Couples' Therapy
1 Capítulo 1 — "How did we end up here?"
Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Jackie e Charlie.
Quinta-feira, 18h30min.
Antes mesmo de entrar em casa, Charlie sabia que havia algo de errado.
Não era apenas seu sexto sentido ou qualquer tipo de arrepio na espinha. Era mais do que apenas pressentimentos. Seu apartamento estava escuro e pelo o que podia ver pela fresta inferior da porta, a televisão era o único emissor de luz do local. Nenhum som, porém, era transmitido.
Duas probabilidades: a primeira, para a qual Charlie torcia com todas suas forças, era que Jackie, sua namorada, estava assistindo a um filme de suspense. A segunda, por outro lado, era que algo terrível tinha acontecido. E pelo cheiro da coisa, ele era o problema.
Lentamente, Charlie destrancou a porta, abrindo-a em seguida já com um sorriso amarelo para o caso de Jackie estar olhando diretamente para a entrada. Por sorte — ou falta dela —, a garota estava encarando a televisão sem som e com uma taça de vinho na mão. A garrafa da bebida estava sobre a mesa de centro, cheia pela metade.
- Boa noite… Amor? — arriscou, depositando cuidadosamente as chaves e a maleta em cima da mesa de jantar. Em seguida, acendeu as luzes. — Está tudo bem?
Foram ao menos três minutos para Jackie demonstrar qualquer reação. Charlie engoliu seco vendo os pés dela alcançarem o chão com tanto cuidado e planejamento que pareciam até ser feitas de vidro.
- Diga-me você se está tudo bem. Eu deveria me preocupar com algo neste lindo dia, Charlie? — ela sorriu cinicamente, já de pé e o encarando.
- Bem, acho que a pergunta aqui seria… Você acha melhor eu correr agora ou depois?
A taça ainda deslizava pelos dedos finos dela. Charlie não tinha curiosidade alguma em descobrir o quão longe e quanto de estrago aquele pequeno pedaço de vidro podia fazer.
Felizmente, Jackie colocou a taça de volta ao seu lugar, ao lado da garrafa de vinho, antes de começar o que viria ser a briga mais duradoura da vida de Charlie.
- Olhe pra mim. Eu sou loira, peituda e bunduda? Uso batom mais vermelho e brilhante que o da cor do McDonald’s?
- Eu não… — ele estava confuso. Jackie esticou a mão em sinal de “pare”.
- Responda a pergunta. — demandou.
- Não.
- Você está certo. Eu não sou assim, muito pelo contrário. Sou uma mulher que tem muito autorrespeito para andar por aí como uma prostituta e olha que nem é de luxo. — ela continuou, caminhando de um lado para o outro e gesticulando sem parar. Charlie apenas ficou parado, observando-a com os olhos alertas.
Qualquer movimento em falso e as coisas poderiam começar a sair voando.
- E você, querido... Você precisa de óculos. Ou de uma dose de “semancol” mesmo, pois ao que parece, você tem plena consciência de que a garota com quem você conversava hoje não era sua namorada. — ela parou. Suas mãos estavam posicionadas na cintura e sua cabeça pendia levemente para o lado. Seus olhos pareciam estar em chamas.
Daqui para a frente, Charlie sabia muito bem que a coisa toda só iria para baixo.
- Eu preciso mesmo perguntar: do que raios você está falando, Jackie?
Ela riu com escárnio, até mesmo jogando a cabeça para trás forjadamente.
- Nenhum palpite, Cooper? Suas engrenagens estão um pouco enferrujadas demais para alguém que se titula advogado.
Ele arregalou os olhos.
- Mellanie. — murmurou.
- Então a biscate tem nome, veja só. Adoro quando as pessoas dão nomes para as galinhas descaradas. — ela fitou suas unhas, praticamente roídas até a ponta do dedo. Tinha mania de roê-las toda vez que ficava nervosa.
- Jackie… — ele apelou pela piedade. — Por favor...
