Crônicas de uma galáxia
3 Nós, separadamente
Demorei um tempo para descobrir algumas outras estrelas daquela constelação.
Com o passar dos dias na escola, eu fui sendo ensinada. Não somente o conteúdo que me era obrigatório, mas sobre as outras constelações daquele Lugar. Conheci muitas constelações. Muitas mesmo. A maioria delas não tinha estrelas parecidas com as minhas, e eu me contentava em deixar passarem por mim, como tantas outras constelações já passaram.
A constelação que mais me interessava – eu descobri depois -, se chamava Marco. Tinha 19 anos e trabalhava como Agente de Organização Escolar na escola onde eu estudava.
Essa constelação era normalmente chamada de “Tio” ou “Inspetor”.
E isso era tudo.
Minhas estrelas murmuram que eu nem tinha como realmente saber algo sobre ele, afinal, fazia uma semana que eu havia me mudado, mas o ponto é que eu queria saber.
Acho que era o destino que me impulsionava. Só podia ser. Eu queria saber mais sobre ele, sobre suas estrelas. Queria saber o que o emocionava, o que o deixava feliz. Queria saber quais eram os assuntos que fariam aqueles olhos escuros brilharem e quais as coisas que o deixavam irritado. Queria fazer aquela voz ficar flutuando até mim infinitamente. Queria saber qual era a história daquela constelação.
E isso, diferente das verdadeiras constelações, eu não poderia pesquisar na internet ou ler em livros de astronomia.
Acho que foi depois de um pensamento parecido com esse que eu percebi que sim, exatamente como as reais constelações, eu também podia pesquisar sobre essa na internet.
Não me sinto orgulhosa em admitir que o procurei em todas as redes sociais que consegui lembrar que existiam, mas eu fiz isso. Fiz isso do meu ponto no vácuo. E descobri poucas coisas, além das que eu já sabia.
Aquela constelação tinha nascido dia 09 de dezembro de 1993. Não parecia ter namorada – vibrei por dentro – e, cheguei à conclusão, era estranho.
Não um estranho ruim. Aquela constelação era o primeiro exemplo de estranho bom que eu tinha visto na minha vida de observadora do universo. Suas estrelas eram bastante incomuns pra mim, não conhecia mais da metade delas.
Ele ouvia músicas que eu não conhecia, assistia coisas que eu não conhecia, tinha hobbies que eu não conhecia.
A primeira vista, admiti, não parecia que daríamos certo. Minhas estrelas ficaram tristes – nós tínhamos tanta esperança. Claro que a conspiração do universo deu seu jeito, mas eu não sabia disso ainda, e me senti abraçada pela própria tristeza.
Contentava-me em observar todas as outras constelaçõezinhas orbitando aquele aglomerado de estrelas e nebulosas que parecia cada dia mais longe de mim.
Percebi que ele ouvia muita música – tinha sempre fones de ouvido por perto -, e desejei que o gosto dele parecesse com o meu. Ou que, pelo menos, não fosse diferente a ponto de nos expelirmos, como polos opostos de um imã.
Admirei o modo como se vestia. Nem de longe parecia com aquelas pessoas jogadas que vemos na rua, vestidas de qualquer jeito. Era simples, mas bonito. Acho que o vi duas ou três vezes somente usando camiseta – normalmente usava camisa. O primeiro botão aberto. As mangas dobradas acima dos cotovelos.
Na verdade, o admirava inteiro.
Ele tinha uma beleza diferente das outras. Não parecia chamar a atenção de todos e com toda certeza não seguia o padrão de beleza imposto pela mídia, mas era fascinante.
Eu gostava do jeito que ele vestia a jaqueta que usava, balançando os ombros e seguindo todo o comprimento do zíper com as mãos, antes de fechá-lo.
E definitivamente adorava o jeito que ele ignorava todas as pessoas – principalmente, alunas do sexo feminino – que insistiam em tentar chamar sua atenção.
Algumas das minhas estrelas ficavam me dizendo que eu sentir o que sentia por uma pessoa que não conhecia não era direito, mas logo o universo dava um jeito de silenciá-las, e eu seguia minha observação intensa daquela constelação tão intrigante, fascinante e levemente hipnótica.
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