Notas iniciais
Algo novo, algo diferente, algo que me deixou muito receoso de publicar, mas o desafio é a própria alma das Crônicas e os sábios conselhos de Minerva o bálsamo para as feridas da insegurança.

Muito obrigado, minha amiga.

(93)

Ela apertou as pernas em torno da cintura dele, em um lânguido abraço, suas peles deslizando pelo suor que os cobria. Longos cabelos negros caíam sobre olhos fechados, acariciando sua face enquanto sentia o delicado perfume que emanava deles, em ondas de madeira e jasmim. Correu a ponta dos dedos delicadamente pelas costas largas, contornando cada dobra dos músculos que ondulavam como a maré de algum distante e inquieto oceano. Ele era forte e rígido, mas não havia perdido sua agilidade, apresentando-se mais esguio e habilidoso do que ela poderia esperar. A vida de regalias que deveria levar entre os nobres fidalgos de Thimeran não o havia amolecido, o que era uma grata surpresa para ela.

As grandes velas de cera que ardiam sob escurecidos pratos dourados, onde óleos de muitas cores emanavam suaves fragrâncias que deixavam o ar adocicado, faziam as sombras dos amantes dançarem em volta deles, no mesmo ritmo de seus corpos. As roupas espalhadas em um selvagem abraço demarcavam o trajeto da porta até a larga cama, testemunhas silenciosas de seu ardor, mas não eram as únicas. Em uma larga mesa ao lado um grande arco repousava, junto a uma aljava e uma espada embainhada.

O único som que se ouvia era o de duas respirações em uníssono, acompanhando os movimentos ritmados. Um leve gemido ou uma arfada ocasional demarcavam o começo e o fim de cada ato daquela sinfonia. A luxúria e o desejo estavam ali, como fiéis companheiros em todas as camas que ela partilhara, mas nesta noite havia algo mais, algo que lhe era quase desconhecido. Havia prazer, um prazer profundo que fazia seu corpo estremecer em ondas, sobressaltando-se ao descobrir que eram seus os lábios que entoavam aqueles gemidos e não os de seu silencioso amante.

Qayeha teve de se acostumar cedo com a dura vida sob o jugo de homens que a viam apenas como uma rápida diversão, deixando-a apenas com algumas moedas que nunca apagavam sua dor ou vergonha. Fora presa como ladra e vendida ainda menina a quem pagasse mais, até que uma rica Mestra do Prazer de Khytallo, Sandyz-Anar, lhe tirou de seu último senhor e lhe ofereceu a liberdade e a chance de se tornar senhora de seu próprio destino, em troca de uma única promessa, a de nunca mais chorar, por dor, medo ou amor.

Ela ensinou-lhe antigas técnicas de sedução e prazer, para entorpecer tanto homens quanto mulheres, arrancando-lhes sua vergonha, seu dinheiro, seus segredos e, por fim, suas vidas. Qayeha fora treinada para se tornar uma assassina de alcova, uma Mantis, contratada para matar suas vítimas quando estas estavam mais indefesas, entregues à ela em sua cama. Esforçava-se para que eles não sentissem dor quando a morte os encontrasse em meio ao torpor que lhes proporcionava, mas, em verdade, não deveria se importar. Tinha apenas que desempenhar seu papel, cumprir sua missão e desaparecer.

Outro gemido incontido a fez tremer quando ele a abraçou e a trouxe para perto de si, aprofundando-se dentro dela e torcendo sua coluna em um sinuoso arco sobre a cama. Ela respondeu com afiadas unhas que desceram por suas costas, arrancando finas fileiras da pele dourada pelo sol. Sabia que não deveria sentir prazer para não hesitar quando o momento chegasse, Sandyz-Anar a ensinara, mas seu alvo era habilidoso nas artes do amor, muito mais do que ela poderia supor quando o viu. Mãos calejadas apertavam seus braços, deixando marcas escuras na pele clara, mas ela não se importava. Estavam agora em um duelo declarado para descobrirem quem poderia dar mais prazer ao outro.

Ela empurrou o largo peito para trás para fazê-lo se sentar, procurando espaço para recuperar seu fôlego, mas ele a trouxe consigo. Seus rostos ficaram tão próximos que ela podia sentir o delicioso hálito de cravos que exalava entre os dentes claros como neve recém caída. Dois olhos cinzentos olharam fundo nas piscinas escuras que eram os dela, cheios de malícia e desejo. As linhas de seu rosto eram afiladas como as de um felino, dando-lhe um ar selvagem e sedutor. Ele puxou-a com força para baixo e Qayeha agarrou os dois lados de sua cabeça, aprofundando os dedos por entre os escuros fios e trazendo os lábios de encontro aos seus. “Não se envolva, não se perca”, ela repetia para si mesma, enquanto as línguas se digladiavam em uma luta sem vencedores ou vencidos.