Estava exausto do trabalho, seu corpo fedia a café que acabara derrubando em si mesmo acidentalmente e sua cabeça iria explodir a qualquer momento se não tomasse uma aspirina e deitasse em sua cama para dormir. A última coisa que precisava naquele instante era de uma briga por puro ciúmes da garota, mais uma vez.
Entretanto, Jackie não iria ceder. Mais uma vez.
- Certo. — ele suspirou vendo que não teria outra saída. — Mellanie é uma amiga do meu chefe e ela estava me pedindo para tomar o caso de uma colega de trabalho dela. Contou-me que o Sr. Dummer me indicou.
- E por que eu nunca a conheci?
- Vamos lá, Jackie. Pare com isso. Ela só é uma amiga e fim de história. — ele soltou um bocejo entre as palavras. — Estou cansado e tudo o que eu queria era ir dormir.
- Quanta consideração pela namorada.
- “Consideração”? Eu quem diga, certo? — disse ele, a raiva subindo pelas suas veias e o sono desaparecendo quase que instantaneamente. Se discussão era o que ela queria, então era o que teria. — De sete dias da semana, em oito você vem com esse papo pra cima de mim. Todo santo dia é a mesma conversa que sempre segue o mesmo rumo. Volto cansado do meu trabalho, Jackie, e ainda assim você quer arranjar encrenca. Não me fale de “consideração” porque a única pessoa que não tem aqui é você.
- Você já se perguntou em como eu me sinto quando vejo você com outra mulher, Charlie? Já parou pra pensar que talvez eu só esteja com medo de te perder pra outra? — agora ela berrava.
Os vizinhos acabaram de ganhar na loteria.
Só que ao contrário.
- Já, Jackie! Já pensei mil vezes e sabe o que eu percebi? Que nunca lhe dei motivos para duvidar de mim. Você fica procurando motivos porque quer achar um! — ele também aumentou o tom da voz. — Chega desses seus dramas desnecessários! Será que é pedir muito?
Ela deu um passo para trás com a mão sobre o peito, como se tivesse sido atingida por uma bala no local. Sua expressão era de ao mesmo tempo indignação e dor.
A gritaria iria acabar; Charlie sabia que ia. Mas ela o pegou de surpresa quando simplesmente esticou o braço e apontou para a porta, dizendo:
- Fora.
- Jackie… — ele estava completamente sem reação.
- Já que você cansou dos meus “dramas desnecessários”, vá embora. Dessa forma, você poupará seus ouvidos de ouvir mais besteiras vindas da minha boca. — ela manteve a pose séria e dura como pedra. — Saia da minha casa.
- Nossa casa. — corrigiu-a.
- Só vá embora.
- Está bem, eu vou. — ele cedeu com as mãos para o alto. Ainda estava incrédulo com toda a situação. — Você precisa ficar sozinha.
Dentro de quinze minutos e com uma mala pronta — tinha a impressão de que não voltaria tão cedo para casa —, Charlie deixou o apartamento. Assim que sumiu atrás da porta, Jackie alcançou seu celular o mais rápido que podia e digitou os prováveis únicos números que decorara em sua vida inteira.
.+*+.
Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Hilary e Ashton.
Quinta-feira, 19h10min.
- Alô, Jackie? O que aconteceu? O Charlie o quê? Respira fundo e me conta, sem chorar. — Hilary fez o movimento de inspirar e expirar, mas então percebeu que Jackie não podia lhe ver. Parou imediatamente. — Ele te traiu?! Que história é essa? Ah, então ele estava falando com uma garota bonita e… Ok, uma garota que parecia uma puta… Jackie! Ele beijou ela, por acaso? Responda a pergunta. Isso é puro ciúmes, sabia? Eu sei que ele atrai esse tipo de mulher, você já me disse umas cem vezes. Olha, Jackie, Charlie te ama e jamais lhe trocaria por outra. Eu sei disso. Porque eu o conheço desde sempre!
Os planos de Hilary de ir até a pizzaria e comprar algo para ela e Ashton, seu namorado, haviam ido por água abaixo. Todo seu tempo, a partir dali, seria direcionado à Jackie e apenas Jackie, que agora chorava desesperadamente de novo.
