Criaturas – Interativa
7 Capítulo Cinco (NOVO!)
Notas iniciais
Capítulo Cinco — Eu sei o que você fez durante a lua cheia.
Parte II
Muito antes daquele momento infortúnio no bosque, a atmosfera estava harmoniosa, os ventos sopravam com delicadeza e as árvores respiravam em seu próprio ritmo, com mansidão. O sol estava para se pôr naquele sábado e quando chegou a hora de acontecer, todo o cenário pareceu se encaixar àquele evento da natureza como se interagisse com o entardecer, despedindo-se da luz solar e preparando-se para o cair silencioso da noite.
Para o garoto que passou a amar os dias ao invés das noites, o pôr do sol se tornava especialmente mais deprimente. E havia inúmeros motivos para que seu coração fosse tomado pela angústia, contudo, ao menos naqueles breves minutos, quis aproveitar a companhia de Tia Alma, que acalentava o corpo albino do garoto com o carinho de uma verdadeira mãe, sentados no degrau da varanda daquele antigo casebre após o garoto saborear seu jantar.
— Você é tão amado, Wolfie... Lembre-se disso amanhã de manhã – A mulher acariciava os cabelos volumosos do jovem rapaz, a voz tão aconchegante que ele desejou ouvi-la por toda a eternidade.
— Amanhã de manhã eu já posso ter feito coisas horríveis, Tia Alma... – Ele murmurou com os olhos fechados, respirando um pouco da paz que repousava sobre os dois.
Tia Alma o observou descansar em seus braços, sentindo o coração apertar enquanto seu olhar se perdia nas marcas daquele corpo sofrido. Cicatrizes profundas, manchas roxas, pele marcada para toda vida e uma aparência desgastada... Uma figura que implorava por socorro, mas que as pessoas faziam questão de não ouvir. Para Tia Alma, não havia possibilidade de não amá-lo e, ainda que o mundo o rejeitasse, os olhos afetuosos daquela mulher o viam como alguém para chamar de filho, alguém que nasceu para ser amado.
— Amanhã de manhã não haverá ninguém para culpá-lo, meu bem – Tia Alma murmurou de volta para ele, com amor.
Wolfgang adormeceu com aquelas palavras e o consolo da natureza em seus ouvidos, imerso em um cochilo sem sonho, apenas o descanso de um espírito cansado nos braços de Tia Alma. Não viu quando a mulher o levou para dentro do casebre, deitando-o em uma cama simples no canto do quarto e dando uma última olhada nele.
Não viu também quando uma lágrima quis molhar o rosto de Tia Alma antes que o deixasse sozinho, descansando serenamente enquanto ele ainda podia.
Quando os olhos do garoto se abriram, não estava mais naquele quarto pequeno, nem dentro do casebre rústico do outro lado do bosque. Sua visão foi se acostumando com o ambiente à sua volta e ele se viu preso ao tronco de uma árvore milenar, forte o suficiente para suportar a fúria que cairia sobre o seu corpo quando a lua cheia se firmasse no céu, que já assumia seu tom crepuscular.
Um par de olhos azuis conhecidos, profundos como o oceano, o encarava com benevolência.
— Estou com você, meu irmão – O jovem moreno pousou a mão firmemente no ombro do albino.
Wolfgang lembrou-se, então, das palavras gentis de Tia Alma e sentiu seu coração se confortar.
“Lembre-se amanhã de manhã, Wolfgang. Lembre-se amanhã de manhã...”
Repetiria consigo mesmo até que o último resquício de sua consciência humana cessasse.
— Eu vou lembrar amanhã de manhã, irmão – Ele respondeu olhando nos olhos de Alec, sorrindo de leve com a ideia.
[...]
Alec reuniu toda a sua força para aquelas próximas horas que se seguiriam até o anoitecer. Há um tempo mal conseguia se conformar com o rumo que a sua vida havia tomado, mas se teve algo além da pensão que o fez rever seus conceitos e saber que ainda há esperança para ele, esse algo foi sua relação com Wolfgang.
Vê-lo naquele estado era simplesmente devastador e, como se absorvesse a tristeza do amigo para si, Kalev encontrava-se no mesmo desalento.