Qayeha se esforçava para lembrar-se de seu objetivo, lutando contra o desejo de se entregar às hábeis mãos que arrastavam sua mente cada vez mais para longe de sua missão. Concentrou-se na imagem das moedas que jaziam escondidas dentro de um odre em seu quarto, suas faces riscadas com uma estranha figura. Um pequeno homem as entregara há uma semana, falando em nome de um poderoso senhor que lhe ficaria muito grato, se a dádiva da morte sedutora encontrasse um inimigo seu. Pedira mais quando o nome de seu alvo fora anunciado e, sem qualquer demora, novas moedas se uniram às que já se encontravam sobre a mesa, em um delicioso tilintar.

Ela jogou a cabeça para trás com um suspiro quando ele a beliscou no lugar certo. “Devia ter pedido mais”, pensou. Ele pressionou o rosto contra seu pescoço, mordendo-o levemente. Um arrepio desceu pela coluna de Qayeha, eriçando todos os pelos de seu corpo. Ela compreendia os sinais que os homens davam. O fim não estava longe. O momento havia chegado.

Envolveu a cabeça de seu amante com o braço esquerdo, entrelaçando os escuros cabelos entre seus dedos, para segurá-lo sem que percebesse. A outra mão deslizou pela lateral da cama até encontrar uma fina lâmina escondida entre o macio colchão de penas e a armação de madeira. Uma estocada rápida em seu pescoço o deixaria sem reação enquanto sua semente final era lançada dentro dela. O corpo tremeria violentamente entre o prazer e o gélido toque da morte, mas ela o manteria junto de si até o final, aquietando seu último suspiro entre afagos e carícias. Não haveria sofrimento, seria uma dádiva. Havia homens que sonhavam em morrer assim. Abraçou-o firmemente, sussurrando em seu ouvido.

– Entregue-se, meu amor, entregue-se em meus braços.

A lâmina desceu, precisa e veloz, mas foi detida em seu avanço. Um lampejo de dor percorreu o braço de Qayeha, quase a fazendo largar o afilado punhal. Ao virar o rosto assustada, viu que ele segurava firmemente seu pulso, sem que ao menos tivesse se voltado para ele.

– Ainda não – ele falou mansamente, ainda com a cabeça enterrada em seu pescoço.

Qayeha estava amedrontada. Não conseguia libertar sua mão ou mover o punhal. Tentou sair de cima dele, mas ele a segurou e rolaram selvagemente sobre a cama, entre gritos e uma leve risada. Quando foi imobilizada, ela tinha o rosto entre as suaves almofadas de cetim, seus pequenos seios comprimidos contra o colchão. E ele estava em suas costas, ainda dentro dela. O punhal havia desaparecido, mas seu pulso permanecia preso entre os grilhões dos fortes dedos. Quando tentou se erguer, sentiu a ponta de uma lâmina tocar suavemente a parte de trás de seu pescoço e voltou a se deitar. Qayeha havia sido subjugada, sem conseguir se mover ou escapar. Era novamente um brinquedo nas mãos de um homem. Aterrorizada, fechou os olhos, tentando aceitar o destino que acreditara não ser mais seu. Não lutava mais contra as fortes mãos que a seguravam, mas contra as lágrimas que queriam fazê-la quebrar sua promessa.

Mas não houve dor, apenas uma leve mordida no lóbulo nu de sua orelha esquerda quando os movimentos ritmados foram reiniciados. Ele largou seu pulso e ela ouviu o som da lâmina caindo sobre as tábuas do chão. Duas mãos abraçaram suavemente sua cintura e ele correu com a ponta do nariz todo o comprimento de suas costas, sentindo o doce aroma que emanava dela. Qayeha não compreendia. Não havia pressa, raiva ou força, apenas prazer.

Ela ficou parada, assustada, aguardando, sem saber o que esperar. As mãos dele correram pela lateral de seu corpo até alcançarem os ombros tensionados, apertando-os com firmeza, mas gentilmente. Detiveram-se ali longamente, acariciando-os. Qayeha começou a sentir que seu medo lentamente a abandonava, substituído pelo desejo. Não sabia o que aconteceria depois, se ele a mataria ou não, mas não conseguia mais manter-se alheia ao prazer que sentia, deixando-se seduzir.

