Crônicas de Andhara e além
1 O vermelho da Arena
(83)
A proteção destruída mais uma vez agarrou meu pescoço, ameaçando me sufocar. Devia ter tirado o elmo antes, mas ele estava lá, eu sabia, olhando para mim. O calor, a umidade e o gosto de sangue tornavam tudo mais difícil e após o último golpe que recebi também tinha ficado surdo. Não havia nada em meu mundo além de um zumbido irritante que a tudo engolfava.
Todos deviam estar gritando na Arena Vermelha. Gritos de exaltação, de raiva ou apenas uivos de animais sentindo o cheiro de sangue, mas não conseguia mais ouvir. Sentia que algo estava preso a minha perna, de onde um quente rio descia para tingir ainda mais a areia sob as sandálias empoeiradas, mas não tinha coragem de olhar. Tudo o que via, tudo que queria ver era Khar-Adar e seu sorriso idiota. E lá estava ele, o gigantesco mulato estrangeiro, seu corpo de ébano brilhando em suor e óleos que o cobriam, refletindo a luz do Grande Mirdhil, o deus-sol dos guerreiros, como se estivesse abençoado por ele. Girava com uma mão a clava descomunal que um homem normal teria dificuldade de erguer com as duas. Os braços pareciam querer explodir em um vigor que nunca vi em nenhum homem ou criatura em vinte anos de serviço e cada mão era capaz de esmagar sem esforço uma cabeça, mesmo dentro de um elmo.
Mas o pior era aquele sorriso, largo, debochado e cruel. Ele sabia que eu estava morrendo e queria saborear o momento. Esperou anos por isso. Seis longos anos. Rondava-me como uma fera, aguardando a fraqueza de sua presa para atacar. Minha lança partida era agora uma bengala, onde me apoiava dolorosamente.
Dor. Esta era uma velha amiga. Estava sempre presente na vida de um guerreiro, mas poucos tinham por ela o respeito que merecia. Aprendi a cortejá-la com meu primeiro Ordenador. Se não havia dor, não havia me esforçado, não havia aprendido. Sem ela a vitória era vazia e a derrota humilhante. A dor era uma amante infiel e uma professora severa, sempre retornando e falando ao meu ouvido para lhe entregar aos outros. “Levante-se!” ela gritava, “Acerte-o. Partilhe-me.” Sussurrava para mim. Quando tudo terminava, podia ouvir o gemido dos outros quando ela os tocava, mas apenas eu recebia seu abraço, para me mostrar onde falhei, onde me acertaram, onde fui fraco. E então ela partia, deixando-me só, mas sabia que sempre retornaria. Esteve comigo desde as primeiras marchas, quando era pouco mais velho que Malqen, e assistiu de meus ombros caídos receber a primeira espada, vestida de fogo em meu peito matar o primeiro inimigo, torcida em meu joelho cavalgar para o centro da batalha e de meu braço partido ser condecorado por meu imperador.
A dor estava comigo agora e era boa. Envolvia-me por inteiro e tocava cada parte do meu corpo. Mantinha-me de pé e vivo, mas não estava sozinha. O ar queimava quando conseguia passar pelo estrangulamento que devia proteger meu pescoço. Mechas encharcadas de suor grudavam nos olhos, misturando-se às lágrimas que teimavam em cair, indiferentes a minha vontade. Só podia ansiar que o vermelho da túnica de Preator ocultasse o sangue que a transformava em uma rígida pele que me prendia em seu úmido enlace. Sentia dor, calor e fraqueza, mas não tinha medo.
Não, não tinha medo. Meu ódio não permitia. Queria arrancar aquele maldito elmo e gritar para Khar-Adar que não tinha medo dele, que não tinha medo de sua vingança. Mas sabia que Malqen estava ali e não permitirei que veja meu rosto destruído, meu olho cego pela viseira que o cortara, os dentes que dançavam dentro do elmo quando o balançava.
Quantos anos ele faria na próxima primavera? Oito? Nove talvez. Como posso não saber? Queria culpar a dor e a perda de sangue, mas a culpa era minha. Fui negligente, agora sei. Não, sempre soube. Toda vez que ele me procurou por um conselho, lhe dei uma espada; quando quis proteção, lhe dei uma armadura; quando reclamou da dor, lhe dei mais.
