Crônicas Por trás do Espelho - Um mundo Novo
6 Michael III
Michael III
A cabeça girava e os pensamentos não se acertavam. Sua barriga doía muito, por sinal, a ponte de vomitar, mas era como se seu estomago estivesse completamente vazio.
Michael caiu da cama em que estava. Não conseguia se mexer devido ao lençol que enrolava completamente seu corpo. No começo nada enxergava, mas aos poucos conseguiu ver vultos, sombras e um ponto de luminosidade, percebendo logo uma vela ao pé da cama.
Caído no chão, notou que o chão do cômodo era feito de pedra. Ainda viu uma pequena mesa de canto e algumas roupas, muito velhas, que estavam separadas.
O pânico, logicamente, se instalou por completo. Não sabia onde estava, não sabia se podia gritar. Simplificando, de nada sabia ali.
E ainda, para piorar a situação, seu corpo não respondia bem, não conseguia se mexer como queria, nem ao menos para siar dos lençóis.
– Meu Deus! Meu Deus! – cochichava apavorado.
Mesmo que tinha sido só um cochicho, reparou que sua mandíbula não estava correta. Algo ali certamente não era bom. Na realidade, nunca se sentiu tão frágil e indefeso em toda sua vida.
Em conjunto com o medo crescente, uma queimação começou a surgir em seu abdômen. Em poucos momentos, o local da queimação doía como se estivesse em chamas.
Não conseguiu segurar, gritando por causa da dor que estava sentindo. Não era algo que pudesse evitar.
– “Será que me drogaram!? Onde eu estou?! Por que doí tanto?!” – era tudo o que conseguia racionalizar, em meio a sua própria agonia.
Tentou tocar o ponto da dor, mas seus membros não respondiam devidamente, tudo que conseguiu foi bater o braço em uma das pernas da cama. O melhor que fez foi se recolher em posição fetal, o que não amenizou em nada o que estava sentindo.
Sua atenção foi desviada das dores em direção da porta quando esta se abriu, conseguiu distinguir uma forma feminina, que falava algo que ele não entendia. Contudo, conseguiu ouvi-la gritar e logo apareceu uma menina pequena carregando uma jarra e a entregando.
Ela se aproximou lentamente com a jarra, revelando os cabelos loiros claros e a face amena, como se ninguém estivesse agonizando naquele quarto. Aos poucos Mike notou que a mulher era alta, tinha um rosto longo e magro.
O rosto harmonioso que presenciava, de alguma forma o acalmou o suficiente para tentar ouvir o que ela dizia.
– Eonok ret th’o – falou a mulher, lhe oferecendo a jarra com algum liquido.
– O que!? – apesar de do sorriso da mulher, a dor de Michel não havia sumido.
Depois disso ela apenas o fez beber o que havia na jarra. Não podendo se defender, já que estava com o corpo confuso e enrolado no lençol. Bevendo o liquido, reparou que era água. Ele nem ao menos respirou antes que a jarra fosse esvaziada.
A queimação foi diminuindo rapidamente a cada gole. Até que sumiu completamente junto com o conteúdo da jarra.
Ele foi relaxando, o corpo foi ficando pesado até que ficou imóvel. Sua última visão foi um sorriso amistoso da jovem ali na sua frente, antes de voltar a dormir.
Quando acordou estava novamente na cama ainda enrolado no lençol, mas não havia queimação, a dor havia ido embora. Estava aliviado, porém não tranquilo, já que não sabia onde estava e nem quem eram aquelas pessoas.
Mesmo com o corpo não obedecendo completamente, conseguiu se livrar dos lençóis com movimentos simples.
Agora, mais calmo, percebendo que estava nu, verificou e procurou por ferimentos em seu corpo, suas buscas não encontraram nada.
Percebendo que estava tudo bem, conseguiu reparar nas roupas que foram separadas para ele, estavam muito velhas, contudo, limpas. Resolveu coloca-las, o que lhe deu muito trabalho, pois suas funções motoras estavam lesadas.
Começou a analisar o quarto. Observou que só havia uma cama, uma mesa de canto e uma vela que já estava derretida pela metade, nada mais que isso. Colocando uma perna a frente da outra, conseguiu ir até a porta de madeira, que estava destrancada.
– Que lugar é esse? – indagou a si.
Ao abrir a porta, viu um corredor onde as paredes e chão eram feitos de pedra sustentadas por alguns pilares de madeira, tudo isso iluminados por tochas.
Parecia tão rústico que surpreendeu Michael, o lembrou de cenários de filmes de idade média. Ao andar, tentando não cair, percebeu várias portas semelhantes. Foi, lentamente, tentando abrir cada uma delas, mas todas estavam trancadas.
Até que chegou a frente de porta um pouco maior e mais oval que as demais, bastou um simples empurrão para abri-la. Para sua surpresa revelou uma grande sala com um altar de pedra, em frente de vários bancos de madeira, tudo parecia muito preservado.
– “Uma ruina de uma igreja? Não tem nada assim próximo da minha cidade.” – refletiu.
Sua caminhada de poucos metros, já o deixou ofegante. Não queria ficar ali, mas como não parecia ter ninguém à vista, ou especialmente alguém perigoso, resolveu sentar em um dos bancos.
