Criaturas – Interativa
6 Capítulo Quatro
Notas iniciais
Capítulo Quatro — Eu sei o que você fez durante a lua cheia
Parte I
Vida longa à Rainha?
Não tenha tanta certeza disso.
Danniel empurrou aquela porta metálica com força, indo contra o peso da mesma, já enferrujada demais para ser aberta ou fechada sem esforço. As letras vermelhas em neon acima da porta diziam, com as consoantes quase apagadas, que aquela era a saída do pub, a qual dava para um beco sujo e razoavelmente estreito, embora longo, com quase nada de iluminação.
Ele olhou para os dois lados, uma extremidade que ia até a rua principal e a outra que estava bloqueada por alguns andaimes há dias, mas que levava até uma rua deserta. Qualquer pessoa se sentiria incomodada ao ter que passar por aquele trajeto, no entanto, era a única saída do estabelecimento viável quando o local estava lotado ou alternativa para quem estava simplesmente buscando um atalho, logo, não havia outra escolha mais segura e menos fedida que aquela.
Para a profunda insatisfação de Danniel, não havia ninguém ali. Ele estava confuso, de certa forma, já que não era possível duas pessoas sumirem tão rápido de vista.
— Mas para onde eles...
O rapaz tirou o capuz, deixando que um vento moderado soprasse seu cabelo cor de neve, bagunçando os fios. Danniel trincou os dentes irritado, pensando que talvez aquele amontoado de pessoas alcoolizadas o tivesse feito perder tempo ou então seus reflexos estivessem o sabotando, considerando que não havia explicação imediata para aqueles dois não estarem naquele beco imundo. Danniel os tinha visto perfeitamente, não havia possibilidade de ter se enganado.
No momento, o rapaz queria desesperadamente algo ou alguém para culpar. Não importava quem e o que fosse, Danniel só queria descontar aquela raiva que crescia em seu peito.
Você está cometendo um erro, bobinho.
Aquela voz espectral sussurrou para ele, fazendo-o cerrar os punhos.
— O que você quer? – Ele rosnou.
Eu já lhe disse o que eu quero.
Danniel bufou.
— Você parece uma garotinha mimada. Mas eu não sou seu papai, – O rapaz zombou, cuspindo as palavras da maneira mais debochada que pôde. — não vou lhe dar nada. Nem fazer suas vontades.
Uma gargalhada melódica ecoou em seus ouvidos. Danniel podia jurar que se houvesse alguém naquele beco suburbano além dele e dos roedores que vasculhavam o lixo, também seria capaz de escutá-la – isto, claro, se ele não fosse o único vivo condenado a aturá-la.
Aquela voz aveludada, tão real e irreal ao mesmo tempo, que vinha do além, mas fazia qualquer pessoa amaldiçoada pensar que era sussurrada bem ao seu lado... Poucos sabiam quão dissimulada ela era capaz de ser.
Bobinho! Você é o meu hospedeiro, não vê que automaticamente já me dá algo que eu quero? Já satisfaz minha vontade?
Ela parecia brincar com as palavras, dando uma gargalhada contida, no entanto, cheia de cinismo encoberto. O rapaz podia imaginá-la salivando cada pedaço de seu corpo hospedeiro, cada parte não dominada de sua consciência que separava aquela mulher de sua liberdade, que a impedia de ser libertada daquela prisão perpetuada pelas gerações Blanchard e que só a deixava cada vez mais enfurecida.
Danniel sabia que cada parte não contaminada de sua alma era um empecilho para ela.
— Não tenho tempo para os seus joguinhos – Ele rebateu impaciente, fechando a porta atrás de si com um estrondo, decidido a seguir seu caminho como estava fazendo.
Vou clarear as coisas para você, jovem Blanchard. Essa raiva que você está sentindo... Diga-me, de onde acha que ela vem? Do seu lado obscuro? Hum, talvez...
Ela o seguiu enquanto Danniel ia embora. O rapaz parou subitamente. Estava cercado por algo que ele não conseguia ver, mas tinha certeza que estava ali, o rodeando. Podia sentir aquela presença tão forte que era quase palpável, ouvindo aquela voz com clareza como se ouvisse a de qualquer um. Um calafrio percorreu sua espinha, mas Danniel não esboçou reação àquilo. Apenas permaneceu parado, irritado, porém tentado demais a respondê-la ao invés de simplesmente ignorá-la.
