Capitulo 3 – Asha
Claridade mental era tudo que Asha focava naquele momento, necessitando se reaproximar do Cosmo após todo o trabalho que teve meses atrás.
O dia estava fresco e úmido, eram boas condições para conseguir meditar. Estava ela, fechada dentro do quarto, em seu pequeno altar de madeira estava sentada de pernas cruzadas confortavelmente.
Não tinha nada em seus pensamentos, apenas estava lá sentindo o fluxo do Cosmo, passando pelo seu corpo e pelo seu espirito calmamente.
Através do fluxo conseguia sentir as novas, que estavam a cuidar da plantação de batatas, a irmã Lira, que observava o trabalho delas, a irmã superiora Marri que estava no em seu quarto fazendo sua própria meditação. Conseguia sentir os animais do lado de fora, desde os maiores até os pequenos insetos e as plantas onde habitavam.
Após alcançar o ritmo que desejava de respiração, continuou a sua meditação, pois gostava do sentimento de libertação e clareza que essa atividade proporcionava.
Mas algo fez sua atividade ser interrompida, sentiu primeiro um pulso forte no fluxo, alguma coisa estava entrando no mundo naquele momento, algo estava quase que literalmente, surgindo do nada. Depois sentiu uma presença forte, um espirito forte.
Mas, além de sua súbita aparição, havia algo estranho nele.
Abriu por fim os olhos, o quarto estava totalmente fechado e escuro.
Destrancou a porta do cômodo deixando a luz entrar. E foi correndo até onde Lira estava. Passou pelos corredores e pela cozinha, onde a porta dos fundos levava até a plantação de batatas. Sentia a agitação antes mesmo de chegar, tanto das novas quando da própria irmã Lira.
– O que houve? – perguntou logo quando chegou à plantação de batatas
– Um clarão – Lira gaguejou — Logo depois, acho que senti uma presença que não conheço. – respondeu.
– Fique com as novas, vou verificar, sinto um que parece um celestial, mas tem algo estranho nele.
Asha pegou uma das inchadas que as novas usavam para servir como arma. E foi em direção à clareira no meio da mata, era lá que a sentia a presença. Caminhando lentamente desviando das plantas e arbustos.
Lembrou-se que era de lá que enviará a mensagem. A clareira do riacho com a pequena queda d’agua.
– “O que um celestial quer conosco? Como ele chegou aqui sem o notarmos?”
Sentia a presença imóvel, não tinha dado um passo desde que foi sentida. Quando chegou até a clareira da mata conseguiu ver aquele que disparou os seus sentidos. Era um homem que estava nu e de bruços. Tinha pele branca, mas ligeiramente queimada e cabelos castanhos claros, ele estava ali desmaiado no meio da clareira.
Asha se aproximou e sentiu que ele não iria reagir, analisou-o brevemente e chegou a conclusão de que não estava machucado.
Enquanto estava lá observando cautelosamente, Lira chegou para ver o que estava a acontecer por ali.
– Um celestial? Está ferido?
– Não parece estar... – respondeu Asha sem tirar os olhos do homem
– Não foi daqui que mandou a mensagem?
– Sim. É melhor esperar a Irmã superiora, ela nos dirá o que fazer.
Logo após a chegada da segunda irmã, as novas começaram a aparecer. E duas delas estavam ajudando a irmã superiora Marri a superar os caminhos da mata, o que era um desafio na sua idade.
As novas se agitavam entre as arvores em volta da clareira, estavam muito mais curiosas do que cautelosas, e não se aproximavam por causa do respeito que tinham em relação a Asha.
– Oras o que temos aí, tem algo estranho com esse garoto. – disse a Irmã Superiora
– Também sinto a mesma coisa, senhora. O que devemos fazer com ele? – Asha estava prestando todas as cortesias com a irmã anciã.
– O que você acha que devemos fazer? Você é idiota? Leve-o para dentro. Quer que a mata acabe com a vida dele, assim desmaiado? Ande, leve-o para dentro e coloque alguma coisa para ele vestir, Lira ajude-a. Vamos! Sem demora! – a Irmã mais velha, falou rudemente com as jovens.
– Sim, senhora. – responderam quase simultaneamente Lira e Asha.
Lira pediu para uma das novas para trazer um cobertor, a garota correu bem rápido até o templo e para pegar um. Em poucos minutos já havia retornado.
– Novas, deem um jeito em um dos quarto para ele. – logo após disso, a anciã apontou para duas das pequenas – Vocês! Ajude-me a voltar, esse caminho é demais para um velho corpo como o meu.
