meu escritório.

Ela assentiu.

– Vou guardar o carro na garagem e fazer umas compras básicas no mercado. Quando voltar eu organizo isso aqui. – disse o pai, referindo-se à sua própria mala deixada ao lado da porta de seu quarto com um sinal de cabeça.

Ele desceu as escadas e foi para o quintal.

Allison andou até a janela. Jovens andavam pelas ruas carregando bolsas e mochilas. Àquele horário, deveriam estar indo para casa, depois de um dia de aula. Isso a fez lembrar-se de um detalhe importante que seu pai não mencionara uma única vez durante a viagem: ela precisava se matricular em uma escola.

Bom, pensou. Não deve ter muitas escolas nessa cidade. Acho que vai ser algo fácil de resolver, e eu posso começar amanhã.

Afastou-se da janela e começou a desfazer a mala. Colocou as roupas no armário, os livros nas prateleiras e o laptop em cima da escrivaninha, abaixo delas. Foi até o carro e pegou todos os jogos de lençol e cobertas que haviam trazido. Colocou os de seu pai em seu respectivo quarto e depois fez a sua cama com os seus. O quarto estava começando a ficar mais aconchegante com suas coisas nele. Faltava apenas um pequeno detalhe, um que não poderia ser esquecido.

Marchou até a mala e do fundo retirou um porta-retrato. Era uma foto dela ainda criança, com sua mãe.

Colocou cuidadosamente a foto sobre a escrivaninha e ficou alguns minutos olhando para ela. Sua mãe havia morrido cinco anos atrás, quando ela tinha apenas doze anos. Ela sempre tivera uma saúde muito frágil. Apesar de aparentemente ter superado a perda, Allison ainda sentia muita falta da mãe. Depois de sua morte, ela e o pai haviam se mudado para a cidade em que moravam até um dia atrás. Mas em qualquer lugar que estivesse, Allison levava aquela foto consigo.

Por fim, desceu as escadas, perguntando-se porque seu pai estaria demorando tanto para voltar do mercado. Foi para fora e tentou olhar na direção do que parecia o pequeno centro da cidade, mas o sol estava muito forte e ofuscava sua visão. O calor também era intenso, e seus compridos cabelos castanhos, que caíam em ondas até a metade das costas, só aumentavam a sensação de calor, de modo que enrolou-os e deu-lhes um nó para que ficassem presos no alto da cabeça.

Finalmente, uma figura carregada de sacolas começou a se aproximar da propriedade. Quando ele chegou ao terreno, surpreendeu-se por Allison estar de pé ali fora.

– Já arrumou seu quarto? – ele perguntou.

– Já, sim. Estava te esperando para perguntar uma coisa. – disse ela. – Pai, você se esqueceu de me matricular em uma escola.

– Encontrei a equipe de polícia na volta do mercado. – disse ele. – Parei para conversarmos um pouco. Eles me deram as boas vindas à cidade, e eu perguntei onde ficava a escola. Tem apenas duas escolas aqui. Uma é primária, o que não é o seu caso. A secundária fica nesse endereço. – Ele entregou as sacolas de compras à Allison e tirou um papel do bolso da calça. – Você mesma pode ir fazer sua matrícula, pelo que eles me disseram. Mas antes quero que guarde essas compras na cozinha.

– Ok. – disse ela, e entrou na casa. Seu pai a seguiu.

– Vou lá em cima organizar minhas coisas. – disse ele.

Allison começou a abrir as portas do armário da cozinha e colocar as compras em ordem. Ligou a geladeira e guardou alguns itens dentro dela. Quando acabou, foi ao pé da escada e gritou para seu pai:

– Vou até a escola.

– Tudo bem. – ouviu a voz abafada dele vindo do andar de cima. – Mas, Allison, tome cuidado. Lembre do porque estamos aqui.

O assassino, pensou.

– Pode deixar, eu volto antes de escurecer.

Ela andou até a mesa da cozinha, onde seu pai havia deixado o bilhete com o endereço. Colocou o papel no bolso e saiu de casa.