Correndo atrás do amor

3 Capítulo 03: Recolhendo os cacos


Notas iniciais
Olá, meus amores, Antes de qualquer coisa, eu não poderia deixar de agradecer a Suzyfs, Sheilinha, Myrho, Aislyn, Sah Moura, Haleth Jhaeion, nane yagami, Sarah Hardt, Suh Domingues, Lilith Rose, Suh, cle, Ravena, Automne Chemin, Floquinho De Gelo e Rion no Gemini pelos comentários no capítulo anterior. Vocês são incríveis! XD Espero que gostem do capítulo. Boa leitura.

Capítulo 03: Recolhendo os cacos

Minha mãe abriu as persianas, fazendo o sol entrar pela janela, e eu apertei os olhos por conta da luz.

— Mãe, fecha essas cortinas! Que droga! — reclamei, cobrindo o meu rosto com o lençol.

— Está um dia lindo lá fora para você ficar aí, deitado nessa cama até tarde. Por que não vai à praia com seus amigos, como sempre faz aos sábados pela manhã?

— Porque eu não estou a fim.

Ela suspirou, colocou as mãos na cintura e balançou a cabeça.

— O que aconteceu, rapazinho? — Sua voz soou autoritária. — Você só fica assim, enfurnado nesse quarto, quando está chateado com alguma coisa.

— Não aconteceu nada, mãe... Que Saco! Me deixa quieto, só quero dormir mais um pouco.

Droga! Eu só queria continuar curtindo a minha dor-de-cotovelo em paz. Ficar ali, deitado, sozinho, remoendo o fora que eu levei na noite passada. Por que ela tinha sempre que atrapalhar isso? A minha mãe era do tipo que adorava pegar no meu pé, ficar mexendo nas minhas coisas, entrar no meu quarto sem bater na porta e querer saber tudo o que eu fazia. A senhora Helena era terrível na arte de bisbilhotar a minha vida.

— Seja lá o que for, não é o fim do mundo. Vamos, levante-se. — Ela puxou os lençóis.

Era o fim do mundo sim, o fim do meu mundo. Camus não me queria, ninguém me queria, e a vida era uma verdadeira merda! Eu estava fadado a ficar sem amor pelo resto da minha vida. Entretanto, como a minha mãe jamais entenderia isso, resolvi me levantar antes que ela começasse um interrogatório.

Depois de almoçar, voltei para o meu quarto e fui ler alguns capítulos do livro que o professor Saga havia me recomendado. Era literatura estrangeira, mas eu sempre curtia os livros que ele me indicava. Mal comecei a ler, e o meu celular apitou. Era Aiolia e Mu me enviando mensagens, questionando a minha ausência na praia. Eu os ignorei e continuei lendo.

Algum tempo depois, guardei o livro, porque eu não estava conseguindo me concentrar na leitura, e peguei o notebook para jogar videogame online. Acabei entrando no Facebook e fui stalkear Camus pela milésima vez. Ele já tinha me aceitado como amigo, e eu já conseguia ver seus posts.

Fiquei um bom tempo olhando seus álbuns. Havia uma fotografia dele ao lado do cara que eu encontrei em seu apartamento, o tal de Surt. Cara ridículo! Nesse momento, eu desejei que no Facebook tivesse opções como “não curti” ou “odiei”. Havia também algumas fotos de Camus com Shura, e várias fotos de outras três pessoas que eu não conhecia. Uma dessas pessoas devia ser algum irmão dele ou um parente próximo, pois eram muito parecidos. As outras duas pessoas eram uma moça loira e um garotinho de uns cinco anos que parecia muito com a moça loira.

No mais, não havia muita coisa. Camus não tinha muitos posts e estava ausente no bate-papo. Eu resolvi sair do Facebook antes que acabasse deixando uma mensagem para ele. O bastardo ainda nem havia respondido a que eu enviara ontem, antes de ir à sua casa. Na verdade, ele não havia sequer visualizado a mensagem. Como se não bastasse ter me rejeitado pessoalmente, ele me rejeitara virtualmente também.

Passei o restante do dia praticamente dentro do meu quarto, de mal humor, sem vontade de fazer nada, apenas jogando videogame online.

