Couples' Therapy

2 Capítulo 2 — "Sugar, we're going psychological"


Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Jackie e Charlie.

Quinta-feira, 20h25min.

– Mais uma vez… Por que mesmo que eu tenho que ligar para eles? — disse Hilary, colocando ênfase no “eu”.

– Porque eu não estou falando com o Charlie e ele é o racional dos dois, então é com ele que nós precisamos falar.

– Eu até diria “ei”, mas nós duas sabemos que não valeria a pena. — ambas riram.

Quinze minutos de gritaria com direito à participação da vizinha do andar de cima, a Sra. Duncan, levaram-nas apenas a uma situação de impasse: sentadas no tapete, colocando todos os doces possíveis dentro da boca e encarando o telefone, como se esperassem que a resposta para seus problemas magicamente aparecesse no aparelho.

– Você tem que ligar, Hilary. — afirmou Jackie mais uma vez. — Charlie não vai falar comigo e alguma de nós tem que avisá-los sobre a consulta de amanhã.

Ah, certo. A história da consulta marcada sem o consentimento de Hilary, Charlie ou Ashton.

Durante a gritaria, Jackie contou tudo. Há algumas semanas, tinha visto a terapêuta em um talk show, onde ela explicava sobre como suas consultas funcionavam e o porquê alguns casais com problemas deveriam considerar a terapia. Dias depois, encontrou uma matéria em um site com a mesma psicóloga, a Dra. Martin. Por fim, um pouco antes de brigar com Charlie, o anúncio na revista.

Para Jackie, aquilo era um sinal do destino e ela não costumava ignorá-los — o que para Hilary era, de certa forma, ridículo desde a vez em que ela insistira que tinha que ir a uma vidente e quando foi, não gostou das previsões da “maga” e saiu correndo antes que pudesse pagar a sessão.

Resumindo: a tal Mãe Lolita era uma traficante de drogas que vendia seus “amuletos da sorte” após o final de cada sessão, facilitando e muito o lado de Jackie quando ela denunciou a mulher na delegacia por, de acordo com ela, “mentir sobre sua magia”.

Pelo menos, Jackie não foi taxada de maluca, mas sim de “cidadã exemplar”. Até hoje ela guarda um certificado que ganhou do policial.

Destino e traficantes à parte, Jackie imediatamente marcou uma consulta com a Dra. Martin enquanto esperava por Hilary e pela comida, alegando que se não fizesse tal coisa, nenhum deles jamais aceitaria. A lógica era forçá-los a uma primeira sessão e caso não gostassem, não teriam que ir mais.

Isso era de longe a surpresa mais inesperada de Jackie. Nem mesmo quando ela trouxe um camelo para casa foi tão chocante.

É, Jackie tinha um longo histórico.

– Você acha mesmo que eles vão aceitar uma coisa dessas? Melhor: você acha mesmo que Charlie vai aceitar isso? Porque do jeito que eu conheço o Ashton, ele não vai pensar duas vezes antes de concordar. — Hilary apontou o telefone para a página da revista que tinha o anúncio da Dra. Martin.

– Se você disse sim, então ele também vai. Vocês são iguais. — disse Jackie. — São dois cabeças duras.

– Você quis dizer “maduros”. — corrigiu Hilary.

– Não, eu quis dizer cabeças duras mesmo.

A face de Hilary se contorceu em uma careta ofendida.

– Olha, Hilary, eu sei que já nos meti em todo o tipo de confusão possível nessa vida, mas eu prometo que isso vai dar certo e você não vai mais precisar aceitar minhas ideias "malucas". — Jackie indicou as aspas com as mãos.

– Você disse isso na última vez, quando sugeriu que cobríssemos o apartamento com papel higiênico porque não queria sujá-lo. — os olhos de Hilary se estreitaram, encarando a amiga, incrédula.

