Countryside Days
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Como dito no meu perfil, esse aqui é um dos projetos novos que eu tenho em mente. É só um rascunho por enquanto, então eu não dou a certeza de que vai ser terminado, mas há pelo menos uns 5 capítulos prontos e aguardando revisão, por isso as atualizações não vão demorar muito.
Eu espero que gostem ♥
Viagens.
Eu adorava viagens, principalmente aquelas que rendiam horas e horas na estrada. Era legal observar a paisagem pela janela no banco de trás do carro acompanhada de uma música tocada no violão nos fones de ouvido. Eu nunca negaria uma viagem para longe.
Exceto aquela viagem.
— Vamos, Camila, pare com isso. – Meu pai disse, me encarando pelo espelho do retrovisor enquanto dava partida no carro. – Não adianta fazer essa cara de mal-amada. Já conversamos sobre isso e você sabe que irá de qualquer jeito.
— Mas pai, isso foi contra a minha vontade! – Exclamei em indignação.
— Contra a sua vontade talvez tenha sido, mas você sabe quanto tempo faz desde que foi visitar a sua avó?
— Com certeza mais de dez anos. – Murmurei.
— Exatamente. O que custa ficar um tempinho lá? Vão ser só durante as férias, nada de extravagante. – Falou. – Além do mais, eu não sei por que você está reclamando. A fazenda era o seu ‘lugar favorito no mundo’, lembra?
— Eu era uma criança! – Bufei. – Eu não vejo aquele lugar há uma década, literalmente. Nem me lembro de lá direito. Não tem mesmo como me deixar ir a Brasília com você?
— Isso já foi decidido, Camila. Você vai para a fazenda e sem mais objeções. – Meu pai disse, pondo um ponto final na discussão.
Francamente, meu pai não me entendia de forma alguma. Ele iria para Brasília cuidar de negócios da sua empresa, provavelmente num hotel de luxo com piscina e comida refinada, enquanto eu, uma adolescente de dezesseis anos, seria deixada na fazenda de minha avó no interior de São Paulo por longos e tortuosos três meses. Seriam minhas férias inteiras desperdiçadas em atividades como cuidar de animais, limpar seleiros e organizar bingos comunitários às sextas.
Três meses sem mais nada, nadinha, de interessante.
Eu geralmente não fazia o tipo “garota rebelde-mimada”, mas quando se tratava de perder toda a agenda de férias que programei com meus amigos para ficar longe de qualquer sinal de wi-fi numa cidadezinha do interior, poderia ser rotulada de qualquer forma. Eu tinha uma lista inteira de atividades prontas, eram shows para ir, festas do pijama, parques temáticos, dias de shopping... e tudo isso tinha ido por água a baixo.
Não que eu odiasse minha avó e meus parentes de Monte Cachoeira, muito pelo contrário, eu adorava todos de lá, mas era fato que eu ser largada em uma fazenda com parentes distantes e sem nada para fazer era no mínimo terrível.
Suspirei. Sem poder discutir com meu pai, eu apenas me encostei no banco do passageiro com a minha típica cara de emburrada e liguei uma música nos fones de ouvido. Seriam longas horas dali para frente...
O percurso até a fazenda durou no mínimo cinco horas, contando o tempo de parar em uma daquelas lanchonetes de estrada e comer um sanduíche de presunto sem gosto. Mesmo a bela paisagem que parecia tentar me consolar não conseguiu aliviar meu mau humor; eu era teimosa, não iria desfazer a cara de bruxa enquanto soubesse que meus amigos estariam curtindo as férias sem mim.
Quando finalmente chegamos, fomos recebidos na entrada da cidade por uma grande e velha placa de madeira no gramado perto da estrada, onde em letras desbotadas dizia-se: “Bem-vindo a Monte Cachoeira”. Mais à frente, de pouco em pouco, iam surgindo os pequenos comércios locais que eu me lembrava muito bem de visitar quando era menor. Estava tudo ali, intacto e apenas um pouco envelhecido, como se tivesse sido congelado no tempo desde a última vez que eu fora lá.
Só faltava uma coisa: pessoas.
Estranhei ao perceber que as ruas do bairro principal estavam quase desertas em plena segunda-feira. Na época que eu o visitava, aquele lugar se mostrava repleto de pessoas passeando e lojas abertas ostentando seus mais variados produtos. Isso só não acontecia quando a fazenda da vovó organizava o bingo das sextas-feiras ou... uma festa.
Mas é claro, como eu podia me esquecer? Estávamos em dezembro.
Não me surpreendi quando, ao me afastar da cidade em direção ao mato aberto, notei um cheiro certamente nostálgico de morangos frescos e grama molhada. Quando o verão chegava era costume local organizar um festival em comemoração da boa safra de morangos em dezembro, isso justificava o motivo das ruas parecerem tão vazias, afinal, grande parte das pessoas da vizinhança estava lá.