Durante os dias seguintes não foi muito diferente, eu tentava me concentrar nas aulas, no futebol, no videogame, mas nada parecia tirar Camus da minha cabeça. Em casa, eu tentava disfarçar para evitar que minha mãe ficasse o tempo todo perguntando o que eu tinha, já era o bastante ela reclamar que eu passava muito tempo em frente ao computador.

Mas foi na sexta-feira que o meu humor começou a melhorar. Estávamos na cantina da escola, na hora do intervalo, conversando sobre algumas coisas que nem me lembro direito o que era, quando algo nos chamou atenção. Um casal de colegas passou de mãos dadas, no maior carinho um com o outro.

— Eles não haviam terminado o namoro? — Marin, a garota em quem o meu primo Aiolia estava interessado, questionou. — Eu achei que ela já estivesse com outro namorado. Eu a vi aos beijos com Abel na festa de aniversário da June.

— Fiquei sabendo que eles reataram o namoro no dia seguinte à festa. — Shina, a melhor amiga da Marin, respondeu. — Parece que ele ficou morrendo de ciúmes quando a viu com Abel e fez mil e uma declaração de amor para ela. Bem, ao menos foi isso que a Jisty me contou.

— Tem gente que é assim, só se dá conta dos sentimentos quando está com ciúmes. Já vi muitos casos como esse nos seriados que assisto... — Comentou Mu, e, nesse momento, uma luz se acendeu na minha cabeça.

Era exatamente isso o que eu precisava para fazer Camus me notar novamente. Eu tinha que provocar ciúmes nele.

E foi então que me veio a ideia de voltar à boate para colocar o meu plano em prática. Só que, dessa vez, eu não queria ir sozinho. Caso as coisas não saíssem como o planejado, era bom ter amigos por perto.

O difícil foi conseguir convencer Mu e Aiolia a irem numa boate gay comigo. Bem, na verdade, não foi tão difícil convencer Mu, o problema mesmo foi com o meu primo. Depois de muita chantagem e de jogar na cara de Aiolia todas as vezes em que eu havia me metido em encrenca por causa dele, eu ainda tive que dar alguns games da minha pequena coleção para aquele bastardo. Agora a coleção dele ficaria maior do que a minha.

* * *

— Eu ainda não acredito que você me convenceu a vir até aqui. Você está me devendo uma, Milo. E uma das grandes... — Aiolia berrou, com os olhos arregalados, quando já estávamos em frente à boate, e ele observava com desaprovação a placa luminosa e colorida piscando o nome Bee Gay. Acho que ele esperava algo mais discreto. Em seguida, seus olhos se viraram para um trio de homens afeminados que gesticulavam e riam alto, olhando em nossa direção. — E tem mais, se algum cara mexer comigo, eu vou enfiar a porrada...

Mu revirou os olhos.

— Relaxa, Aiolia! Ninguém vai mexer com você se você não se mostrar interessado — ele falou calmo, parecendo não se incomodar com o ambiente.

— É o que eu espero.

— Além do mais, o lugar está lotado de homens bonitos, quem é que vai olhar para você? — provoquei, arrancando-lhe um olhar indignado.

— Está insinuando que eu não sou bonito?! Pois saiba que eu faço muito sucesso com as garotas. E até com os gays. A prova disso é que aqueles três garotos ali não param de olhar para mim.

Eu tinha que concordar, o meu primo Aiolia era muito bonito mesmo e, por onde passava, chamava atenção das pessoas. Mas eu não admitiria isso para ele nem sob tortura.

— Claro! Você fica reparando neles. Devem achar que você está a fim.

— Credo! — Ele arregalou os olhos, parecendo apavorado com a ideia, e seu pescoço ficou duro de repente, como que se estivesse se policiando para não olhar em direção aos garotos.

Eu me segurei para não rir da cara de otário dele.

— É só você ficar na sua e não reparar em ninguém. E caso alguém te olhar com interesse, é só ignorar... — eu estava falando, quando notei Shura conversando e fumando ao lado de um cara, perto do estacionamento. — Me esperem aqui, eu já volto.

Deixei Mu e Aiolia confabulando sobre como fariam para evitar cantadas e eu fui atrás de Shura para sondar se o ruivo estaria ali, naquela noite.