— Eu só estou com a mente cheia, você sabe disso... – Ele continuava com os punhos fechados, reprimindo a vontade de usá-los contra algo. Sabia onde ela estava querendo chegar, sabia que era ela quem o fazia sentir tanta raiva.
Mas você também está sendo muito mal educado, muito ranzinza, não acha? Eu, particularmente, odeio gente mal educada e ranzinza! Aquela garota servindo bebidas... Lylian, não é? Pobre garota. Teve que aguentar você estalando os dedos na cara dela, exigindo o que queria...
A voz simulava compaixão, mas acusava-o com certa malícia, se divertindo às custas dele. O rapaz sabia que simular era uma das especialidades dela, sempre buscando um jeito de persuadi-lo. Ou irritá-lo.
Quero que saiba que eu o entendo, de verdade! Você não é assim, não é mesmo? Está vendo como o entendo, Blanchard? Está vendo como sou compreensiva?
Uma risadinha leve melodiou em seus ouvidos, Danniel pôde sentir o que seria o hálito gélido daquela mulher bater em seu pescoço caso ela estivesse fisicamente ali.
— Está vendo como consigo contrariar você? – Ele a provocou, entredentes, em seguida soltando mais claramente: — Está vendo como estou prestes a encontrar o lugar que me ajudará a controlar você?
O rapaz cobriu a cabeça novamente com o capuz de sua jaqueta e então deu passos firmes para sair dali. Sabia que não se livraria dela naquele momento e esse, por mais estranho que possa parecer até mesmo para Danniel, não era seu intuito.
Aquela mulher podia saber como manipulá-lo, mas o rapaz sabia bem como trapaceá-la.
Tsc, tsc, tsc.
Ela suspirou em negação, como se estivesse verdadeiramente desapontada.
Para onde você for eu irei com você, esqueceu? Faço parte de você, Blanchard. Está mais do que na hora de aceitar sua condição.
— É, acho que posso lidar com isso – Danniel encarava o chão úmido à medida que andava, os fios brancos pendendo para fora do capuz e um sorriso audaz moldado em seus lábios. As mãos foram depositadas nos bolsos da jaqueta, como gostava. — Mas não se acostume, Rainha. Seu reinado está acabando.
Humm...
Ela prolongou a palavra, como se a saboreasse. O som daquela voz importuna foi desaparecendo, até que restou para Danniel ouvir apenas os seus próprios passos e os pingos que caíam de um encanamento exposto, no comprimento da parede pichada ao seu lado. Ao longe também ouvia um carro ou outro na pista e a música tocada dentro do pub podia ser ouvida abafada.
O rapaz olhou para cima, a lua cheia olhando de volta para ele.
Teria continuado a andar se não fosse o barulho de uma lata de lixo sendo derrubada alguns metros atrás dele. Instintivamente, virou-se, procurando qualquer sinal de vida que estivesse o espreitando.
Nada. Apenas a lata com o lixo espalhado ao chão, quase na outra extremidade do beco. Não demorou muito mais do que alguns segundos para perceber o que estava acontecendo e olhar novamente para frente, vendo uma silhueta se descolar da parede. Estava escuro, mas Danniel sabia quem era.
Como se uma sombra descolasse do chão, aquela silhueta descolava-se da parede. A princípio, foi o que o rapaz viu. Mas percebeu que a figura, no entanto, estava saindo de dentro daquela estrutura, como se emergisse da água, mas com uma postura mais bruta, desconcertada. Podia-se ouvir o ruído da parede sendo remexida, tijolo por tijolo, até que lá estava ela, recompondo sua postura impecável.
Apesar de não poder ver com detalhes por conta da pouca claridade, Danniel sabia que ela usava seu longo e típico vestido de seda, uma belíssima vestimenta medieval com fios de ouro meticulosamente costurados nos pulsos das mangas, busto e laterais do vestido branco e azul claro. Os cabelos brancos, assim como os dele, repousavam brilhosos em seus ombros. Uma figura completamente fora de contexto quando colocada naquela época, especialmente em um beco qualquer do subúrbio.