Mais alguns metros andados e consegui a visão da fachada da fazenda que, assim como a placa da cidade, parecia desbotada e velha.
“Fazenda Girassol”
Um nome clichê escolhido pela minha avó, que sempre me contava uma história – que por sinal eu sequer me lembrava mais – quando eu perguntava o motivo dele.
No portão, um homem gordo e barbudo de pele avermelhada abriu um enorme sorriso ao ver meu pai pela janela aberta do carro. Era meu tio Carlos, irmão mais velho do papai.
— Júlio! – O homem exclamou. – Finalmente chegaram, estão todos esperando vocês dois lá dentro.
Sem que meu pai pudesse lhe cumprimentar de volta, tio Carlos correu e abriu o grande portão de madeira para passarmos com o carro.
A fazenda, logo na entrada, tinha um curto espaço de grama onde a caminhonete de meu avô e mais alguns carros estavam estacionados. Recordei rapidamente das inúmeras vezes que eu brincara de pega-pega com meus primos e com as crianças de Monte Cachoeira naquele lugar, lembrando do quanto era doloroso cair de joelhos na grama rala que cobria o solo. Eu me esforçaria para não cair lá nenhuma vez novamente.
Saí do carro relutante, com um dos lados do fone pendurado no ouvido e o celular na mão. Suspirei em frustração ao sentir a brisa leve de interior bater contra meu rosto, desarrumando ainda mais meus cabelos curtos de cachos rebeldes. O olhar repreendedor de meu pai fez com que eu guardasse rapidamente meus aparelhos no bolso da calça e ajeitasse minha cara de mau-humor antes de ir cumprimentar meu tio que vinha em nossa direção.
— E aí, meu chapa! – Falou, trocando um aperto de mãos com meu pai. – É impressão minha ou você está envelhecendo? E dizem que os caipiras que ficam velhos cedo!
— Pois é, agora eu concordo que eu estou virando um idoso antes de você, Carlos. – Riu. — O trabalho suga muito de mim.
— Sempre pondo a culpa no trabalho, huh? – Brincou.
O barbudo deu um tapinha no ombro de meu pai e se dirigiu a mim.
— Olha só, se não é a pequena Mila! – Disse, me abraçando calorosamente. – Você está enorme! Quanto tempo faz desde a última vez que eu fui visitar vocês em São Paulo? Uns dois anos? – Riu.
— Acho que sim. – Falei, tentando ser mais agradável o possível, mesmo sem esboçar nenhuma emoção no rosto.
— Pode entrar que eu cuido das suas malas. O pessoal está todo no salão lá em cima, depois do celeiro. Você lembra onde fica, certo?
Assenti, mesmo sem ter muita certeza, afinal, eu não visitava aquele lugar há muito tempo. Tio Carlos pareceu perceber minha insegurança, pois logo disse:
— Bem, vamos facilitar as coisas para você. Sua prima Maria Helena está lá na varanda da casa, ela pode ir com você até o salão. – Disse por fim, enquanto ajudava meu pai a pegar minhas malas.
Agradeci meu tio e tomei meu caminho não tão longo do portão até a grande casa que eu já conhecia muito bem. No curto trajeto, tentei me lembrar dessa tal prima Maria Helena, porém nada me vinha na cabeça. Eu tinha uma prima chamada Maria Helena? E aliás, eu a conhecia?
Mas foi no momento em que eu notei a figura loira de rabo-de-cavalo sentada numa cadeira de balanço na varanda que consegui me lembrar; sim, eu conhecia Maria Helena. Ela era a minha prima mais velha, filha do tio Carlos, que na minha época de criança era conhecida apenas como Malena. Que desilusão, eu sempre prensei que o nome dela fosse esse.
Ao notar a minha presença, a garota abriu um sorriso enorme e levantou de seu lugar para me abraçar.
— Mila! Quanto tempo, garota! – Ela exclamou.
Dei um sorriso amarelo. Era estranho como ela se lembrava tão bem de mim, mesmo sem me ver por dez anos, enquanto eu nem tinha feito questão de lembrar da sua existência.
— Você chegou agora? – Minha prima perguntou. – Mas que pergunta mais idiota, é claro que você chegou agora. Você deveria estar lá com o pessoal, não é? Hoje é o dia do Festival do Morango, e praticamente o bairro todo está no salão da fazenda.
— Eu sei. – Falei. – Seu pai falou para encontrar com você porque você me ajudaria a chegar até o salão. Eu não me lembro muito bem daqui...
— Entendo, entendo. – Ela sorriu. – Vamos lá?
Assenti e minha prima segurou em meu braço, me puxando em direção a cerca que levava até onde os animais ficavam. Malena mantera seu jeito exatamente igual, ainda era a mesma prima mais velha espoleta caipira de dez anos atrás, apenas estava mais alta e seus cabelos loiros agora estavam bem maiores e mais escuros.