O homem com quem Shura conversava era alto e de corpo atlético. O seu cabelo castanho escuro parecia ser longo, mas não dava para dizer ao certo, porque estava preso num coque no alto da cabeça. Também não dava para ver o seu rosto, porque ele estava de frente para Shura e de costas para mim. Ele falava e se divertia com algo que parecia ter graça somente para ele, já que Shura continuava com a sua feição séria.

Eu me aproximei um pouco mais, até que Shura me notou. Ele arqueou uma sobrancelha ao me ver, e perguntou ríspido:

— O que você está fazendo aqui, garoto?

Foi então que o outro cara olhou para trás, e eu tive certeza de que meu coração parou de bater naquele exato momento.

O cara era o meu professor Saga.

Estou ferrado! — Foi a primeira coisa que pensei. A segunda foi que ele estava ainda mais bonito naquela calça jeans clara justa em suas pernas torneadas e naquela camiseta branca apertada em seus braços fortes. E por Deus! Como ele era bem mais musculoso do que dava para perceber ao observá-lo em seus ternos clássicos, que era como eu estava acostumado a vê-lo se vestir.

— Aqui não é lugar para um garoto de sua idade. — Shura tirou-me do estupor.

— Eu, ahn, bem... — A gagueira dominou imediatamente. Não havia espaço para palavras, quando os pensamentos quicavam na minha cabeça, um pouco impressionado com o jeito descarado com que o professor Saga me analisava.

— Nossa! Quem é o de cachinhos dourados, Shura? — ele indagou, apagando seu cigarro.

O quê?! Franzi a testa. O professor Saga não estava me reconhecendo?! Mas por que ele não estava me reconhecendo? Eu não sabia o que pensar tamanha era a confusão em minha cabeça.

Shura bufou e respondeu:

— É uma encrenca que o Camus arrumou.

— Camus?! Sério?! — O homem, que eu não tinha mais certeza se era o professor Saga, gargalhou de maneira debochada. —Tenho que admitir que estou surpreso em descobrir que o Camus é fã de garotinhos. Quero ver ele me criticar agora...

— Ele não é fã de garotinhos, foi só um mal-entendido — Shura retrucou.

— Só um mal-entendido?! Ele bem que gostou do mal-entendido aqui! — falei, tentando demonstrar algum orgulho ali, e o outro cara gargalhou novamente.

Shura balançou a cabeça, em negação.

— Não seja metido, garoto. Vá para casa, aqui não é o seu lugar. O Camus não vai gostar nada, nada de te ver por aqui se vangloriando às custas dele.

Então ele vem hoje! — pensei, satisfeito.

— O que vocês veem naquele sem graça do Camus?! — O cara que tinha o rosto idêntico ao do meu professor deslizou o braço em volta do meu ombro e falou no meu ouvido, num tom sedutor: — Sabe, Cachinhos Dourados, tem pessoas muito mais interessantes por aqui, como eu por exemplo. Talvez você queira me fazer companhia essa noite... — Ele cheirou o meu pescoço, me deixando meio assustado com toda aquela ousadia e me desvencilhei do seu abraço. Ele riu. — Não se preocupe, eu não mordo. Ou, se mordo, prometo que gostará.

— Ah, por favor! Não acredito que você também se interessou por esse pirralho...

Quando eu iria retrucar com Shura por ele ter me chamado de pirralho, Mu e Aiolia se aproximaram, desviando minha atenção. Assim que eles viram o cara, ficaram brancos e se entreolharam, preocupados. Imaginei que eles estivessem pensando a mesma coisa que eu pensei quando o vi.

— Mas o quê?! Você trouxe o resto do jardim de infância com você! — Shura berrou, rude. Depois olhou para Aiolia reparando no rosto dele e arqueando uma sobrancelha. — Ei, você parece muito com alguém que eu conheço.

Aiolia fez uma carranca.

— Eu não pareço com ninguém não! — Então se virou para o cara. — Nós já estamos indo embora, professor Saga, foi mesmo uma péssima ideia vir até aqui... — Aiolia tentava se justificar, quando, de repente, pareceu se dar conta de alguma coisa. — Espera aí, o que você está fazendo aqui? Não me diga que você também é gay?! Quer dizer, digo tambémpor causa do Milo, porque eu não sou.

