Countryside Days
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Buscar sinal naquele lugar realmente foi uma tarefa impossível, e eu só desisti depois que fui informada por Manu que o sinal de telefone só pegava lá no centro da cidade. Decepcionante.
Decidi então, depois de aproveitar mais um pouquinho do festival, tirar meu tão desejado cochilo, que durou bem mais que o previsto de uma hora. Para ser exata, foram quatro horas de sono profundo, aproveitando o que eu não tinha dormido direito no dia anterior pelo misto de ansiedade e raiva de ser obrigada a vir para a fazenda.
Quando acordei percebi pela janela aberta que o sol já tinha se posto há muito tempo e, pelo relógio do celular, notei que já eram quase oito horas. Sentada na cama, eu me espreguicei e levantei de meu conforto pois sabia que já era hora do jantar.
Saí do quarto ajeitando meus cabelos curtos e castanhos como possível, mesmo que domar aqueles cachos rebeldes fosse extremamente difícil principalmente quando se acaba de acordar. Desci as escadas sem muita pressa, já sentindo o maravilhoso cheiro de arroz e frango da vovó, quando meu avô disse, sentado no sofá da sala:
— Finalmente acordou, hem? Pensei que teríamos que jogar um balde de água em você para que levantasse.
Eu ri em resposta.
Olhando ao redor, percebi que Malena também se encontrava na sala e vovó e Manu estavam na cozinha preparando a comida. Estranhei que todos estivessem lá e não no festival, que em dias comuns duraria até altas horas da noite, quando meu avô respondeu meus pensamentos:
— O festival acabou mais cedo por causa da chuva forte que deu. Mas se eu soubesse que a chuva teria acabado tão rápido, insistiria para que o pessoal ficasse.
— Oh... – Murmurei, tomando noção de que meu sono fora tão pesado a ponto de não me deixar acordar nem mesmo com um chuvaréu.
Me dirigi então até a cozinha, já preparando a barriga para comer, quando minha avó perguntou:
— Mila, pode ajudar a Manu a arrumar a mesa?
Assenti, pegando a toalha e, com ajuda de minha prima, estendendo diante da grande mesa de oito lugares. Logo em seguida, com orientação da vovó, abri uma das portas de cima do armário de madeira da cozinha e peguei os copos e pratos de vidro um por um, colocando-os em cima de onde comeríamos.
Mas foi na hora de pegar o último prato que minha mão escorregou e eu pensei que fosse morrer com uma pratada na testa. Eu me encolhi, pronta para o pior, mas foi nesse momento que alguém apareceu atrás de mim e pegou o objeto antes que me atingisse.
— Essa foi por pouco, menina da cidade. – Uma voz masculina disse talvez um pouco perto de mais de meu ouvido. Era Leandro.
Quase desmaiei pela adrenalina no momento, respirando fundo de alívio com a mão no peito.
Olhei ao meu redor e encontrei uma Manuela e uma vovó tão espantadas quanto eu, e ambas boquiabertas.
— Acho melhor você sentar, né Camila? – Vovó perguntou. – Deixa que eles terminam o resto.
— É, Camila. – Leo reforçou, colocando o prato assassino em cima da mesa com um sorriso de deboche. – Não queremos outras quase-mortes na cozinha.
Bufei em descontentamento e me sentei na cadeira de madeira, murmurando algumas reclamações para mim mesma. Mentalmente questionava qual era meu problema. Eu já estava acostumada com esse tipo de coisa só acontecer comigo, mas daquela vez tinha que ser logo na frente de Leandro? Não que eu me importasse com sua opinião, mas ele deveria me achar patética.
Não se passaram nem dois minutos até que a mesa estivesse arrumada por completo. Malena e meu avô logo se juntaram a nós e vovó serviu a todos, tivemos nossos pratos lotados de arroz e feijão quentinhos, acompanhados de uma suculenta carne de panela e brócolis. Fitei a verdura em meu prato, com o cenho franzido. Eu não gostava de brócolis, mas seria muita falta de educação dizer aquilo?
— Pode me dar seus brócolis, se quiser. — Malena cochichou ao meu lado e eu a fitei, surpresa. — Eu vi sua cara para eles. — Ela riu.
— Já que você insiste... — Eu disse, também rindo enquanto passava os brócolis em meu prato para o de minha prima.