Sem aviso a corneta soou longa e estridente, vindo do Portão da Misericórdia, calando a arena. Virei a cabeça em sua direção, a raiva consumindo minhas entranhas. Um dos Mestres da Cura começou a correr em minha direção, erguendo alto o manto azul em sinal de trégua, mas a pedra que arremessei contra ele foi mais eloquente que as palavras que engasgaram em minha garganta, presas em ódio e sangue. “Tenho direito à misericórdia, não à covardia!”, queria gritar. Malqen não veria minha fraqueza.
Vi vultos ao redor da arena se erguerem. Não conseguia ouvir os gritos que sabia estarem lá, mas seu aviso não era necessário. Lutei minha vida inteira contra homens melhores que Khar-Adar para ser pego desprevenido por uma espécie tão baixa de guerreiro. Não, ele não era um guerreiro, nunca fora, era apenas um carniceiro. Tenho certeza que a pesada maça raspou em meu elmo quando me abaixei, mas nada senti. Nem quando girei o corpo e quebrei o que restava de meu escudo em seu rosto, uma, duas, três vezes, até que era meu braço que eu enterrava em uma boca quase sem dentes.
Com um desesperado golpe de braço ele me empurrou para longe, enquanto se erguia. Caí pesadamente, abraçado por meu amor, sentindo a pele do ombro ser arrancada pelas pedras desnudas da arena, mas não importava. Minha lança se fora, rasgando o braço de Khar-Adar da axila ao cotovelo, sua temida arma caída em uma poça de sangue que não era meu. Seu rosto era uma massa desfigurada, um dos dentes de que se orgulhava de ter afiado como presas jazia enterrado na correia presa ao meu braço e os lábios inchados explodindo em sangue com o beijo de minha amada. E o sorriso havia desaparecido! Somente seus olhos falavam por ele agora, cheios de ódio e medo. Quando vi este olhar pela última vez?
Foi a seis anos, quando cercamos seu grupo de salteadores nas Colinas de Donaris e ele começou a matar seus próprios homens quando não conseguiu fugir, implorando pelo perdão de meu Imperador. Mas o perdão em batalha era somente para os que lutaram com honra e valentia, que podiam escolher servir o império ou partir livres sem a mão da espada, para nunca mais desafiar o Imperador. Para os outros era o rápido e indolor perdão da lâmina, mas para criaturas sem honra como Khar-Adar não havia perdão. Eu o sentenciei à escravidão, um tormento pior que a morte para qualquer homem. Foi quando vi aquele olhar.
Ele saltou como um animal enlouquecido, me alcançando antes que estivesse de pé. Caímos abraçados como amantes, o doce cheiro de seus óleos misturado ao acre fedor que exalava invadindo o úmido inferno de meu elmo. Quase ri quando ele tentou morder meu pescoço, o escasso perigo que sua boca representava contra a proteção que me estrangulava, competindo para descobrir quem me mataria primeiro. Ele desistiu e agarrou minha cabeça banhada em sangue e saliva, batendo-a contra as pedras embaixo de nós. O idiota desesperado precisava apenas esperar, eu já estava morrendo. Seu peso descomunal iria me esmagar antes de conseguir quebrar o aço de Nyothar.
Era uma morte honrada, contra um adversário mais forte. Precisava apenas fechar os olhos e desistir. Não queria estar ali. Não precisava estar ali, podia ter recusado, meu título me dava este direito, mas o maldito me desafiou na frente do meu imperador. E na frente de Malqen! Como um verme como aquele podia ter se tornado uma Espada Livre? Três anos sem derrotas lhe renderam o nome e o direito à liberdade de um guerreiro, podendo desafiar qualquer homem do império.
Já não conseguia respirar, não sentia o calor do sol sob sua imensa sombra, a força que ainda restava em meus punhos apenas arranhava um rosto disforme. Era uma boa morte, digna, minha amante estava comigo, mas então eu vi! Através de uma névoa rubra eu vi novamente o odiado sorriso!