Durante o pequeno trajeto, minha prima me fez inúmeras perguntas sobre a cidade grande, e só parou quando chegamos em frente a portinhola do cercado que ficava ao redor do celeiro.
O celeiro era uma estrutura relativamente grande de madeira, pintado em tons estranhos e desbotados de vermelho e branco. Com a grande porta também de madeira aberta, era possível ver alguns dos vários animais que ali estavam, desde belos cavalos até bois e vacas.
De certa forma, cheiro de feno misturado com o de animais sujos era algo nojentamente nostálgico para mim, levando em conta que até os meus seis anos eu era apaixonada pelos animais equinos que ficavam ali. Eu me lembrava daquele ser um ótimo esconderijo para fugir dos meus pais quando eles me chamavam para ir embora.
— Você lembra daqui? – Malena perguntou, sorrindo. Ela não sentia dores no maxilar por sorrir tanto?
— Lembro... – Falei, num tom pensativo, observando de longe algumas galinhas que ciscavam em volta de seu galinheiro.
Foi quando notei um garoto de provavelmente a minha idade em frente ao celeiro escovando uma bela égua malhada. Seus cabelos castanho-claros e sua roupa estavam todos sujos de feno, o que significava que ele provavelmente estaria alimentado os animais, e ele assobiava discretamente uma música qualquer.
Talvez Malena tenha notado meu olhar, porque logo chamou o garoto e acenou com a mão para que ele se aproximasse.
O rapaz de pele levemente bronzeada rapidamente veio até a cerca branca de madeira, estampando um sorriso nos lábios. Porém, quando notou minha presença, ele pareceu se assustar.
— Duvido você adivinhar quem é essa garota ao meu lado. – Minha prima disse.
— Camila? – Perguntou, num tom surpreso de quem já sabia a resposta.
— Na mosca.
Franzi o cenho. Eu não conseguia reconhecer aquele garoto. Seu rosto com bochechas consideravelmente salientes era familiar, entretanto a minha péssima memória não ajudava em nada a descobrir quem era aquela pessoa.
— Não lembra do Leandro não, Mila? – A loira ao meu lado perguntou.
— Ahn... não. – Murmurei. Aquele nome sem dúvidas era familiar para mim, porém parecia tão distante...
O garoto então substituiu sua expressão surpresa por um sorriso torto.
— Estou profundamente magoado, Mila. – Ele disse, num tom sarcástico. – Vocês da cidade se esquecem rápido dos amigos, né?
— Quando se passa dez anos sem vê-los, talvez. – Rebati, sendo ácida mesmo que sem intenção.
Minha prima riu ao meu lado.
— É estranho como você continua a mesma. – O garoto falou.
Eu o fitei. Como assim ‘continua a mesma’? Era uma piada? De dez anos para cá a única coisa decente que eu fiz foi evitar continuar a mesma.
Mas como aquele tal de Leandro me conhecia e eu não fazia ideia de quem ele era? Talvez ele fosse um parente distante ou filho de algum amigo de meus avós, mesmo porque, se ele fosse alguém próximo eu teria me lembrado... certo?
— Estamos indo lá para o salão Leo, você vem? – Maria Helena perguntou ao garoto, interrompendo meus pensamentos.
— Daqui a pouco eu estou lá. Tenho que terminar de escovar a Bada.
Bada. Outro nome extremamente familiar. Incrível como a fazenda podia me trazer tanta daquela sensação de... nostalgia, talvez?
— Ok, esperamos você lá.
Saímos dali e Leandro se despediu de mim com um sorriso sarcástico, como se me desafiasse a lembrar sua identidade. Algo em seu olhar me dizia que aquilo era uma aposta, mas eu não estava nem um pouco afim de apostar confiando na minha memória de velhinha.
Mas cá entre nós, ele não poderia se apresentar como uma pessoa normal?
De fora do celeiro era possível ouvir o falatório e a música que ecoava no salão logo ao lado. Era música sertaneja; típica para o pessoal de Monte Cachoeira, totalmente indiferente para mim.
— Mas Mila, você realmente não lembra do Leo? – Malena perguntou, um pouco pasma.
Neguei com a cabeça.
— Será que você poderia me dar alguma dica? – Perguntei, direcionando um olhar pidão a minha prima.
— Sem chance, vou levar uma bronca dele se te contar. – A mais alta riu. – Agora sugiro que vá ver a vovó, ela quase enfartou de felicidade quando soube que você viria.
XX
Notas finais
Não esqueçam de comentar o que acharam, suas dúvidas, críticas e etc. Prometo responder tudo com muito carinho (até mesmo aqueles só com um "amei" ou um "continua" ♥).
Bom, adios ~
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