— Sair da parede? Que original – Danniel fez uma careta mais pelo desconforto de vê-la do que pela falta de originalidade dela.
Ela caminhava com classe em direção a ele, como uma verdadeira rainha. O rapaz a via entre o escuro do beco e a pouca claridade que procedia do poste na rua principal e viu, ainda mais, quando a luz alaranjada clareou um pouco o rosto daquela mulher, com uma expressão de ódio contido e um olhar sádico para ele.
— Quem você pensa que é? – A voz era suave, mas absurdamente forçada.
Danniel sentiu a temperatura cair drasticamente, como se a cada movimento dela uma camada de gelo caísse sobre ele ou como se aquele beco isoladamente fosse parte de um globo de neve. Seu corpo doeu com o choque térmico.
Ele arfou, vendo o ar sair como vapor de sua boca. Não respondeu nada, apenas concentrou-se em esquentar a si mesmo enquanto a mulher ficava cara a cara com ele.
— Você acha que pode lutar contra mim, Blanchard? – Ela tocou com os dedos frios o ombro do rapaz, as unhas raspando em sua pele por cima da jaqueta preta; andava em volta dele como se brincasse com uma presa. — Acha que é esperto o bastante? Acha que é forte o bastante, Blanchard?
E então parou novamente de frente para Danniel. Os olhos furiosos encarando os dele. O rapaz não cedeu, encarava-a de volta com os dentes batendo de frio, mas firme o bastante para confrontá-la.
— Você está morrendo de medo, não está? – Ele falou com um pouco de dificuldade. — Está com medo de não poder mais me manipular.
— Isso nunca vai acontecer. – Ela forçou um sorriso, inclinando a cabeça para sussurrar no ouvido de Danniel: — Eu sempre estarei à espreita. Fazendo você perder o controle.
O rapaz sentiu seu corpo esquentar de raiva, a temperatura voltando ao normal. Deu outra arfada, os músculos relaxando, se recuperando do frio, mas a raiva ainda lá. Percebeu que a mulher não estava mais ao seu lado. Procurou-a com o olhar até que a avistou atrás dele, caminhando nobremente em direção a outra extremidade do beco, o vestido arrastando de leve no chão sujo.
Ela olhou para o rapaz por cima dos ombros, com sua postura alinhada. Danniel não podia negar a beleza daquela mulher jovial, embora conhecesse a obscuridade de sua alma o suficiente para não se deixar enganar.
Faça bom uso dessa raiva, você irá precisar, meu jovem Blanchard. Veremos se ainda desejará ir até aquele... lugarzinho medíocre.
A mulher desapareceu entre as sombras do beco e a visão de Danniel tremulou, revelando não mais a silhueta daquela mulher, mas duas silhuetas escondidas na penumbra como se a todo tempo estivessem camuflando-se em uma ilusão. O rapaz deu dois passos para trás, girando os calcanhares para retornar ao seu trajeto até a rua principal.
Ouviu passos atrás de si. Danniel sabia que não poderia simplesmente ter perdido aqueles dois de vista, contudo, não imaginou nem por um segundo que o tal do Trevor e sua namorada, a garota do cabelo violeta, estavam o observando, muito menos que eram tão esquisitos quanto ele.
∆ ∆ ∆
— Eu não me canso de olhar – A adolescente mirava o luar com o par de olhos azuis que muito lembravam um par de safiras.
Seu olhar estava na lua cheia, acinzentada em meio à imensidão do céu noturno, as nuvens volumosas ao redor dela como se também a contemplassem e apenas algumas estrelas timidamente cintilando ao longe; o coração de Arya, entretanto, estava em outro lugar, preocupado, aflito. Era assim a cada noite de lua cheia.
Um bramido de dor ecoou, mais uma vez, tão alto pelo bosque que era uma tortura para quem o ouvia.
— Isso está acabando comigo – Helena lamentou com seu sotaque espanhol, sentada em cima de uma rocha enorme e uma lanterna desligada em mãos. — Ele está agonizando há mais de uma hora.
Arya fechou os olhos com pesar. Os fios loiros, ondulados nas pontas, sendo tomados pelo vento frio que mais parecia o suspirar daquele bosque, como se aquele pedaço de terra também sofresse com a angústia; as copas das árvores agitavam-se ora mais amenas, ora impetuosas.
