A saia rosa do vestido de Mária era tão longa que cobria seus sapatos dourados, deixando apenas os dois bicos largos de fora. Era belamente bordado, as mangas de seda iam até os pulsos e estes davam lugar às mãos, claras, doces, uma sobre a outra e ambas apoiadas sobre o peito. Em seu dedo anelar esquerdo se achava um anel de prata com um bismuto quadriculado e multicolorido incrustado e no mindinho direito um de ouro decorado com uma ametista púrpura ladeada de uma igualmente pequena esmeralda.
Seu rosto encantava, tinha cabelos castanhos bem penteados que caíam como uma cachoeira morta até sua cintura. Sob suas pálpebras fechadas se encontravam olhos verdes, suas bochechas já não tinham mais cor e de seus finos lábios não sairia mais aquela bela voz. Quem a olhasse de relance poderia pensar que ela só dormia.
"Mas está morta", disse Camilo Velasco para si mesmo em pensamento. "Está morta e foi assassinada."
Queria sentir aquela raiva, queria sentir prazer com o que estava por vir, queria gostar, mas não tinha muita certeza de que gostaria.
"Se pudesse tê-la matado três dias antes", refletiu infeliz. Agora a raiva tinha sido jogada para longe e apenas a tristeza a substituía.
O corpo de sua filha tinha permanecido ali durante os três dias, esperando a Dádiva do Céu para que sangue voltasse a passar por suas veias, mas, mesmo após aquele período, ela continuava morta, tão morta quanto no final daquele banquete. Não, se encontrava mais morta ainda, já começava a feder e, para mascarar o odor, os servos, não os escravos, pois Camilo não queria mais escravos perto dela, colocavam incensos doces, cheiravam a rosas e ela um dia gostara do cheiro de rosas.
No banquete Camilo sentara em seu grande cadeirão, quase um trono, embora não pudesse ter este nome, apenas um rei tinha um trono. Ao seu lado estara sua esposa, Betthany, seu filho, Jordi, Mária e sua nora, Guilherma, a razão real daquele banquete.
À sua frente estiveram todos os vassalos de Porto Verde ou os representantes dos vassalos que não puderam comparecer. Ele vira Ron de Pate, senhor da Bacia de Algas, com um rosto rude e uma barba recém-aparada, talvez aparada justamente para a cerimônia, e ladeado por suas duas filhas solteiras, não muito belas, jovens ou ricas, mas ele ainda possuía a esperança de que algum senhor se interessasse por elas, por isso as exibia a todos que podia. Jacques Borton, o filho mais velho de Jon Borton, senhor de Velha Macieira, no oeste de Porto Verde também se comparecera no lugar de seu pai já incapaz de sair de sua cama. Martin e George Bardem, os gêmeos senhores de Escadas-Para-As-Nuvens chamavam os olhares das damas ao seu redor. E muitos outros, incontáveis, a senhora de Filho do Porto, o senhor de Grande Moinho, os senhores anciões de Rede de Cana...
Quando Camilo pusera-se de pé todos levantaram suas taças que cintilaram com a luz dos archotes presos às paredes e das velas no lustre.
Ele agradecera e limpara a garganta com mais um gole de vinho. Pedira para que ela enchesse sua taça e a largara sobre a mesa.
— O fruto nunca cai longe da árvore — falara e todos riram ao seu redor. — Tinha quinze anos quando me casei com Betthany, se bem me lembro e, naquele mesmo dia, na noite de núpcias, fiz meu primeiro filho. Quando contei ao meu pai, Javier, que Céu o tenha, que minha esposa sentira enjoos e sua menstruação estara atrasada ele apertou minha mão e talvez ali, pela primeira vez, ele me viu como o homem que eu tinha me tornado. Vim para cá logo em seguida a pedido do Rei Miran de Mello, que sua vida seja longa. Meu filho cresceu forte, robusto, se casou com minha nora e, há uma semana, quando ele me contou que sua esposa estava sentindo enjoos e com a menstruação atrasada apertei sua mão e lhe dei os parabéns como meu pai fizera comigo muito tempo atrás.
— Um viva para Jordi Velasco, o novo pai — dissera alguém atrás da multidão. — Um viva para Jordi Velasco, o novo pai. Um viva para Jordi Velasco, o novo pai — o primeiro grito fora sucedido por muitos outros, cada um tentando abafar o anterior.
— E um viva para Guilherma Velasco, a nova mãe — gritara Alma Grande, a senhora de Torre de Pedra.
Vivas para pai e mãe tomaram o ar. Nenhum deles ouvira o que aqueles próximos à mesa príncipal ouviram.
O som de metal batendo no chão fizera com que Camilo se virasse para olhar para o lado. Vira vinho no piso de pedra, vinho no belo vestido de Mária e vinho escorrendo por sua boca, ela tentara cuspir para fora quando sentira-o lhe fazer mal, mas fora tarde demais. Ela explodira em lágrimas e contraíra a barriga com os braços bem apertados. Betthany gritara e só seu grito fora capaz de chamar a atenção dos convidados.
— Senhor, pode nos dar licença, por favor — disse uma voz masculina às suas costas. Quando Camilo se virou chegou a dar alguns passos para trás.
Cinco seres, cujos sexos, sem o uso da voz, eram indistinguíveis, estavam ao seu redor. Todos utilizando máscaras feita de pano marrom, duas lentes permitiam que seus olhos fossem vistos, dois deles tinham belos olhos azuis, os outros três eram castanhos, abaixo dos círculos de vidro havia um bico de bronze enorme, quase do tamanho de um bico de tucano.
"As Aves do Céu", soube no exato momento em que as viu. "Chegou a hora."
Muitos eram os ofícios de uma Ave do Céu, ensinavam aos nativos o Rohesio e as tradições e os costumes dos tementes ao Céu, cuidavam dos corpos quando eles morriam, rezavam pelo retorno das almas durante os dois primeiros dias e pela subida dela até o Castelo nas Nuvens quando o terceiro dia de espera chegava ao fim, enterravam os mortos e ouviam as confissões dos pecadores que iam até os seus ninhos em busca de auxílio divino, entre outras tarefas.
Começaram a cantar sua monótona oração:


Deus de confiança,
O Céu é o nosso deus.
Leve a criança,
Para junto dos seus.


Leve o idoso,
Leve a mulher.
Deus temeroso,
Leve quem quiser.


Leve o guerreiro,
O cavaleiro
E o ancião.


Suba a alma,
De quem muito fará falta.
Nos dê a sua mão.


O "mão" foi estivado durante alguns bons segundos.
Separados já tinham uma bela voz, mas juntos eram quase místicos. Cantavam por ela.
Houveram bardos cantando no banquete também, bardos que foram muito bem pagos por sua música, cantaram alegremente as canções, mas, assim que ouviram o grito, cessaram a música que saía de suas arpas e violões.
— Dói demais — dissera no colo da mãe. — Dói demais — parecera que seus olhos estavam prestes a saltarem para fora e não havia mais cor em seus lábios, outrora rosados como suas maças do rosto.
— Já vai passar — para a filha a voz de Betthany fora calma, apaziguadora. — Alguém chame Frenci — para os outros estara em pânico, gritando como uma louca.
Frenci era o cirurgião do castelo, um homem baixo, com o topo da cabeça completamente calvo, mas com grandes tranças brancas que caiam das laterais até o final das costas. Vestia sempre mantos simples, de cores neutras, geralmente marrom ou cinza.
Ele viera rápido, já se encontrava na festa, em uma mesa próxima à parede oposta, comendo um pedaço de galinha. Viera limpando as mãos nas roupas para tirar a gordura. Se ajoelhara na frente de Mária e começara a examiná-la, com as mãos apalpara seu rosto, o virara de um lado para o outro, abrira sua boca, cheirara dentro dela.
Quando se pusera de pé tremia da cabeça aos pés, não era velho e não costumava ter aquele comportamento.
— É veneno — falara em voz baixa, um sussurro só para Camilo, mais ninguém.
Os olhos dele correram de sua filha para o Cirurgião, dele para a taça no chão e dela para a escrava que a servira.
Partira para cima dela, mas a mão de Jordi o segurara.
Dedos agora tocavam seu ombro, finos, macios e tinham um delicioso cheiro. Quando se virou para ver quem era deu de cara com sua esposa. Quando tudo ocorreu ela estivera chorosa, mas as lágrimas tinham secado em seu rosto, assim como no dele.
Betthany agora, diferentemente do dia do banquete, vestia uma roupa menos pomposa.
— Veio se despedir? — perguntou ele.
— Já me despedi faz muito tempo. Não é ela nessa cama, é só um corpo.
— Não vai ver a execução? Tem certeza?
— Não preciso vê-la morrer pra saber que está morta, vou confiar na sua palavra. Você também não precisa ver, sabe disso?
— Preciso e quero — ele mentiu, embora talvez antes quizesse. — Acha que é errado matá-la dessa maneira?
— Óbvio que não — respondeu Betthany incrédula. — Ela matou minha filha, se pudesse mandaria ela para Frenci, mas não é só por isso que vou desejar ver o que ele faria com ela.
Os estranhos comportamentos de Frenci circulavam por todas as bocas de Porto Verde, mas naquele dia Camilo não estiva disposto a ponderar sobre o assunto, não lhe interessava o que ele fazia ou deixava de fazer em suas intimidades.
As mãos de seu filho não foram tão calorosas quanto as de sua esposa, mas não o machucaram.
Mais alto que o pai, Jordi naquele dia vestira um gibão vermelho e uma calça negra. Era difícil notar as diferenças dos rostos dos dois quando ambos usavam barba. Tinham os mesmos olhos verdes redondos, as mesmas sobrancelhas fartas e o mesmo nariz achatado, mas, por trás de todos os pelos faciais, Jordi tinha uma grande cicatriz que ganhara em uma justa contra o homem conhecido como Cavaleiro das Moscas ainda em Rohesia. A lança entrara por seu elmo, quebrara o visor e, por muito pouco, não o decapitara.
Sempre que possível Jarren competia, vestindo a sua armadura dourada e cavalgando sua égua branca, Cachos de Neve.
— Não — dissera ele para Camilo. O Donatário tentara se libertar dos braços de seu filho, mas ele fora mais forte, e o segurara firmemente. — Levem-na daqui agora, prendam-na.
Dois guardas, um já mais velho e de rosto oval e o outro mais jovem e com longos cabelos avermelhados, levaram-na para longe, carregaram-na enquanto ela gritava e esperneava.
— Eu fiz nada — dissera ela com as palavras que sabia de Rohesio. — Prometo que fiz nada.
Agora, pondo os olhos nela, Camilo podia ver o quão jovem ela era.