Em pé ao lado do garoto preso ao tronco, à sua direita, estava Alec. O olhar soturno mirava vagamente um ponto distante, muito além daquela pequena e circular área aberta do bosque. Kalev permanecia ao lado do moreno, olhando-o pelo canto do olho de vez em quando. Via o amigo um pouco de cima, já que era mais alto.
— Para onde está olhando? – Perguntou, quebrando o silêncio.
— Eu não sei. Acho que estou perdido.
Alec não olhava para ele. O mais alto virou o rosto para encará-lo, analisando aquela postura séria e o contorno bem desenhado do rosto do moreno quando visto de perfil; Kalev sabia que ele estava sofrendo e compreendia o modo como Alec evitava falar sobre alguns assuntos. Compreendia porque, quase sempre, se via agindo exatamente como ele; levantando muralhas, evitando falar o que é difícil de ser falado... Mantendo-se estável quando, na verdade, estava quebrado por dentro.
— Daremos um jeito, Alec – Kalev continuou encarando-o. — Não iremos abandoná-lo. Nunca.
O moreno o encarou de volta após um longo minuto, com aquele azul índigo penetrante em seus olhos e uma expressão mais suavizada.
— Verdade. Ele não se livrará tão facilmente de nós. – Alec direcionou o olhar para o garoto completamente apagado preso ao tronco, esboçando um breve sorriso no canto dos lábios.
Uma brisa moderada passou por eles, esvoaçando os fios longos de Kalev de modo que fossem jogados para frente, movimentando-se no ar. Alec apenas fechou os olhos, desfrutando da vida que aquele lugar emanava. O crepúsculo dava novos tons mais escuros de azul e laranja ao céu, com algumas estrelas quase imperceptíveis salpicadas na imensidão.
— Me pergunto como pode uma mulher tão bondosa como Tia Alma, você sabe, lidar com tudo isso – Kalev comentou, pensando a respeito.
Lembrou-se da cena de uma hora atrás, quando aquela enorme mulher negra cuidou do garoto Wolfie. Sempre amorosa com seus pupilos, não permitiu que ele perdesse o jantar ou que deixasse de participar, de alguma forma, daquele momento sagrado na pensão, quando se reuniam sob o carvalho aos sábados para comer.
Tia Alma trouxe comida, companhia e consolo não só para Wolfgang, mas também para os seus pupilos que estavam ali para ajudá-lo. Não era surpresa alguma para quem conhecia o caráter daquela mulher, contudo, Kalev sempre sentia como se cada gesto o fizesse desejar conhecer mais sobre ela.
— Tia Alma é forte. Na vida não se encontra muitas pessoas como ela. – Alec sentia-se um cara de sorte, apesar de tudo. — Ela decidiu que, se não havia tantas pessoas assim no mundo, ela não perderia tempo reclamando. Apenas seria a pessoa que ela tanto buscava nos outros.
— Ser uma pessoa boa é uma escolha então? – Kalev perguntou, desta vez, com o olhar vago.
— Ser uma pessoa má é bem mais fácil, não acha? – Alec voltou a mirar seu ponto distante. — Nós nem precisamos escolher sermos maus. Mas ser bom, ser uma boa pessoa, Kalev... É uma luta constante consigo mesmo. Uma escolha diária, eu creio.
— Acha que algum dia seremos bons? Sabe, como Tia Alma. – O mais alto olhou de relance para o amigo, um tanto desconfortável com sua própria pergunta.
— Eu gostaria que sim. Mas sem os vestidos, talvez com as perucas – Alec sorriu com o pensamento espontâneo, referindo-se ao estilo único Tia Alma.
Kalev deixou escapar um riso, relaxando um pouco. Conseguiu visualizar em sua mente a figura peculiar que era Tia Alma, inegavelmente bonita, entretanto, bonita à sua maneira, fiel à sua própria identidade e, para Kalev, não havia beleza mais incrível do que essa.
Às vezes ela usava seu cabelo afro solto, encaracolado até abaixo dos ombros com um volume poderoso, outras vezes, fazia os mais variados penteados com os mais variados acessórios. Mas o que, de fato, chamava muita atenção além dos vestidos, era a variedade de perucas que ela corriqueiramente gostava de usar. Simplesmente a cara de Tia Alma, Kalev costumava pensar que só combinariam tão bem na cabeça daquela mulher.