– Eu estava sem tempo para limpar e a mulher estava querendo cobrar trinta dólares por hora! Isso é mais do que um roubo! — a outra argumentou, sua voz afinando à medida em que pronunciava cada palavra. — Teria sido uma boa ideia se o papel não tivesse acabado.

– Nem se você cobrisse o chão com toalhas teria sido uma boa ideia, Jackie. — disse ela, logo se retraindo ao perceber o sorriso que brotava no rosto da garota. — Não pense nisso.

– Tarde demais.

– Charlie vai querer me matar. — ela suspirou, mas Jackie só deu de ombros. — Chega de te dar mais ideias malucas e vamos ligar logo para eles.

– Eu te convenci? — disse a outra, surpresa.

– Sim… Digo, não sei. Talvez seja apenas um momento de insanidade mesmo.

– Não importa. Vamos aproveitar esse momento de irracionalidade antes que ele passe. — Jackie pegou o telefone da mão de Hilary, que mal teve tempo de protestar pois o aparelho voltara rapidamente para sua posse.

Ela até iria questionar, mas quando se tratava de Jackie, nada funcionava de forma lógica.

Aguardou Charlie ou Ashton atender a linha com os olhos fechados. Se os deixasse abertos, Jackie a arastaria para o fundo do poço da ansiedade junto com ela. Preferiu mantê-la fora de vista e respirar tranquilamente enquanto pensava nas exatas palavras que diria quando algum deles atendesse.

Quando estava na metade de seu discurso de explicação do porquê aceitara a maluquice de Jackie, a voz de Ashton surgiu do outro lado da linha.

– Alô?

.+*+.

Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Hilary e Ashton.

Quinta-feira, 20h20min.

– Essa sua proposta… Eu nem sei por onde começar, Harris. — Charlie titubeava, seu rosto apoiado em seus braços que, por sua vez, apoiavam-se em seus joelhos. A posição o obrigava a encarar os próprios sapatos personalizados pela sujeira que a chuva em conjunto com o vento arrastara. — Você usa seu tempo ocioso no chuveiro pra pensar nessas coisas?

– Acredite em mim quando eu digo que essa foi a melhor ideia de todas que eu já tive debaixo da água quente. — disse Ashton. Encontrava-se praticamente com a mesma postura que o amigo, porém suas mãos estavam entrelaçadas e sua cabeça, levantada. — A segunda, na verdade. A primeira foi quando eu decidi pedir a Hilary em namoro.

Charlie virou o rosto para encará-lo. Incrivelmente não estava incrédulo.

Conhecia Ashton há tanto tempo que nem se preocupava mais com os comentários alheios do garoto.

– E o que te faz pensar que essa foi a sua melhor ideia de todas? Desculpe, a segunda melhor. — indagou com as sobrancelhas levantadas.

– Para mim parece uma saída viável para nossas DRs. — Ashton coçou o queixo e encarou o nada a fim de lhe dar uma aparência sábia. Charlie segurou a risada. — Acredito que apenas profissionais conseguirão nos ajudar.

– Eu concordo, Ashton. — Charlie balançou a cabeça em concordância com um sorriso zombeteiro. — Só mesmo um profissional da área da psicologia vai conseguir entender o que se passa nessa sua cabeça.

Dito isso, ele deixou a risada escapar em um tom bem alto. Ashton rolou os olhos antes de dar um tapa nos braços dele, fazendo-os se desequilibrar e deslizarem pelos joelhos. Por pouco Charlie não beijou a mesa de centro.

Mesmo assim, o acidente não o deteve de continuar gargalhando.

– Eu só queria um momento, SÓ UM MOMENTO de pura reflexão filosófica e sábia e você tinha que ser um idiota, não tinha? — resmungou Ashton cruzando os braços e colocando sua melhor expressão facial de “eu odeio o mundo”.

– Harris, por favor. — disse Charlie com dificuldade. Tentava recuperar o fôlego e limpava algumas lágrimas que escapavam. — Se eu não estragasse seu barato, eu não seria o Charlie Cooper que você conhece.