Tinha quase a idade de Mária embora nem um pouco de sua beleza, seu rosto era quadrado e não havia nenhum bocado da doçura de sua filha em seu olhar. Seus cabelos iam para todos os lados, como palha negra e a sujeira estava em todos os lugares, sob as unhas, nas solas dos pés, nos pelos ralos que cresciam em suas axilas. Raoni era o seu nome, ele descobrira.
O colar do garrote se encontrava em seu pescoço, cada ponta dele bem presa em um poste de madeira. O carrasco segurava um pedaço de pau com as duas mãos atrás.
Hagar, o Carrasco de Porto Velho era baixo e gordo, vestia uma simples roupa negra que era ofuscada por uma placa de peito igualmente escura e um elmo sem viseira com dois chifres curvados para baixo que saiam um de cada lado.
Muitos foram para assistir, todos os senhores que permaneceram no castelo e vários dos guardas principais, embora estes só estivessem cumprindo seu dever. Entre o grupo de pessoas se destacava a barba de Fester Morton, o senhor de Forteossos e a semelhança ruiva dos gêmeos de Escada-Para-As-Nuvens.
Quando se pôs diante de todos eles viu seus rostos se fecharem, nenhum deles realmente conhecera Mária, mas alguns ainda conseguiam se pôr no lugar de um pai e sentir um pouco daquela dor.
"São todos homens bons", constatou. "Sou servido por homens bons", o pensamento foi quase reconfortante.
Com um aceno de cabeça o carrasco iniciou seu trabalho.
— Suas últimas palavras? — perguntou Hagar, o Carrasco de Porto Velho.
— Eu não fui que matei ela, senhor — os socos e pontapés que levara dos carcereiros durante esses três dias deixaram marcas por seu rosto, ela falava de maneira mais falha do que a habitual pelas feridas na língua e no maxilar. — Fui eu não, senhor.
Jordi estava ao seu lado, mas Guilherma, assim como Betthany, não compareceu.
O pedaço de madeira foi girado, o colar começou a diminuir conforme um enorme parafuso puxava-o para trás. Aos poucos ela foi sentindo o couro apertar seu pescoço, deixou marcas vermelhas que se tornavam hematomas conforme a força se tornava mais necessária.
Foram onze giradas até que ela soltou o primeiro grito, muitos homens mais fortes já haviam desistido com menos, mais uma e as lágrimas, que já escorriam pelas maças de sua face, começaram a jorrar, algumas mais e seus olhos pareciam soltar para fora. Desde a décima ela já se debatia e quando a décima sétima foi dada, com muito esforço, ela estava imóvel, morta.
Assim que o garrote foi retirado, o corpo foi colocado sobre os ombros de Hagar, seus braços acorrentados roçavam no chão de tão pequeno que era o homem, mas tinha muitos músculos e ela era bastante leve. Como previamente ordenado, o carrasco carregou a escrava até a pira longínqua que começava a ser acendida longe dos olhos de todos os demais.
— Dê-a para os corvos — aconselhara seu filho.
— Queime-a — ordenara o pai não ouvindo o que ele dissera.
Enquanto andavam para o enterro o sol já iniciava a se pôr, o céu escurecia, como que triste pela vida de Mária.
"Estava prometida", pensou Camilo, contrafeito. Mária rira sozinha sempre que pensara em seu pretendente, o Príncipe Sean de Mello era bonito, segundo diziam, rico, todos sabiam, e habilidoso em combate, muitos fingiam. Era filho de Miran de Mello, o Rei de Rohesia e amigo de longa data do patriarca Velasco.
O pensamento rápido levantou outra questão na mente confusa e conturbada daquele pai.
— Chegou alguma mensagem do Rei? — perguntou. Tinha mandado um mensageiro avisar da morte de sua filha e convidar a família real para o funeral da pequena, mas três dias era muito pouco tempo para que a viagem fosse feita, mesmo Porto Verde sendo a Capitânia mais próxima do Velho País.
— O mensageiro chegou lá no mesmo dia — respondeu Jordi. — Mas demorou para conseguir falar com rei. Retornou hoje, veio na frente pela estrada. Avisou que desembarcaram em Bacia das Algas, mas tiveram de descansar e só vão chegar aqui amanhã pela tarde.
"Amanhã pela tarde minha filha já estará sendo comida pelos vermes", a súbita ira logo se dissipou, era pedir demais para que um rei fizesse o trajeto pelo mar com sua família em três dias para o funeral de uma menina que nem conhecera direito, apenas de vista.
A cova já se encontrava cavada, As Aves do Céu trataram do assunto e ainda se encontravam entorno do caixão, cantando suas melancólicas cantigas.
Um deles, particularmente musculoso, entoou sua voz:


Eleve a alma, o corpo, a mente,
Eleve a vida, o sentimento.
Se fala a verdade ou se mente,
Com os seus anjos ouça o meu lamento.


O outro, mais gordo, prosseguiu:


Agora ossos vão restar.
Jaz aqui uma mãe, um pai,
Um filho que nos faz chorar,
Ou uma filha que se vai.


O coro veio forte:


Deus de confiança,
O Céu é o nosso deus.
Leve a criança,
Para junto dos seus.


Leve o idoso,
Leve a mulher.
Deus temeroso,
Leve quem quiser.


A música prosseguiu durante toda a cerimônia, sendo repetida inúmeras vezes, cada vez mais baixa conforme os pássaros do deus ficavam cansados ou roucos. O caixão onde ela se encontrava era castanho escuro e com adornos em ouro. Quatro aves, com o auxílio de quatro cordas, carregaram-no para baixo e, quando ele já estava na terra fofa, atiraram a areia sobre a madeira com as pás. Em seguida se retiraram, deixando os familiares com suas últimas despedidas.
Uma peça de pedra fora colocada com o nome dela no chão e alguns dizeres:


Mária Irene Velasco
27 de Setembro de 860 — 19 de julho de 870
Amada e jamais esquecida.


Betthany comparecera, estivera calma e nenhuma gota salgada escorrera por seu rosto, mas sua tristeza era perceptível. Guillherma também dera as caras por lá e fora falar com seu sogro enquanto a música das aves era ouvida no fundo.
— Jordi não deixou que eu fosse na execução, senhor — se explicara. — Disse que iria fazer mal para o bebê.
— Tudo bem — dissera ele. — Também acho que uma execução não é lugar para mulheres, principalmente mulheres grávidas.
— Acho que a morte não deve ser um espetáculo, deveria ser feita de maneira mais sigilosa.
— Cada um tem a sua opnião — soara mais grosso do que pretendera, mas não estara disposto a ouvir desculpas enquanto pessoas enterravam sua filha.
Guilherma Florença-Velasco era muito mais jovem que ele, nascera quase uma década depois, tinha dois olhos como a água do mar, grandes lábios e um corpo bastante voluptuoso. Filha mais velha de Edmund Florença, Donatário de Rio de Verão, se casara por um acordo com Jordi e nenhum pareceu infeliz com a proposta. Ambos eram belos, ambos tinham grandes nomes de família e ambas as famílias tinham quantidades significativas de dinheiro. Sua barriga ainda estava pequena demais para ser notada.
Camilo só falou com sua esposa em seu quarto, enquanto se despiam para dormir. Nua ela puxou a coberta sobre si.
— Boa noite — disseram juntos e apagaram as velas com sopros.
Há três dias tinham dois filhos, há três dias tinham uma escrava a mais, há três dias havia uma cova a menos no cemitério próximo à Fortaleza de Açúcar e há três dias tinham menos corpos queimados em seu pátio.