Crimes Inocentes
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Eu sabia que eu tinha feito merda e sido descoberto. Eu queria sair correndo o mais rápido possível. Mas então me veio a cabeça o ensinamento mais valioso de Frank.
– Quando alguém te acusa ou te ameça, nem sempre ele tem provas concretas sobre você. Então sempre que for descoberto aja naturalmente, não deixe nenhum tom de medo transparecer em seu rostou ou em sua voz.
E foi aquilo que fiz no momento em que um sujeito se apresentou como um suposto Detetive. Minha mãe o convidou para entrar, e enquanto o sujeito gordo se dirigia para um dos sofás e se acomodava nele, minha mãe me olhou nos fundos dos olhos com uma expressão sofrida.
Me juntei ao lado de minha mãe em um sofá oposto ao dele, e então o sujeito gorducho pegou sua pasta e começou a ler ela em silêncio. Minhas mãos que estavam repousadas sobre meus joelhos estavam tremendo bem levemente, e eu fiz o possível para disfarçar isso.
– Temos umas acusações muito sérias envolvendo seu filho, Sra... — ele olhou rapidamente na ficha para ver o nome dela. — Karoline.
Minha mãe deixou escapar um longo suspiro de tensão, e Burning entendeu isso como um sinal para continuar.
– Em poucas palavras — ele começou. — seu filho está sendo acusado de tráfico.
Ele esperou alguns momentos para que ela absorvesse a informação, enquanto me encarava profundamente. Meu estômago estava se revirando de medo e tensão, mas eu o encarei com um brilho determinado e inocente nos olhos.
– Tráfico? — disse, franzindo a testa. — Não sei oque você esta falando.
Minha voz era calma como um lago no fim de tarde. Pelo menos era oque eu estava achando. Mas o Detetive nada disse, apenas voltou sua atenção para minha mãe.
– Ainda não temos provas concretas sobre isso. — ele disse com uma decepção evidente na voz. — Mas eu estava o observando agora a pouco e vi ele sair no meio da noite para entregar um pacote a um de seus... colegas, eu suponho.
Uma chama de esperança surgiu em mim. O que Frank disse era verdade. Entretanto... ele tinha me visto. E eu não tinha como mentir sobre isso. Meu cérebro estava trabalhando intensamente para inventar uma história, e logo as próximas palavras de Burning foram dirigidas a mim.
– Você poderia nos dizer oque tinha dentro daquele envelope? — ele me perguntou. — Você tem muita sorte de o seu comprador ser bastante esperto e nos ter despistado a tempo.
Então uma súbita ideia veio na minha mente. Se ele não sabia o conteúdo do envelope, ficaria tudo mais fácil.
– Eu confesso que eu estava vendendo algo que não queria que ninguém soubesse. — comecei tentando fingir um arrependimento na voz. Um brilho surgiu nos olhos de Burning, e engolindo em seco, continuei:
– Era o gabarito da prova bimestral de ciências. — falei rápido e sem gaguejar. Aquilo consumiu todas as minhas energias, me concentrei ao máximo para não deixar transparecer nada.
E por um momento, vi um clarão de desapontamento nos olhos de Burning. Mas rapidamente foi substituido por uma risada sarcástica.
– Você vai precisar de uma mentira melhor que essa, Jefferson. — ele disse. — Eu poderia simplesmente descobrir aonde esse menino mora e tomar o envelope de suas mãos.
Mas Burning sabia que isso era impossível. Se aquele fosse realmente um caso de tráfico, os compradores mesmo sendo viciados, não eram bobos. E para a infelicidade de Burning, eu também sabia disso.
– Vá em frente. Desde que eu saiba, vender gabaritos irá ter como consequencia no máximo uma suspensão em minha Escola. — falei soando desafiador. — E eu acho que um Detetive é desnecessário nesse caso.
Burning, sabendo que continuar era inútil, se despediu de minha mãe, que até o momento estava apenas parada olhando a discussão com interesse, torcendo para que tudo aquilo seje um engano.