Enquanto a senhora voltava ao templo com as novas, ambas Ashe e Lire enrolavam o corpo do homem desmaiado. Além de manter a dignidade do desacordado, ainda facilitava o transporte até o templo.
Cada uma pegou uma ponta da coberta, uma próxima aos pés e outra a cabeça, que era a única parte visível do corpo. Levando assim cerca de vinte minutos para percorrer todo o caminho.
Chegando ao destino, um quarto já havia sido arrumado para o celestial, e uma muda de roupa já tinha sido separada deixada junto com a mesa de canto. A roupa era mais uma túnica antiga feita de uma peça só, peça que poderia ser usado para ambos os sexos.
Ali as jovens deixaram o homem, em cima da cama. Ashe, ainda cautelosa, acendeu uma vela e deixou-a queimando no pé da cama, sobre o chão de pedra.
Fechou a porta e olhou para Lire, que logo soltou um suspiro.
– Que situação, Ashe... – Disse ainda confusa.
– Realmente, a situação é incomum. – disse logo caminhando para a sala do altar, fazendo Lire a seguir.
– Você acha devemos perguntar à senhora Merri como devemos agir? – Falou logo quando conseguiu acompanhar o passo.
– Não, ela também não sabe o que fazer. Devemos esperar até ele acordar.
– Talvez tenha algo haver com o Guardião, não acha?
– Sinceramente, acho que não seria possível. Mas, não podemos excluir a possibilidade, ainda não entendemos o Cosmo por inteiro. – Respondendo a pergunta calmamente.
– Mas será qu...
– Depois questionamos a situação, não teremos nenhuma resposta no momento. Agora temos que ir até as novas. A senhora não nos liberou das obrigações.
– Ah, você esta certa. – disse Lira, antes de soltar um suspiro.
– Pelo menos até agora – murmurou Asha — A senhora esta nos esperando na sala do altar.
– Não consigo deixar de invejar sua natural conexão. – disse sorridente.
– Não se preocupe, com um pouco de pratica você fará isso também com naturalidade. – falou antes de corresponder ao sorriso da irmã.
Ambas continuaram a caminhar até chega à porta que separava a sala do altar do corredor em que estavam. Ao abrir a pesada porta de madeira, lá estava a antiga anciã Merri sentada em frente ao altar, como Asha havia predito.
– Asha, fique aqui, vamos discutir algumas coisas. – disse logo que viu as duas jovens – E você Lire continue os ensinamentos das novas hoje.
– Sim senhora. – Falou Lire antes de sair do cômodo.
Um silêncio tomou a sala até depois que a jovem irmã sair. Apenas Asha e Merri se encarando uma nos olhos da outra. Até que a primeira resolveu quebrar o silêncio.
– Senhora, com todo o respeito, por que nossa irmã não pode discutir conosco?
– Porque ela ainda não é tão sensível quanto você. Enfim, o que acha daquele celestial, garota?
– Bom, é estranho, eu não senti ele por perto. Foi como um raio, ele simplesmente surgiu do vazio. E lembrando que houve de fato um clarão.
– Isso eu já sei! Quero saber, o que você acha que ele é?
– Um celestial, minha senhora.
A irmã mais velha seu um longo suspiro e fixou um olhar nervoso na mais nova.
– Assim você me desaponta garota! Não acha que tem nada de errado com ele, idiota?!
– Sim, de fato eu e a Irmã Lire notamos alg...
– Então me responda direito! Estou tentando discutir algo aqui! – Interrompeu, aumentando o tom.
A frase anterior da anciã calou Asha. A sala ficou em silêncio até que a irmã superiora decidiu continuar a falar.
– Olha, minha jovem – soando com uma voz mais tranquila – eu senti nele algo estranho assim como você sentiu. É uma sensação parecida com a de objetos amaldiçoados.
Quando as últimas palavras foram ditas, a expressão da jovem claramente havia mudado para uma expressão fechada. Ela iria dizer algo, mas antes a anciã prosseguiu.
– Calma garota – disse ao notar a mudança da face – é uma sensação parecida, mas não idêntica. O espirito dele é como uma caixa, ele guarda alguma coisa.
– Senhora, você quer dizer que ele é o portador da entidade? Em carne e osso? – perguntou agora com uma expressão de surpresa.
– Exatamente isso. O que acha?
A jovem irmã ficou quieta e pensando, andado de um lado para outro. Estava resolvendo um enigma naquele momento.
– Mas ele possui um corpo, o corpo físico não pode atravessar o Espelho. – rebatendo a afirmação de Merri.
