Crônicas de Andhara e além
11 Antes do Caminho
Notas iniciais
Um conto sobre inocência, um conto sobre manhãs de sábado e noites de verão que não lembramos mais , mas que guardamos no coração.
Muito obrigado por sua segurança, minha amiga.
(90)
Ele corria pela relva baixa, a mão firmemente presa à dela, tentando acompanhar seus apressados passos. Ela olhava para trás e sorria, chamando-o em sua voz ofegante de menina. Ele tentava responder, mas as palavras tropeçavam em sua garganta mais que seus pés no macio solo, enquanto tentava evitar que a espada de madeira que levava na outra mão se prendesse nos arbustos que deixavam rapidamente para trás.
Eles eram amigos desde que podiam lembrar, crescendo juntos como irmãos. Ela estava em sua décima primeira primavera e era a filha mais nova do capitão da guarda. Ele, o filho do senhor daquelas terras, um ano mais novo. Por tantas vezes correram, brincaram e brigaram, sempre chegando em suas casas ao fim do dia, abençoados em sua inocência pela luz da primeira e mais brilhante estrela, tão cobertos de lama, rasgados e felizes, que por vezes não era possível distinguir facilmente quem seria a plebeia e quem seria o nobre, mas jamais houvera qualquer constrangimento entre as famílias. Anos antes do nascimento deles, seus pais aprenderam a nutrir um grande respeito e admiração um pelo outro, muito além do que suas posições os permitiriam, e acabaram por também se tornarem bons amigos.
Era sempre ela quem o arrastava em suas aventuras e descobertas, fazendo-o esquecer-se por completo de sua timidez e embaraço, descobrindo os segredos que as terras de seu pai guardavam. Não havia casa ou cômodo que não conhecessem ou árvore em que não tivessem subido. Cada campo cultivado tinha as marcas de seus pés e conheciam o sabor da água de cada um dos sete córregos que cortavam a região. Deram nomes engraçados a cada cavalo dos estábulos e duelaram com gravetos, imaginado-se como os cavaleiros que por ali passavam ocasionalmente.
Mas algo mudara ao longo do último ano. Ela já não o procurava tanto quanto antes, preferindo a companhia das crianças mais velhas da vila, ouvindo com elas as músicas dos bardos que se apresentavam durante as colheitas de outono e sonhando acordada com as belas histórias que eles traziam, sobre reinos e tempos distantes. Ele também se afastara dela, perdido entre os livros e os contos dos cavaleiros de outras eras que um velho amigo de seu pai sempre trazia quando os visitava. As batalhas que estes heróis viveram se tornaram o centro de um novo mundo para ele. Por sua insistência, começou a treinar junto aos soldados da guarda, mas lhe fora permitido portar apenas uma pesada espada embotada de madeira, que ele passou a carregar como parte de seu corpo.
Seis meses se passaram em que ele quase não a vira, sua mente divagando por terras que nunca conhecera e por tempos que não haviam ainda chegado, até que ela surgira de repente, puxando-o pela mão com uma urgência que ele nunca vira.
– Venha! Rápido, há algo que quero lhe mostrar!
Ele a seguiu desajeitadamente, a pesada espada desequilibrando-o enquanto corria. Queria parar, embainhar sua arma e recuperar o fôlego, mas a ideia de que algum segredo podia ainda estar escondido dele o impulsionava, o fazia continuar.
Correram alegremente por alguns minutos, novamente transformados nas crianças despreocupadas que vivenciaram o último verão, até que ele viu que era à gruta de orações de seu pai que se dirigiam. Seus passos se tornaram então mais curtos, apesar da insistência com que ela o puxava, até se deterem logo antes da entrada.
A pequena caverna era o lugar mais querido ao coração do senhor daquelas terras, para onde se retirava quando queria estar só com sua saudade, com as dores que ainda o assolavam depois de tantos anos. O menino já estivera ali com o irmão, levados pelo pai na primeira noite de cada primavera, quando as pequenas vicetins desabrochavam, para orarem por aquela que não estava mais a seu lado. Aprendera com eles a amar quem nunca conhecera e a descobrir no odor das claras flores as lembranças do que nunca vivera.
Um delicado jardim ladeava o caminho até a gruta, com suas flores ainda em botão, aguardando a primavera que não tardaria. Não deveria estar ali, ele pensou. Não queria estar ali. Aquele havia se tornado um lugar de tristeza e vazio também para ele, mas o sorriso no rosto dela o encorajava, aquietando seus temores.
– Venha, é aqui dentro.
Entraram devagar, ele tentando conter o ímpeto dela, ela parecendo achar graça do receio dele. O ar que os envolveu era fresco e úmido, arrepiando a pele de ambos e fazendo com que os passos ecoassem pelas paredes de pedra. O calor do sol havia ficado para trás e ele sentia a mão dela começar a tremer levemente, apesar do frio ainda não se fazer presente. Seria medo o que sentia? Haveria algum perigo escondido naquele lugar sagrado? Apertou com mais força a mão em volta do cabo de madeira, lembrando-se das palavras do capitão da guarda:
“Mantenha a espada erguida, sempre à frente do rosto. Ela também é sua defesa e seu escudo. Não avance sem pensar, aguarde por seu adversário”.