O jovem pálido prolongou um pouco mais o riso, lembrando-se que naquele dia ela estava com longos dreadlocks.
— Contanto que sejamos como ela... – Ele concluiu um pouco mais descontraído, verdadeiramente desejando ser como Tia Alma algum dia.
Ficaram alguns minutos em silêncio, imersos em suas próprias reflexões, sentindo-se mais leves do que realmente estariam diante de tal situação. Quando os espasmos de Wolfgang os tiraram de seus devaneios, foi como se um balde grande de gelo fosse derramado sobre suas cabeças novamente.
Alec se colocou em frente ao garoto, com a testa franzida de preocupação. Evitava pensar em como o corpo albino era repleto de cicatrizes ou como Wolfgang parecia fragilizado, torturado por sua própria condição. Os cabelos cheios, em um tom claríssimo do loiro, estavam um pouco molhados de suor, mais especificamente os fios próximos à testa. Wolfgang era um retrato das figuras exóticas que se escondiam pelo mundo; difíceis de achar, mas que quando dão as caras, todos agem com preconceito.
O garoto estava despertando, fazendo com que Alec se sentisse revirado por dentro. Os olhos avermelhados de Wolfgang o encararam, após se acostumarem com o ambiente.
— Estou com você, meu irmão – Alec pôs firmemente a mão no ombro do albino.
Por um instante Wolfgang sorriu um sorriso discreto, mas que não deixava de ser algo grandioso para um garoto de quinze anos que, a qualquer momento, seria rasgado por uma fera desesperada para se libertar.
— Eu vou lembrar amanhã de manhã, irmão – Ele respondeu e Alec apenas concordou com a cabeça, torcendo por isso.
[...]
— Por favor! Façam. Isso. Parar! – O garoto contorcia o corpo magro, sentindo seus ossos quebrarem um por um, vagarosamente.
Wolfgang suava frio, os olhos praticamente saltavam a cada ímpeto de dor e sua garganta já não suportava mais gritar. O jovem rapaz mal sentia sua voz sair pela boca, mal sentia qualquer coisa que não fosse dor.
Alec e Kalev mantinham-se ao lado dele, onde pretendiam ficar até que a lua cheia atingisse seu ápice. Ambos sentiam a adrenalina em suas veias, a agonia de presenciar o amigo naquela tortura e, no caso de Kalev, a aflição de perder o controle de seus poderes bem ali, principalmente após Wolfgang implorar:
— Agora. Kalev. Por favor! – Deu mais um bramido de dor, as veias saltando de sua pele e o corpo se contorcendo como se algo dentro dele o torcesse por inteiro.
Kalev e Alec trocaram olhares tempestuosos, como se conflitassem a respeito do que fazer, lutando em silêncio em busca de uma resposta imediata que simplesmente não vinha. Kalev sabia o que seus poderes provocariam no garoto, sabia que poderia levá-lo à loucura com apenas um toque e naquelas condições, não havia garantia de que Wolfgang conseguisse suportar. Mas o bom senso do rapaz apitava, se recusando a deixar aquele garoto sofrer tão cruelmente bem debaixo de seu nariz, faria algo para ao menos poupá-lo daquela dor.
Não buscou permissão no olhar de Alec, que se encontrava à direita do albino e encarava Kalev como se pudesse prever que ele faria algo. O mais alto apenas concentrou-se em controlar o alcance de seu toque, ignorando quaisquer coisas que o fizessem oscilar, posicionando-se de frente para Wolfgang.
Aproximou-se do rosto do garoto extremamente pálido e segurou-o com uma das mãos, encostando a testa na dele com uma tristeza profunda.
— Me desculpe, Wolfie. – Kalev sussurrou, ouvindo o coração do garoto bater freneticamente e a respiração ficar pesada. — Isso vai ser ruim, mas a dor vai passar.
Wolfgang urrou sentindo mais alguns ossos se partirem, levando Kalev a se afastar. Alec apenas observava sem esboçar uma expressão decifrável quando Kalev tirou uma das luvas e tocou com firmeza o rosto do albino. Wolfgang se debateu no tronco daquela árvore milenar, Alec e Kalev podiam ouvir os estalos do corpo do garoto. Ele ficou inerte, a princípio. Com o olhar estático e os músculos travados, apenas alguns dedos se mexiam roboticamente.
