Crie em Sua Mente
2 Promessas Para o Futuro
Notas iniciais
Ou o mundo tá todo ferrado, em cenários pós-apocalipticos, ou a tecnologia avançou de uma forma incrivel e a realidade humana foi reconstruida.
Resolvi escrever uma história futurista com pé na realidade, espero que gostem.
- Se eu lembrasse que médicos fazem esse tipo de coisa, não teria vindo. –suspirou Pandora, reclamando do simples curativo e do anti-inflamatório a ela receitados.
- Não ia ao médico há muito tempo?
- Há um tempo considerável.
- Como eram as coisas a trezentos anos atrás?
- Não muito diferentes do que são hoje, se for considerar. Tínhamos carros, apesar de, na época, ainda usarmos gasolina. As estações já não eram definidas. Os países se dividiam em grupos econômicos, os EUA dominavam... A África e a Ásia eram super-populosos. A Amazônia pertencia ao Brasil. O que mais? Haviam árvores, e não postes de oxigênio artificial.
- Então eram muito diferentes!
- Não. Assim como na época, ainda temos problemas com os resíduos radioativos, tememos as guerras e as ameaças de bombas biológicas e de hidrogênio. Não chegamos a Marte, não descobrimos como vencer o câncer e a AIDS. Continuamos sendo alienados, continuamos produzindo lixo tecnológico. Continuamos no sistema capitalista e continuamos matando uns aos outros. Problemas psicológicos como psicoses, síndromes e manias, além das doenças psico-somáticas, ainda são os que mais afetam a população. Tanto que, diferentemente de professores, carteiros e contadores, você ainda está empregada.
- Você é um tanto negativa, não?
- Sempre fui. E os anos de promessas de um futuro melhor que nunca chegou, ou até mesmo a inexistência, até agora, de um juízo final, como sempre esperei, não me ajudaram em nada.
- Faz parte da essência humana ter esperança quanto ao futuro.
- Eu sei. –a garota semicerrou os olhos, e rangeu os dentes travando o maxilar- Faz parte da essência humana esperar, acreditar, e não fazer absolutamente nada a respeito. Ou fazer muito pouco. Justificar a inação. Usar o faça o que eu falo, não faça o que eu faço. Ser hipócrita.
- Isso é uma espécie de rancor que você guarda? –perguntou Ligia calmamente, sem se abalar com a reação da outra.
- Pode se dizer que sim. Uma insatisfação muito pessoal, porque eu mesma, não fiz, e ainda não faço, tudo o que posso.
- Por que?
- Comodismo. É um mal que acompanha a essência humana.
- A essência humana...
- Sim?
- É constituída de esperança, comodismo e...?
- Instinto.
- Tem certeza?
- Sem dúvidas. Na vida, somos movidos pelo instinto. Nosso instinto é sobreviver em bando, como condiz com nossa espécie. Então todo tipo de regra, moral e crença que adquirimos se baseia neste instinto. Somos formados pelo que vivemos e acreditamos. E o que viveremos e acreditaremos é ditado, ou pelo menos sugerido, pela sociedade. A sociedade é o bando de humanos, assim como a alcatéia é o bando de lobos, por exemplo.
- É uma idéia bem maluca, essa. E assustadora, também, porque parece que não podemos fugir disso.
- E não podemos. Afinal, essa é a essência humana. Mesmo aqueles que se isolam, não deixam de ter contato com outros membros do bando, como pela internet. Eremitas já não existiam mais, mesmo no meu tempo. O isolamento completo é um distúrbio mental perigosíssimo, que leva a descaracterização do ser humano.
- Então uma pessoa completamente sozinha enlouquece e vira?
- Não sei. Como eu vou saber? Mesmo porque, se a pessoa se isola totalmente por vontade própria, já enlouqueceu.
- Sei... Você tem uma linha de pensamento interessante, mas nada saudável. Me diga que não passou seus trezentos anos destilando essas teorias.
- Passei. E agora é tarde, elas já estão formadas.
- Nunca é tarde.
- É tarde a partir do momento em que a pessoa não quer mudar.
- Realmente, não posso forçá-la a nada, mas...
- Isso não importa. Chegamos.
- É. Chegamos.
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