Eu me lembro do segundo em que botei os olhos nele. Não posso dizer que foi o segundo em que nos conhecemos, mas foi o segundo em que as estrelas dele colidiram com as minhas.

Lembro-me do céu pálido, o vento frio, o meu moletom cinza e barba rala dele. Lembro-me da sensação de ter o estômago embrulhado de repente, de segurar a mochila com mais força enquanto acompanhava os passos rápidos dele descendo a escada, e lembro que de repente eu não conseguia mais pensar.

Acontece quando fico nervosa.

O universo tinha me empurrado para o palco. Talvez, se ele tivesse me avisado, eu e as minhas estrelas tivéssemos um desempenho melhor. E aí eu não teria me ocupado em olhar para os meus tênis enquanto a pessoa que logo seria tudo na minha vida dava alguns passos na minha direção.

Escola nova, meio do ano letivo. A pior situação possível. Assim que cheguei, tentei achar um canto no vácuo daquela nova turma, um Lugar onde os telescópios nunca olhassem. Mas eu acabei me colocando na linha de tiro. As estrelas dele chamaram muito a minha atenção.

Tentei observar discretamente o modo como as estrelas dele se agrupavam. Cabelo liso, franja caindo no rosto, olhos castanhos quase pretos – que ficavam mais claros no sol. Barba no rosto e tatuagem no braço. Quieto. Imerso em um silêncio de atitude profundo e intenso.

Eu não sabia se era aluno ou professor. Não fazia ideia de quantos anos tinha. Parecia ser velho demais para ser aluno, e novo demais para ser professor.

De princípio, eu o observava, somente. Deixava que meus colegas falassem com ele, e escutava a voz ligeiramente rouca e grave. Eles tagarelavam enquanto eu observava o formato dos ombros e o ângulo do queixo. Observava, como sempre fizera na vida. Observava aquela constelação tão singular.

Na verdade, parecia envolto por uma nebulosa. Muito pouco se podia ver do seu interior. Muito pouco era tudo que eu conseguia entender dele, e eu gostava de entender coisas e tinha certa prática nisso. Tentei uma aproximação, minhas estrelas tentando parecer simpáticas, minhas mãos torcidas dentro do bolso do moletom.

Logo cheguei à conclusão – observando -, de que eu não era a única que tinha se sentido tocada por aquela constelação. Outras meninas, assim como eu, lutavam para mostrar suas estrelas. Elas o orbitavam, as vozes agudas parecendo não penetrar na nebulosa dele. Uma delas, observando uma das suas estrelas, apontou para um dos braços do homem e perguntou:

— O que isso significa?

Ele pareceu emergir de dentro de si mesmo, acompanhou com o olhar o dedo indicador apontado para uma parte de si, e percebeu que a pergunta era sobre o símbolo no antebraço. Murmurou um “O que você acha?”, e voltou para onde tinha vindo.

Uma das minhas estrelas me lembrou que eu conhecia aquele símbolo de algum Lugar. E foi com muito esforço que eu saí do vácuo e levei todas as minhas estrelas para mais perto daquela constelação.

— É Red Hot Chili Peppers.

É, a banda. Ele tinha uma tatuagem da banda no braço. Um grande asterisco negro. E agora, comemorei, eu conhecia mais uma de suas estrelas.

Falei aquelas palavras com toda a coragem que consegui juntar. Queria muito ser notada. O que era estranho, minhas estrelas e eu nem gostávamos de ser notadas. E mesmo assim, eu procurei um Lugar mais perto daquela constelação. Era como se eu estivesse me afogando e, com alguns sons, conseguisse esticar os braços para fora da água e os balançar energeticamente na direção dele. Queria que ele me respondesse. Estendesse as mãos e me resgatasse.

— É sim.

E voltou para dentro de si.

Eu e as minhas estrelas observamos a escuridão se fechar sobre nós, enquanto íamos afundando lentamente.