Kalev afastou-se rápido, sentindo sua mão pesada demais antes de conseguir afastá-la do rosto de Wolfgang, como um imã que não desgruda facilmente do que a atrai. Ele sabia que se não fosse seu autocontrole gradativo, estaria naquele exato momento matando o garoto por dentro. Colocou sua luva e, só então, cravou os olhos escuros em Alec sem saber exatamente o que dizer.
— Você está bem? – O moreno perguntou como alguém que acabou de sair do olho de um furacão.
— É, eu acho que com o tempo vai ficando mais fácil – Kalev respondeu, ajeitando os fios que eram soprados pelo vento em seu rosto. Não tinha certeza daquelas palavras, contudo, naquele momento não quis duvidar. — Não vai demorar até que ele comece a surtar.
Alec olhou para o céu. A lua se enchia de resplendor, quase em seu tamanho habitual enquanto a noite ocupava pouco a pouco seu lugar.
— Ainda temos cerca de uma hora até a lua transformá-lo de vez. – supôs, baseando-se nas últimas luas cheias.
— É melhor apertarmos as correntes agora e depois espalharmos as bolsas de sangue. – Kalev sugeriu. – Arya e Helena já devem ter espalhado os aromas pelo bosque. Irão nos encontrar ao leste, justamente a direção que falta para deixarmos os rastros de sangue.
— Encontraremos com elas próximo ao Terceiro Riacho?
Alec pegou a mochila preta que estava no chão cheia de bolsas de sangue, exatamente iguais às que se encontram em laboratórios de coleta.
— Não exatamente, explico no caminho. Essas correntes não vão segurá-lo por muito tempo, Alec. – Kalev estava sério, observando Wolfgang atônito acorrentado à árvore.
— Não podemos pará-lo. – O moreno respondeu, dando uma olhada rápida no albino. — Mas podemos entretê-lo. Ele não pode sair do bosque.
As árvores ao redor daquela pequena área aberta remexeram-se inquietas. Kalev sentiu uma lufada de ar frio atravessar aquele ponto do bosque, imaginando que fosse uma mensagem clara do quanto o cartão postal da cidade estava ciente sobre o que acontecia em suas terras.
— Melhor nos apressarmos. Esse lugar está implorando para que isso acabe logo também.
[...]
“Recomponha-se Helena, recomponha-se.” Ela tentava lutar contra o irreal dentro de sua cabeça, dando ouvidos a qualquer parte de seu cérebro que parecesse captar a realidade.
— Por que não molha um pouco o rosto? – Kalev perguntou para Helena, que ainda estava instável demais para caminhar sem a guarda do rapaz, ao chegarem ao Terceiro Riacho.
Andavam por um caminho de rochas achatadas em forma um pouco irregular, no entanto, não era perigoso pisar em cada uma delas – por mais que fossem razoavelmente distantes umas das outras –, a menos que alguém pisasse em falso. Atravessaram o largo riacho, cuja água descia por uma cascata mediana, emitindo o som relaxante da água caindo e exalando um frescor peculiar.
— Não temos tempo para isso, Kal – A garota continuava irritada. Kalev não sabia exatamente o porquê, mas sabia que Helena não se resumia à sua inconstância como muitos poderiam pensar.
— Então trate de fazer isso quando chegarmos à pensão. – O rapaz retrucou, ignorando o mau humor da amiga. — Aliás, Alec vai querer saber o que houve com você. Não quero esconder dele, Lena. – Ele baixou o tom de voz, murmurando para que ninguém além dos dois o ouvisse.
Alec e Arya seguiam mais à frente, aparentemente em silêncio. O bosque em si estava assustadoramente silencioso, os grilos e as cigarras orquestravam sua trilha sonora da noite. Vez ou outra os amigos levavam um susto com algum animal pequeno se esgueirando pelos arbustos. Não estavam nem um pouco tranquilos, mas sabiam que tinham certa vantagem no momento. Se Wolfgang já estivesse livre das correntes que o prendiam, certamente estava entretido com os rastros de sangue do outro lado do bosque. O que não significava que poderiam diminuir o ritmo apressado de seus passos.
