Crônicas de Um Cadáver
3 Relembrando
Ao me levantar pela manhã, Mona já havia ido trabalhar. Na casa achava-se apenas eu e um pequeno bilhete em cima da bancada da cozinha: \"Olhe na escrivaninha, talvez se interesse pelas notícias, Mona.\" Em cima da pequena mesa havia apenas um computador antigo e alguns papéis impressos, a maioria com matérias de uma ou duas semanas atrás com títulos do tipo \"Assalto a banco termina em morte\" e \"Massacre em Detroit\". Peguei uma das notícias para ler, e ali estava o que havia acontecido comigo.
Aparentemente após um assalto mal sucedido, os assaltantes mataram todas as pessoas que se encontravam no banco. E uma delas era eu. À medida que lia, me lembrava do que acontecia. Era uma quarta-feira, estava ensolarado e eu fui fazer um saque a fim de comprar um presente de aniversário para minha mãe. Eles pediram que nos abaixássemos, e espancaram uma moça. Eu, que nunca tolerei esse tipo de violência, reagi. E só me lembro de acordar na completa escuridão, conforme já foi dito. Me assustei ao ouvir alguém entrar. Mas era apenas Bob, trazendo algumas sacolas. Ajudei-o a trazer as comprar para dentro, visto que ele parecia ter um pouco de dificuldade em fazê-lo. Não porque não pudesse carregar tudo de uma vez, porque, ao contrário da irmã, ele era grande. E não apenas alto, mas forte e gordo. Seu rosto redondo tinha uma grande cicatriz que cruzava sua face e os cabelos louros contrastavam incrivelmente com os olhos negros. Ele apoiou as sacas na mesa e sentou-se: — Muito obrigado. — Ora, não foi nada — Respondi. — Sabe onde sua irmã foi? — Ela... Ahn.. Ela... Está no trabalho. — Ele parecia ter algum tipo de dificuldade na fala. — Não é muito longe... Hum... Bar... Perto daqui. — Certo, creio que ela voltará a noite. — Bob me encarava com tal intensidade que me sentia encomodado. — Há algum problema? — Perguntei. — Você vai comer meu cérebro? — Aquela pergunta parecia ter grande importância para ele. Sorri, e apenas respondi: — Pode ficar sossegado. Se eu for um zumbi que se alimenta de cérebros, não vou comer o seu. — A verdade é que não sentia fome nenhuma, mesmo estando a muito tempo de estômago vazio. — E então, o que faz aqui enquanto sua irmã está fora? Ele me apontou o video-game. Passamos o dia jogando. Os seus games favoritos eram aqueles de hóquei,e não só os jogos, mas também tudo o que fosse relacionado ao esporte. Sua liga favorita eram os Red Wings. Mona só foi chegar depois da meia-noite. Trazia uma enorme sacola de roupas. — Comprei algumas roupas para você. São de segunda mão mas não dá para continuar usando esses trapos velhos. — Fiquei impressionado com sua boa vontade. A primeira coisa que fiz foi me trocar. — Você leu as notícias que imprimi? — Li, e consegui recordar de muita coisa que aconteceu. — E contei-lhe sobre tudo o que me lembrava. — Bem, quando um espírito retorna, é porque tem assuntos inacabados na terra. Talvez, você tenha retornado para entregar o presente? Mas isso não faz sentido. E também, por que você voltou com o corpo? Eu nunca ouvi falar disso... — Sua voz indicava a frustração. — Quer saber? Temos de tentar o ritual! — Ri.. Ritual? O que quer dizer com isso? — Devo dizer que não gostei nadinha da idéia. — Um que eu nunca testei. É o Chamado da Morte. — E, ao ver minha expressão assustada, disse: — Ora Dimitri! Foi quem lhe fez isso! Ela tem de explicar-se. Sabe duma coisa? Realizaremos ele amanhã mesmo, pois tem de ser numa sexta-feira. Agora vá se trocar, suas roupas estão fedendo. Meio artodoado fui retirar o terno sujo, as roupas novas me serviram muito bem, escolhi algo casual: uma camiseta azul e uma calça jeans. Agora sentia o cheiro de comida. Era Bob quem preparava o jantar, e pelo aroma, ele cozinhava muito bem. Embora todos parecessem tranquilos, a idéia do tal ritual não me saía da cabeça. E tinha medo do que viria pela frente.
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