Crônicas de Andhara e além
10 O primeiro dia de outono
Notas iniciais
Peço desculpas pelo silêncio. Não foi uma pausa ou um hiato, nem o fiz por vontade, mas o estrago está feito. Recolho a âncora e esfrego o convés, mas algo faltava. Agora não mais.
Obrigado mais uma vez, minha amiga, por ser o vento que me impulsiona, a maré que me conduz e a estrela que me guia...
(-3907)
Erguendo os escuros olhos uma vez mais, buscou por cima das distantes colinas que desapareciam no horizonte pelas respostas que sabia que não estariam lá. A primavera havia partido e o verão viera e também se fora, mas ele quase não percebera sua passagem, de pé sobre o pequeno monte que demarcava o limite oriental da floresta onde nascera. As grandes árvores começavam a vestir seus ressecados mantos tingidos de dourado e marrom e as aves aquietavam-se em seus ninhos, embaladas por sonhos de vidas ainda não nascidas sob o calor de suas penas. Mesmo os irrequietos Anryn, as vozes da floresta, estavam agora calados, pousados nos galhos muito acima dele, a plumagem prateada brilhando sob o avermelhado sol do entardecer como milhares de frutos de luz a cobrirem a orla da floresta, pacientemente aguardando. Aguardando por ele. Estavam ali desde o primeiro dia da última primavera, quando os Enliën partiram, deixando-os aos cuidados dele.
Ele era Esdhel, o mais velho entre os Noarin, o primeiro entre os novos Primogênitos. Seu pai o preparara ao longo de toda sua longa vida para este dia, mas, agora que o momento se apresentava, sentia-se estranho e vazio. As alongadas sombras que antecediam o anoitecer pareciam também crescer dentro dele, tocando-o com frios dedos etéreos. Mil irmãos o aguardavam na grande morada que seus pais haviam construído, mas ele se encontrava solitário como nunca antes. Girou levemente a cabeça para trás para escutar, mas nenhum som perturbou o silêncio que o envolvia. Mesmo o eterno roçar das folhas havia cessado e o vento morrido. Havia apenas uma expectativa tangível no ar, silenciosa e profunda como se tudo a sua volta aguardasse em venerável reverência. A floresta estava calada como nunca antes e Esdhel se questionava se seria por respeito ou receio.
A mudez que permeava as árvores lhe era incômoda e equivocada. Deveriam haver cânticos nas vozes dos Noarin sob as últimas luzes do crepúsculo, agradecendo aos Qüerdínel por mais um dia na eternidade de suas vidas, mas as primeiras estrelas começavam a surgir sem serem por eles acolhidas, pela primeira vez desde o dia em que Esdhel nascera. Ele ansiava por aquela canção, tão próxima ao seu coração quanto suas próprias batidas. E desejava poder estar cantando despreocupadamente entre eles mais uma vez, mas não podia continuar a ser apenas um irmão de seus irmãos. Não mais. O milésimo Noarin havia nascido e este havia sido o sinal pelo qual os Enliën haviam aguardado, retomando sua eterna busca e deixando seus filhos para trás, como o destino assim havia determinado. Ele, e apenas ele, era agora responsável pelos caminhos de seu povo e deveria guiá-los até o fim desta era, e teria toda a eternidade para se culpar por estas decisões.
Baixou os olhos, censurando-se pelas dúvidas e desejos egoístas. Ele era Esdhel, nascido sob a luz de Veliaë, da casa de Ghielchant e filho de Ellarneil! Não tinha o direito de sentir-se inseguro ou assustado, mas não conseguia evitar o vazio que ameaçava tomá-lo quando tentava se comparar aos que vieram antes dele. Os Qüerdin haviam nascido nas Terras Eternas, de onde tudo o que existe um dia brotara, caminharam pela aurora dos tempos entre os poderes que criaram este mundo, viram Moüyldinaë florescer e dar frutos e lutaram contra o fogo do Grande Lirch, Akarash. Jamais haverá em toda a criação, mesmo entre os Noarin, qualquer ser que possa se comparar aos que vieram antes de Esdhel, mas, mesmo assim, havia sido a ele que confiaram a guarda da primeira semente encontrada e do destino de seus irmãos. Não poderia existir maior honra ou responsabilidade, mas sentia o coração inquieto em seu peito. Apenas a lembrança do sereno olhar de Noieltë o impedia de quebrar-se sob o peso que ameaçava esmagá-lo. Sua mãe acreditou nele desde o primeiro dia em que o teve incrédula nos braços, agradecendo pela benção até então perdida para eles.
Esdhel havia sido o primeiro a nascer após mais de quatro mil e quinhentos invernos de uma fria e sombria apatia em que a dádiva da vida lhes fora negada, condenados a passar a eternidade em luto pelos que não nasceram. Os Enliën, os andarilhos entre os Qüerdin, buscaram sem descanso por quase mil anos pela herança que lhes fora negada, através de terras distantes e inóspitas, por entre fogo e gelo, mares e montanhas, tendo apenas por proteção a mesma maldição que trouxera sua ruína e lhes revelara seu maior temor.