— Eu vou fingir que não vi isso, dona Mila. — Vovó disse num falso tom de advertência enquanto dava uma garfada num pedaço de carne. — Pensei que suas frescuras com comida tinham ido embora depois que você cresceu, mas pelo visto eu me enganei, huh?
Eu ri.
— Eu juro que é só com brócolis. — Falei. — Eu como até tomate hoje em dia.
— Até tomate? — Vovô perguntou, surpreso. — Olha só, até que tanto tempo na cidade não te fez tão mal assim. — Riu.
— E por falar em tempo na cidade — Vovó começou a dizer. — Como estão as coisas por lá? Ainda tem aqueles seus amigos arruaceiros legais, né?
Não pude deixar de rir com a pergunta. Os amigos arruaceiros em questão eram Felipe, Valentina e Eric, parte do meu grupinho lá de São Paulo. Da última vez que meus avós foram nos visitar os três estavam fazendo um trabalho lá em casa e eles simplesmente deixaram ela maluca a puxando para jogar verdade ou desafio e passando maquiagem nela.
— Sim, eu ainda tenho meus amigos arruaceiros. — Respondi, rindo. — E as coisas estão bem, eu acho.
— Isso é ótimo. – Ela disse. – Eu realmente gostei daquele pessoal, são boas amizades.
Eu concordei, assentindo.
Durante o restante da refeição, acabaram comentando sobre os pais de Manuela terem deixado a garota dormir lá naquela noite, o que despertou minha atenção em uma coisa: Leandro por acaso também passaria a noite lá? Quer dizer, eu ainda não fazia ideia de quem ele era, mas com certeza alguma criança da cidade não poderia ser, já que raramente alguém além da família passava a noite lá. Mas se ele fosse alguém da família, como eu não teria o reconhecido?
Guardei as perguntas em minha mente, refletindo que Leo provavelmente não deixaria ninguém me falar sua relação comigo. Ele queria que eu descobrisse aquilo sozinha, era um desafio, afinal.
Quando todos já tinham jantado e eu estava prestes a subir as escadas para o segundo andar, minha avó me chamou:
— Camila, venha aqui.
Obedeci a mais velha, que logo abriu um sorriso ao me ver. Em suas mãos havia uma bonequinha de pano que eu conhecia muito bem, mas não imaginava que estaria tão bem conservada. Ela tinha cabelos de lã rosa, um vestidinho florido amarelo e olhos de botão; minha boneca favorita de quando eu era mais nova.
— Se lembra dela? – Vovó perguntou.
— É claro que sim! – Exclamei, abrindo um enorme sorriso. – Como eu me esqueceria de Nina?
— Você esqueceu isso aqui há muito tempo atrás, estava no estábulo até ano passado. – Falou. – Foi Leo que a encontrou e disse para eu guardar.
— Leo?
A mulher assentiu, me entregando o brinquedo.
— Deveria agradecê-lo depois.
— Se eu me lembrar, eu agradeço sim. – Sorri, fazendo minha avó soltar uma risada baixa.
— Agora pequena Mila – Vovó disse. – Sobe e tenta dar mais uma cochilada porque amanhã teremos um longo dia pela frente.
Assenti e recebi um beijo de boa noite na testa antes de subir para o meu quarto.
xx
Passei horas tentando pregar os olhos. Horas mesmo.
Porém, mesmo com as milhares de tentativas, eu não conseguia dormir, não tinha sono algum. Tentei ouvir música, ler, escrever e até mesmo fazer trava-línguas em espanhol, mas não importava o que eu fizesse, simplesmente o sono não chegava.
Esse era o resultado de dormir a tarde toda, parabéns para a gênia Camila.
Olhei no relógio do celular. Eram duas horas da manhã. Cansada de esperar o sono que certamente não viria tão cedo, eu me decidi: iria usar a madrugada para fazer algo bem mais produtivo do que dormir
O que se pode fazer de produtivo em plenas duas da manhã numa fazenda? Essas horas os animais estavam dormindo, as pessoas estavam dormindo e até os insetos deveriam estar dormindo. Não tinha absolutamente nada para se fazer.
Suspirei desolada, me amaldiçoando pela milésima vez por ter dormido de tarde, quando ouvi um barulho vindo do lado de fora da casa. Pareceu o som da porta de entrada rangendo, seguido de alguns passos na grama.