– Mas ele não é qualquer um, não se houver uma entidade poderosa como o Guardião dentro dele – a irmã superiora fez uma pequena pausa, logo antes de prosseguir – E como ele chegou aqui como um celestial, a alma dele deve ter sido dividida.
– Tanto quanto a entidade, quanto o espirito podem ter atravessado o Espelho, isso teria dividido o espírito do portador – Falou baixo e de forma pensativa – Mas ainda sim, ele tem um corpo físico, o que não pode ser possível.
– O clarão! O clarão, pense um pouco! – interrompeu assim voltando a ficar irritada.
Asha encarava com dúvida a senhora a sua frente, esperando uma resposta.
– Minha jovem, – o tom de voz continuava alto – o clarão foi a luz da criação do corpo físico do celestial. A entidade interferiu no plano físico, de alguma forma.
– Mas ele não pode...
– Sim ele pode, mesmo que com muitas limitações, é uma entidade de criação, o Guardião, oras! Mas não se preocuparam em atuar nesse plano há muito tempo.
O silencio voltou, mas agora por outra razão. Ambas sabiam que algo muito perigoso estava por vir com esses sinais. Foi como se as duas estivessem com um grande mal estar.
– Mas são apenas teorias, esperaremos ele acordar. Vá fazer o almoço. A conversa acabou aqui. – disse antes de ir a caminho dos seus aposentos.
– Sim senhora. – Respondeu agora com um olhar preocupado na face.
Foi lentamente e com muitas duvidas para a cozinha. Conseguia sentir as novas no lado de fora com sua irmã Lire, parecia que tudo ia bem. Resolveu tentar se animar fazendo um bom almoço para tirar a cabeça dos problemas, principalmente um como aquele.
Viu que existia um bom estoque de batatas e carne de cervo. O mais óbvio era fazer tudo aquilo assado. Batatas e assadas com carne de cervo temperada.
Com cuidado temperou o cervo com alho e sal, logo depois descascou as batatas. Buscou a lenha do lado de fora para ter o fogo necessário, e por fim estava assando o grande prato.
No tempo de espera decidiu meditar, ali na cozinha mesmo. Tinha alguma esperança de achar o que estava errado com o Cosmo, mas nada conseguiu encontrar de diferente.
Quando se menos percebeu o almoço estava pronto, tinha um ótimo cheiro. Cheiro que já havia atraído todos à cozinha. As novas e Lire estavam com água na boca, todas olhavam para a panela sobre o fogo com certo brilho nos olhos.
– Andem, coloque as mesas! – ordenou Ashe com um sorriso no rosto.
Todas as curiosas foram, dando risadinhas, arrumar a mesa. Enquanto, a que cozinhou retirava a panela do fogo. Logo após de tudo feito, já estavam todas com os pratos nas mão pedindo para se servir.
– Sirvam-se meninas! – dando autorização.
As novas estavam se servindo primeiro e Lire estava no fim da fila olhando para Asha, com um sorriso no rosto.
– Quer se sentar comigo? – Lire disse convidando a irmã.
– Sim, claro. – concordou rapidamente.
A fila foi seguindo, até que todas estivessem servidas. Foram sentadas nas mesas de refeições no cômodo ao lado. As novas estavam em um lado da mesa sendo separadas das duas irmãs por algumas cadeiras vazias.
Lire e Asha estavam uma de frente para outra, deliciando-se com o prato.
– Está muito bom Asha. – falou Lire lambendo os beiços.
– Obrigada. – respondeu calmamente.
Lire fez uma pequena pausa, olhando para Lire, um olhar gentil. Como se esperasse alguma coisa ser dita.
– Como foi a conversa? Está chateada? – finalmente perguntou Lire.
– Sentiu isso e mim?
– Não precisei, conheço você. Apenas faz uma comida mais elaborada quando está triste ou preocupada.
– De fato estou. – respondeu com um olhar baixo
– Pode desabafar se quiser irmã. – Ainda continuava com o olhar gentil.
– Você sabe que eu nã...
No meio da conversa, Asha parou de falar, sentiu que o uma forte movimentação do espirito do homem no quarto. Encarou Lire, que também estava surpresa
– Sentiu isso? – falou agitada.
– Sim, não tem como não sentir, o espirito dele é bem forte.
– Vou verificá-lo – Falou para a irmã, já levantando. Porém, foi parada pela irmã.
– Calma Asha, eu vou, fique e termine de comer – se levantando.
– Eu irei com você...
– Acho melhor você ficar aqui, organize os seus pensamentos, se alguma coisa acontecer você vai saber, não é? – Pôs fim à discussão com um sorriso.
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