Corrente de Cristal
2 Mais Lutadores
Notas iniciais
Clayton não era bonita nem feia. Só mais uma cidade no globo, que ficava girando em torno de si, em torno do Sol e em direção a um buraco negro, segundo cientistas que falavam no rádio da lanchonete na qual se encontravam nossos dois jovens viajantes. A cidade podia ser vista com clareza. Mais alguns quilômetros e nada mais. A garota não falava e mantinha a cabeça baixa. Tinha um cãozinho sujo em seu colo. O garoto parecia estar cansado, como ela, mas feliz. Um animado cãozinho, sujíssimo, balançava o rabo e olhava para o carismático rapaz com uma expressão divertida. Laýla estava nervosa, por dentro. Por fora parecia até mesmo entediada. Já Ryan, estava de todo muito animado.
Na fronteira definitiva da cidade, a atmosfera mudava e ficava carregada. Mas para essas crianças era normal. Era como saber que a ressaca vem depois de bebedeiras. Não que eles tivessem bebido. Mas viram alguns casos. E sabiam avaliar as consequências da degradação.
Dentro da cidade, jovens corriam de lá para cá com sorrisos idiotas no rosto e grupinhos de amigos conversavam nos locais menos privados possíveis. Isso enfurecia a pobre Laýla, que mal conseguia esconder a irritação. Ryan percebeu, é claro, mas não falou nada. Afinal, a ideia de vir à cidade fora dela. Ele sentia-se culpado por ter ouvido, não muito tempo atrás, a triste historia do passado da amiga e não queria se meter em mais nenhum monólogo infeliz. Contentou-se em apenas passar o braço pelos ombros da menina de forma protetora. Sorte dela, pois na mesma hora um casal de namorados distraídos caiu por cima deles e os quatro foram ao chão.
– Que burrada, foi mal — disse o jovem de cabelos avermelhados.
– Opa! Acho que não vi vocês aí! Foi mal, hein — falou a garota de cabelos castanhos.
Uma única lágrima, bem discreta, foi ligeiramente aparada pela mão magra de Laýla. Não tinha mais nenhuma dor por causas inúteis. Essa única lagrima não era de dor, era de ódio. Laýla odiava ser humilhada. Mas mesmo sendo discreta, não impediu que Ryan percebesse o movimento e, com o instinto de um irmão mais velho, avançasse para cima do outro garoto e atingisse o seu rosto com um soco rápido. Teria havido uma retaliação, se Jásper não tivesse dado uma mordida forte na mão que apoiava o ruivinho, desequilibrando-o.
Todos pararam e se entreolharam com atenção. O casal desastrado parecia saber lutar e era insensato seguir com uma briga. Laýla segurava-se em um dos braços de Ryan e falava em sua linguagem de sussurros quase impossíveis de serem ouvidos para que o amigo se aquietasse. Ela estava bem. Chorara por orgulho, admitiu. O amigo devoto respirou fundo, concordando que agira impulsivamente. Olhou para cima. O outro casal os encarava com uma expressão desconfiada. Laýla o convenceu a pedir desculpas e a se apresentar e ele assim o fez.
– Eu... peço... perdão, agi por impulso. Meu nome é Ryan Moshe.
Laýla levantou-se e sacudiu a calça desbotada e velha que vestia. Olhou com uma determinada surpresa e falou em um tom baixo, mas audível, algo que deixou a todos sem reação por alguns segundos, mas depois foi seguido por grande falatório:
– Vocês são guerreiros?
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