Aha. Minha chance para sair da casa e ver o que estava acontecendo.
Me enrolei numa manta azul florida que estava na cama e calcei minhas pantufas cor-de-rosa antes de, discretamente, sair do quarto e descer para o primeiro andar.
Quando coloquei minhas mãos na maçaneta da porta de entrada, senti um receio repentino. Eu não era de ter medo de qualquer coisa, porém eu estava sendo imprudente de ouvir um barulho do lado de fora e sair de casa apenas para fugir do tédio. E se fosse um ladrão? Mesmo que a cidade tivesse índice de assaltos baixíssimos e a fazenda, em quase quarenta anos de existência, só tivesse sido invadida uma vez, qualquer coisa poderia acontecer.
Chacoalhei a cabeça, espantando os pensamentos ruins. Mesmo se fosse um ladrão não haveriam problemas, afinal, cinco anos fazendo judô não poderiam ser desperdiçados.
Finalmente abri a porta e saí, sentindo a leve e gelada brisa da madrugada bater contra meu rosto. O barulho dos grilos e o fraco brilho de uns poucos vaga lumes eram coisas características das noites de verão na fazenda. A grama ainda estava úmida pela recente chuva e a noite estava escura, tendo como iluminação principal o brilho do céu estrelado, coisa que eu nunca poderia observar na cidade grande.
Olhando mais ao redor, notei que não havia ninguém por perto. De onde tinha saído aquele barulho então?
Andei alguns passos adiante, sem deixar de prestar atenção em cada canto, quando percebi que, não muito longe da casa, a luz do celeiro estava acesa.
Me dirigi até lá com passos rápidos, porém hesitando de certa forma e engolindo a seco toda coragem dada a mim mesma anteriormente. A portinhola da cerca de madeira estava encostada, o que significava que alguém a abrira recentemente. Mais alguns passos e entrei no celeiro pronta para encontrar um ladrão, quando notei que o lugar, exceto pelos animais, também estava vazio.
— Mas o que diabos...?
Foi quando senti um sopro gelado em meu pescoço que me fez estremecer, ativando minha função de autodefesa imediata. Dei uma forte cotovelada para trás e, em questão de milésimos, derrubei a pessoa que estava às minhas costas no chão cheio de feno, sentando em cima da mesma e imobilizando suas mãos.
— Calma Camila! Sou eu! – A pessoa exclamou e eu arregalei os olhos ao perceber que não era um ladrão em questão quem eu imobilizara. Era Leandro.
— Leandro? – Perguntei surpresa.
— Então é assim que as pessoas da cidade reagem a um susto? – O garoto disse em tom de queixa. – Me lembre de nunca mais tentar algo parecido com você.
— Desculpa aí. – Falei, saindo de cima dele e estendendo a mão para ajudá-lo a levantar. – Mas o que você esperava fazendo aquilo? Que eu desse só uns gritinhos e saísse correndo?
— Seria bem mais normal do que receber uma cotovelada e ser imobilizado. – Leo murmurou, aceitando minha ajuda e segurando minha mão. Já de pé, o garoto tirou os fios de feno de suas roupas e me entregou a manta florida que eu deixara cair durante o golpe. – Mas o que faz aqui essas horas? Não deveria estar dormindo?
— Você acha mesmo que a pessoa que dormiu uma tarde inteira conseguiria descansar mais um pouco? Sem chance. – Respondi com um suspiro. – E você?
— Eu o quê?
— Você deveria estar dormindo também. O que está fazendo por aqui em plenas duas da manhã? – Questionei, de fato curiosa.
— Não consigo dormir também, então vim cuidar dos cavalos...
— Você cuida dos cavalos quando não consegue dormir? – Perguntei incrédula.
— Você não cuida dos cavalos quando não consegue dormir? – Indagou, com um sorriso de deboche.
Não pude evitar rir do comentário.
— De onde eu venho, é mais comum ficarmos trocando mensagens com os amigos até cairmos no sono.
O garoto deu de ombros.
— Eu duvido que seus amigos te ouçam tão bem quanto os meus cavalos. – Falou, sem deixar o tom brincalhão de lado.
— Realmente, cavalos parecem ouvintes bem melhores. – Ri.