— Você está bem, Arya? – Helena perguntou preocupada, os cabelos negros e cacheados da jovem movendo-se ao vento. — Eu não deveria ter permitido que você viesse...
— Eu estou bem, Lena. Eu juro. – A loira respondeu o mais firme que pôde. No entanto, não conseguiu olhar nos olhos cor de mel da amiga, pois sabia que não estava falando inteiramente a verdade. — Mas...
— Mas é torturante demais, não é?
Arya foi pega de surpresa com o desabafo da amiga, enfim olhando naqueles olhos insondáveis. A expressão de Helena era séria e sua postura vigilante.
— Demais, Lena. Demais... – A voz da garota fraquejou, saindo como um mero sussurro.
Ouviram outro bramido de dor, entretanto, com mais intensidade. Parecia mais perto delas do que antes, o que deixou Helena um tanto atordoada.
— Mas o quê... – A jovem levantou-se rapidamente, pulando de cima da rocha e ligando a lanterna. — Arya, apague a fogueira! Depressa!
A mais nova correu para pegar uma jarra de alumínio cheia de água, que havia levado consigo para o caso de sentirem sede. Jogou todo o líquido na fogueira, apagando-a. Suas mãos estavam um pouco trêmulas, seu coração a mil por hora.
O olhar da garota seguia os movimentos de Helena, que apontava a luz da lanterna para a escuridão por entre as árvores que as rodeavam.
— Não é possível que ele tenha se soltado tão rápido, certo? – Ela perguntou controlando a respiração, cautelosa em seus passos e atenta a cada ponto o qual iluminava com a lanterna. — Vamos, garotos, onde vocês estão?
— Eles devem ter tudo sob controle – Arya tentava se tranquilizar ao mesmo tempo em que tentava não parecer uma covarde na frente de Helena. — Eles já deveriam ter voltado, não?
A loira não queria, de forma alguma, ser um peso morto ali. Havia se oferecido para ajudar e após certa relutância por parte dos amigos, concordaram que ela fosse com eles desde que Helena ficasse responsável por ela. Arya, contudo, sofria imensamente com tudo aquilo. Não mais do que os outros, porém, de maneira diferente. Arya só estava acostumada a ouvir os gritos agonizantes de dentro da pensão.
Seus amigos não. Era assim toda noite de lua cheia.
— Tem algo se aproximando – Helena estava apontando a lanterna para todos os lados, visivelmente afetada. — Venha, Arya, vamos embora daqui! – Ela correu para a loira antes mesmo dela se dar conta, puxando-a pela mão e adentrando ainda mais o bosque.
Correram. Correram o mais rápido que puderam, saindo da área aberta do bosque para adentrar uma mais fechada. Arya estava apavorada, mal conseguia pensar em algo coerente. Suas pernas doíam e seu fôlego estava se esvaindo do corpo. O bosque parecia agitado demais, como se relutasse contra os que estavam tirando seu sossego. Não era possível distinguir os sons que provinham daquele lugar. A não ser aquele.
A garota via, entre folhas e galhos batendo em seu rosto e a própria escuridão da noite, Helena iluminando pontos aleatórios à frente delas, sem olhar para trás uma vez sequer. Os cachos curtos eram soprados violentamente pelo vento, assim como as ondas loiras de Arya.
— Lena... – A voz da loira mal saía pela sua boca.
Helena mantinha o ritmo mais acelerado, fazendo com que Arya sofresse para acompanhá-la, tropeçando vez ou outra até mesmo em seus próprios pés. A mais nova não estava acostumada àquilo, o que a deixava profundamente incomodada. Por isso estava ali, não só para ajudá-los, mas também para aprender a como ajudar.
— Lena... – Arya tentava fazê-la parar, mas a amiga segurava forte sua mão. — Lena!
Helena olhou para trás rapidamente, com os lábios fartos entreabertos, a respiração descompassada; mas logo voltando a olhar para frente. — Continue correndo, Arya!
Os brados de agonia inundaram seus ouvidos novamente.