– Poupe-me, Cooper. — Ashton fez um sinal de “pare” com as mãos. Sua cabeça estava virada para o lado oposto, que Charlie supôs ser um efeito de drama que o amigo queria dar à cena. — Poupe-me de suas palavras.

Ashton só não era a verdadeira drama queen porque Jackie já havia ocupado aquela posição. Ele, portanto, preenchia o cargo de drama llama. E Charlie e Hilary eram os mediadores.

Certamente Charlie era agradecido pelo universo não ter optado por unir Ashton e Jackie como um casal. Aquilo provavelmente resultaria numa Terceira Guerra Mundial.

– Então? — Ashton o cutucou, trazendo-o de volta para a realidade.

– Então o que, cara? — ele franziu o cenho.

O loiro sentiu vontade de fazer um facepalm, mas o segurou. E Charlie ainda se autodenominava “mentalmente rápido”.

– Terapia de casais, Charlie.

– Ah. — o outro ajeitou sua postura como se tivesse acordado de um transe. — Ainda tenho minhas dúvidas se isso vai dar certo.

– Seja otimista pelo menos uma vez na vida, Cooper.

– Essa terapia seria com nós quatro todos juntos no mesmo horário ou separados? — indagou Charlie, ignorando o comentário do amigo.

– Acho que separados, né?

Desta vez, o olhar que Charlie mandou para Ashton tinha uma grande quantidade de incredulidade.

– Você não pesquisou nada?

Ashton encarou suas mãos que mexiam nervosamente.

Charlie piscou lentamente, respirando fundo antes de começar seu sermão.

Salvo pelo gongo, o telefone começou a tocar, forçando o garoto a se levantar depressa para atendê-lo. Antes de pegar o aparelho, disse rapidamente:

– Já disse que tirei a ideia do meu precioso tempo debaixo do chuveiro. — Charlie estava prestes a lançar seus xingamentos, porém Ashton apontou para o telefone em seu ouvido. — Alô?

– Ashton! É a Hilary. O Charlie está?

.+*+.

Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Hilary e Ashton.

Quinta-feira, 20h40min.

– É pra você. — Ashton esticou o braço com o telefone na mão.

Só pelo tom irritado, Charlie já deduzia quem estaria do outro lado da linha — e tinha que admitir que estava surpreso e ao mesmo tempo assustado. Hilary nunca ligava após uma briga, a não ser…

Oh não.

– Alô, Hilary? É o Charlie. — atendeu, olhando para Ashton com o cenho franzido. Esse, no entanto, estava com cara de desdém.

– Charlie, nós- AI! – ela soltou um grito de dor, provavelmente resultado do tapa barulhento que Jackie lhe dera. — Eu preciso falar com você e Ashton sobre uma coisa importante. Você pode colocar no viva-voz?

Antes de responder, Charlie cobriu o microfone com a mão e sussurrou para Ashton.

– Ela quer conversar com nós dois no viva-voz.

– E desde quando você pede minha permissão pra fazer as coisas?

– Desde que vocês brigaram hoje e eu assumi que você não queira falar com ela, talvez? — disse Charlie com cinismo.

– Faz sentido. — Ashton deu de ombros, fazendo o outro revirar os olhos. — Pode colocar no viva-voz.

Perguntara por pura educação, mas Charlie sabia a resposta desde o começo. A curiosidade, na maioria das vezes, falava mais alto do que o orgulho no caso de Ashton.

E sem mencionar que de qualquer forma, ele acabaria ouvindo a conversa, grudando a orelha no telefone. Hilary apenas tinha facilitado as coisas.

– Estamos no viva-voz. — anunciou Charlie ao apertar o botão da tal função.

– Obrigada. – Hilary agradeceu. Sua voz agora tomava conta do apartamento. — Antes de começar, gostaria de dizer que a ideia foi inteira e completamente da Jackie.

