Crônicas de Um Cadáver

4 Venha, que a Morte te Chama


Passei boa parte da sexta me perguntado o que ia acontecer. Quando, por fim, chegou a noite, Mona me chamou e disse que íamos sair:

— E para onde vamos? — Indaguei.

— Para o velho campo abandonado, para lá do cemitério. É o lugar perfeito para o ritual. — Ela não conseguia esconder sua excitação. Eu, por outro lado, não conseguia esconder o nervosismo.

Entramos no pequeno carro. Mona ia no volante, ao seu lado estava Bob e eu me ajustei no banco de trás. Não compreendia muito bem porque o pobre coitado teria de ir conosco, já que pelas poucas conversas que tivemos descobri que não gostava nem um pouco do hobby da irmã. Percebendo o que se passava na minha cabeça, jutificou-se:

— Ele não pode ficar sozinho em casa. Da última vez, quase colocou fogo em tudo. E conseguiu essa cicatriz que você vê.

Não saberia dizer por quanto andamos de carro, talvez uns 15 ou 20 minutos. Finalmente chegamos a terreno baldio, cercado por grandes muros de cimento. Havia apenas um portão de entrada, velho e enferrujado. Ao entrarmos logo percebi que o lugar já havia sido usado muitas vezes para aquele fim. Não sei como foi que cheguei a essa conclusão. Talvez tenha sido o cheiro de incenso ou os pentagramas desenhados no chão.

Fomos até o centro do terreno onde Mona desenhou um círculo. Em seguida me pediu a algo que eu nunca pensei, ou quis, ouvir de sua boca:

— Agora quero que tire a roupa e fique no centro do círculo.

— Tirar a roupa? Tá pensando que eu sou o que? Gigolô sado-masoquista? — Estava completamente atônito.

— E você está pensando o que? Acha que eu tenho cara de quem come cadáver? — A resposta seria \"sim\" mas preferi ficar calado e fazer o que me pediu

Foi uma das situações mais desagradáveis de toda a minha vida, e morte. Depois disso seguiu-se longo ritual que, eu francamente não compreendi nada, nem o que aquela maluca descabelada dizia, nem o motivo de incenso no meu rosto. Quando finalmente ela acabou com o tal ritual, eu, que até então esperava um grande final dramático cheio de consequências paranormais, me surpreendi.

Não aconteceu nada. Absolutamente nada. Por toda a semana seguinte nada sucedeu. Entretanto eu não podia ficar esperando uma resposta do além para sempre, então tratei de dar um jeito naquela minha morte. Primeiro, trocamos os quartos: Agora Bob dormia junto com Mona e eu fiquei com o cômodo menor só para mim e o sofá que, agora me pertencia, visto que era impossível sentar nele com aquele cheiro agradável de defunto.

Eu também comecei a ajudar em tarefas domésticas: era responsável por limpar a casa alternando a vez com Mona. E, essa é a pior parte, era responsável por lavar a roupa. Tudo bem limpar uma ou duas camisas do Bob. Mas lavar a seco as calcinhas daquela vampira esquisita já era demais e foi motivo de inúmeras brigas entre nós. Aliás, conosco, tudo é motivo de brigas. Nós nunca nos damos bem.

Também comecei a acostumar com meu novo corpo. Descobri que, embora morto, meu corpo parou de se decompor, mas tinha que tomar cuidado com acidentes. Outro dia, por exemplo, me acidentei com o triturador da pia, e perdi um dedo. Eu também descobri um apetite por carne crua, mas não humana.

Passamos, então, toda aquela semana tranquilamente. Quando já havia perdido minhas esperanças, aconteceu.

Notas finais
Me perguntaram se o Dimitri e a Mona ficam juntos no final. Tudo o que posso responder é que essa relação deles ainda vai longe!!