A gélida brisa marítima concediam à sua pele uma sensação naturalmente arrepiante, um sinal de que seu corpo clamava por uma temperatura ideal para funcionar devidamente. Todavia, não deixava de ser confortante e agradável. Conseguia distinguir a silhueta do oceano da penumbra que preenchia o firmamento sobre eles, graças às incontáveis luzes que viajavam de distâncias longínquas e chegavam ali sob a forma de diminutas centelhas continuas, sendo muitas delas impossíveis de serem visualizadas além do horizonte demarcado por uma escuridão sucessiva. A Cyan, a paisagem escura trazia paz e nostalgia, talvez a razão pelo extenso período em que dedicou na simples apreciação. Posteriormente, um delicado toque no ombro atraiu sua atenção, mesmo que sua visão não fosse direcionada para a pessoa que o fizera, embora soubesse bem de quem se tratava.

–Talvez a noite no meio do mar possa ser algo monótono, contudo, pode nos trazer algum espetáculo natural.-Disse uma mulher de longas madeixas ruivas, um delicado rosto pálido, olhos com vivídas cores esmeraldas e um vestido branco simples.

De Cyan, veio um silêncio que muitos poderiam julgar que ele não ouviu o que fora dito ou simplesmente ignorou. A mulher, por sua vez, já conhecia aquele jovem bem o suficiente para saber que, apesar da audição seletiva, ele havia escutado.

–Eu me sinto bem...-Se manifestou, quase que em um sussurro, ainda sim, a ruiva tivera êxito em escutá-lo.

–Não duvido. A natureza pode nos conceder, afinal, uma sensação de conforto imenso. Ainda sim, isso não deixa de ser algo possivelmente monotóno.-Dizia, enquanto suas mãos se emaranhavam sob as mechas loiras do pequeno. -Agora precisamos ir para o quarto. Amanhã o café será servido bem cedo.

Sem pestanejar, Cyan seguiu a ruiva para o interior da embarcação onde navegavam. Um navio de grande proporção, voltado para transporte e entretenimento de indivíduos com alto poder aquisitivo. Donos de empresas de exploração de minérios, tecnologias dentre outras utilidades essenciais para a humanidade e seu conforto. O pequeno loiro cujas íris dos olhos foram a referência para o seu atual nome, mal fitava os presentes no saguão. Destes, partiam a indiferença quanto a ele, mas os olhares sempre se voltavam para Katherine, a orfã que herdara dos Castlers toda a fortuna que lhe era de direito, além dos negócios envolvendo a exportação de cevada. Katherine beirava os vinte cinco anos, uma bilhonária precoce, enquanto seu diminuto companheiro mal completara doze. Os passos de ambos eram ritmados, decididos a alcançarem o destino o quanto antes. Katherine nutria aversão para com os ali presentes. Culpava a ganância deles pela morte de seus pais, mesmo não sabendo ao certo quem foram os responsáveis. Todavia, havia uma discordância quase unânime quanto à crença da Castler. O mundo estava em equilíbrio, ninguém interferia nos assuntos de outros. A concorrência poderia existir, havendo uma série de regras que assegurando a estabilidade monetária do menos favorecido. A ideia era, por mais que houvesse a intenção de obter acúmulo monetário, servir ao povo e a Deus, fornecendo o que lhes eram necessários ou poderiam servir de lazer. Portanto, Katherine era vista como uma mulher instável, subestimada ainda mais pela pouca idade e diminuta experiência na administração dos negócios que herdara. Uma súbita e colossal responsabilidade cujo peso a afetou mentalmente, levando-a para um profundo poço de melancolia e solidão... Até o dia do retorno de suas forças, o dia em que Cyan surgiu em sua vida.