– HILARY! — Jackie resmungou alto, forçando os dois garotos a tapar as orelhas. Elas provavelmente também estavam no viva-voz.

– Você me pediu para dar o recado e não para assumir a responsabilidade!

– Achei que estivesse implícito!

– Qual é a emergência? — Charlie deu um quase grito a fim de impedir Hilary de começar um sermão. E funcionou, já que as duas se calaram imediatamente. — O que vocês fizeram com o meu apartamento?

– Primeiro de tudo, nosso apartamento. – disse Jackie na defensiva. É, estavam definitivamente no viva-voz. — E segundo, nós não fizemos nada com ele.

– Agradecemos pelo voto de confiança, Charlie. – Hilary usou o tom sarcástico.

– Em defesa ao Charlie, vocês já quebraram uma lâmpada, o aparelho de DVD, entregaram um perfurador de parede nas mãos de uma criança, entupiram a pia e alagaram a cozinha, derrubaram uma porta, embora nós ainda não saibamos como vocês fizeram isso. — Ashton numerava com os dedos enquanto falava. — Também já…

– Vocês entenderam! – Jackie o interrompeu de forma desesperada. Os dois garotos seguraram uma risada baixa. — O ponto é: nós não fizemos nada dessa vez, está bem?!

– É um alívio. — Charlie admitiu.

E era mesmo. O número de desastres causados por Jackie e Hilary (sem contar os seus e os de Ashton também) em seu apartamento já estava em algum lugar entre as casas do 20 e 30. O lugar já não era um hotel cinco estrelas e muito menos o que eles imaginavam que teriam quando decidiriam morar juntos, mas era o que podiam pagar… Quando pagavam.

Os dias de visita do proprietário eram provavelmente os piores dias do ano. Ele era um cara barbudo de algo por volta dos 34 anos, hippie e que provavelmente cultivava marijuana, já que sempre cheirava a maconha. Sorria, dava uma olhada de canto de olho e os desejava "paz e amor" antes de ir embora.

O problema, no entanto, não era ele. Era o seu melhor amigo, que também era dono do apartamento. Esse sim realmente avaliava o local, fazendo-os entrar em desespero e sair escondendo todos os buracos, arranhões e queimaduras que conseguiam um dia antes de sua visita.

Certas marcas nunca poderiam ser vistas.

Recordou-se de uma vez em que Ashton teve a grande ideia (sarcasticamente dizendo) de brincar de vôlei com uma bola que encontraram na rua e balançou a cabeça, rindo baixo.

À princípio, foi uma boa sugestão... Até eles formarem um amasso na parede e então acertar a janela aberta depois disso. Nada que um belo quadro não poderia esconder.

– E qual é a notícia então? — indagou Ashton, quebrando o silêncio.

– Ah, certo! – exclamou Hilary. — Jackie encontrou uma forma... Inusitada para resolver nossos problemas como casal.

A primeira reação dos dois garotos foi olhar um para o outro. Então, calma e desconfiadamente, Charlie perguntou:

– E qual seria essa solução?

– Terapia de casais.

Uma bola de vôlei na sua cabeça agora não seria tão mal.

.+*+.

Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Hilary e Ashton.

Quinta-feira, 20h55min.

– Vocês dois, por acaso, têm alguma conexão entre suas mentes? — disse Charlie incrédulo.

– Como assim?

– São dois malucos idênticos, mas de endereços e gêneros diferentes. — ele continuou, ignorando a pergunta de Jackie. Ashton, ao seu lado, estava igualmente surpreso e assustado com a coincidência.

– Charlie, fale em inglês. – pediu Hilary, mas foi tão ignorada quanto a amiga.

– Existe, por acaso, algum tipo de programa maluco que vocês assistem para pensar assim?

– Pelo amor de Deus, vocês podem no explicar o que está acontecendo?– Jackie irritou-se. — Você está fazendo aquilo de novo, Charlie!

