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“Não a sinta como uma estranha em seus dedos, ela é parte de você”.

A brisa balançou a folha sobre a cabeça dele uma vez mais, apenas o suficiente para escorrer a última gota pela sua superfície até a ponta, pendendo como um maduro fruto prateado. Iria logo cair em seu rosto, ele sabia, não precisava olhar para cima, e estaria gelada, como toda a floresta estava, mas não se moveu.

“Ela não é áspera, ela não é dura, ela é parte de você”.

Os animais escutavam apenas o silencioso frio, mas ele ouvia os sons da floresta. Ouvia a teimosia da relva em crescer quando tudo mais dormia. Ouvia o apodrecer de uma fruta no solo abaixo. Ouvia a promessa da primavera nos botões fechados. Ouvia o verde das folhas esperando dentro dos galhos pelo distante sol de verão. E ouvia sua presa.

“Sente como ela vibra com o bater do seu coração, ela é parte de você”.

Ouvia a respiração subir pela garganta dela antes de se transformar em névoa úmida. Ouvia o movimento de suas orelhas procurando, buscando, sempre desconfiada. Ouvia a tensão nos músculos das pernas, prontos para saltar e correr para longe do perigo. Ela sabia que ele estava ali por ela, mas não o via, não o ouvia, não o sentia.

“Não se atira uma parte de nós, não se solta displicentemente, apenas deixe-a voar”.

Cinco dias em seu encalço, por trilhas e vestígios falsos. Ela sabia que era seguida e tentou despistá-lo, mas não conseguiu. Seus grandes olhos pretos o buscavam ansiosamente. O coração acelerado denunciava seu esconderijo entre a folhagem mais alta. Diminutas gotas enfeitavam o suave pelo marrom, brilhando levemente na pouca luz.

“Não tenha pressa, não se precipite, deixe-a voar quando ela estiver pronta”.

Seu pai dissera que houve um tempo em que os animais se entregavam sem resistência, oferecendo-se para morrer por eles, os que não podem morrer. Tudo que havia existia para eles, era deles, fora dado a eles. As árvores se curvavam à sua menor vontade, os frutos não caíam antes que eles os quisessem, os ramos dobravam para protegê-los da chuva e do sol.

“Nós não ferimos, não causamos dor, podemos escolher”.

Mas ele não vivera estes tempo, nem mesmo seu pai, já próximo dos quatrocentos invernos. Apenas os Enliën caminharam entre Eles, mas partiram antes de Gaeleardas nascer, levando toda a luz com eles, buscando leva-los para casa, para antes da dor, do frio e do sofrimento. Apenas as crianças ficaram em Aryaelinäe.

“Não pense, não respire, sinta. Não veja e não ouça, apenas voe”.

A floresta se aquietou, a respiração cessou, o coração se acalmou e a gota caiu. Os dedos se abriram quase sem vontade, os únicos sons eram o sutil raspar deles na madeira que voava, o leve estalar da haste de arremesso libertando-se da tensão e o gelado gotejar em seu rosto, enquanto a dança fatal começava em suaves ondas.

Algo estava errado. Olhos negros se arregalaram, um coração assustado disparou e um corpo tensionado saltou. Onde deveria haver apenas silêncio e piedade, folhas mortas foram despertadas de seu repouso, subindo pelo ar. Um frustrado silvo de morte passou por baixo do macio pelo, indo juntar-se ao chão da floresta entre tantos outros gravetos e raízes. Um pássaro alçou voo, enquanto um curioso esquilo colocava a cabeça para fora da toca. A floresta despertara novamente.

Um longo suspiro branco escapou enquanto sentava desconsolado no alto galho que escolhera, vendo a ágil corsa correr vitoriosa aos saltos e desaparecer por entre as árvores.

Falhara.

Seu pai saltou de um galho acima, pousando com graça ao seu lado. Nenhuma folha reclamou de sua chegada. Ele já esperava pelo rosto fechado de Gaeleardas, dizendo-lhe mais do que queria ouvir, mas não era para ele que o pai olhava, era para algo além.

– Não foi você – foi tudo que disse – Efêmeros!

O som da palavra parecia tornar a floresta ainda mais fria. As árvores se eriçaram em medo, sussurrando ao vento, e os animais desapareceram. Os sons dos pesados passos chegaram junto com o cheiro de animais mortos, madeira cortada e do rígido metal sem vida transformado pela força em armas.

– Volte para os outros – as palavras de seu pai não deixavam espaço para contestação.

