Corrente de Cristal
3 Palavras e sons
Naquela casinha minúscula acontecia uma reunião parecida com um julgamento. Talvez minúscula para alguns, é claro, mas para Laýla e Ryan era uma casa muito, muito satisfatória. Os dois jovens de Clayton queriam arrancar qualquer coisa que os ajudasse a descobrir como Laýla sabia sobre seus dons internos. Na sala em que estavam não havia nada muito espalhafatoso, mas oferecia um conforto relativo. Pelo menos tinham onde sentar.
O primeiro a falar foi o ruivo, que se apresentou como Aaron. Estava de pé e parecia com raiva, o que fazia sentido, pois quem não ficaria assim, depois de levar um soco no rosto? Principalmente ele sendo um lutador?
Ryan ficou calado, esperando que Laýla agisse. A intuição de lutador dentro de seu coração estava incitando-o a fazer uma grande estupidez. Ele tinha que se conter, tinha que pensar.
A garota que acompanhava Aaron chamava-se Lucille e parecia estar entediada. Porém, Laýla via o canto de sua boca se curvar em um sorriso discreto e perigoso. Lucille, assim como Aaron, irradiava a força bruta e furiosa dos lutadores.
Ao acabarem os argumentos do exaltado Aaron, que parecia muito preocupado com sua imagem social, Ryan começou a falar algumas palavras que ensaiara mentalmente. Explicava de forma breve uma história que montara, com pausas estrategicamente alojadas, como em um monólogo biográfico. Fez um teatro de gestos com as mãos para que parecesse incomodado de contar a história de sua vida. No fim, fez um bom trabalho. Aaron e Lucille ficaram parados e até mesmo Laýla pareceu impressionada. Para um guerreiro, o mais normal é que se tenha mais habilidade em falar com os punhos, mas eloquência dele era invejável.
Aproveitando o momento de pausa que se fez presente, Laýla desviou seu olhar para fora. Os cachorrinhos brincavam na varanda da casa, subindo nos bancos e pulando para o chão. Estavam sujos e a cada pulo levantavam poeira, sujando-os mais ainda. Talvez pulassem exatamente para isso, refletia Laýla. Ela imaginava que o Sol continuaria caindo sobre a Terra, ou como lhe ensinou Ryan, a Terra continuaria girando sobre si, e eles quatro, dois humanos e dois cãezinhos, continuariam juntos como uma família. Independente de quantas vezes o Sol caísse no horizonte.
Seus pensamentos melancólicos foram interrompidos, apenas quando Ryan gritara seu nome, retirando-a do devaneio. Laýla assustou-se e enrubesceu levemente. Era sua vez de contar alguma coisa sobre sua vida, mas não sabia o que dizer. As palavras não vinham. Dificilmente vinham, depois de tudo que ela passou. Não conseguiu pensar em mais nada, mentiras ou verdades, nada. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela pediu licença para sair do aposento e correu até a varanda, deixando a todos bastante intrigados.
Sentada no banco permitiu-se chorar, enterrando o rosto molhado nas mãos. O céu derreteu-se em uma aquarela serena e gélida. Era um dia bem incomum, daqueles em que o mundo acompanhava seu humor, cinzento e melancólico.
A chuva ficou mais forte. O vento em Clayton era invernal. Palavras e sons perdidos vinham com ele, rolando ruas abaixo até saírem da cidade, ficando cada vez menores e sumindo de vista. Os habitantes de Clayton fechavam as janelas e retiravam as roupas dos varais, assustados com a tempestade que se formava sobre suas casas.
Ryan se aproximou cautelosamente de sua amiga. Ele jamais a magoaria quando ela se encontrava nesse estado de extrema infelicidade. Sentado ao lado dela, sentiu-se bem. Laýla aconchegou-se em seu colo e permitiu que Ryan a abraçasse. Ela amava seu amigo mais do que a si mesma. Precisava dele.
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