Corrente de Cristal
1 Tesouro procurado e Pedra preciosa
– Muito tempo se passou desde a explosão de poderes que senti em Clayton. Devíamos ver como está a situação da cidade. O que você acha, Ryan?
Mas não adiantava, com Ryan era assim mesmo. Não se convencia o garoto a fazer coisa alguma a não ser que ele aprovasse. Desde que se conheceram, era ele quem mandava nela, e ela deixava. A garota gostava mais de obedecer do que dar ordens. Não fora sempre assim, claro, como toda criança, mas algo no seu passado tomou toda a autoestima e a alegria da menina. Ela só opinava e mesmo assim, quando o fazia, era tão baixinho que ninguém ouvia. Quase ninguém. Ryan sempre a ouvia e cuidava dela, protegendo-a. Era muito mais que amigo nessas horas. E ela amava o amigo, mesmo não se achando capaz de fazê-lo.
– Sim, você está certa, Laýla. Vamos já, só me dê tempo de guardar nossas coisas na mochila.
– Noite rosa, rei tirado das águas, pedra preciosa, tesouro procurado...
Laýla cantava versinhos como estes o tempo todo desde que vira os significados dos nomes de seus (únicos) amigos na internet. Ela também gostava de anagramas e poesias. Seu nome significava “noite” e o sobrenome, “rosa”. O nome de seu amigo, Ryan Moshe, significava “rei” e o sobrenome, “retirado das águas”. Seus dois pequenos companheiros caninos, salvos de pessoas que os maltratavam, se chamavam Âmber (pedra preciosa) a fêmea e Jásper (tesouro procurado), o macho. Eles eram tão parecidos que só Laýla sabia diferenciá-los.
Âmber era branca, como Jásper, mas se sujava muito, por ter de andar bastante e ser pequenininha, então a longa pelagem ficava sempre cinza com poeira que caia quando ela se balançava. Seus olhos eram cor de âmbar, daí o nome. Já Jásper, não ficava cinza: ficava preto de sujo. Até talhinhos de mato se encontravam no seu pelo. Seus olhos também eram âmbar, mas um pouco sem o brilho fascinado de Âmber.
Ryan era bem bonito. Sua pele era morena clara e seus cabelos, lisos cor de mel, ficavam bagunçados com qualquer brisa. Seus olhos verdes acendiam quando ele sorria, o que era constante. Era um garoto alto. Dezesseis anos. Músculos definidos? Não, mas é melhor não se meter com ele, pois pode ser estranhamente forte, quando necessário.
Laýla era muito bonita também. Sua pele era branca e seus cabelos, lisos e castanhos, como uma cascata de chocolate puro derretido. Seu rostinho delicado de anjo, era rosado nas maças e no narizinho arrebitado. A boca era bem desenhada e prometia um lindo sorriso, se sorrisse. Tinha olhos grandes e luminosos, pretos como a noite. Era proporcional, delicada e atlética. Quinze anos completos. As pessoas simplesmente a obedeciam quando falava “daquele jeito”. Mas há um tempo, ela decidira falar baixo.
Põem as mochilas nas costas e vão andando. Rumo a Clayton. Sozinhos.
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