Notas iniciais
Bom, não tenho muita certeza se tem alguém lendo essa história (flop supremo), mas vamo nessa. Capítulo revisado às pressas, mas escrito com muito amor. Beijos ~

Olhei para frente, reconhecendo o grande salão que ocasionalmente estava lotado de gente. Era um espaço parcialmente aberto e sem paredes, apenas com vigas de madeira que sustentavam a cobertura de telhas, onde havia um balcão simples, um espaço para a churrasqueira feita de tijolos e diversas mesas e cadeiras de madeira rústica. O lugar estava todo decorado com fitas vermelhas e verdes, tendo alguns morangos de plástico pendurados nas vigas e uma grande faixa de papel carmim pendurada no teto com um caprichado “Festival do Morango” escrito com alguma tinta branca.

Festivais daquela cidade eram bem ‘breguinhas’ mesmo.

Por um segundo achei que ninguém me notaria lá, até que meu avô, um homem barrigudo e de poucos cabelos brancos que se encontrava no balcão bebendo uma cerveja, encontrou meu olhar.

— Camila! – Ele exclamou, chamando atenção de algumas pessoas ao redor.

Vovô se aproximou de mim e deu-me um bom e caloroso abraço, daqueles que só os avós poderiam dar.

Como um piscar de olhos, minha avó, gordinha e com seus cabelos grisalhos de sempre, apareceu ao meu lado. Estava com saudade dela tanto quanto do meu avô, afinal, foram muitos anos sem visitá-los naquele lugar.

— Vó! – A abracei apertado.

Eu admito que, apesar de tudo, tinha uma saudadezinha deles. Ok, ok, não era só uma saudadezinha, era bastante saudade, mesmo que fizesse pouco tempo desde que eles foram nos ver lá em cassa.

— Minha querida, – Ela disse – finalmente você tomou vergonha na cara para visitar seus avós, hem?

Na verdade, não fora eu que tomara vergonha na cara de ir lá, e sim meu pai que me obrigara, mas procurei guardar aquele comentário para mim mesma.

Logo alguns parentes se aproximaram para me cumprimentar e meu avô fez questão de me puxar pelo salão para conversar com todas as pessoas que, há muito tempo, conviveram comigo na cidadezinha.

O engraçado era que toda pessoa que falava comigo me direcionava sempre as mesmas perguntas e comentários daqueles bem clichês, como “nossa, como você cresceu! ” ou “E a família/a escola/os namorados? ”. Com muito esforço eu respondi a todos educadamente, pois sabia que se meu pai, que conversava com alguns tios meus no fundo do salão, me visse soltando algum comentário rude eu seria uma garota morta.

Quando meu avô finalmente me deixou livre da socialização e eu pensei que teria paz, Malena me puxou com ela para uma mesa onde estavam sentadas mais três pessoas, dizendo que eu deveria de todo jeito conversar com eles. Eram dois meninos e uma menina.

Eu não reconheci todas aquelas pessoas de primeira. A garota era Manuela, minha prima de segundo grau que tinha treze anos, quem ia frequentemente nos visitar na cidade com os pais, isso eu sabia. Mas os garotos... eles tinham cabelos ruivos e sardas no rosto, eram irmãos.

— Acho que você também não lembra do Hugo e do Rui, certo? – Malena cochichou.

Isso! Hugo e Rui, esses eram seus nomes. Os dois eram filhos da dona da floricultura local, a dona Anastásia. Hugo era um ano mais novo que eu e Rui um ano mais velho, ambos adoravam soltar as galinhas da vovó em cima de mim quando eu era pequena.

— Espera, você está vendo quem eu estou vendo? – Rui perguntou ao irmão, com um sorriso arteiro nos lábios ao perceber minha presença.

— Se você está vendo uma garota da cidade que tem medo de galinhas, então eu também estou vendo. – Hugo respondeu, com seu leve sotaque caipira.

Arqueei uma das sobrancelhas, sem evitar um sorriso. Como era possível aqueles meninos também só terem crescido?

— Mila! – Exclamaram juntos. Aquela sincronia incomum realmente me assustava.

— Olá ruivos caipiras, quanto tempo. – Falei em tom de deboche. – Oi Manu.

— Camila! Ainda bem que você chegou! – Manuela me abraçou. – Esses dois não param de me perturbar, me ajuda!

Ri em resposta, cheia de perguntas na ponta da língua para fazer aos meninos. Abri a boca em menção de dizer alguma coisa, porém fui cortada por uma voz que eu já conhecia.