Urros violentos, tão humanos, mas ao mesmo tempo, animalescos. Arya fechou os olhos com força, mordendo os lábios com a mesma intensidade, tentando reprimir a vontade de chorar. A loira não sabia se aguentaria muito mais. Poderia correr mais alguns metros, de tropeço em tropeço, já sem fôlego, entretanto, não sabia se suportaria ouvi-lo agonizar.
Não soube muito bem quando caiu, mas Arya estava no chão, com as mãos cheias de terra e o corpo inerte a qualquer dor ou emoção. A loira estava desorientada, seus sentidos entorpecidos. Enquanto tentava se levantar, viu Helena se aproximar dela em câmera lenta com uma expressão aterrorizada, pegando sua mão e ajudando-a a ficar de pé. Quando estavam frente a frente, Arya recobrou seus sentidos, que vieram tumultuosamente, como se a loira levasse um soco e então sentisse várias coisas ao mesmo tempo. Olhou dentro dos olhos de Helena, cheios de caos, revoltos.
— Corra, Arya! Não pare de correr! – E então já estavam correndo novamente de mãos dadas. A loira sentiu a mão que segurava a de Helena tremer e seus sentidos falharem outra vez, mas não por completo.
“Corra, corra, corra. Está bem atrás de você. Corra, corra, corra, Helena.”
— Corra – Arya repetia sem fôlego, em um tom quase inaudível. — Corra, corra, corra, Helena. – A loira sussurrava para si mesma.
Não sentia seus pés, não sentia o cansaço, não sentia o vento em seu rosto e não ouvia os contínuos bramidos de dor. Arya só sentia uma profunda angústia, uma sensação de perseguição sem fim, uma grande impotência. Tudo o que via, via como se estivesse em transe. Até que se viu em outro lugar.
Um lugar com macas nos corredores. Um hospital? Arya descobriu que não. Estava em um hospício, ela sentia que estava. Corria por um corredor que não tinha final, mas continuava correndo desesperadamente, exausta. Olhou para trás. Uma enfermeira sem rosto, com exatamente nada na face a não ser camadas enrugadas de pele com aspecto podre, em decomposição, andava vagarosamente com duas seringas na mão.
A lâmpada no teto piscou algumas vezes até apagar.
“Corra, corra, corra, Helena. Ache uma saída, Helena.”
Arya estava com os olhos fechados, apertando-os com medo, a respiração oscilando, o suor descendo pelo seu rosto. Quando os forçou a se abrirem, a luz estava acesa e não havia mais ninguém.
“Só corra, Helena.”
Sentiu uma mão pesada puxar o seu braço por trás, fazendo-a virar brutalmente para quem a puxava. A enfermeira estava a centímetros da loira, a camada de pele apodrecida no lugar do rosto se enchia e depois murchava, como se estivesse respirando mesmo sem as narinas. Arya só conseguia gritar angustiada, vendo aquele ser enfiar duas agulhas de pontas grossas em seu pescoço, de um só lado.
Uma corrente elétrica percorreu seu corpo.
— Arya! Arya, está me ouvindo? Arya!
— Corra, Helena. – A loira sussurrava repetidamente. Os olhos estáticos, olhando para o nada, como se sua consciência não estivesse ali. — Corra, corra, corra.
[...]
Arya se contorcia nos braços fortes do jovem mais velho, que tentava trazê-la de volta com as mãos enviando uma corrente elétrica pelo corpo da garota, leve o suficiente para não matá-la. O bosque estava silencioso, apenas o som de um vento fraco batendo nas árvores, roçando em seus ouvidos, nem um pouco parecido com a ventania de minutos atrás.
Alec sabia que aquele silêncio todo era ruim, muito ruim. Encarou, com os profundos olhos azuis, o amigo que permanecia em posto de alerta, preocupado com o estado de Helena e com o próprio perigo que se aproximava.
— Como ela está, Kalev? – Alec queria se certificar, mais aflito do que demonstrava estar.
O jovem pálido segurava a mão de Helena, que murmurava coisas sem sentido e tentava se soltar, ainda que sem força. Parecia alguém em um estado de sonambulismo, entretanto, claramente sofrendo com alucinações sem estar necessariamente dormindo. Kalev mostrava-se controlado, mas assim como Alec, não estava muito tranquilo com aquela situação.