— Aiolia! — Mu o repreendeu por sua falta de discrição, enquanto eu revirava os olhos. — Isso não é da nossa conta!

— Sim, eu sou gay — o cara respondeu. — E não, eu não sou o seu professor Saga.

— Não?! — Mu e Aiolia exclamaram uníssono, mas eu meio que já tinha percebido. O jeito de se vestir, o jeito de conversar e suas expressões eram muito diferentes. Eu melhor do que ninguém já tinha reparado em muitos detalhes do rosto do professor Saga, e ele não tinha uma pequena cicatriz que o cara tinha próximo a sua sobrancelha esquerda.

— Esse é o Kanon... — Shura contou, revirando os olhos.

— Mais ele é igualzinho ao professor Saga. — Aiolia soltou. — Quero dizer, tirando essas roupas justas e essa cara de tarado...

— É óbvio que eles são gêmeos... — Mu disse, com um jeito de quem parecia achar que aquilo era o máximo. Eu também achei. Afinal, quem poderia imaginar que o professor Saga pudesse ter um irmão gêmeo?

— Vamos, Kanon, já terminamos o nosso assunto mesmo... — Shura o chamou e olhou para nós. — E quanto a vocês, acho melhor irem para casa.

— Nós vamos é para a boate... — deixei claro, só que Aiolia contestou.

— Não podemos entrar, Milo.

Olhei para o meu primo com interrogação, mas foi Mu quem começou a explicar:

— O rapaz ali — Ele apontou em direção ao homem — nos informou que são mais de cinquenta euros só para entrar e que a bebida lá dentro é muito cara. Nós não temos dinheiro suficiente para os três, a não ser que a gente não consuma nem uma água mineral. Eu gastei toda a minha mesada comprando o presente de aniversário da June, e Aiolia disse que não pagará esse valor para entrar numa boate gay.

— Esse valor só para entrar é um absurdo! Um roubo! — Aiolia rosnou, indignado.

— Concordo totalmente com você sobre isso — Shura deu uma risadinha, enquanto o tal Kanon o olhou enviesado e crispou os lábios. — Além disso, só pode entrar maiores de dezoito anos.

— Eu tenho mais do que dezoito anos! — Aiolia mentiu, estufando o peito.

— Ah, é? — Shura duvidou. — Me deixa ver a sua identidade então.

— Você é o segurança da boate, por acaso? Eu sou vou mostrar a ele.

Shura o olhou, sem esconder sua chateação, rebatendo-lhe no mesmo tom ríspido:

— Se você acha que vai conseguir entrar usando alguma identidade falsa, está muito enganado!

Eles trocaram olhares nada amigáveis, e Kanon revirou os olhos.

— Shura, não seja tão antipático. Algum de vocês tem menos de quinze anos?

— Todos temos dezessete — respondi rápido.

— Então eu vou colocar vocês lá dentro... — Ele sorriu sedutor ao mesmo tempo em que piscava um olho para mim, e eu o retribui com o meu sorriso mais charmoso. O Kanon parecia muito legal, e eu estava começando a gostar de flertar com ele.

— Você só pode estar brincando, Kanon! Endoidou de vez?! Os garotos são menores de idade.

— Eles têm quase dezoito... — Ele olhou para Shura como que dizendo isso era um detalhe insignificante. — Até parece que não frequentávamos boates quando tínhamos a idade deles. — Estalou a língua e depois se virou para nós. — Vamos, garotos...

Nós seguimos Kanon até a fila, que estava lotada. Só que, ao invés dele entrar na fila, como as outras pessoas, ele passou direto. Nós fomos atrás dele, e o segurança tentou nos barrar; porém, Kanon apenas fez um sinal indicando que estávamos com ele, e o segurança nos deixou passar, sem olhar identidade, sem cobrar entradas, sem questionar.

— Como você conseguiu isso? — eu quis saber, impressionado. — Você é amigo do segurança?

Kanon deu um sorriso, convencido.

— Não. Sou apenas a pessoa que paga o salário dele.

O meu queixo caiu. Caramba!

E ele despencou mais ainda quando entrei na boate. O lugar era simplesmente incrível!