“Aquilo” era uma das várias manias de Charlie quando ficava surpreso demais ou não conseguia encontrar a lógica em algo: falava sem parar e sem se importar se alguém conseguia entendê-lo ou não; pensava alto. Jackie sempre mostrava impaciência quando ele o fazia, principalmente quando ela estava envolvida nesses pensamentos.

O resmungo dela, porém, de nada adiantou para pará-lo. Foi necessário um peteleco no ouvido mesmo, vindo de Ashton, é claro.

– Ashton teve a mesmíssima ideia, acredita? — disse, finalmente esclarecendo sua reação para as garotas.

– Seria mentira se eu falasse que não acredito. – disse Hilary quase rindo. — Ele é praticamente uma Jackie sem salto.

– Ei! — Ashton resmungou, fazendo Jackie protestar.

– Você deveria é se sentir lisonjeado em ser comparado comigo, Harris.

– Com esse tanto de modéstia, deveria mesmo.

– E qual é o seu plano, Jackie? Porque o Ashton não tem nenhum. — Charlie interveio antes que Jackie pudesse pensar em revidar o comentário do garoto. Não só não queria mais uma discussão, como também estava curioso para saber até onde sua namorada tinha considerado essa ideia maluca.

– Dá um tempo porque eu pensei debaixo do chuveiro antes de você começar a esmurrar a minha porta. — Ashton argumentou em sua defesa. — Eu não tive tempo de pesquisar nada!

– Não tem problema porque a Jackie já fez todo o trabalho sozinha. – disse Hilary, fazendo os dois garotos franzirem o cenho, confusos.

No entanto, ao contrário de Charlie, Hilary poupou tempo e saliva, e já foi direto para o ponto.

– Ela marcou uma consulta com a Dra. Martin para amanhã às quatro da tarde.

A informação desceu e subiu pela garganta de Charlie, que mal conseguiu ingerí-la; Ashton estava na mesma. Por aquilo eles com certeza não esperavam.

– Espera, o quê?! — Ashton balançava a cabeça, aparentemente numa tentativa de compreender a situação. Charlie, por sua vez, piscava um olho de cada vez.

– Você me escutou. E pelo visto vai ser para todos nós juntos ao mesmo tempo.

– Isso é possível?

– Pra mim qualquer coisa é possível, querido. – Jackie se gabou. — Tenho minhas táticas.

Charlie e Ashton ainda estavam incrédulos demais para falar qualquer coisa.

Certo, sua reação era certamente questionável e até mesmo um pouco hipócrita, já que o primeiro aparentava ter aceitado a sugestão do segundo momentos antes de receberam a ligação das garotas. Entretanto, até aquele instante, toda a situação era apenas uma hipótese e estava no plano do imaginário, quilômetros e quilômetros de distância da realidade. Charlie acreditava que Ashton não levaria aquilo adiante e nem o dito cujo sabia se trabalharia na sua própria ideia.

Mas lá estava Jackie com todas as cartas na mão, pronta para jogar um jogo de que eles nem sequer sabiam se queriam fazer parte.

– Melhor aceitar do que lutar. – aconselhou Hilary e Jackie concordou baixinho, provavelmente dando seu melhor sorriso de vitória.

Hilary estava certa: ir contra Jackie já não era mais válido. Se não pode lutar contra a loucura, então junte-se à ela, não é mesmo?

Ainda assim, Charlie hesitava em concordar. Não queria ir.

E se não queria, então não iria. Ninguém conseguiria o arrastar, certo?

.+*+.

Upper East Side, Manhattan — Consultório de Psicologia.

Sexta-feira, 15h50min.

Errado.

– Mas me diga de novo… Por que mesmo eu aceitei vir com você?

Ashton resmungou, talvez pela quarta vez nos últimos cinco minutos desde que chegara ao consultório. Charlie conseguia ser bem cabeça dura quando queria.