- Por que você o expulsou de casa?! JACKIE! Você nem deixou o pobre coitado se explicar... Ah, certo. Você deixou, mas preferiu não acreditar. Deus do céu, Jackie, controle-se. Tudo bem, eu chego aí em dez minutos. Tá, quinze. Eu passo na padaria e compro um pote de sorvete de pistache. E muffins de blueberry. Você quer desabafar ou enfiar a padaria inteira dentro do seu estômago?! Está bem! Eu compro. Te vejo daqui a pouco. Beijos. — encerrou a chamada.
Não podia dizer que aquilo era inusitado. Para ela, receber ligações desse tipo da melhor amiga era mais frequente do que sua troca de sutiã. Na semana que Jackie não ligasse, presumia que a garota devia estar morta ou sem sinal, carro ou chave de casa. Se bem que Hilary não duvidava que Jackie poderia até mesma arrombar a porta se fosse preciso.
- Muffins, sorvete, cookies, chocolate… — ela murmurava ao passo que procurava sua bolsa no meio da bagunça infinita de seu pequeno apartamento.
Ashton era sinônimo de desordem e ela não costumava ajudar muito nisso.
- Hilary. — alguém a chamou da porta, forçando-a virar seu rosto naquela direção.
Falando no tal… Ele estava de pé no corredor da entrada com um buquê de flores — rosas amarelas, as preferidas de Hilary — e um balão rosa de gás hélio em formato de coração. A água da chuva escorria por toda a extensão de seu corpo, assim como pelos presentes que trouxera.
Uma onda de preocupação passou pela garota. O que tinha esquecido?
- Onde você está indo? — indagou ele com o cenho franzido.
- O quê?
- As chaves do carro. Você está com elas.
- Ah. — ela deu um sobressalto, acordando do transe. — Jackie… Ela precisa de mim.
- E quando é que ela não precisa? — os músculos de Ashton relaxaram. Hilary não havia percebido que ele estava tão tenso. — Você disse que era nosso aniversário de namoro?
Xeque-mate! A Rainha tinha sido derrubada.
Então era para isso que ele quisera sair sem ela. E, teimoso do jeito que era, não levara o guarda-chuva consigo ou o carro. Ainda assim, dera um jeito de conseguir as flores preferidas da garota e um balão. Tomara uma pancada de chuva e ela sabia que a última coisa que ele faria era reclamar disso.
E ela tinha planos para comprar pizza, metade havaiana e metade pepperoni, assistir a um filme qualquer e dormir. Talvez até uma partida de baseball no Nintendo Wii viria a calhar.
Como é que ela podia se esquecer de algo como o aniversário de três anos de namoro? E o pior de tudo é que Ashton lembrara, portanto nem podia entrar em um consenso com o cara.
Ela estava tão ferrada.
- Você se esqueceu, não foi? — disparou ele assim que percebeu que ela ficara sem reação.
- Desculpe-me, Ashton. — ela tentou alcançar sua mão, mas ele afastou-a. A expressão dele era de profunda dor, fazendo-a sentir uma culpa ainda maior.
- Salve suas desculpas. Sua bolsa está no braço do sofá. — ele deixou o buquê molhado em cima da mesa. O balão flutuou direto para o teto. — Vá pra casa de Charlie. Jackie precisa de alguém, como você mesma disse.
- Eu posso ligar para ela e dizer que não posso ir, assim…
- Agora não precisa mais, Hilary.
Ouch. Um tapa doeria menos.
Ashton não falou mais ou sequer olhou diretamente para o rosto da namorada. Em vez disso, foi até a lavanderia para deixar suas roupas encharcadas, deixando Hilary com um fardo enorme sob suas costas e uma culpa tão pesada quanto uma bigorna.
Quando voltou para a sala só vestido sua roupa de baixo, a garota ainda estava lá.
- Se está esperando um pedido de desculpas, então vai esperar a vida inteira porque não vai acontecer.