Ao analisar aquele grande cômodo, notou que existia uma porta atrás do altar, ao lado da sala estava a porta que ele acabara de abrir e por fim do lado contrário do altar conseguia ver uma portão, que provavelmente era a entrada principal daquele lugar. Mas o que lhe chamou mais atenção foi o que viu nas as janelas, que deixavam a luz entrar naquele lugar.
– Uma floresta?! – Não conseguiu conter a surpresa do que ele tinha visto.
Depois dessa vista, Michael, se levantando com dificuldade, resolveu ir até a porta para sair daquele lugar. Mas foi interrompido por vários sons vindos do lado de fora.
Michael se apavorado, e sem coordenação para correr, apenas se jogou no chão para tentar se esconder entre os bancos de madeiras. Não era uma tática brilhante, mas era a única opção que ele tinha.
Ouviu a portão ser aberto, tentou controlar o sua respiração, para fazer mais silêncio. Quando ouviu vários passos se aproximando até mesmo fechou os olhos de medo. Entretanto, os sons dos passos foram diminuindo, até que o silencio total chegou.
Após esse momento, Mike se sentiu seguro o suficiente para abrir os olhos, que foi seguido de um grito e uma batida da cabeça em um dos bancos.
Era uma criança sorrindo e olhando para ele, bem de perto. Era uma menina de olhos castanhos e cabelos pretos. Que deu uma gargalhada quando o Michael bateu a cabeça. Contudo, ela não estava sozinha, em volta dele estavam várias crianças no mesmo compasso.
Resolveu se levantar, já que claramente não era uma ameaça, apenas uma grande vergonha alheia.
– “Crianças?” – foi seu primeiro pensamento quando levantou e viu todas aquelas caras sorridentes.
Conseguiu contar quinze crianças, todas eram meninas, nenhuma passava dos onze anos de idade.
Ficou observando elas enquanto elas observavam ele, por vários segundos, até que a pequena de olhos castanhos resolveu quebrar o silencio de uma maneira incomum.
– Asea turu none, none! – disse enquanto pegava na mão de Michael.
– O que você disse? – respondeu, enquanto era puxado pelas crianças. – Aonde estão me levando?
Não obteve uma resposta, resolveu seguir aquelas meninas, e se deixando ser puxado por elas. Mal conseguia manter-se em pé, mas aquelas garotas ajudaram-no a andar. Foi assim que passou pela porta que estava atrás do altar, indo parar numa outra parte da igreja.
O lugar era também sido feito como os outros cômodos, pedras sustentadas por pilares de madeira. Existia um grande forno à lenha e uma mesa de madeira enorme no canto dali.
– Então aqui é a cozinha. – percebeu logo.
As crianças começaram acomodar-se a mesa, logo Mike percebeu que o pão estava servido. Uma das meninas fez um gesto para ele se juntar a elas. E seguiu a sua fome com as meninas.
Desajeitadamente sentou-se a mesa, ainda cauteloso, só começando a se servir e comer quando viu todas as garotas fazendo o mesmo. O pão estava muito bom comeu um inteiro em pouco tempo.
Havia uma porta aos fundos da cozinha e por ela entrou outra pessoa. Era a mesma mulher que havia lhe dado água. Os seus olhos se cruzaram ela sorriu e foi até Mike.
Michael se assustou e tentou se levantar, mas ouviu mais uma vez uma frase estranha.
– Gut itg eurr acalme-se – falou fazendo um sinal de calma com os dois braços.
– Que língua é essa? O que querem comigo? Onde eu estou? – as perguntas foram saindo, antes de ele perceber que, de alguma forma, tinha entendido a ultima palavra da frase.
A mulher de cabelos loiros longos fez uma cara de dúvida, como se também não entendesse o que havia ouvido.
Todas as meninas estavam olhando para a troca de palavras entre ambos, pareciam sentir alguma graça daquilo tudo. No meio ao silêncio que ficou entre os dois, Mike resolveu repetir a palavra que ele, supostamente tinha entendido.
– Acalme-se? – Aduziu em tom de duvida. De alguma forma sabia que esse era o sentido da palavra.
– Acalme-se, Acalme-se – replicou a mulher, falando em um tom suave, balançando os braços.
– Ok, estou calmo, agora onde eu estou? – disse bem lentamente em sua língua.
A mulher fez mais uma vez uma cara de duvida, mas tentou responder a pergunta. Colocou a mão sobre o peito e falou.
– Lire.
Mike agora entendeu que este era o nome dela, estavam pelo menos tentando se entender. As crianças continuavam a rir com a situação.
– Certo, seu nome é Lire. – repetiu o gesto, colocando a mão no peito. – Michael.
– Michael? – indagou buscando uma confirmação.
– Michael! – Balançou a cabeça afirmativamente.
Lire deu um suspiro de alivio, ela também parecia estar se esforçando para entender o que ele dizia. Michael estava considerando aquela uma conversa no mínimo estranha. Até mesmo chegando a rir junto com as meninas.
Porém, as crianças pararam de rir subitamente, quando ouviram outra mulher entrar, essa pessoa lhe parecia tão estranha. Esse fato fez com que Mike arregalasse os olhos, e quase cair quando tentou se levantar.
–“Não é possível! É a fantasma!”
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