– Vou com você – Sabia que ele queria ir sozinho ao encontro deles – Já atravessei a trilha das estações, fiz minha passagem. Você mesmo disse que não foi minha culpa.

– Os Nascidos do Crepúsculo não são caça, Édhellar – seu pai não olhava para ele, atento aos sons ainda distantes, mas que se aproximavam – Um caçador não tem utilidade aqui.

– Posso lutar! – tocou a lâmina em forma de uma escura folha afiada presa à trança de videiras que trazia a tiracolo.

Gaeleardas se voltou para o filho, um olhar confuso no rosto. As sementes que pendiam do diadema de ramos finos que usava moveram-se quando balançou a cabeça em negativa.

– Não quero lutar com eles. Não são nossos inimigos. Por que você quer?

– Dizem que eles podem ser perigosos – Édhellar falou baixo, quase para não ser ouvido. Sabia que seu pai não aceitaria estas palavras, mas não tinha outro argumento.

– Maelguin! – havia uma ponta de desdém em sua voz – Maelguin diz que eles são perigosos, mas ele diz muitas coisas. Que são grosseiros, sujos, lentos e que se assustam com facilidade, quase como animais. E por que eu deveria temer um animal?

Édhellar não tinha uma resposta, não como gostaria. Seu pai lhe ensinara a caçar, a ser rápido e furtivo. E a não temer nenhum animal, mas como poderia? Não havia predadores naquela floresta, apenas caça amedrontada e fugidia.

Mas os Nascidos do Crepúsculo não eram da floresta. Vieram de longe, mais de mil invernos depois dos Enliën chegarem. Eram raros no começo, aparecendo apenas quando o frio chegava e vinham sempre em busca de madeira para as suas fogueiras. Eram poucos e contentavam-se com o que achavam pelo chão, quebrado e caído pelo tempo. Pequenos ardis de som e frutas bem lançadas eram quase sempre suficientes para afugentá-los, mas suas visitas se tornaram menos espaçadas e eles, mais numerosos e preparados.

Trouxeram dentes afiados de um metal brilhante, que cortavam fundo o cerne dos troncos e derrubavam árvores cheias de vida. Também atiravam as setas dos caçadores, mas as suas eram maiores, mais velozes e mortais. As hastes de arremesso que carregavam eram duplas, com uma longa corda a uni-las, e suas lâminas maiores que qualquer uma que os Querdin haviam moldado. Por vezes tinham o corpo coberto por placas de metal e montavam estranhos animais do tamanho de alces, mas mais rápidos e sem cornos.

Édhellar não queria se aproximar deles, mas seu pai demonstrava uma estranha curiosidade.

– Volte para os outros. Volte para Maelguin, eu não vou demorar– Gaeleardas não esperou por uma resposta e saltou para um galho mais robusto, girando o longo bastão, e começou a correr sobre ele, desaparecendo por entre a copa das árvores.

Por um momento a floresta voltou a ficar silenciosa, até mesmo o som dos passos cessou. Deviam ter encontrado o que buscavam. Falavam baixo em sua estranha língua, a respiração pesada e ofegante. Não havia alegria em suas vozes, rareando à medida que desembainhavam as ferramentas em um raspar de madeira e couro. A pele endurecida de animais mortos estalava em suas mãos quando as esfregavam e o som do tinir do metal ressoava levemente. Um arrepio reverberou pelas árvores, como uma onde se propagando na superfície de um lago. Ele podia sentir a tristeza delas no galho em que estava. Uma irmã iria sofrer e morrer. Isto também lhe causava amargura. Colocou as mãos em volta da árvore, como que para consolá-la, aguardando com a floresta a mordida do metal e o calado lamento de dor.

O silêncio foi quebrado por um grito estridente, que preencheu o ar e os ouvidos dele. Por um momento não entendeu o que acontecera, então seu coração disparou. Era um grito de dor, seguido de muitos outros carregados de raiva e de medo. Nenhuma das vozes era de seu pai, mas o grito também não havia sido. Saltou para o chão, rolando sobre ele e erguendo-se em um único movimento fluido, correndo na mesma direção que seu pai fora.

Os gritos continuavam, mas agora havia outros sons mais cruéis, o raspar de metal, um bastão sendo girado no ar, o impacto de um golpe, o quebrar de ossos. Ele puxou uma das setas presas à perna, colocando-o na haste sem se deter. Vultos surgiam entre as árvores à frente, dois, três, cinco talvez.

Seu pai estava de pé, de costas para ele, girando o longo bastão entre os inimigos, para mantê-los afastados. Eram três a sua volta, segurando compridas lâminas de metal. Um jazia caído próximo à raiz de uma árvore, outro estava de joelhos, com as mãos sobre o rosto, respirando ruidosamente entre o sangue que escorria farto pelos dedos.

