Michael I

Era um lugar totalmente branco, sem paredes ou tetos, mas o céu, terra e horizonte totalmente brancos como a neve.

Michael tentava achar alguma coisa, um ponto de referencia, alguma coisa para quebrar aquela imensidão branca em que estava. Girava sua cabeça, procurava em vão. Até que ouve uma voz.

– Jovem, está preparado? – a voz era grave como um trovão.

– O que? – Michael obviamente confuso, tenta responder.

– Jovem, está preparado?

– Quem é você? Tenho que estar preparado para que?

A partir dessa frase houve um grande silêncio na imensidão branca, o jovem estava lá fesperando uma resposta. Até mesmo se sentou no chão branco.

– Não irá responder? Vamos? – gritou para o nada.

Estava meio transtornado, o suficiente para deitar no chão e suspirar. Fechou os olhos e tentou relaxar. Não havia muito que fazer mesmo naquele lugar. Até que conseguiu ouvir aquela voz peculiar de novo.

– Parece que ainda não está pronto. – continuou a voz, em um tom decepcionado.

– Olha, isso é estranho, estou falando para o meio do nada para uma voz, me diz pelo menos do que se trata?

Depois que disse isso, um verdadeiro trovão caiu na imensidão branca, o que fez Michael levantar com o susto, devido a sua intensidade. Uma névoa surgiu, uma névoa cinza que mudou muito a paisagem que estava presente.

O jovem agora estava, além de confuso, até mesmo assustado. Tentou correr para longe, não importando para onde estava indo.

No meio de sua corrida, uma coruja se materializou da névoa, bem defronte ao jovem, uma coruja Branca. Com olhos roxos profundos. Algo absurdo começou a acontecer, a coruja começou a falar, com voz mesma trovejante.

– Olha meu caro garoto, você tem que estar pronto, se não estiver tudo acabará.

Michael engoliu fundo, e tentou uma réplica com outra pergunta.

– Acabar o que? Como eu para isso?

– Pode começar acordando, garoto. – Após isso, a coruja o atacou com suas garras.

Michael pulou da cama com tanta velocidade que acabou caindo no chão. Não se machucou, nem ao menos sentiu alguma dor, devido a adrenalina que estava alta no corpo. Sua respiração ofegante aos poucos foi diminuindo.

“Outra vez esse sonho esquisito” – Pensou enquanto encarava o teto.

Olhou para o relógio que marcava oito e vinte da manhã.

– Muito bem! – falou em voz alta.

Desceu as escadas, não precisou fazer silêncio, ouviu cada rangido vindo do piso de madeira que cobria o resto da casa, diferente do seu quarto onde havia um carpete preto.

Não havia ninguém por ali, seu pai já havia viajado, estaria sozinho em sua residência até a sua mudança para a França, que ocorreria em breve.

Quando chegou à cozinha, foi direto para geladeira, ainda limpando os olhos do sono.

– Ok, o que temos aqui... – murmurou olhando a geladeira.

Pegou uma fatia de peito de peru, leite e um pedaço de pão. Fez um sanduiche e tomou o leite puro.

Ao sair da cozinha, tropeçou numa caixa que estava no chão, batendo bem o dedo mindinho na ponta do objeto.

– Merda de caixa! – gritou, frustrado com a dor incômoda.

As caixas estavam jogadas pela sala, a mudança ainda estava sendo “feita”. Já estavam a dois meses organizando as coisas para a sua nova vida, a bagunça era natural.

Entrou no chuveiro frio, aquela manhã estava quente. Tomou um banho rápido, colocou uma calça jeans, uma camiseta e nem chegou a secar o cabelo castanho-claro longo, pois já havia ouvido o celular tocar varias vezes.

Quando verificou o aparelho viu que era seu amigo Kenny, e retornou a ligação. Após dois toques o amigo atendeu.

– Não atende o celular? – disse Kenny em tom de brincadeira.

– Por que me ligou tão cedo? Não temos mais aulas, vê se dorme mais cara. – respondeu.

– Pra que dormir num dia desses?! Anda vamos dar uma volta!

– Agora? – disse Michael em tom de surpresa.

– Agora! A gente se vê na frente do Toupera. – disse logo antes de desligar o telefone.

Michael olhava o celular em seguida encarava o vídeo game na sala de televisão, fez isso repetidamente.