– Olha, será que dá pra você parar de ser tão pessimista nem que seja por um minuto? Talvez não seja tão ruim quanto você acha que é. — ele murmurou baixo para que só o amigo pudesse lhe ouvir. — Sem falar que ontem, quando eu te contei sobre minha ideia, você pareceu tranquilo.

– Isso é porque eu não achava que eu ia ter que vir pra cá logo no outro dia. — Ashton revirou os olhos com a resposta de Charlie, fazendo esse suspirar e puxar o cabelo para trás. — Tudo bem, você está certo. Não pode ser tão ruim assim.

Estavam sentados em um dos sofás da recepção, alternando o olhar entre a porta de entrada e o relógio; faltavam dez minutos para a sessão começar e as garotas estavam atrasadas, provavelmente porque Hilary estava esperando por Jackie para aparecer no consultório. Certos acontecimentos de ontem ainda estavam à todo vapor e dividir o mesmo espaço por mais tempo do que o necessário não era uma boa ideia.

Entretanto, não tê-las ali esperando junto com eles estava longe de ser confortador. A cada minuto que passava, mais ansiosos ambos se sentiam. Balançavam as pernas, batiam os pés e batucavam as mãos em busca de um refúgio para o nervosismo. A recepcionista os observava entediada, possivelmente contando os segundos para ir embora.

Ela não era a única.

– Com licença, Sr. Cooper e Srta. Dunn? — chamou uma mulher com uma prancheta na mão. Charlie e Ashton saltaram de seus lugares. — Sr. Cooper e Sr. Dunn? — ela hesitou.

– Não, não! Senhorita Dunn mesmo. — Charlie se apressou em dizer. A expressão da mulher, no entanto, não melhorou. — Ela está chegando, junto com a Srta. Belrose.

– Minha namorada, aliás. — Ashton esclareceu, levantando a mão e sorrindo amarelo. — Eu sou Ashton Harris.

– Ah, certo. Me desculpe! — ela sorriu, apertando a mão de ambos os garotos. — Eu sou a Dra. Martin, serei a terapêuta de vocês.

Tanto Ashton quanto Charlie seguraram-se para não soltar um “Ahh” muito alto. Claramente ela era a Dra. Martin — sua voz era firme e gentil, sua postura era comportada e reta e seu sorriso era inteiramente profissional. Tudo nela gritava psicologia.

Com sorte, ela continuaria dessa forma após suas sessões.

– Qual dos dois casais irá primeiro? — ela perguntou educadamente e os dois garotos trocaram um olhar nervoso.

– Jackie, digo, a Srta. Dunn nos disse que a sessão seria com nós…

Um estrondo vindo da porta da entrada interrompeu Charlie em meio a sua frase, revelando duas garotas descabeladas e desesperadas: Jackie e Hilary. Assim que perceberam os olhares assustados voltados para si, trataram de ajeitar suas roupas, cabelos e postura em uma tentativa de recuperar a pouca dignidade que lhes restava.

– Olá! Você deve ser a Dra. Martin! Eu sou a Jackie e essa é a Hilary. — Jackie e Hilary cumprimentaram a terapêuta, que tentava manter um sorriso educado apesar do susto. — Desculpe pelo atraso. É que eu trabalho no SoHo e o metrô justamente hoje resolveu atrasar.

– Sem problemas, Srta. Dunn. Você chegou bem no horário. — ela apontou para o horário no relógio de ponteiro bem atrás de si que indicava exatamente quatro horas da tarde. — Muito bem. Quem de vocês quer ir primeiro?

Simultaneamente, Hilary, Charlie e Ashton olharam para Jackie em busca da resposta, pois eles mesmos não sabiam. A Dra. Martin fez o mesmo, seguindo o fluxo. A garota, por sua vez, sorriu cinicamente para os amigos e em seguida respondeu à pergunta da terapêuta:

– Eu estava pensando em nós todos fazermos juntos em só uma sessão por semana. É possível? — indagou de forma simpática e respeitosa. Charlie quase riu da cena; mal a doutora sabia o que lhe aguardava debaixo desse comportamento comportado assim que ela lhes perguntasse o que os tinha levado até ali.

