Crônicas Do Mundo Real
8 Tempestade Sem Água
Notas iniciais
— Olha papai, aquele moço!
Parecia tão simples para aquela criança. O céu estava um pouco nublado, o que aumentava ainda mais a angústia de Leo. Há dois dias o tempo não mudava. Parecia que iria chover mais não chovia. Nem uma garoinha.
— Espere aí no batente que eu vou até lá.
Leo levantou-se e foi até a cancela que estava há uns trinta metros da casa. Ao vê-lo, o homem parou e o esperou na frente do carro, que havia sido freado bruscamente naquela terra batida.
— Então, mudou de opinião agora?- disse o homem.
O homem era de aparência velha, usava roupa e sapatos de couro e fumava um charuto caro.
— É claro que não.
— Meu amigo, olhe bem em sua volta: seu milho tá ficando seco, vocês nem são de roça e o solo precisa ser melhor tratado.
— Não posso abandonar as terras de meu pai! Vou cumprir minha palavra!
— Ora meu amigo, — deu uma longa tragada e em seguida jogou o charuto no chão, pisando-o — o velho não vai mais...
— Não diga isso!
— Calma. Eu sou um homem de negócios.
— Sei... Você só quer pisar nos pequenos.
— Ora! Eu precisei dar um rumo melhor aquelas terras. — disse sem hesitar.
Os dois pararam. Aquele homem nunca agira diferente das vezes anteriores, mas era a primeira vez que Leo notara que ele agira friamente, diante das circunstâncias. A indecisão agora já era clara. Será que seria melhor retomar sua vida na cidade e levar seu pai junto ou manteria a promessa guiando os rumos da pequena fazenda enquanto o pai estava ausente? Um mês já era tempo demais, pensou.
— Vamos homem, decida! — disse o velho.
Ele olhou em direção a porta do velho casarão. Seu menino já não estava mais lá.
— Sou fazendeiro há mais de 23 anos, eu sei como melhor aproveitar das terras.
— Bom... — ele pensou um pouco.
— Seu pai pode morar com vocês na cidade grande...
De repente um trovão é sentido. Seu filho aparece correndo em sua direção, ele estava chorando. Sua mulher apareceu na porta e gritou:
— Alisson Gomes, agora não!
Na visão de Leo, o rosto da esposa não estava muito visível. Mas ela também estava derramando lágrimas.
— Pai! — disse o menino, ao chegar mais perto dele.
— O que foi filho? — pegou-lhe no braço.
— É... — soluçou. — o vovô, ele... Morreu.
Foi um golpe fatal. O menino tinha escutado uma conversa de sua mãe com a empregada, logo após de ela ter recebido uma ligação do hospital.
— Quem te disse isso?!
— Não fale, Alisson Gomes! — insistia ela, sem sucesso.
O velho riu ironicamente. Leo não disse nada. Só olhava pra baixo. Ele sentiu uma explosão de sentimentos. Colocou seu filho no chão; ele parecia ter perdido as forças. Chorou. Pensou na decisão que tinha de tomar. O peso de minerva, que significava a morte de seu pai era grande. Só não se sabia para qual lado. Ele permaneceria longe de seu habitat de concreto, longe de sua firma e de seus amigos, deixando as terras que seu pai cuidou durante muitos anos sofrer com sua inexperiência agropecuária? Ou será que Leo voltaria com sua mulher e seu filho à rotina do dia-a-dia, deixando as terras sendo pisoteadas por milhares de bovinos insanos, aproveitando para garantir o futuro do filho com o dinheiro da venda e, por fim, magoaria seu pai, agora no leito da morte, o traindo com seu pior inimigo?
— E então?
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