– Uma boa noite a Senhora. Me desculpe por acorda-la tão tarde da noite.
E sem esperar uma resposta, ele andou a passos apressados e largos em direção a porta.
Do lado de fora, Burning soltou um suspiro de frustação. Sabia que tentar arrancar informações daquele menino sem ter provas concretas seria algo inútil. E pelo oque ele pode ver, ele não era nada bobo.
– Bem que ele poderia sair correndo e confirmar todas as minhas suspeitas. Meu trabalho seria bem mais fácil assim. — ele disse para si mesmo na calada madrugada.
&&&&&&&&&&
– Eu quase fui descoberto Frank! Descoberto! — falei quase aos gritos ao chegar em uma espécia de QG de Frank que ficava situado no porão de sua casa.
Ele me olhou com uma preocupação nos olhos. Ele sabia que aquilo significava que estava na hora de ensinar algo muito desagradavel para Jefferson. E ele não sabia se o menino iria estar pronto para isso.
– Mas você seguiu a fio minhas lições e conseguiu se safar. — ele disse tentando me tranquilizar.
– Dessa vez! — praguejei. — Ele estava a um fio de descobrir tudo sobre mim!
Frank se remexeu inquieto. Ele ficou ainda mais preocupado quando soube que o detetive que fora me visitar se chamava Burning.
– Ele é um dos mais renomados Detetives da cidade. Não que tenha muitos. — ele completou com uma sugestão de sorriso nos lábios. — Porém ele é uma pessoa a se preocupar. Você realmente mostrou potencial ao conseguir se livrar dele.
O pequeno porão, que Frank desde sempre usara como sua "Sala de Operações", estava abafado e quente. Suor escorria livremente pelo meu rosto, caindo em meus olhos e embaçando minha vista.
Com apenas uma escada no canto que levava até uma porta que era trancada por dentro com um tetra-chave, o QG não era lá grandes coisas. Uma mesa de ping-pong no centro, que fora retirado a rede para dar espaço a um notebook e vários mapas da cidade espalhados ao longo da mesa. A parede feita de um branco amarelado com vários pontos em que a tinta já estava descascando e mostrando alguns pedaços de tijolos. Uma estante no canto contento alguns livros e estátuas de formatos de monstros mitológicos.
– Eu adoro mitologia grega. — Frank dissera pela primeira vez que adentrei no QG. — Essa é minha coleção pessoal de estátuas.
Bem no canto da direita, uma pequena escrivaninha contendo vários pacotes. Com espanto, eu tinha descoberto da pior forma que aquilo era quase uma tonelada dos mais variados tipos de drogas. Tinha desde maconha, até cocaína, heroína e ecxtase.
– Meus produtos são multi-universal. — ele tinha dito ao ver meu espanto diante daquilo. — Eu sei, eu sei. Sou apenas um garoto. Mas meus produtos são os melhores da cidade.
– Não que a cidade seja muito grande. — tinha comentado, e Frank me olhou com um brilho ameaçador nos olhos. — Só estou brincando. Calma.
Frank cutucou meu ombro me tirando do desvaneio. Ele me olhou com uma cara determinada e preocupada, e após imperceptiveis segundos me analisando, ele reuniu coragem e disse:
– Está na hora de você aprender a fazer a parte suja do trabalho.
Engoli em seco várias vezes. Eu não sabia exatamente oque aquilo significava, mas eu sabia que não era nada bom. E os próximos acontecimentos só fizeram por confirmar meus temores.
Frank andou até sua escravinha com quase uma tonelada de drogas, e em uma das duas gavetas que ficavam embaixo, retirou um objeto de lá dentro. Como ele estava de costas, só consegui ver quando ele chegou bem perto de mim e me encarou.
Em suas mãos, estava uma pistola. Ele a examinou por alguns segundos, e ao notar minha cara de espanto, se apressou:
– Já atirou em alguém, Jefferson?
Fale com o autor