A mulher, no entanto, estava inclinada a rejeitar a proposta. Nunca tinha feito aquilo e não sabia se era recomendável ou até ético em sua área. Sem contar a confusão três vezes maior que sua cabeça seria por ter de ouvir, armazenar e relembrar em dobro. Já era difícil com apenas dois, quanto mais quatro ao mesmo tempo.

Entretanto, havia algo de demais naquilo; algo especial, diferente. Desafiador. E, oras, ela havia se formado naquela área porque a considerava interessante e repleta de complicações que demandam inúmeras soluções, desde as mais aceitáveis até as inovadoras. Então por que não tentar? Se desse errado, ela simplesmente poderia parar e voltar para o método tradicional. Mas se não tentasse, nunca saberia os rumos das coisas.

Como diz Laurence Peter, educador canadense, “o problema de resistir a uma tentação é que você não pode ter uma segunda oportunidade”.

Jackie já estava prestes a implorar e usar suas técnicas de persuasão (que tanto Charlie quanto Hilary e Ashton conheciam bem) quando a doutora deu seu veredicto:

– Certo. Dois casais em duas horas, juntos. — ela anotou algo em sua prancheta e logo se voltou para a recepcionista. — Cecília, por favor, marque as Srtas. Dunn e Belrose junto com os Srs. Cooper e Harris às sextas. Por favor, me acompanhem. — disse para o grupo, já andando em direção às salas.

Os quatro a acompanharam, todos sorrindo amarelo e esfregando a mão nervosamente, exceto por Jackie. Ela parecia confiante em sua decisão e tinha certeza de que a Dra. Martin não se arrependeria de sua escolha.

Santa boca, Dunn. Santa boca.

.+*+.

Upper East Side, Manhattan — Consultório de Psicologia.

Sexta-feira, 16h15min.

Quinze minutos contados em seu relógio de pulso era a quantidade exata de tempo que havia passado desde que ela havia os convidado para entrar em sua sala e se sentarem — um casal no pequeno sofá e o outro no divã, pois não havia lugares o suficiente para todos os quatro no mesmo estofado. Sete minutos de apresentação e alguns instantes de silêncio desconfortável. Então ela lhes fez a simples e usual pergunta: “O que os trouxeram aqui hoje?”

Os seguintes oito minutos já foram o suficiente para o arrependimento tomar conta de si.

– Ela diz que não faz isso, mas ela vive me manipulando pra conseguir colocar a culpa em mim mesmo quando eu não fiz nada de errado! — Ashton estava de olhos arregalados e se dirigia diretamente para a Dra. Martin. Hilary, porém, protestava a cada uma palavra que saía da boca do garoto.

– Eu sou manipuladora porcaria nenhuma, Harris! Eu pedi desculpas com toda sinceridade e você vem com paus e pedras em vez de aceitar minhas desculpas!

–... E esse é o problema da Jackie! Ela acha que sempre tem a razão em tudo e vive me acusando de coisas que ela inventa na própria cabeça! Estou cansado da mesma história, do mesmo disco todos os santos dias! — dizia Charlie, gesticulando sem parar.

– E ele acha que eu sou obrigada a aguentar as “amiguinhas” de trabalho dele toda semana que passa! — Jackie reclamava alto, tentando se sobressair entre as outras vozes e ser escutada. Mas o problema era que todos os outros também faziam o mesmo em busca de compreensão, formando uma onda de resmungos altos e ininteligíveis.

Tudo o que a terapêuta conseguia fazer era observar suas expressões irritadas e seus temperamentos bravos refletirem em seus modos de falar. Mas quanto ao contexto de suas falas… Ela não entendia coisa nenhuma.