É, meus amigos da cidade não eram tão bons ouvintes assim, não comparados aos animais que simplesmente não poderiam dar palpite em minha vida. Não que minha turma estivesse repleta de más pessoas, pelo contrário, meus amigos eram pessoas incríveis, porém nenhum deles tinha alguma capacidade de me escutar e tentar entender meus problemas o tempo todo.
— Bem, – O garoto pigarreou. – Já que estamos na mesma situação de insônia, o que acha de me ajudar a varrer o celeiro?
— Varrer o celeiro de madrugada? – Questionei, admirada com a disposição do garoto.
— Nunca é tarde demais para varrer o celeiro. – Ele piscou para mim, pegando um ancinho que se encontrava pendurado num gancho de parede e me entregando.
Arregacei as mangas do pijama e pendurei minha manta azul no gancho onde anteriormente estava o instrumento de trabalho. Não custava nada ajudar Leo enquanto passava o tempo.
— Você sabe como fazer isso, certo? — O garoto de cabelos claros perguntou, me fitando com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Não é porque eu vim da cidade que eu não saiba varrer. — Rebati, ouvindo a risada de Leandro como resposta.
Varrer aquele lugar até que não foi tão entediante assim — pelo menos não tanto quanto eu imaginava que seria. Mesmo que tudo cheirasse a dejetos de animais e feno, Leo conseguiu me distrair daquilo rapidamente quando começou a cantar e dançar a música da dona aranha, no ritmo em que ia jogando o feno sujo num grande saco de lixo.
— O que está fazendo? — Eu ri.
— Cantando, oras. Esse é um clássico. — Respondeu, logo voltando a cantar animadamente.
Dei de ombros. Ele tinha razão, era um clássico. Não demorou para eu o acompanhar no vocal e quando nos demos conta, já tínhamos cantado quase um CD inteiro de músicas bregas infantis.
Paramos de trabalhar depois de enchermos três sacos de feno e deixarmos o celeiro impecável. Com um suspiro de alívio, eu pendurei meu ancinho de volta no gancho, peguei minha manta e sentei-me no degrau da porta do lugar, observando o lindo céu estrelado da madrugada.
— Você cansa rápido, hem? – Leandro disse, se sentando ao meu lado.
— Uma hora eu pego o jeito. – Falei, apoiando meu queixo em meus dois punhos fechados. – Eu não acredito que limpei um celeiro inteiro de madrugada cantando músicas infantis.
— Já pode adicionar isso a lista de coisas que você fez e nunca imaginou que faria. – O garoto riu.
— Eu ainda não tenho uma lista desse tipo.
— Nunca é tarde demais para começar uma. – Disse por fim, com um sorriso no rosto.
Assenti pensativa, fixando o olhar nos incríveis conjuntos de estrelas que a imensidão azul acima de mim exibia. Era incrível, parecia tão... infinito.
— As noites aqui são sempre assim? – Perguntei.
— São. – Leo respondeu, olhando para cima. – Não que eu tenha parado muitas vezes assim para observar o céu.
— Eu nunca veria nada do tipo lá na capital.
— Não mesmo. – Ele me fitou, com seus belos olhos cor de mel.
Sorri para o garoto que me encarava. Mesmo que, de certa forma, eu não lembrasse do rosto de Leandro em minha infância, conversar daquele jeito fazia-nos parecer amigos super próximos falando sobre qualquer coisa na hora da saída da escola, como se os dez anos longe daquele lugar tivessem sumido em pó. Era estranho.
Percebi seu rosto corar e então o garoto desvencilhou seu olhar do meu.
A brisa da madrugada ainda soprava pela fazenda, os grilos ainda cantavam e, no horizonte, era possível ver alguns vaga-lumes piscando. Dentro do estábulo, os cavalos que antes haviam sido acordados pela nossa presença, dormiam novamente tranquilos. Mais um sopro gelado da noite, e então o garoto ao meu lado puxou a manta que me cobria para cima de seu corpo desagasalhado, sem nem sequer pedir permissão, o que me fez soltar um riso baixo.
Eu e Leo permanecemos quietos depois daquilo, como se fizéssemos parte da natureza silenciosa da madrugada. Não sei dizer se nós dormimos por ali, ou se, de algum jeito, nos despedimos e voltamos para nossos respectivos quartos, mas de certa forma aquela madrugada parecia muito mais um sonho estranhamente confortável do que realidade.
xx
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