— Estou decepcionado que você lembre até dos marmanjos ferrugem e não lembre de mim, Camila. – Ao nosso lado estava Leo, o garoto do celeiro, que agora não tinha mais feno no cabelo nem nas roupas e me encarava com um sorriso de lado e sobrancelhas arqueadas. Só então notei que seus olhos brilhavam num castanho bem claro, cor de mel.

— Se apresente corretamente então, senhor dos cavalos. – Falei, mas recebi como resposta um aceno negativo com a cabeça.

— Sem chance, menina da cidade. – Ele riu. – Descubra sozinha.

As pessoas da mesa nos encararam dando risada.

— Eu sempre soube que era mais importante do que esse aí. – Rui disse em tom de deboche. – Sou inesquecível.

— É, talvez porque você e seu irmão colocavam galinhas para correr atrás dela, ou sei lá... – Malena murmurou.

Ri, observando aquelas pessoas ao meu redor. Todas pareciam tão estranhas e tão familiares ao mesmo tempo, estar ali era uma sensação realmente nostálgica, como encontrar com os amigos da escola depois de vinte anos naquelas reuniões de calouros.

Talvez, apenas talvez, eu não fosse ficar tão entediada assim durante as férias.

— Ei, Mila. – Ouvi a voz de meu tio Carlos chamar. – Eu tinha esquecido de te dizer, mas suas coisas já estão lá na casa. Você lembra onde era o quarto que você ficava, né?

— Lembro sim, tio. – Respondi, desta vez tendo certeza do que tinha dito.

— Se tiver algum problema para chegar lá, ponha essas crianças pra te ajudar. – O barbudo sorriu, apontando com a cabeça para as pessoas que estavam comigo na mesa.

Assenti, retribuindo o sorriso.

Depois da longa viagem, mesmo com a calorosa recepção dos meus amigos de infância e o Festival do Morango rolando solto, eu só queria dormir. Saber que eu já podia simplesmente sumir dali e ir deitar era um grande consolo para mim, a pessoa que andou de carro das oito da manhã até uma da tarde.

Pedi licença ao pessoal que estava comigo, avisando que iria desfazer minhas malas — deixando de lado o fato que provavelmente aproveitaria para tirar um cochilo de algumas horas.

Entrei pela porta da frente que era de madeira branca e tinha aquele jeitinho bem “casa de vovó”, caminhando pela sala e observando cada detalhe do lugar que, assim como todo o resto da cidade, pareceu estar congelado no tempo. Quando fui para a cozinha na intenção de beber água, encontrei lá meu pai acompanhado de seu outro irmão, desta vez o pai de Manu, o tio Jeremias.

Eles não tinham me visto quando cheguei, estavam conversando num tom de voz baixo, de costas para a porta. Falavam sobre minha mãe, mais especificamente sobre o divórcio de meus pais.

Sim, meus pais eram divorciados, isso já fazia uns sete anos. Contudo, não foi um divórcio turbulento e cheio de conflitos, pelo contrário, meus pais apenas concluíram que não serviam mais um para o outro como marido e mulher e decidiram se separar; calmamente, sem brigas e sem nenhum impacto. Bom, talvez fora assim para mim, que continuaria minha vida normalmente, mas com certeza para minha irmã mais velha, Maria, a história não foi a mesma. Depois da separação minha mãe resolveu ficar com a guarda de Maria, e assim as duas se mudaram para os Estados Unidos — o que a fez, infelizmente, abandonar tudo aqui com só onze anos de idade.

O primeiro a me perceber no cômodo foi meu tio. Ele se espantou ao me ver ali, então apenas me cumprimentou com um aceno de cabeça e murmurou um “Tchau Júlio, boa viagem”, saindo de fininho.

Espera. Boa viagem?

Olhei para meu pai. Ele segurava a chave do carro e tinha sua blusa azul pendurada no ombro.

— Você já vai?

Ele me lançou um sorriso um tanto muxoxo e assentiu.

— Meu voo é daqui a algumas horas. – Disse. – Eu só entrei para cumprimentar os parentes, você sabe.

Suspirei. A ficha caiu novamente. Mesmo que as pessoas não fossem tão ruins, eu não queria ficar três meses naquele lugar que era a cinco horas de minha casa na capital, sem meus amigos, sem internet e sem nem ter meu pai por perto pois ele estaria em outro estado a mais de mil quilômetros de distância de São Paulo.

— Não fique triste, eu te garanto que esse verão vai passar extremamente rápido. – Meu pai disse. – E eu te conheço bem o suficiente para saber que depois de dois dias você vai se acostumar com esse lugar como se fosse sua própria casa.

— Eu não vou, pai. – Falei, mesmo sabendo que de fato aquilo aconteceria.

