Corrente de Cristal
12 Com bipes e flocos molengos
Por Laýla;
Acordei meio tonta. Como todos os outros dias.
Na mesa de metal, do lado da minha cama, meu café da manhã estava me esperando. Qual será o prato principal? O de sempre: molengos flocos boiando no leite morno com nata. Sem gosto, nem cheiro. Sério isso? OK, é comida, mas mesmo assim! Sempre a mesma gororoba, sempre a mesma roupa, sempre a mesma rotina, sempre a mesma... Eu! Suspiro.
Tiro a mascara do rosto – que é igual a dos médicos, como se eu fosse transmitir doenças para a mesinha – e como tudo rapidinho por que, se eu demorar, a cama dará choques. Já aconteceu outra vez. Não dói tanto, mas incomoda e eu não consigo dormir por um tempão. Quando aconteceu, os médicos não vieram me levar e eu fiquei olhando pela parede de vidro durante o dia inteiro, até que um homem de mascara azul veio me trazer um prato com carne. Foi a única vez que eu jantei, pelo que me lembro. Carne é gostosa!
Os médicos já chegaram; Eles podem passar pelo vidro da parede quando querem. São idênticos e vem todos os dias. Um deles coça o nariz, recolhendo meu prato e o outro aplica a injeção em mim. A agulha penetra minha pele, solta um jato de sono liquido e sai. Sinto-me ser deitada em minha cama. Quando o sono é injetado em uma pessoa, ela fica muito mole e dorme quase eternamente. Quer dizer, até o outro dia. Mas ainda estou acordada quando os médicos empurram minha cama para fora do quarto.
Sempre quis saber aonde e o que eu fazia quando dormia. Quando sua vida é acordar, comer sucrilhos e dormir de novo, querer saber disso é normal. Primeiramente, devo dizer que eu fiquei assustada. Depois, que deixar os olhos fechados quando esta sendo empurrada por uma passagem desconhecida não é fácil. Mas é obrigatório.
– Bom dia, Jorge! – Alguém falou.
– Harvey? Por que você está cobrindo o turno do Eddie? – Um homem, provavelmente o Jorge, perguntou. A voz veio de trás de minha cama, então suspeito que Jorge seja um dos médicos.
– Ele tem a semana de folga. A esposa dele morreu.
– Que pena! – os dois médicos que me levaram fizeram o coro.
Continuei sendo empurrada por aí. Minha cama balança muito. De repente, minha cama para e uma luz super brilhante bate no meu rosto e eu quase levanto as mãos para proteger os olhos. Foi por pouco que não entreguei a mim mesma.
– Bom dia, Jorge! Gostaria de comer uma fatia? Sem lactose, claro! – uma vozinha fina de mulher falou.
– Claro! Chocolate é um dos meus sabores prediletos. – Jorge deve ter muitos amigos – Ei, Sam? Belo colar!
– Obrigada! Ganhei de uma prima. – Então, Sam pegou em minha mão e alisou meus cabelos. – Bom dia, Laýla! Vamos fazer exercícios antes dos exames.
Ninguem respondeu. Penso que essa tal de Laýla é muito chata e não gosta de ter amigos.
Sam pegou minhas pernas e fez uns movimentos como se eu estivesse andando e com meus braços, esticou-os e entortou-os. Quando acabou de fazer exercícios em mim, ouvi um clique bem alto e uma voz meio alterada pela estática.
–... Pra nós. Sam? Você ligou?
– Ela já está pronta, Grace. – Sam responde – Jorge teve que sair do subsolo e eu preciso que você mande outro guarda.
– Sam... não tem ninguém disponível agora.
– Eu também não estou disponível, Grace!
Silencio.
– Coloque ela no elevador – Grace falou – e eu pego quando chegar aqui.
Sam suspirou.
– Laýla, querida, não conte para ninguém, mas Grace é meio maluca.
De novo esse nome foi mencionado sem ninguém responder. Fico pensando que talvez Laýla não seja uma pessoa e não fale mesmo.
Minha cama foi empurrada delicadamente, ou seja, sem balançar, ate um lugar que fazia bipes. Sam falou de novo com Laýla:
– Você vai sozinha, mas não tenha medo, Laýla. Seja uma boa menina.
Laýla não respondeu nada.
Sam empurrou minha cama só mais um pouco e ouvi um bipe.
No silencio, me permiti abrir os olhos. De um lado da cama, tinha uma porta cinza e um montão de botões. Do outro, uma menina toda assanhada com um vestido branco, sentada em uma cama com um plaquinha igual a minha estava olhando para mim. Mas eu não estava sozinha?
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