Notas iniciais
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Todo domingo era assim. Todos da pelada, que jogavam no mesmo time que o Nilo, reclamavam com ele por motivos justificáveis. Afinal, o que Nilo entendia de futebol era apenas coisa alguma. Ele era muito ruim.

Numa dessas peladas semanais, o time de Nilo era, na teoria, surpreendentemente, o melhor. Não, não por causa dele, é claro, mas por conta dos outros componentes do time, que eram os melhores dali. O tempo foi passando, o jogo foi fluindo e o time de Nilo não surpreendeu. E obviamente, a cada derrota Nilo era muito cobrado. ”Nilo perdeu aquele gol, entregou aquela bola...”.

O final do jogo, com todos já exaustos, estava ficando monótono. Até que numa bola sobrada, Nilo tinha a chance de fazer um gol: de frente pro gol, sem goleiro, a bola perfeita! Mas eis que o nosso protagonista, de uma maneira extremamente escandalosa, pisou na bola e caiu. Todos riram. Na situação em que ele sem encontrava qualquer um se sentiria humilhado. Com certeza já sairia correndo pra casa. Mas Nilo não, ele nunca desistia. Em meio a tudo isso, o melhor jogador que ali havia, veio em sua direção, estendendo-lhe a mão, pois o coitado havia ficado no chão. Ao levantar Nilo, ele disse:

—Isso foi pênalti.

Todos ficaram surpresos. Pênalti? Ele apenas havia pisado na bola e caído. Mas todos pensaram “E por que não?”. Então o mesmo jogador que levantou Nilo pegou a bola e a colocou na marca do pênalti. Pela pequena autoridade que aquele jogador tinha, podia-se pensar que os outros jogadores concordassem com ele por conta dele ser o melhor, mas eles concordaram por que sentiram pena de Nilo. Alguém que eles sempre evitaram, raramente conversava até, mas naquele momento isso tudo nada valia. Todos o olhavam e viam seu esforço, a cada bola perdida, a cada derrota, a cada xingamento, mas ninguém ligava. Tudo o que sentiam naquele momento era um sentimento de culpa. Nilo podia ser o pior jogador da pelada, talvez até da cidade, mas era difícil encontrar alguém que tivesse mais força de vontade do que ele. Mas esse sentimento de culpa que havia no coração de todos saiu pra fora em forma de gritos, pulos e abraços, ao verem a bola entrar, bem devagar, no canto contrário ao do goleiro. Gol! Gol do Nilo! Em meio a toda vibração, toda gritaria, Nilo permanecia perplexo, sem nenhuma reação de alegria ou coisa assim. Numa simples ele calou a todos:

— Como é que é?... Vamo jogar ou não?

Notas finais
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