— Olha, vamos combinar uma coisa? Você fica e aguenta o tranco por um tempo, mas se você ver que você não pode mais aguentar um dia sequer aqui, você me liga e eu arrumo um voo pra Brasília. Ok?

Suspirei novamente, mas dessa vez em sinal de concordância.

Então eu acompanhei meu pai até o carro e lhe dei um longo abraço de despedida antes que ele partisse.

— Boa sorte, se cuida e não pule as refeições. – Ele disse já dentro do carro. – Aliás, nem tente faltar com respeito com seus avós, viu mocinha?

Assenti, antes que ele ligasse o automóvel e passasse pelos portões de madeira da fazenda, me deixando para trás.

Era triste saber que eu ficaria longe de meu pai por três meses, mas sabe o que era mais triste ainda? Ser quase duas horas da tarde, com um sol ardente lá no topo do céu, sem nada para criar um clima de despedida dramática — nem mesmo um ventinho ou uma musiquinha de violino. Que decepcionante, não?

Quando entrei, muxoxa, na casa principal, eu subi as escadas até o segundo andar. Assim como anos atrás, o último degrau era o único a ranger estrondosamente. Segui o corredor observando nostalgicamente os quadros na parede — todos pintados por minha avó há muitos anos, quando ela vivia daquela profissão. Eu me lembrava de sempre observar um deles, um que tinha um belo navio branco em meio ao oceano azulado, e pensar o quão incrível seria viajar num daqueles; mas ele não estava lá junto com os outros. Onde estaria então?

De todas as coisas que eu vi naquela cidade, acho que o quarto foi a única que pareceu ao menos um pouco diferente. Mesmo com a cama de madeira escura, as cortinas floridas e o grande guarda-roupa sendo exatamente os mesmos, notei que agora as paredes estavam pintadas num agradável tom de verde, diferente do bege anterior, e bem acima da cama havia uma prateleira. Nessa prateleira estavam alguns enfeites fofos, como um ursinho branco de nariz vermelho e uma estrela laranja de pelúcia, mas o que realmente me chamou atenção foram os dois porta-retratos empoeirados pousados no móvel.

Um deles tinha uma foto minha, pequena, provavelmente com uns cinco anos junta de Malena, Maria e um garoto loirinho mais baixo do que eu, ele tinha bochechas grandes e um cabelo tigelinha super fofo, e estampava um sorriso amigável no rosto.

O outro tinha uma foto em família, cheia de crianças. Malena estava como sempre uma graça com seus cachinhos dourados, segurando a Manuela ainda bebê no colo; Hugo e Rui exibiam seus sorrisos travessos e as mãos sujas de lama, logo ao lado de uma Maria desdentada que, naquela foto, parecia ser a mais alta de todos nós; haviam mais duas crianças bem no meio de todo mundo, tomando destaque na fotografia por seus sorrisos e alegria evidente: eu e o mesmo loirinho da foto anterior, que só então eu pude notar possuir olhos castanhos bem claros.

Olhando para o porta-retratos, algumas lembranças vieram à minha cabeça. Entre as crianças que eu brincava quando visitava a fazenda da vovó, estava um pequeno menino chorão que era filho de um dos empregados. Ele corria atrás de mim por onde quer que eu fosse e me tratava como uma irmã mais velha, mesmo que tivéssemos a mesma idade. Por ser tão frágil e bobo, os irmãos ruivinhos adoravam atormentá-lo e eu me recordava de estar o tempo todo o tirando de problemas.

Mas por algum motivo minhas lembranças pareciam muito vagas, mesmo que fôssemos tão próximos quando crianças. Eu não conseguia nem mesmo lembrar seu primeiro nome.

Me perguntei mentalmente como aquela criança estaria nos dias atuais, levando em conta que meus avós não tinham mais funcionários que trabalhavam dentro da casa há anos. Provavelmente ele estaria vivendo na cidade, ou talvez bem mais longe, afinal, fazia muito tempo desde a última vez que o vi.

Decidi desviar meus pensamentos daquilo por um instante pois ainda tinha muita coisa para arrumar dentro das gavetas do grande guarda-roupa, sem contar que minha próxima tarefa seria procurar sinal de telefone pela fazenda. Meus amigos de São Paulo deveriam estar preocupados por eu ainda não ter dado sinal de vida, eu realmente precisava ligar para eles.

Notas finais
Se tem alguém lendo, não deixe de comentar e deixe uma autora feliz :D Dúvidas, sugestões e o blá blá blá de sempre, já sabem: comentem ou mandem MP que eu respondo assim que possível. Logo o próximo capítulo tá aí ~ Beijos de morango ♥