À princípio, tentou esperar alguns minutos antes de interrompê-los, pois queria que eles eliminassem todas suas dores e mágoas naquele instante. Mas então começou a perceber que se não fizesse uma intervenção, possivelmente algumas de suas decorações ganhariam vida e asas, principalmente o vaso com flores bem ao lado da Srta. Dunn.

– Muito bem, acalmem-se! — ela impôs com uma voz dura e disciplinadora; quase como um militar. Os quatro imediatamente se calaram. — Eu gostaria de tratá-los como adultos, mas para isso, vocês têm que agir como adultos e merecerem esse respeito. Vocês irão agir dessa forma?

– Sim, doutora Martin. — disseram eles em uníssono.

Qualquer semelhança com uma classe do jardim de infância é mera coincidência.

– Certo. — a doutora suspirou, aliviada. Seus ouvidos lhe agradeciam. — Vamos começar aos poucos. Como se conheceram? Sr. Cooper, você pode começar.

– Eu e Jackie ou eu e os outros dois?

– Que tal começarmos pelo começo? Como o grupo começou? — ela cruzou as pernas e clicou na caneta, ajeitando sua postura. — Quem conheçeu quem primeiro?

Charlie e Hilary levantaram as mãos.

– Eu e Hilary nos conhecemos desde a faculdade. Nós estudamos na Universidade de Binghamton, ela era uma veterana do segundo ano de história e eu, um calouro de direito. — ele contou enquanto a Dra. Martin balançava a cabeça e anotava em seu caderno. — Mas nós só nos tornamos amigos por volta do meu segundo ano.

– E como vocês se conhceram? — disse a terapêuta, dando uma pausa na escrita e levantando a cabeça para observá-los. O ato fez todos os quatro ajeitarem sua postura, ainda que não soubessem por quê.

– Por meio de amigos em comum, tínhamos vários. — Hilary explicou. — Desde então somos amigos, quase irmãos.

– São irmãos até na chatice às vezes. — Jackie pigarreou e Ashton concordou, acarretando uma nova onda de discussões entre os quatro.

Gostassem ou não, ambos sabiam que era verdade. Assim como Jackie era a projeção de saia de Ashton, Hilary era de Charlie. “Mandões” (que, de acordo com eles, era apenas “agir com responsabilidade”), cabeças duras e pacificadores. Porém, do ponto de vista de seus respectivos cônjuges, relaxados em relação aos seus relacionamentos. Às vezes tranquilos até demais.

Por outro lado, os dois eram basicamente “a sede de resolução de problemas” do grupo, seja esse problema financeiro ou conjugal. É claro que tanto Ashton quanto Jackie também sempre ajudavam e, vez ou outra, traziam uma ideia inteligente, mas a maioria das soluções provinha de Charlie ou Hilary.

Basicamente, Jackie e Ashton eram o coração e Hilary e Charlie, o cérebro do grupo. Em teoria, deveria funcionar maravilhosamente bem.

Só em teoria mesmo.

– Silêncio, por favor! — a Dra. Martin pediu várias vezes e acabou sendo atendida apenas lá pela quinta vez. — Vamos dar continuidade à sessão e peço com gentileza para que não façam mais comentários ou interrompam um ao outro.

Com o pedido veio um olhar de aviso para Jackie, que se encolheu e balançou a cabeça com medo. Presenciar um ataque de nervos de alguém que pratica a paciência e a calma por muitos anos não estava em sua bucket list.

– Quanto à vocês, Srta. Dunn e Sr. Harris, como se conheceram?

– Nós nos conhecemos por intermédio da Hilary e do Charlie. — disse Ashton e a doutora anotou algo. — Eu conheci Charlie primeiro e Hilary conheceu Jackie primeiro.

– Essa é uma boa história, na verdade. — apontou Hilary e Jackie soltou uma risada baixa.

A terapêuta sorriu simpática, meneando a cabeça para incentivá-las a contar.