A primeira coisa que pensei fora que Frank estava me pregando uma peça. Mas então, ao olhar em seus olhos e ver uma determinação neles, eu soube que ele estava falando a verdade.
– Isso é uma arma? — perguntei apontando para a pistola na mão dele, ainda não acreditando no que via.
Frank inspecionou a arma por alguns segundos, e depois me disse:
– É. É uma arma, eu acho. — ele disse em um tom zombeteiro. — Tem um pente. E também tem balas. Portanto, acho que é uma arma.
Percebendo o tom de brincadeira de sua voz, percebi o quanto minha pergunta tinha sido estúpida. Ele estendeu a mão para eu pegá-la, e em um instinto recuei.
– Escuta cara, eu apenas estou aqui para arrumar dinheiro e pagar o tratamento da minha mãe. — eu disse. — Não quero me envolver em nada mais.
Então os olhos de Frank escureceram, e eu podia ver uma raiva neles.
– Você acha que é fácil assim? — ele vociferou. — Você acha mesmo que essas toneladas de drogas que estão armazenadas no meu porão simplesmente apareceram aqui? Não. E você definitivamente não vai conseguir ganhar uma grana fácil assim a vida toda.
Ele deu uma pausa de alguns segundos, enquanto pensava em suas próximas palavras. Eu fiquei parado igual uma estátua o ouvindo falar, sabia que era burrice tentar interrompe-lo neste momento.
– Olha Jefferson — seu tom era mais suave dessa vez. — Eu não queria te obrigar a fazer isso. Mas hora ou outra, você teria que fazer a parte suja do trabalho. Eu sei que ainda é cedo, afinal você só entrou nesse rumo a apenas duas semanas ou menos.
– Eu não tenho experiência nenhuma em armas. Nunca nem sequer pensei em machucar alguém propositalmente! — argumentei. — E essas armas matam!
– Não são as armas que matam. São as pessoas que a estão usando. — ele disse com um sorriso sem humor. — Mas você vai ter que usá-las, ou então seus serviços não serão mais necessários para mim.
Ele novamente estendeu sua mão para eu pegar a arma, e mais uma vez eu recuei. Frank estava ficando impaciente, mas continuava calmo.
– Me dê pelo menos um dia para poder pensar sobre isso. Então eu irei decidir se continuarei com você ou não. — eu disse.
Eu estava me preparando para sair do porão, quando Frank se apressou atrás de mim e me deu um puxão em meu ombro me obrigando a virar.
– Apenas se lembre de uma coisa — sua voz era baixa e ameaçadora. — Se você pular fora, eu não posso correr o risco de ter uma pessoa que não trabalha mais comigo e que sabe de todos os meus esquemas. Eu lhe ensinei todas as minhas arti-manhas. Confiei em você. Mas tudo isso tem um preço.
– Você está dizendo que vai me matar se eu decidir parar com isso tudo? — disse.
– Se for preciso, sim.

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Burning estava em uma de suas pausas para fumar no corredor em frente a sua sala, quando Hugerson se aproximou dele. Burning viu a pergunta se formando em seus lábios, e antes de Hugerson ter oportunidade de faze-la, Burning se apressou:
– Não consegui fazer o menino confessar os crimes. Você sabe que sem provas concretas tudo fica mais difícil.
Hugerson parou a meio metro de distância, e olhou para o Detetive com um desprezo evidente no olhar.
– Você não conseguiu arrancar informações de um menino de 16 anos? — ele disse com raiva. — Era para esse ser um daqueles casos que se resolviam em uma noite!
– Um menino de 16 anos muito esperto. — Burning comentou. — Ele não caiu em nenhuma de minhas armadilhas! E você não é capaz nem mesmo de seguir aquele maldito menino que recebeu o envelope! Um é mais incompetente que o outro!
Os dois homens trocaram olhares cheios de raiva, o cigarro de Burning soltando uma fumaça tênua entre eles. E assim ficaram por vários segundos, até o amigo do Detetive soltar um longo suspiro de frustação.
– Eu não queria falar assim com você, é que eu achei que seria fácil enganar aquele moleque. Isso é tudo. — ele disse com uma nota de remorso na voz. — Mas no fim das contas, ele nem deve ser tão importante assim. Apenas um traficantezinho qualquer que acabará morto por outros rivais.
Mas Burning não estava convencido disso. Aquele garoto tinha muitas habilidades, e o Detetive quase não conseguiu acompanha-lo de volta para sua casa. Teve momentos em que ele o perdeu de vistas por longos segundos.
E ele tinha uma boa idéia de onde ele tinha desenvolvido essas habilidades.
– Ou talvez eu que esteja ficando muito velho para isso. — Burning pensou cansado.
– Eu não quero desapontá-lo, Hugerson — Burning disse após alguns minutos. — Mas esse menino não é um simples traficante. Ele tem habilidades. Táticas. E se ele fosse apenas qualquer viciado por ai, ele não teria conseguido me passar a perna.
– Confesso que você não é tão famoso assim por exagero, e eu queria realmente ver este menino de perto para saber oque ele tem tão de especial para conseguir ter te enganado.
Burning já ia dizer que ele não foi enganado, mas sabia que era inútil. Ele queria acabar logo com essa conversa e se concentrar o máximo possível no caso.
– Tem a possibilidade, claro, dele ter recebido treinamento. — Burning sugeriu.
E ao olhar para os olhos preocupados de Hugerson, ele sabia que ambos estavam pensando na mesma pessoa.
– Frank. — eles disseram quase ao mesmo tempo.

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Acordei com um barulho incomodante vindo da janela. Após alguns segundos me esforçando para levantar, pude ver oque era. Em intervalos irregulares, uma pedra se chocava contra o vidro da janela do sótão.
Eu já sabia quem era, então nem me preocupei em se apressar. Olhei para o despertador da cabeceira e marcavam 7 horas da manhã. Após fazer ir no banheiro e fazer minhas necessidades matinais, vesti uma roupa casual e fui na porta atender Frank.
– Precisamos conversar. — Frank disse. — É sobre aquele assunto de você ter que aprender a usar armas que conversamos ontem.
– É. Eu me lembro bem da conversa. Principalmente da parte que você me ameaça de morte. — acrescentei com um tom de raiva.
Frank apenas deu de ombro e me puxou para fora da casa. Fechei a porta atrás de mim, e me perguntei como minha mãe não tinha acordado com todo esse barulho.
– Você terá que aprender a usar armas o quanto antes. — Frank disse de repente. — Tem um possível rival na região que está ameaçando meus negócios.
Escutei tudo oque ele tinha para falar com interesse, e então disse:
– Então eu realmente terei que aprender a usar? — perguntei. E já sabia a resposta.
– Infelizmente, sim. E o treinamento começa hoje.
Quando entrei no Pálio Preto de Frank, achei que estavamos nos dirigindo para seu QG, mas então ao chegar na rua de sua casa, ele virou em uma ruazinha estreita que levava para uma estrada de terra.
Após alguns minutos de viagem sem falar nada, a curiosidade finalmente venceu.
– Para onde você está me levando? — perguntei.
– Para o estande de tiro do meu avô. — ele disse. — Fica a 40 minutos da cidade, então aproveite a viagem.
E sem discutir, coloquei os fones de ouvido que eu tinha levado e passei a viagem inteira pensando em pontos positivos e negativos de aprender a usar uma arma.
Percebi, com espanto, que eu estava apenas encontrando pontos positivos.