— É claro que você não quer esconder nada dele – Helena murmurou sarcástica. – Não preciso nem perguntar o porquê.
Como de costume Kalev não entendeu aonde a amiga queria chegar, então ficou calado, segurando a mão trêmula de Helena e caminhando ao seu lado até chegarem ao muro de pedras escuras que rodeava o gigantesco terreno da pensão. Havia uma porta estreita. Alec tateou dentro de sua mochila preta, completamente vazia sem as bolsas de sangue, pegando um molho de chaves antigo e com umas quinze chaves de bronze envelhecido esculpidas em diferentes formatos.
Alec abriu a porta de madeira – verdadeiramente estreita – com uma chave longa e encabeçada pelo desenho de uma serpente. Antes que pudesse abrir espaço para seus amigos passarem por ela, o moreno olhou para trás, percebendo a inquietação de Arya, que respirava ofegante. Kalev olhou para o amigo em busca de uma resposta enquanto Helena tentava manter-se consciente.
— Arya, o que houve? – Alec alternou o olhar sério entre a loira e Kalev. — Escute, melhor entrarmos. Vai ficar tudo bem, você só precisa descansar um pouco.
— Ele está vindo, Alec. – A expressão da loira era de pavor. Seus olhos estavam aflitos, as pupilas dilatas; Arya estava vendo algo que só ela conseguia enxergar. Mas, desta vez, não estava sob influência do poder de alguém. — Ele está perto, está atrás de nós!
Ela virou-se para trás temerosa. O silêncio apontava que Arya estava apenas delirando, mas diante de uma criatura capaz de ter vislumbres do que já passou e do que ainda vai passar, duvidar de suas palavras não era a coisa mais inteligente a se fazer. Seus amigos sabiam disso. Instintivamente acompanharam Arya com o olhar, mas não viram, obviamente, o que ela viu.
As pernas da garota fraquejaram, fazendo-a cair de joelhos no chão com os olhos marejados, mas sem derramar uma lágrima sequer. A loira quis fechá-los, mas suas pálpebras não a obedeciam. Viu e ouviu tudo pausadamente.
Corações batendo fortes, sem ritmo.
A fera afundando as patas na terra, correndo em sua direção.
Kalev e Helena parados entre ela e o ser sanguinário, inocentes olhando para os olhos ferozes que brilhavam vermelhos para eles, mas sem de fato os enxergarem.
A respiração pesada e selvagem cada vez mais perto.
Arya quis gritar quando viu que já era tarde.
Em um salto impulsionado por uma sequóia atrás deles, Wolfgang, que já não era mais o mesmo, afiou as unhas predadoras primeiro no corpo de Kalev e, em segundos, abocanhou o pescoço de Helena. Alternando entre rasgar a pele de um e desmembrar o outro. E então tudo ficou muito, muito rápido. Como um ataque de um animal furioso costuma ser, porém, medonhamente mais brutal.
Sentiu o sangue respingar em seu rosto.
Seus amigos estavam estraçalhados bem na sua frente, não sabia distinguir o que o que havia restado dos corpos, não sabia ao menos se havia restado algum membro intacto. Só via sangue. E os olhos violentos daquela fera lhe diziam que ela era a próxima.
Uma corrente elétrica correu por toda extensão de seu corpo.
— Arya! Arya, ainda não aconteceu, ok? Nada disso que você está vendo aconteceu – Alec usou novamente seu poder para despertá-la, tentando acalmá-la enquanto Kalev e Helena passavam pela porta estreita. — Mas nós temos que sair daqui para garantir que não aconteça, certo?
A loira apenas meneou a cabeça em uma tentativa desesperada de livra-se daquelas imagens que bombardeavam sua mente. Fechou os olhos assim que conseguiu, sentindo-os arder. Alec a levantou com cuidado, o sentimento de culpa invadindo-o ao vê-la naquele estado.
Quando a levou cuidadosamente até a porta, não pôde deixar de olhar para trás.
A escuridão da noite tomando conta do bosque, a lua cheia firmada no céu e um lobisomem vagando onde houvesse sangue.
— Vejo você ao amanhecer, meu irmão.
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