- Ashton, não é isso…
- Você sabe, Hilary. Você sempre arranja um jeito de fazer eu me sentir culpado e pedir desculpas mesmo quando a culpa não é minha. — ele estalou os dedos. — Eu não sou manipulador.
Hilary piscou os olhos várias vezes, incrédula.
Aquilo era como um grito de guerra.
- Oi?
- Agora vai me dizer que só queria fazer as pazes, mas eu que não deixo.
E eis o primeiro ataque.
- Se você fosse um pouquinho menos cabeça-dura, nós dois não estaríamos nessa situação agora. — a coisa ficara séria. As mãos de Hilary foram para a cintura. Ashton revirou os olhos.
- Se você tivesse um pouquinho mais de consideração pelo nosso namoro, nós dois não estaríamos nessa situação agora. — ele rebateu no mesmo tom que ela.
Soldados, preparem-se para o combate!
- Eu já disse que sinto muito! Desculpe por ter esquecido, já não é o suficiente? Você quer que eu chore até meu corpo ficar sem água disponível? — ela puxou o cabelo para trás.
- Não é essa a questão, Hilary! — berrou ele, também mexendo no cabelo molhado. — Se ponha no meu lugar e vê se você gostaria que eu tivesse esquecido.
- Eu não o faria o que você está fazendo comigo, atirando as coisas na minha cara! — ela também aumentou o tom da voz.
- Tem razão. Você faria pior!
Encararam-se, os peitos subindo e descendo rapidamente por conta da raiva. Hilary esperou seus batimentos voltarem ao normal antes de falar, calmamente:
- Sabe, eu deveria ter deixado a casa antes mesmo. Não valeu a pena ter insistido um pouco mais pelo seu perdão. — ela tomou sua bolsa e a chave do carro. Ashton abriu a porta do apartamento.
- Por favor.
Ela quis gritar com ele novamente, mas percebeu que não valeria a pena comprar mais uma discussão. Portanto, resumiu-se a ignorá-lo e deixar o apartamento o mais rápido possível.
Logo que entrou no elevador, recebeu uma mensagem de Jackie.
“Quinze minutos uma ova, Belrose. Ainda estou esperando ansiosamente os meus Oreos.”
Se ao menos ela soubesse…
“Houve um distúrbio. Estarei aí em quinze minutos.”
A resposta não demorou a chegar.
“Desta vez é melhor que sejam quinze minutos mesmo. Tenho planos para nós.”
Mesmo com toda a névoa sobre sua mente e todas as lágrimas que queria derrubar por conta do estresse anterior, Hilary não pode evitar um pequeno sorriso de canto. Seja lá quais fossem os planos de Jackie, eles nunca envolviam coisas normais e dessa vez não seria diferente.
.+*+.
Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Jackie e Charlie.
Quinta-feira, 20h00min.
- Quem é vivo sempre dá as caras, não é mesmo? — disse Jackie ao abrir a porta para Hilary.
- Não é “quem é vivo sempre aparece”? — a outra fez uma careta confusa.
- Tanto faz. — Jackie deu de ombros e tratou de ajudar a amiga com as sacolas.
Apesar do atraso de quase meia hora, Hilary era bem eficiente. Oreos, Skittles, muffins, Doritos, três potes pequenos de sorvete, brownies, Sour Patch Kids, barras do Hershey’s e Milka, Cheetos, Funyuns, Springles eram algumas das inúmeras porcarias que a garota comprara. A cozinha agora estava congestionada.
Jackie pegou um pacote grande de Doritos e despejou numa tigela, fazendo o mesmo com os Skittles. Logo em seguida, alcançou dois dos três potes de sorvete e duas colheres. Por fim, colocou duas latas de energético na bandeja e foi para a sala acompanhada de Hilary.
As duas se sentaram no tapete, abriram as bebidas e começaram a comer enquanto uma contava a outra sobre suas respectivas brigas com os namorados.
Quase meia hora depois, ambas estavam a par das situações.
