Corrente de Cristal
8 A Vala
As árvores pareciam correr na direção contraria a qual a menina seguia, tropeçando na vegetação. Ela se sentia pequena no meio das plantas. Arfava. Estava escuro sob os enormes galhos verdes, que fingiam ser o céu. No chão, raízes cobertas de musgo dificultavam sua fuga e deixavam machucados em sua pele, causando dor à criança.
De repente, a floresta se abriu em uma vala e a garotinha escorregou. No fundo do buraco, uma dor intensa no tornozelo era sinal de uma torção. Do lado de fora, à beira do covil, passos pesados fizeram-se ouvir juntamente com vozes masculinas, e a menina fez o máximo de silencio que pôde — o que não era muito, com o tornozelo inchado e doendo insuportavelmente.
Foi quando um dos homens entrou na cova, sorridente, olhando em volta até seus olhos encontrarem os da criança.
– Oi, bebê!
– Não! – A garota murmurou inquieta. Seus olhos pretos ganharam um brilho espiral e ela mirou os olhos do invasor – Eu sou apenas uma raposa faminta. Saia da minha toca. Agora!
O ultimo sussurro foi em um tom urgente, quase apelativo. O homem levantou. Seus membros realizavam movimentos sincronizados, mas sua expressão era de não reconhecer os atos como seus. Ele pôs, por fim, a cabeça pro exterior da pequena toca no exato momento em que, lá fora, alguns homens urraram. O invasor continuou seu caminho, levantando devagarinho, sem vida em seus movimentos. E então algo o içou e fez-se silencio.
Diante dos olhos da pequena, voavam pontos embaçados. Como se já não estivesse escuro o suficiente, ela pensou. De fato, respirar era doloroso e, agora que estava parada, sentia todo o seu corpo. Seus cortes finalmente decidiram que era hora de arder. Estava com sede. Tentou deitar e reprimiu um grito: era doloroso demais. Então uma forma pequena pulou agilmente dentro da fenda.
A princípio, a garota achou que fosse o verdadeiro dono da toca — e seria azar se fosse uma raposa! — mas depois percebeu que era grande demasiado para tal. Uma onda de adrenalina encharcou seu corpo e ela sentiu menos dor no tornozelo. Sentou-se mais ereta. E escutou:
– Olá! Que está fazendo aqui?
Era um menino. Ele tirou uma lanterna pequena do bolço, ligou-a e apontou para si mesmo. Ele era magrinho, um tanto alto e tinha cabelos lisos cor de mel. Os olhos dele eram de um verde elétrico que casava tão bem com o tom de seu cabelo que o garoto parecia uma arte neoclássica. Ainda por cima, ele tinha um sorriso de derreter qualquer garota que tenha alma. Começou novamente:
– Quem é você? Eu sou Ryan.
Agora apontava a luz para a menina. Então, ela lembrou que seu cabelo liso e castanho devia estar bagunçado depois da correria e levou as mãos até a cabeça segurado o cabelo e dando um nó. Ela tinha consciência que devia responder logo, mas não sabia como e enrubesceu imediatamente:
– Er... Oi, eu acho! Er...
Ryan riu. Desligou a lanterna e guardou-a no bolço. Depois, com uma voz zombeteira, disse:
– Deixe-me ajudar, OK? Você diz assim: meu nome é...
– Laýla!
– Ora, ora! Você fala! Oi, Laýla. O que faz por essas bandas?
Laýla hesitou. Será que podia confiar nele? Era melhor mentir.
– Nada de importante. – Então mudou de ideia. – Na verdade nem sei onde estou. Onde estou?
– Em nenhum lugar especifico. Essa parte da floresta é inabitada por causa dos...
– O que é ‘inabitada’, Ryan?
Ele riu de novo, deixando Laýla irritada. Que garoto chato! Ela não tinha como saber!
– É o mesmo que ‘deserto’ ou ‘sem nenhuma alma humana’. Por causa dos lobos e dos Lobinhos. Você sabe o que são os Lobinhos, Laýla?
– Não mesmo.
– Bem... Nem eu. Só sei o que ouço e não é muito. Acho que são refugiados. Pessoas más que fugiram do controle das damas da Corte Slateblue. Sabe o que é isso, não?
– Acho que você sabe que eu sei!
– Não fique chateada comigo! Se você quiser minha ajuda vai ter que aguentar e escutar minhas explicações de professor o tempo inteiro!
Agora Laýla ficou zangada de verdade. Que garoto metido! Quando foi que ela disse que precisaria dele? Bufou, indignada.
– O que te faz pensar que vou precisar da sua ajuda?
– O que te faz pensar que não? Lembre que acabei de acertar uns caras da Corte Goldenrod que estavam lá fora e que sou bem mais velho que você!
Laýla calou. Ele tinha ‘acertado’ aqueles homens? Mas ele não poderia! Eram seis ou sete policiais armados e fortões, não cairiam fácil. Ela tinha que saber:
– Como...?
– Esgrima.
– Matou os seguranças do plantão com uma faca?
– Es-pa-da! – Ele cismou.
Que diferença fazia? Ele devia ser ótimo em esgrima para fazer tudo isso e não morrer. Laýla tentou ver seu rosto, mas estava escuro. Se fizesse contato visual...
– Vamos sair daqui? Não é confortável.
Ryan não respondeu. Levantou rapidamente e içou-se para fora da abertura da vala. Laýla o seguiu de perto. Saíram numa clareira. Ryan pigarreou.
– Reconsiderou minha oferta? – E antes que Laýla perguntasse, esclareceu – Pensou e mudou de ideia. E então?
Noites abençoadas de luar sempre vinham ‘a calhar’ para Laýla. Uma vez que estavam debaixo da lua, ela pôde ver o brilho esverdeado dos olhos de Ryan, mas antes de invadir lhe a mente, ele sorriu. Ele olhou bem nos olhos dela e disse:
– Gostaria que você viesse comigo. Eu não me sentiria sozinho. E você é legal, sabe?
Pronto! Ele dissera as palavras "proibidas"! Agora ela não poderia reagir racionalmente: não tinha como invadir a mente do garoto e nem como conter as lágrimas que escorriam para fora de seus olhos negros.
– Laýla? Que foi?
A menina tentou responder, mas não conseguiu formular palavras e soltou um gemido curto e baixo, de lamentação. Ryan se aproximou cauteloso. Ele olhou para Laýla e então fez algo que surpreendeu os dois: ele a envolveu a menina em seus braços magros e a apertou com força contra o seu tórax.
– Laýla?
– Sim?
– Você vem, não é?
– É. Eu acho que sim.
– Sabe de uma coisa? Eu não menti quando disse que você é legal, eu só omiti a verdade.
– Que verdade? – Laýla enxugou as lagrimas e olhou para Ryan.
– Você é esplêndida, Laýla! – Ryan sorriu e mirou Laýla.
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