“Vamos ver se o tempo está bom como ele disse.”

Caminhou até a varanda de sua casa, e quando abriu a porta se deparou com aquele céu completamente azul e ensolarado.

– Ok, me convenceu. – Disse apontando para o céu – Seria mesmo ruim ficar em casa com um tempo desses.

Assim ele escovou os dentes, pegou sua chave, trancou a casa até sair para encontrar seu amigo.

O bar do Toupera não era longe, era necessário apenas passar por cinco blocos, para chegar lá. Até que Michael gosta dessa caminhada, pois passa por um belo bosque, que quase quebra a paisagem urbana em que vive.

Em menos de cinco minutos de caminhada tranquila ele chegou até o ponto de encontro. O bar do Toupera era um bar simples, era muito frequentado por jovens por ser próximo tanto do colégio quanto da faculdade da cidade.

Quando estava chegando, conseguiu avistar Kenny levantando o braço para chamar a sua atenção. O que não era realmente necessário visto que além dele ser naturalmente alto, e por ser período de férias não havia muitas pessoas.

Ao se encontrarem, Kenny cumprimentou:

– Grande Mike, como anda? – disse animado

– Com duas pernas, eu acho. – respondeu.

– Peguei uma mesa para a gente, vem – disse, enquanto ia em direção da mesa.

Logo após sentarem, o dono do estabelecimento veio atendê-los. Seu Toupera, que batizou o bar com o seu apelido, era um homem grande, por volta dos seus sessenta e cinco anos. Com cabelo grisalho, e um bigode branco.

– Então garotos, vão querer o que? –Disse num tom simpático.

Kenny deu uma rápida olhada no cardápio, parecia que apenas estava confirmando o que ele iria pedir.

– Me vê um suco de laranja, Seu Toupera – disse com um sorriso no rosto.

O senhor com o bigode branco tirou seu bloco de anotações e anotou o pedido.

– E você Mike, vai querer o que? – Disse olhando enquanto anotava o pedido.

Mike nem pensou duas vezes, já tinha decidido o que queria desde que entrou no bar.

– Uma cerveja. – respondeu o jovem de cabelos castanhos.

– Ok, logo trago pra vocês – falou o Seu toupera antes de ir embora.

Kenny olhou para Michael com um olhar desconfiado.

– Cerveja essa hora da manhã Mike?!

– E? Qual o problema?

– E daí? É meio foda pedir cerveja tão cedo assim.

– Olha, tenho dezoito anos, estou sozinho em casa e vou me mudar daqui um tempo. Deixa eu tomar minha cerveja quieto. — resmungou

– Tudo bem, o fígado é seu.

O clima ficou silencioso por um tempo, Kenny olhava o cardápio enquanto coçava os cabelos crespos que existiam na sua cabeça.

– Então, tive aquele sonho de novo. – falou para acabar com o silêncio.

– Sério!? O sonho branco? – respondeu sem tirar os olhos do cardápio.

– É, mais ou menos. No começo foi o de sempre, aquela voz do nada conversando comigo, mas depois mudou, uma névoa apareceu. E eu comecei a falar com uma coruja, que tinha a mesma voz, aí do nada ela atacou.

– Sei... – mostrou um ar desinteressado. – Eu sonhei com a Amanda, foi bacana.

Depois de ouvir isso Mike solta uma pequena risada. Logo após isso olha para o amigo, com um olhar sarcástico que tentava imitar o sorriso do mesmo.

– Amanda, é ela é gostosinha, deixa a Anna ouvir isso... É verdade Kenny, como você está aqui hoje? Achei que sua coleira só chegava a dez metros.

– Coleira? Tá ficando doidão? – Falou o moreno tentando se defender.

– Brigou com a Anna? Fugiu dela? Disse que foi viajar? Conte-me seu segredo senhor Kenny.

– Cala boca. – Tentou encerrar o assunto.

– Oh, então ela não sabe que você esta aqui com um amigo, não é?

Kenny ficou em silêncio e adotou um olhar indiferente para o seu amigo, mas era como se estivesse julgando.

– Você tem que se impor, cara. Mentir pra ela não é legal. – continuou Mike, com o sorriso no rosto – Aquela garota é meio possessiva, sabe?