- Você me disse que tinha planos para nós… Seriam esses planos comer besteira até acabar chorando de arrependimento no outro dia? — indagou Hilary, enfiando mais um dorito dentro da boca. Jackie riu alto.
- Parte dele.
- E qual é a outra parte?
Em vez de responder, Jackie levantou-se e caminhou até a mesa, onde pegou algo. Então voltou e entregou uma revista para Hilary. Estava aberta numa página que tinha o título: “Por que não tentar?: Terapia para casais”.
Aquilo só podia ser brincadeira.
- Antes de você pirar e começar a me interrogar, estou falando seríssimo. — Jackie fez um “pare” com a mão. — Eu li o artigo e percebi que essa é a melhor solução para os problemas dos nossos relacionamentos com os garotos.
- Jackie…
- Shh, ainda estou falando. — ela colocou a mão sobre a boca de Hilary. — Você e Ashton, eu e Charlie, nós precisamos disso. E não é coisa de louco ou de gente desocupada.
- Posso falar? — disse Hilary com a voz abafada. Jackie assentiu e retirou sua mão da boca dela. — Honestamente, você acha que isso vai dar certo?
- Sim.
Hilary a encarou com as sobrancelhas levantadas; estava incrédula. Aquela era, de longe, a ideia mais maluca da amiga.
E olha que Jackie já havia convencido ela a gritar que estava grávida no meio da loja de sapatos para que as duas pudessem usar a fila para gestantes.
- Por favor, Hilary! Você tem que confiar em mim. Tenho cem por cento de certeza de que vai funcionar! — a amiga a sacudiu de um lado para o outro, choramingando.
- Cem por cento? — ela levantou uma das sobrancelhas.
- Tá, oitenta por cento. — Jackie revirou os olhos. — Por favor, por favor, por favor!
- Ok! Pare antes que eu vomite tudo o que comi. — Hilary a afastou com as mãos. — Não acredito que vou dizer isso, mas… Tudo bem, Jackie. Se significa tanto assim pra você e os garotos aceitarem também, nós podemos tentar.
- OBRIGADA! — gritou Jackie, estalando um beijo na bochecha da amiga.
Hilary balançou a cabeça, rindo. Era loucura, mas talvez tivesse um fundo de verdade.
Antes de poder voltar para seu lugar no tapete, Jackie a cutucou.
- Só mais um favor.
- Diga.
- Você que vai contar pra eles.
Atirar pessoas do quarto andar de um prédio não era homicídio, era?
.+*+.
Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Hilary e Ashton.
Quinta-feira, 19h50min.
Alguém pode explicar o grande prazer das pessoas em tocar na sua porta quando você está no meio de um banho/show particular?
- JÁ VOU! — berrou Ashton, desligando o chuveiro e secando o seu corpo o mais rápido que conseguia.
Toda a discussão com Hilary e principalmente a tristeza que sentira o arrastou direto para o banheiro, debaixo da água — dessa vez, quente — por longos quinze minutos.
Eram nessas horas que ele gostaria de ter uma banheira e várias daquelas bath bombs coloridas e aromatizadas para poder relaxar completamente. Em vez disso, ele ganhou um belo escorregão no corredor enquanto corria para o seu quarto para vestir alguma roupa.
A Lei de Murphy tem os seus favoritos.
- EU JÁ… Charlie, o que está fazendo aqui? — ele se interrompeu ao ver o moreno jogado em seu sofá e já com uma lata de Coca Cola na mão.
Tanto a cerveja quanto os energéticos ou Smirnoff’s tinham acabado.
- Acabei de me lembrar que eu tenho a chave do seu apartamento. — declarou o outro, dando de ombros.
- Eu só não te assassino porque estou cansado demais para isso. — Ashton terminou de vestir a camiseta e tratou de se jogar ao lado do amigo no sofá. Abriu a outra lata que estava em cima da mesa de centro. — Quer me contar o que aconteceu?
