Crie em Sua Mente
3 Acorrentado
- Me fale mais sobre o seu trabalho, Ligia.
- É um ramo perigoso. Eu mexo como subconsciente da pessoa, um erro, e adios amigos!
- E dá pra resolver alguma coisa?
- Os métodos diferem, mas o tratamento é o mesmo aplicado pelos outros psicólogos. Só é mais fácil, porque não depende da excelência da memória do paciente ou de sua vontade de relatar os fatos completamente.
- É uma invasão. Injusto, não?
- Talvez, mas todos vem aqui por vontade própria.
Pandora apenas assentiu, se sentando num canto do quarto e abraçando os próprios joelhos.
Era hora de Ligia abrir o consultório, um terceiro quarto no apartamento.
No meu tempo pelo menos ainda usavam casas, hoje até o subsolo é utilizado na construção e venda dos apartamentos, uma droga. Concluiu, enquanto acenava um tchauzinho para a psicóloga.
Esperou, impaciente, a consulta acabar.
Era exaustivo, desgastante para consultor e paciente, por isso haviam regras. Segundo o que Ligia lhe explicara, a “invasão” só ocorria uma vez em cada paciente. E depois disso, o paciente ia pra casa, descansar. Na consulta seguinte, era discutido o que ocorrera lá.
E Pandora odiava esperar.
Quando finalmente Ligia voltou, estava abatida.
- Como foi?
- Difícil. Esse é um paciente que recebi por recomendação.
- Recomendação?
- Da promotoria pública.
- Vixi... E?
- O tratamento faz parte da pena.
- Condenado por?
- Processo por racismo.
- E como é? Lá dentro? Sempre tive pra mim que esse tipo de gentenão tem nada na cabeça.
- No consciente talvez não, mas no subconsciente...
- E como é? –insistiu.
- Crie em sua mente um local totalmente vermelho. Mas não com contornos ou “cenário” vermelho. Era como uma neblina, plenamente vermelha. Cheirava parecido com dióxido de carbono, algo sufocante, opressor.
- Credo. –comentou Pandora, erguendo uma sobrancelha.
- E fazia um barulho dos diabos. Algo como martelos e picaretas contra uma grande rocha milenar. Foi difícil até mesmo encontrá-lo lá no meio...
- Mas você conseguiu.
- Sim. Mas não será possível tirá-lo de lá.
- Porque?
- Ancestralidade. Reconheço de longe, dentro do subconsciente da pessoa, em algum lugar visível, está a marca de uma corrente. Essa corrente representa os pontos do subconsciente que foram herdados dos pais ou entes criadores... E desta vez... Pela primeira vez... É realmente triste, mas... A marca, estava no rosto do meu paciente. Apesar dele mesmo ser ligeiramente informe em seu próprio subconsciente, seu rosto levava a marca da ancestralidade.
- Eu não me pareço com meus pais.
- Diferentemente desse paciente, você teve contato com outras realidades. Em um mundo alheio ao resto da humanidade, não há como quebrar o circulo vicioso. Crescendo em uma família preconceituosa, tendo amigos preconceituosos, assistindo e lendo coisas preconceituosas, ouvindo músicas e piadas preconceituosas... Ele não teve opções, seguiu assim até...
- Até cometer um crime.
- Sim, até empurrar propositalmente uma mulher negra que trabalhava com ele na frente de um trem.
- Trágico. Quem diria que ainda conseguem usar meios de transporte como meios de assassinato. Eu realmente amo trens e metrôs, mas esse tipo de coisa...
- Ele teria feito, usando esse ou outro método qualquer. É a realidade.
- Acredita que a realidade seja apenas uma?
- Sim. Nossa opinião, vivências e personalidade só mudam o modo como a vemos, mas ela ainda é única.
- Isso é contraditório. Já que a realidade é nossa, ela deve ser como nós somos. E como somos pessoas diferentes, temos realidades diferentes.
- Se fosse assim, nem mesmo o tempo...
- O tempo é um conceito criado pelo homem, para o uso do próprio homem.
- Não existiria, então, o tempo da natureza?
- Não, pois a natureza não necessita de qualquer espécie de prazo, então o tempo é desnecessário para ela.
- Você fala como se a natureza fosse uma pessoa.
- Não digo uma pessoa, o ser humano constrói todos os seus conceitos em cima da própria existência, e isso distorce e limita muito sua visão do universo. Considero a natureza, sim, como um ser vivo, mas não necessariamente como uma pessoa.
Ligia sorriu. Afinal de contas, Pandora estava relativamente correta. Todo conceito conhecido na construção da psique humana e usado na comunicação social era antropocêntrico. Como se, com o fim de sua existência limitada, chegasse também o fim do universo.
- A natureza... A natureza é para mim a presença onipresente que costumamos chamar de Deus. Só sua sabedoria, paciência e poder poderiam ter criado a vida. Por isso não gosto de matar nada que eu não vá comer. Tudo que faz parte da natureza é parte de Deus. Sou grata pela minha existência, o mínimo que posso fazer para retribuir é respeitar essa existência eterna.
- Pensei que seu ceticismo fosse te levar ao ateísmo. Juro que esperava agora um discurso sobre a necessidade do inconsciente coletivo de ter alguém a quem culpar e em quem depositar as esperanças...
- A verdade é que sei que o ser humano não é o que há de mais avançado no universo, pensar nisso seria deprimente. Logo, o algo superior, Deus, existe. E se Deus é o que há de mais próximo a perfeição, ele é a natureza, ele é os três segundos anteriores ao Big Bang que os cientistas desconhecem, é a resposta.
- Desde a Grécia, talvez antes, os humanos buscam as respostas...
- Aí está o problema. –Pandora cortou Ligia- O ser humano quer saber demais. Quer saber sobre verdades que não mudariam suas vidas, mas sua ausência os incomoda tanto!
- Todos temos curiosidade.
- Tem limites. Bem, acho que está na hora de eu tomar meu anti-inflamatório.
Isso encerrou ali a discução. Ligia tinha percepção apurada, e Pandora fora clara em suas atitudes.
Um pouco infantil, observou Ligia, uma pessoa de 300 anos abandonar uma conversa porque se cansou do assunto, ou simplesmente porque teve suas opiniões contrariadas.
Péssima aceitação de críticas, tem que amadurecer ainda... Pensou, voltando para seu consultório, para organizar a papelada. Teria ainda mais uma consulta com o agressor enviado pela promotoria, e isso seria penoso.
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