Eu já havia pesquisado sobre a Bee Gay e até vi algumas fotos na Internet. No entanto, por mais que na descrição deixava claro que a lá era o ponto de encontro favorito dos tops do mundo gay grego, com um dos públicos mais atraentes da cidade, eu não imaginava que o lugar fosse realmente tão impressionante.

Homens lindos, bem vestidos e de corpos atléticos dançavam sob um plano de fundo com imagens psicodélicas e coloridas, que mudavam de cor e movimento de acordo com a música eletrônica que tocava e que, por sinal, era bastante animada e dançante.

— Cara, quanto homem tem aqui! — Aiolia fez uma cara de desgosto. — É muita testosterona reunida num lugar só.

Eu ri com o comentário dele. O que o meu primo não sabia é que era exatamente isso o que eu tinha mais gostado naquele lugar.

— Venham comigo, garotos, e preparem-se para usufruir de tudo o que a boate mais louca de toda a Europa tem a oferecer.

Kanon nos escoltou até uma seção da boate que deixava claro que era um espaço "VIP". Era uma espécie de sacada com vista para toda a boate, com uns sofás de couro, umas mesinhas e um outro bar menor. Havia também umas cabines com cortinas. De lá, dava para observar a pista de dança, que era cercada por um bar onde a galera se sentava para bebericar enquanto observavam a massa dançante e as luzes estroboscópicas.

— Vou buscar uns drinques para nós, o.k.? Me espere aqui — Kanon falou no meu ouvido, e tocou seus lábios em meu pescoço.

— Acho que o irmão do professor Saga está a fim de você — Aiolia disse quando Kanon se afastou. Shura havia saído junto com ele.

— É o que parece — falei, coçando minha cabeça e correndo os olhos ao redor do ambiente para procurar por Camus, sem sucesso. Eu deveria ter seguido Shura. Com certeza ele tinha ido para onde Camus estava, pensei. Eu estava louco para que ele me visse ali.

— Vocês não acham isso tão estranho? — Mu questionou, chamando minha atenção.

— O quê?!

— A gente aqui como esse tal de Kanon. Agora eu ficarei meio sem graça nas aulas de Literatura. Vou olhar para o professor Saga com o seu jeito todo sério palestrando sobre autores renomados e vou ficar me lembrando da cara de tarado do irmão dele — Mu deu uma risadinha.

— Verdade! — Aiolia confirmou, fazendo uma careta e rindo também.

Eu apenas respirei fundo. Eu não achava que isso seria estranho. Ao contrário, seria até mais interessante do que quando eu sonhava com ele durante a noite e depois tinha aula de Literatura no dia seguinte.

Nesse momento, Kanon voltou com uma bebida na mão.

— Meninos, vou ao escritório resolver uns probleminhas com meu sócio e já volto. Ele deve estar mal-humorado por eu não ter vindo mais cedo, é sempre esse o motivo... Qualquer coisa, o Bian ali... — Ele apontou para um dos garçons. — Vai servir vocês. Eu já volto.

Nós agradecemos, e ele saiu.

— Nossa! Se não fosse uma boate gay, isso aqui seria perfeito. Estou me sentindo um rei nessa área VIP — Aiolia disse, estufando o peito. — E eu adoro essa sensação...

— Olha, eu vou dar uma volta pelo ambiente. Fiquem de olho e me mandem uma mensagem se virem Camus — pedi para eles.

— Falamos o quê para o Kanon quando ele voltar? — Mu me perguntou.

— Ah, não precisa falar nada, eu volto logo. Só quero dar uma olhada pelo ambiente — respondi, e ele acenou positivamente com a cabeça.

Peguei uma bebida com o tal do Bian e, então, fui procurar pelo ruivo.

* * *

A Bee Gay era enorme e eu devo ter ficado muito tempo andando pela boate, me apertando entre aquele amontado de gente. Eu já tinha rodado por toda a área VIP, pela pista de dança, pelo bar... e nada. Já começava a achar que Camus não tinha ido aquela noite. Estava saindo do banheiro quando recebi uma mensagem de Mu.

Estou vendo um cara ruivo de cabelos longos, igual ao da foto no Facebook, aqui perto de onde estamos”.