— Ainda fora de si. – Ele respondeu sério. Os fios longos e lisos, que iam até o meio das costas, cobriam um pouco seu rosto. — Mas está melhor do que a Arya.
Kalev mirou o chão, desconfortável.
— Cara... A culpa não é s–
— É sim, Alec. De quem mais poderia ser? – Kalev o interrompeu, a luz da lua clareando suavemente sua expressão equilibrada.
Alec notou o sofrimento por trás daquelas palavras, mesmo que o amigo se mostrasse inabalável. O moreno segurou mais firme os braços de Arya, que gritava agitando-se como se lutasse para fugir de alguém. Alec quis falar com Kalev sobre o que havia acontecido, mas teve que se concentrar em ajudar Arya a recobrar sua consciência.
Um bramido ressoou feroz pelo bosque, desta vez, sem vestígios de humanidade.
— Está acontecendo. Wolfgang está se transformando. – Kalev deu uma boa olhada na lua cheia, segurando bem a mão de Helena. — Só não entendo o porquê de estar demorando tanto.
— Ainda temos um tempo até ele conseguir se soltar – Alec assegurou. — Você está bem? – Perguntou em seguida para Arya, que aos poucos recobrava seus sentidos.
A garota parecia voltar de um transe profundo. Os olhos azuis, tão vívidos, estavam confusos. Distantes.
— O que aconteceu? – Perguntou olhando para aqueles três, em algum lugar do bosque.
— Eu disse que ela não deveria ter vindo – Helena falou, irritada, em um ímpeto de consciência. Sua voz estava fraca, contudo, visivelmente transtornada. — Me solta, Kalev!
— Não.
— Eu estou bem! – Ela tentava se desvencilhar do amigo, que era consideravelmente mais alto.
— Não, não está, Helena. – Kalev retrucou, um pouco aborrecido. — Me diga, você está tomando seus remédios? — Ele falou baixo o suficiente para que só ela o ouvisse.
A jovem não respondeu, olhando para ele com aqueles olhos âmbares repletos de incógnitas. Sua pele estava molhada de suor e extremamente pálida, sem o mínimo aspecto saudável. Seus lábios tremiam um pouco. Helena não precisou responder.
— Vamos andando – Alec falou. — Tia Alma está nos esperando e não é seguro ficar aqui.
O moreno caminhou até o amigo, Kalev, em pé ao lado de Helena com suas vestes escuras; uma camiseta preta, com mangas compridas e um pouco folgadas, jeans preto e coturnos discretos da mesma cor. Kalev também estava usando suas luvas, como de costume, o que chamou a atenção de Alec pelo mesmo motivo que estava indo falar com ele.
— Kalev.
— Não precisamos falar sobre isso, Alec.
— Não fique se culpando, garoto – Helena resmungou, reprimindo algo dentro de si, contendo-se em ficar consciente. — Você pode ter feito isso também, mas tenho certeza que acionei minhas memórias no subconsciente dela.
Arya permaneceu quieta com uma expressão apática. Os lábios rosados naquele momento estavam sem cor, assim como todo o seu rosto. Apenas ouvindo seus amigos falarem, sem participar ou de fato prestar atenção na conversa.
— A Arya estava agitada, muito mais do que a Helena. Quando fui tentar ajudá-la... — Kalev pareceu desconfortável em falar. — Ela deve ter, não sei, segurado o meu pulso... Não faço ideia. E então você chegou, Alec. Eu não sei bem o que aconteceu.
O moreno, então, compreendeu. A junção de poderes daquele porte era extremamente perigosa. As mangas folgadas da camisa de Kalev facilitaram o contato de Arya com a pele do rapaz, provocando as alucinações. Alec sabia do autocontrole do amigo, mas as circunstâncias tiveram um impacto maior naquele incidente, a culpa não era dele, nem de ninguém. Aparentemente, Arya também já estava sob influência dos poderes de Helena.
O que não entendia era como Helena havia sido afetada pelas alucinações.
Mas não se preocupou. Algo o dizia que Kalev sabia e, assim que chegassem à pensão, faria questão de saber o que estava acontecendo.
Um uivo agudo e estridente ecoou como um lembrete da fera.
Era hora de apressarem os passos.
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