Ele a puxou novamente para perto, mantendo-se as suas costas. Ela jogou os braços para trás e envolveu a cabeça dele, trazendo-a novamente contra seu pescoço. E assim eles seguiram entrelaçados, mais uma vez dançando, sem medo, remorso ou pressa. O tempo pareceu perder seu sentido e os minutos se arrastaram pela eternidade, até que ela caiu sobre a cama, extenuada e dolorida, mas satisfeita como nunca estivera até então. Ele sentou-se no canto da cama com a cabeça abaixada, suado e ofegante, mas sem dizer qualquer palavra.

Os dois permaneceram em silêncio. Qayeha ficou observando-o, enquanto tentava recuperar o fôlego perdido. Vários arranhões avermelhados marcavam-lhe as costas, os ombros e os braços, unindo-se a outras tantas marcas antigas e profundas de cortes, lacerações e ferimentos. Ele era o filho de um fidalgo, mas também era um guerreiro experiente, ela podia ver, já tendo vivido uma grande monta de combates e vitórias.

Esticou o braço para tocá-lo, mas se deteve ao vê-lo se abaixar e pegar a lâmina que estava no chão. Era o fino punhal com que ela o atacara. Sentiu o sangue gelar e o medo voltou a assombrá-la, mas ele apenas lançou um desinteressado olhar para a arma e a largou displicentemente sobre a cama, deixando-a cair ao lado da mão de Qayeha. Ergueu-se e começou a se vestir, de costas para a confusa mulher.

Qayeha não sabia como interpretar este sinal. O que ela deveria fazer? O que ele esperava dela? Pegou lentamente a arma e a escondeu sob a perna, observando-o terminar de se vestir. Ele aparentava estar completamente desinteressado pelo que acontecia às suas costas, sentando-se novamente na cama para amarrar as altas botas de um fino couro.

Ela havia sido usada, agora sabia, sem amor ou paixão, como os homens de seu passado, mas, pela primeira vez, isto não a fazia sentir-se humilhada ou com raiva, apenas atônita e com um vazio que até então não conhecia. Seu coração saltava no peito, surpreso e excitado. Tocou levemente o braço dele.

– Meu senhor, tem mesmo de ir agora? – sua voz era um gemido sedutor, a mesma voz com que o trouxera para o quarto.

O homem voltou o rosto para ela, mas não havia qualquer calor em seu olhar. Parecia que a via pela primeira vez, sem qualquer interesse por ela. Piscou longamente e colocou a mão em uma pequena bolsa que amarrara ao cinto, jogando sobre a cama algumas moedas enquanto se erguia.

Qayeha sentiu raiva e vontade de gritar. Era apenas isso que ele via nela, depois do que aconteceu? Agarrou as moedas e fez menção de arremessá-las contra as costas dele, que já estava à porta do quarto, mas algo lhe chamou à atenção. Havia algum estranho desenho naquelas moedas, um desenho que ela já vira. Era a mesma marca das moedas com que o pequeno homem a pagara. Era ele o misterioso senhor que a contratara, mas não fazia qualquer sentido!

– Por quê? – foi tudo que conseguiu dizer, enquanto as moedas escorriam por entre seus dedos, amontoando-se sobre a cama.

– Porque sem perigo não há prazer de verdade – ele não se virou, colocando o grande arco sobre o ombro e prendendo a aljava às costas.

Ela estava perdida, não sabia o que pensar ou fazer, mas estava mais fascinada que assustada. Sentia-se completamente arrebatada por ele, escrava novamente dos desejos de um homem, mas desta vez por sua vontade.

– Nos veremos novamente, meu senhor Vieljean? – O nome que lhe deram havia sido outro, mas ela sabia quem ele era.

Ele parou por um momento, a mão sobre a maçaneta da porta entreaberta. Virou-se lentamente, agora com surpresa no olhar. Ela sorriu com malícia. Havia retomado o controle. Ele era novamente dela.

Após um momento ele também sorriu, mas havia crueldade nos lábios curvados, assim como nos olhos que pareceram escurecer.

– Você se confundiu, mulher, não sou meu irmão – o arco deslizou por seu braço até a mão. Empurrou a porta com o pé para que ela se fechasse enquanto terminava de se virar – Meu nome não é Mirthran!

Ela sentiu o horror tomar conta de seu corpo quando muitas estórias em que nunca quis acreditar inundaram sua mente. Ela queria correr e gritar, mas não conseguiu. Ficou ali, sentada nua sobre a cama, enquanto as lágrimas finalmente correrem incontidas por seu rosto, mas ela nem as notou.

– Marquiss... – o nome escapou por entre pálidos lábios trêmulos. Ela rapidamente colocou as mãos sobre a boca, mas já era tarde demais.

– Você me conhece, é uma pena...

A flecha de madeira azulada a alcançou muito antes do som do arco e um frio que nunca sentira se apossou dela, enquanto sua alma era arrancada de seu corpo e levada por estranhas sombras com garras e presas.