Fui depressa até lá para conferir se esse tal ruivo era mesmo Camus, e meu coração começou a bater ainda mais rápido contra a minha caixa torácica, quando o avistei conversando animadamente com outro cara. Era um moreno forte e musculoso como um touro. Ele falava algumas coisas no ouvido de Camus, que confirmava positivamente com a cabeça.

Cerrei os punhos e apertei minha mandíbula. Minha vontade era ir até lá e puxar Camus pelos cabelos até tirá-lo dali. Eu não me importaria de trocar alguns socos com o outro cara, ainda que fosse óbvio que ele era bem mais forte do que eu. Entretanto, a única coisa que consegui fazer foi ficar parado feito um idiota, encostado no bar, de mau humor, olhando para eles.

Nesse meio tempo, resolvi passar na frente dele algumas vezes para pegar bebida, e ele me viu; só que fingiu não me ver e permaneceu indiferente, continuando sua conversa com o cara, ainda que, vez o outra, eu o percebia olhando de soslaio na minha direção. Filho da puta!

Droga! Eu tinha ido até lá para fazer ciúmes em Camus, não para ficar com ainda mais ciúmes dele. Pelo visto, minha noite estava perdida. Ele realmente não se importava comigo. Senti um bolo se formar em minha garganta e uma sensação de vazio no peito. Eu não estava preparado para ver Camus beijar outro cara. Não mesmo! Talvez eu não devesse ter ido à boate. Suspirei e, com o orgulho ferido, fui para perto de Mu e Aiolia.

— E então, é esse mesmo o tal de Camus? — Mu quis saber, logo que me aproximei.

— Sim... — respondi, desanimado, e com uma sensação horrível me corroendo no peito. — Mas ele já está ficando com outra pessoa.

Mu esticou um pouco o pescoço para olhar na direção de Camus.

— Você não está exagerando um pouco? Eles parecem estar só conversando, nem estão tão próximos.

— Milo não está exagerando, Mu. Ele é exagerado! — comentou Aiolia, bebendo um gole de sua bebida.

— Mas eu já sei onde essa conversa vai parar... no apartamento dele... Camus não é do tipo de ficar se agarrando em boates — falei, como se eu já conhecesse como era jeito dele.

— Bem, então parece que você perdeu! — Aiolia falou. — É melhor irmos embora daqui.

— Parte para outra, Milo... — Senti a mão de Mu no ombro, num gesto de consolo. — Você pode ficar com qualquer um desses caras que você quiser...

Aiolia fez uma careta. Ele parecia meio grogue.

— Mu só está tentando te consolar, você não é essa beleza toda não... De qualquer forma, já que você gosta de um marmanjo mais velho, sou mais esse tal de Kanon. Vai ser muito esquisito para mim ter que olhar para o professor Saga depois disso, mas... ah, quer saber, foda-se você e seus rolos. Vamos logo embora daqui, estou morrendo de tédio de ficar te vendo agir como uma garotinha dramática. Bola pra frente, cara!

Eu ri. Aiolia era um pé no saco, mas era um grande amigo pé no saco. Sei que ele estava se esforçando para que continuássemos parceiros, e devia estar passando por um grande dilema interno, tentando quebrar seus preconceitos por minha causa. Ter ido àquela boate comigo foi uma grande prova disso — apesar de ter sido praticamente comprado com os meus games. E, de alguma forma, pensar que eu, ao menos, tinha amigos de verdade melhorou a minha autoestima. Porque isso significava que eu teria alguma ajuda, caso resolvesse fazer merda.

— Então, vamos embora?

Olhei na direção de Camus. O que ele viu naquele cara? Uma raiva intensa me dominou, e eu cerrei os punhos novamente.

— Aguente mais um pouco, Aiolia, porque eu ainda não fiz o que vim fazer aqui. E a minha festa vai começar agora.

Peguei o copo da mão dele e virei de uma vez só na minha boca. Aquilo desceu queimando. Eu não estava acostumado a beber, mas, nas poucas vezes em que eu bebia, gostava da sensação. E eu iria precisar dela, porque estava na hora de parar de choramingar, recolher os cacos e mostrar a Camus o que ele estava perdendo. Eu era muito mais eu do que aquele troglodita.