Pararam sob uma grande lanterna de óleo parcialmente fechada, que pouco fazia para iluminar a única câmara da gruta. Um desgastado tapete estendia-se até o fundo, onde a silhueta de uma mulher podia ser vista, os braços unindo-se em frente ao corpo e as palmas das mãos estendidas na direção deles, acolhendo-os. Três pequenos vasos com vicetins há muito ressecadas repousavam a seus pés, tendo três almofadas por companhia.
Aquela era a estátua que o pai do menino mandara fazer quando o menino ainda era um bebê, alimentado pelas amas-de-leite da vila. A imagem lembrou-lhe subitamente de onde estavam e de que não deveriam estar ali. Sentiu-se culpado e amedrontado. Ela largou sua mão, falando-lhe ao ouvido em uma voz trêmula.
– É aqui...
Ele podia ouvir o coração dela também pulsando forte naquele silêncio, corando seu rosto na penumbra. Estava sobressaltada, assim como ele. Ergueu a pequena espada, pronto para usá-la, tentando divisar algo nas tímidas sombras da pequena caverna, enquanto se adiantava para protegê-la.
– O que tem aqui? – sua voz era um sussurro cauteloso – O que quer me mostrar?
– Isso...
Ela colocou as mãos em volta do rosto dele, virando-o. Seu toque era macio e quente, as palmas úmidas de um suor frio. Antes que ele pudesse reagir, os lábios dela tocaram os dele, tão suaves que quase não percebeu. Ela tinha os olhos firmemente fechados, enquanto os dele se arregalaram involuntariamente. Os dois corações aceleraram ainda mais, batendo descompassados em seus ouvidos, ensurdecendo-os para o que mais pudessem ouvir. A respiração dela cessara por um instante e ele sentia apenas o doce perfume do campo que ela trazia. Medo, surpresa e inocência se misturavam e se complementavam, indefinidos e absolutos. Para ela o tempo parou de fazer sentido, o mundo e o chão de pedra desapareceram, enquanto ele tentava apenas entender o que acontecia.
Após o mais breve dos momentos ela afastou o rosto avermelhado como se em chamas do dele, os grandes olhos brilhando timidamente com a trêmula luz da lanterna acima. Ele mantinha o mesmo olhar surpreso e confuso, piscando seguidamente. Queria falar com ela, perguntar alguma coisa, mas tudo que conseguiu foi sussurrar seu nome.
– Geanay...
Ela baixou os olhos envergonhados, um incontido sorriso de felicidade infantil curvando os finos lábios apertados. Ela estava bonita, ele percebeu, como se a visse pela primeira vez. Finos fios de cabelos castanhos se prendiam em sua testa, umedecidos pelo suor que a cobria, enquanto uma longa trança descia por seu ombro esquerdo. O rosto salpicado de diminutos pontos dourados sobre a pela clara parecia enfeitado por pequenas joias. Ela estava usando o vestido rosado que o senhor lhe dera como presente no último verão. Era o melhor que ela tinha e nunca o usara antes. Em seus pés, as humildes sandálias estavam cobertas pela lama dos campos por onde correram, mas ela não parecia se importar. Ela era realmente bonita, finalmente descobriu.
– Geanay, o que...
As palavras ficaram presas em uma súbita voz em falsete que não parecia mais com a sua, lentas e fracas demais para ganharem liberdade. Ela correu para fora da gruta, falhando ao tentar conter o alegre riso de criança, sem olhar para trás.
Ele ficou parado sob a lanterna, ouvindo os ecos dos passos e do riso dela desaparecerem, deixando-o sozinho com outro vazio que até então não conhecia. Sentia-se ao mesmo tempo leve e confuso, o coração batendo sem controle. Estava assustado, mas sem conseguir encontrar o que deveria temer. Olhava para o chão, para as claras botas de couro manchado em verde e marrom, mas elas não possuíam a resposta que buscava.
Voltou-se longamente para a estátua na gruta, sentindo uma profunda tristeza. Desejou que ela pudesse lhe falar, que lhe dissesse o que fazer, que o ajudasse a compreender o que havia acontecido, mas o silêncio foi sua única resposta.
Caminhou devagar em direção à saída, piscando fortemente sob a luz do sol. Seu calor tocou sua pele, mas não afastou o desconforto que sentia. Ergueu as mãos em frente aos olhos, apenas para descobri-las vazias. Sua espada havia caído na gruta quando Geanay o beijou, mas ele nem se apercebera disto.
Quando se voltou para buscá-la, uma conhecida voz chamou alta por seu nome. Um sorriso começou a se desenhar em seu rosto antes mesmo de se virar. O velho amigo de seu pai havia retornado e com ele, seus contos e histórias, e as certezas e a coragem que ele havia perdido por um momento. Todos seus temores desapareceram por completo quando viu uma espada de metal alvo nas mãos dele, o cabo estendido em sua direção.
– Venha, meu jovem – a alegre voz de Laertes era inconfundível.
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