– E daí? Eu gosto dela, ela gosta de mim. Fico confortável perto dela, e não tenho muitos problemas que nem pessoas que eu conheço. – Encarou Michael.

– Tá falando de mim? Que tipo de problemas eu tenho?

– Problemas, como várias mulheres querendo te matar e te odiando, sabe? Eu aquietei e não tenho esses tipos de problemas.

– Como alguém aquieta se sempre foi “quieto”? – gargalha – A diversão compensa os problemas, acredite ‘mi amigo’.

– Ok, então lide com aquele problema ali então. – disse apontando para trás de Michael.

Mike não resistiu e olhou para trás, era Vitória. Uma garota de cabelos longos loiros, alta. Era muito sensual, por isso o jovem que virou para vê-la, tinha se “divertido” com ela após uma festa na semana anterior. Ela disse para ele ligar, mas Michael não tinha nenhuma intenção de cumprir tal promessa.

Ela estava com mais três amigas, todas muito bonitas. Provavelmente estavam fazendo compras e pararam para comer alguma coisa no bar.

Vitória percebeu que Mike estava lá e foi em sua direção, deixando suas amigas conversando em outra mesa. Quando ela se aproximou mesa, rapidamente Kenny falou:

– Acho que meu suco ficou pronto, vou lá buscar.

– Kenny...! – Michael murmurou antes de ser interrompido com a chegada da garota.

– Hey você! – disse Vitória, com um belo sorriso mostrando seus dentes brancos.

– Oi Vitória.

– Legal te encontrar aqui, desde aquela noite que estava querendo te ver.

– Pois é... – respondeu de forma sem graça.

– Perdeu meu número, não é? Não tem problema, que tal pegarmos um cinema amanhã?

– Olha, Vik... – foi interrompido, mais uma vez.

– Tá passando um filme bom, um daqueles filmes de ação que você deve gostar, que tal?

– É melhor não. – friamente falou Mike.

Naquele momento, o sorriso branco da garota sumiu e foi substituído com um olhar de duvida direcionado ao jovem.

– Por que “é melhor não”?

– Por que é exatamente isso. – o tom de Michael parecia de um professor dando uma aula – Olha, aquela noite foi legal, fomos naquele motel chique. Eu me diverti com você e você se divertiu comigo. Foi bom, sem dúvida, mas vamos deixar assim, ok?

O olhar da garota passou de duvidoso para raivoso, sua pele branca ficava cada vez mais vermelha. Mas ela permaneceu em silêncio como se estivesse esperando mais explicações do jovem.

– Me desculpe, mas não estou querendo nada sério, ainda mais que eu... –foi interrompido com uma bofetada em sua bochecha esquerda.

– Babaca! –gritou Vik, antes de sair de perto da mesa.

Mike observava enquanto a garota foi até as amigas e logo após trocarem algumas palavras foram embora. Claro que, após o tapa, recebeu vários olhares de ódio de todas as meninas do grupo.

Logo após isso, Kenny voltou à mesa carregando um copo de suco em uma mão e a cerveja em outra, com um sorriso de orelha a orelha.

– Concordo com ela, você é um babaca. – falou quase segurando a risada, e servindo a cerveja.

O Michael que esfregava a bochecha, esta ficando com um vergão vermelho. — Ela me acertou de jeito.

– Vi como você lida bem com os problemas. – afirmou Kenny antes de rir.

Michael deu um belo gole na cerveja. Enquanto seu amigo tomava calmamente o suco, claro que a cara do moreno ainda tirava sarro do esbofeteado.

– Eu disse que a diversão compensa os problemas. E a noite que eu tive... – Parou por um momento para relembrar. – Valeu uns cem tapas desses, fácil.

– Mas você ficou queimado com a mulherada. Bem queimado.

– Não tem problema, daqui algum tempo eu vou poder me queimar com as francesas.

O Mike gargalhou, Kenny não resistiu e gargalhou junto com o colega. E ficaram rindo até as lágrimas caírem e o fôlego acabar.

A conversa iria longe se o celular de Kenny não tocasse. Ele apenas deu uma olhada na mensagem que recebeu.

– O pessoal tá chamando a gente para jogar vôlei, ta afim?

– Vamos, só deixa eu terminar de beber essa aqui.

Mike acabou rapidamente de beber sua cerveja, e os dois partiram para o campo de vôlei.