— O que você vai fazer? — Aiolia questionou, enquanto eu me afastava.

— Vou dançar! Vocês deviam fazer o mesmo.

Estava tocando uma música bem animada e envolvente quando eu desci a passarela que ligava a área VIP à pista de dança. Não sei se a bebida tinha subido rápido para minha cabeça por eu tê-la bebido tão depressa, ou se foi a minha obstinação que fez com que eu me sentisse tão confiante naquele momento. Me senti sexy.

Então comecei a me remexer.

Várias pessoas ao redor pararam para me assistir e não demorou muito para que eu notasse a presença de Kanon ao meu lado. Seu corpo começou a se mover contra o meu, ao ritmo da música. A forma como ele se encostava contra mim, as diferentes direções e movimentos de seus quadris me deixavam quase louco. De repente, parecia que todos os meus sentidos estavam em alerta. Olhei para a área VIP, em direção a Camus; queria saber se ele estava me vendo.

Ele estava.

Ele olhava para mim de modo hipnotizado, como se estivesse assistindo a um espetáculo. Isso foi o suficiente para que eu intensificasse ainda mais os movimentos da minha pélvis, obstinado a manter aquele olhar sobre mim. Eu estava me sentindo extremamente obsceno.

O suor escorria pelo meu rosto e minha camisa estava ensopada. Senti as mãos de Kanon se enfiarem embaixo dela e deslizarem sobre o meu abdômen. Ele se inclinou e começou a lamber a umidade salgada da minha pele, no meu pescoço. Eu me inclinei para trás, olhando novamente em direção a Camus.

Ele não estava mais lá.

Acabei diminuindo o ritmo, aos poucos, até quase parar, enquanto o procurava com os olhos. Naquele momento, eu tive certeza de que se houvesse um torneio de imbecis, eu levaria o prêmio de primeiro lugar. Mas quando eu me impressionava com alguma coisa ou com alguém, parecia que o resto do mundo deixava de ter graça. Era um defeito que eu tinha desde criança.

A minha mãe contava nas reuniões de família que quando eu tinha três anos de idade, eu cismara com uma bicicleta velha que o vizinho estava vendendo. O meu pai achara que era perigoso e me negou o presente. Depois de muito drama e birras, ele resolveu me encher de brinquedos caros para compensar. Os brinquedos eram incríveis, contou minha mãe, mas eu quebrei todos eles, com raiva, porque eu queria era a tal bicicleta velha.

— Você dança muito bem. Mas acho que você está precisando de um pouquinho mais disso aqui — Kanon falou alto em meu ouvido, por conta do barulho, e me entregou o copo de bebida que estava em suas mãos.

Peguei o copo e bebi um gole. Tinha um gosto doce misturado ao álcool. Era gostoso e, como eu estava com sede, acabei virando o copo na boca. Eu teria bebido tudo de uma vez só, se alguém não tivesse batido na minha mão, fazendo com que o copo caísse no chão e derramasse parte da bebida sobre a minha camisa. Droga!

— Desculpe, mon cher, foi sem querer.

Meu coração pulou dentro do peito. Eu nem precisava virar o rosto de lado para saber quem era o dono daquela voz. Ainda assim eu me virei.

Camus!

Abri um sorriso de orelha a orelha. Camus veio atrás de mim!

* * *

Notas finais
Ai, meu Deus, gente. O que nós vamos fazer com esse Milo dramático? Hahahah... E acreditem, eu conheço uma pessoa dramática assim... Hahaha... (Eu) Bem, tenho um comunicado a fazer: Infelizmente, vou demorar um pouco para postar o próximo capítulo, porque na semana que vem estarei arrumando viagem e farei uma cirurgia no início da outra semana. Não é nada demais, mas a gente não deixa de ficar um pouco nervosa por conta da anestesia geral e outras coisas. Também terei que ficar um tempo de repouso, então não sei se vai dar para escrever nesse período. Mas acredito que no final de março, eu já volto a postar. Desde já, agradeço aos meus leitores queridos pela compreensão e paciência. Então é isso, beijokas e até mais. ♥ E, ah, adoraria que vocês comentassem assim que tiverem um tempinho. Quero muito saber o que vocês acharam do capítulo. Please! ♥♥♥