O rosto de Gaeleardas estava impassível, concentrado, resoluto. Cada golpe frustrado contra ele arrancava lascas de seu bastão tanto quanto pragas e espasmos de dor de seus atacantes, mas seu filho estava apavorado. Nunca antes vira um combate assim, com tanto ódio e brutalidade. Nunca vira seu pai lutar.

– PAI! – a voz era incerta, forçando passagem pela garganta apertada, a haste trêmula nas mãos.

Gaeleardas pareceu despertar, os olhos se avivaram, girando inconscientemente o tronco em direção ao chamado.

Ele não viu o machado que foi lançado contra seu rosto, mas o ouviu cortando o ar próximo. Ergueu o bastão sem se virar, como por instinto, acertando o pescoço do adversário e desviando a lâmina que lhe arrancaria a cabeça, mas a pesada chapa atingiu com força sua fronte, quebrando o delicado diadema.

Édhellar viu aterrorizado o corpo de seu pai girar no ar e cair entre as folhas secas no chão. Sementes e ramos quebrados voaram em um jorro vermelho. Uma longa lâmina foi erguida sobre suas costas, pronta para atacar. Gaeleardas esticou a mão trêmula em direção ao filho, tentando gritar para que fugisse, mas não conseguia sequer vê-lo.

“Não tenha pressa, não se precipite, deixe-a voar quando ela estiver pronta”.

Édhellar ergueu a haste de arremesso e disparou. A seta voou inofensiva sobre a cabeça de seu alvo. A lâmina desceu, cravando-se funda no solo da floresta, que bebeu rapidamente a seiva de Gaeleardas. Seus olhos brilharam por um instante, vendo o rosto desesperado do filho, para então se fecharem.

“Não pense, não respire, sinta. Não veja e não ouça, apenas voe”.

A segunda seta atingiu o ombro do assassino com força, fazendo-o cair sentado sem sua arma, mas o segundo era mais veloz. Antes de conseguir posicionar outra seta, o inimigo já estava sobre ele. Com um golpe partiu a haste de arremesso, derrubando Édhellar e sua última seta. Ergueu a lâmina, um sorriso feroz curvando os lábios. Os olhos brilharam em cruel satisfação, para em seguida se arregalarem em um espasmo.

“Sente como ela vibra com o bater do seu coração, ela é parte de você”.

A escura folha de metal dos Querdin havia sido enterrada em sua barriga, subindo trêmula na cadência de um coração assustado, até atingir com força o externo do peito, prendendo-se ali. Os braços murcharam, a lâmina caiu e um odor nauseabundo subiu por suas roupas, mas nada disso foi percebido por Édhellar. Ele já estava ajoelhado ao lado do pai quando o corpo de seu inimigo caiu sem vida.

Gaeleardas parecia dormir um sono intranquilo, sujo e quebrado no chão, mas seu filho sabia que ele não mais despertaria. Sua alma imortal já havia abandonado o corpo e seguia até a Noite Sem Fim, aguardando o nascer do dia em que os Enliën terminariam sua longa busca.

Erguendo-se, puxou a lâmina do corpo do pai, que se mexeu levemente. Não sabia por que fizera aquilo. Talvez por ela parecer profanar o descanso final dele, talvez por querer sentir nas mãos o poder que conseguia matar um imortal. Não sabia o porquê, mas também não se questionava sobre isto. Sentia apenas o peso da arma, rude e grosseira, mas mortal, quando um gemido de dor chamou-lhe a atenção.

“Ela não é áspera, ela não é dura, ela é parte de você”.

O assassino ainda estava caído próximo ao corpo de seu pai. Havia arrancado a seta do ombro e tentava estancar o sangramento. Tinha dor e medo no olhar quando Édhellar parou sobre ele, fitando-o com olhos que não eram seus até aquele momento.

“Não a sinta como uma estranha em seus dedos, ela é parte de você”.

Édhellar olhou a clara seiva de Gaeleardas a escorrer lentamente pela lâmina, enquanto a sua pulsava voraz pelo corpo. Seus ouvidos retumbavam, as palavras do pai pareciam distantes, a se esvaírem. O homem chorava, arrastando-se de costas pelo chão.

“Nós não ferimos, não causamos dor, podemos escolher”.

Ele não o ouvia mais, Gaeleardas estava morto. A lâmina do inimigo parecia agora leve em suas mãos.

– Eu já escolhi...