- Você deveria estar comemorando seu aniversário de três anos de namoro. O que aconteceu com você e a Hilary, essa é a verdadeira pergunta aqui. — Charlie levantou uma das sobrancelhas.
- Até você lembra, mas a Hilary não. — o loiro bufou. — Espera. Se você sabia, então por que ainda assim bateu na minha porta?
- Hilary é uma das únicas pessoas em Nova York que tem um carro e que realmente o usa. Não foi difícil ligar os pontos quando vi que ele não estava no lugar de sempre.
- Certo. — Ashton riu. — O que aconteceu foi...
E então ele explicou toda a cena de quase uma hora atrás. Não levou muito tempo e logo Charlie também contava sua situação com Jackie e de como ela o expulsara de casa.
- Isso explica a mala. — concluiu Ashton. Charlie assentiu.
- Estou me autoconvidando para ficar no seu apartamento.
- E se Hilary voltar?
Charlie encarou a televisão desligada.
- Ela não vai, eu tenho certeza. Jackie não vai deixar.
Ashton não discutiu. Ainda que não quisesse admitir, o moreno estava certo.
- Bem, eu estava pensando no chuveiro…
- Você pensa?
- Vai ver se eu to na esquina, Cooper. — Ashton revirou os olhos, provocando risadas em Charlie. — É, eu penso. E eu acho que cheguei a uma boa solução para resolver nossas DRs.
Uma faísca de curiosidade passou pelos olhos de Charlie.
- E o que seria?
- Terapia para casais.
.+*+.
Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Jackie e Charlie.
Quinta-feira, 20h10min.
- Nem sob o meu cadáver à sete palmos de terra, Jacqueline Dunn!
- Por favor, Hilary! Você precisa fazer isso por mim.
O cenário era um tanto engraçado. Hilary andava de um lado para o outro, gesticulando nervosamente e alternando entre gritos e resmungos obscenos. Jackie, por outro lado, estava no encalço da amiga e tentava convencê-la com choramingos. Se ao menos conseguisse fazê-la virar para si, usaria seu melhor olhar de Gato de Botas.
- Nem pensar, Jackie!
- Eu te imploro. Faz isso por mim, por favorzinho?! — Jackie juntou as palmas das mãos em forma de reza. — Você me deve essa!
- Pardon? — Hilary virou-se e colocou a mão sobre o peito, movendo a cabeça para trás.
Jackie deu um sorriso sacana e apontou o dedo em direção ao rosto da amiga.
- Último sábado, Benihana. — disse ela, movendo-se lentamente, ainda com o dedo apontado no rosto de Hilary. — Você foi cantada por um cara e pra se livrar dele, teve que pegar o telefone dele. Mas pra não arranjar confusão com o Ashton no meio do nosso restaurante preferido, você pediu para quem fingir que tinha sido cantada?
- Jackie, eu me lembro…
- Quem, Hilary? Quem fingiu por você? — ela aumentou o tom de voz. Hilary bufou antes de responder:
- Você, Jackie. Você se ofereceu.
Ela guardou o dedo indicador e esfregou as palmas como se estivesse satisfeita. Pegou o telefone, entregando-o à Hilary em seguida.
- Ainda acho esse sistema e toda essa chantagem injusta. — a garota suspirou, tomando o aparelho das mãos de Jackie. — Jackie, uma última pergunta antes de eu ligar para os garotos.
- Sim?
- Por que eu tenho que ligar nesse exato momento?
- Porque… Porque eles merecem saber agora, oras essa. Quer motivo melhor que esse? — Jackie cutucava os dedos nervosamente, o que só aumentava a certeza de Hilary de que a amiga havia feito alguma coisa que com certeza não iria gostar.
- Jackie. A verdade. — insistiu Hilary.
Os olhos de Jackie se desviaram para a sacada. O quão alto poderiam ser quatro andares?
- Eu posso ter, hm… Posso ter marcado uma consulta para amanhã com uma terapêuta. — ela praticamente sussurrou.
Os vizinhos certamente precisariam de um aparelho auditivo depois daquele dia.
Fale com o autor