No dia em que a semente de Thiredel, o Grande Artífice, fora encontrada, germinando por entre a dura rocha escura sem quebrá-la ou por ela ferida, protegida do mundo em seu rígido berço inerte, Esdhel se fizera presente no ventre de sua mãe. Durante dez estações todos acompanharam em incrédula felicidade seu germinar entre preces e agradecimentos, até que, entre as últimas sombras de uma noite sem lua ou estrelas, o primeiro filho dos Enliën fora entregue ao mundo, seus cabelos negros como a escuridão que o recebera contrastando com a pele clara dos Qüerdin, algo até então nunca visto entre eles. Centenas nasceram ao longo dos séculos que se seguiram e cada nova criança era chamada por eles de Noarin, a Esperança Renascida, assim como Esdhel também o fora, mas, para todos, ele representou algo mais. Ele era o Aloërn, a Última Sombra da Noite, sempre carregando consigo as promessas e esperanças que antecedem o desabrochar de um novo dia.
- Como posso oferecer o que não possuo, o que não encontro em mim? – sua voz era menos que um sussurro, suave como a leve brisa que não perturba a ressecada folha de outono, com receio de arrancá-la de seu galho.
Ao ouvi-lo, a maior entre as pequenas aves prateadas pousou em seu ombro como se houvesse sido chamada.
- Não tenho esta resposta, Filho da Aurora, e o horizonte também não a possui.
Ellarneil lhe contara que os Anryn podiam compreender e falar qualquer língua ou idioma que ouvissem, mas esta verdade jamais fora confirmada, nem mesmo pelos Enliën. Durante os oitocentos invernos que se passaram desde o nascimento dos Noarin, a floresta conhecera apenas a bela língua dos Qüerdin.
Esdhel aproximou do ombro a mão espalmada, para onde a pequena ave saltou, e a trouxe à frente do rosto.
- Falava com aquele que não pode me responder, Thragaüldin, mas não esperava em verdade uma resposta, pois eu também não a possuo.
O pássaro torceu a cabeça e piscou, não compreendendo o que lhe fora dito. Os Anryn haviam sido designados por aqueles que os criaram para serem mensageiros, olhos e ouvidos ao longo da nova morada, mas nada mais. Não eram conselheiros, confidentes ou guardiões dos segredos dos que vieram antes dos Noarin. Não podiam ajudá-lo, não como ele desejava.
Esdhel sorriu levemente com a confusão da pequena ave, desejando por um momento que sua vida imortal também pudesse ser tão simples, mas o sorriso rapidamente se desfez. Não poderia desejar outro destino. Não haveria outro caminho, não para eles.
- Vá, avise que estou voltando para Thirendeinaë – ergueu a mão, lançando o pássaro no ar, que bateu velozmente as pequenas asas, desaparecendo por entre os ramos dourados. Volto-se então para os outros que ainda o aguardavam – Vão! Cantem para cada Noarin que nosso outono finalmente chegou, que seu frio e sua sombra já estão em nossa floresta, mas que não permitirei que recaiam sobre nenhum de meus irmãos!
Ao seu comando, milhares de asas se abriram, brilhando avermelhadas sobre a orla da floresta como pequenas jóias fugazes, antes de desaparecerem por entre uma chuva de folhas ressecadas que se desprenderam com sua passagem.
A floresta novamente foi coberta por um manto de silêncio quando o canto dos Anryn se afastou, carregado pelo vento de delicadas penas prateadas. Esdhel acompanhou o lento balé das folhas de outono, dançando em suaves espirais até adormecerem sobre o chão umedecido. Um pequeno círculo acobreado se formou ao redor de uma larga lâmina fincada no solo da floresta ao seu lado. Uma grande folha dourada se dobrou ao cair sobre o cabo, envolvendo-o em um delicado abraço. Ele fez um leve movimento com a mão, apenas o suficiente para que a folha se erguesse novamente no ar e voltasse a dançar, indo unir-se às irmãs abaixo.
Esdhel deslizou os dedos pelos intrincados desenhos do cabo, entrelaçados como finas ramas que se tornavam mais espessas antes de se fundirem em duas longas chapas gêmeas, seguindo paralelas até desaparecerem sob as folhas mortas. Um estreito sulco entre elas, ao longo de todo seu comprimento, deixava passar um fino raio de luz por entre o metal negro como a noite, mas que refletia o brilho do entardecer como vidro polido. Ao menor movimento dos olhos surgiam vagas avermelhadas que percorriam a extensão das afiadas lâminas como as ondas em um lago, pulsando serenamente.
Ela havia sido feita para ele pelo grande mestre Thaindüor, da casa de Thaindë, o primeiro ferreiro entre os Qüerdin e o último dos Veneráveis, que colocara fim à chama e à ira de Akarash, ao custo de sua vida imortal. O fogo do grande Lirch queimara toda a montanha onde eles se enfrentaram, derretendo toda sorte de rocha, pedra e metal, fundindo-os em seu cerne na escura liga do qual esta lâmina havia sido forjada.
Envolveu lentamente seu punho, puxando-a com facilidade. Os pequenos grãos umedecidos que a acompanharam escorreram suavemente pelas chapas, incapazes de se prenderem a elas. Era uma peça única, muito diferente das longas garras escuras que os Enliën usavam e que nunca permitiram que seus filhos tocassem. Não havia medo ou ódio nesta lâmina, não havia sido tocada pela loucura de Thelian. Esta era a primeira vez que a empunhava, mas, apesar de seu tamanho, não sentia seu peso nem a tinha como uma estranha nas mãos.
- Os Enliën me disseram para guiar meus irmãos, mas me deixaram uma arma para defendê-los. Sei agora o que o destino nos reserva.
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