Agarrei a última lasca do escudo partido e a cravei com uma força que não acreditava possuir mais na garganta macia de Khar-Adar. Seus olhos se arregalaram e ele jogou o corpo para trás, colocando as imensas mãos em torno do pescoço. Esmurrei aquelas mãos, empurrando a lasca ainda mais para dentro dele. Ele se ergueu, engasgando em sangue, os olhos brancos a saltarem no escuro rosto. Rolei no solo, saindo de baixo das trêmulas pernas do gigante, receando que caísse novamente sobre mim, mas ele era ainda mais forte do que eu podia acreditar.
Não havia mais armas na arena. Agarrei uma das pedras soltas do piso e aguardei. O sangue banhava o enorme peito de Khar-Adar e saía em golfadas por sua boca. Agora estávamos ambos morrendo, ele sabia, e podíamos escolher como queríamos morrer. Um guerreiro derrotado arrancaria aquele pedaço de madeira, todo seu sangue jorraria de uma vez e a morte acabaria com seu sofrimento. Se não o fizesse, sua agonia seria lenta e dolorosa. Eu sabia o ele que escolheria. Sabia que estava derrotado, mas não era um guerreiro. Apesar de sua força descomunal, em sua essência, sempre fora fraco.
Khar-Adar correu em minha direção, os braços estendidos para mim, mas seu ataque era débil. Com uma passada saí de seu alcance e ele tropeçou ao passar por mim. Não procurava mais me matar, queria ser morto. Queria um fim para a dor. Queria a morte de um guerreiro. Tentava dizer algo, balbuciando palavras sem sentido. Era uma súplica, sua súplica final. O gigante caiu de joelhos, sempre olhando para mim. Seus enormes braços pendiam sem força, vencidos.
Me aproximei com a pesada pedra nas mãos, seus olhos suplicantes voltados para ela em cascatas de lágrimas. Sua vida estava novamente em minhas mãos, como há seis anos. Pouca coisa mudara. Eu ainda era um guerreiro, servindo meu imperador, e ele, um carniceiro covarde. As algemas haviam sido retiradas, mas estavam em sua alma. Queria cuspir em seu rosto, mas o elmo me impedia. Ergui alta a pedra e a arremessei ao chão, longe das esperanças de Khar-Adar. Não havia mais ódio em seu olhar, apenas medo.
Com o pé empurrei seu corpo contra o chão, onde começou a tremer em seus estertores de morte. Os gritos se afogavam em sangue, saliva e bílis, as pernas chutavam a fina areia vermelha sem controle, em espasmos ritmados com as batidas de um aterrorizado coração. Ele era grande e forte, levaria muito tempo ainda para morrer, envolvido no abraço de minha amada. Eu era grato por isto.
Ergui com dificuldade a cabeça, tentando olhar na direção de onde Malqen estaria, em frente à Torre do Vento, mas todas as torres de Andelnam pareciam iguais naquela névoa rubra. Apenas a sombra da Torre do Trono se sobressaía, muito acima das outras, em frente a qual estaria sentado meu Imperador. Podia divisar os vultos ao redor da arena com os braços no ar, mas não os reconhecia. Tentei imaginar sua aclamação, os aplausos, as cornetas de bronze soando sobre todos, confirmando minha vitória, mas não via Malqen.
Queria cair no chão, me entregar, mas não ainda. Não seria este o meu legado. Os servos se aproximaram, com suas liteiras, bandagens, ervas e poções, mas afastei com violência cada um que tentou me tocar. Acredito ter derrubado também um dos Senhores da Arena, em suas longas túnicas claras e perfumadas, que buscou erguer meu braço, mas nada mais importava. Não sei como, mas caminhei sozinho até o grande Portão da Vitória. Sozinho não, minha amada estava comigo a cada passo. E Malqen estaria olhando.
Quando a sombra do grande arco me envolveu, meus joelhos se dobrarem contra minha vontade, mas não senti o chão. Minha amante me pegou em seus braços e me beijou longamente uma última vez, abraçando-me até arrancar todo o ar que ainda tinha no peito. Meus olhos se fecharam, como sempre fazemos em um beijo de amor. Quando os abri estava sozinho e no escuro, ela havia me abandonado para sempre, deixando-me apenas com a lembrança de seu toque. Mas, pela primeira vez, ele fora frio e sem vida, assim como eu.
Fale com o autor