Correndo atrás do amor

4 Capítulo 04: A primeira tatuagem


Notas iniciais
Olá, meus amores, tudo bem? Antes de qualquer coisa, eu queria agradecer imensamente a Sah Moura pela recomendação incrível que ela fez para essa fic. Linda, muito obrigada pelo carinho e incentivo. ❤ Obrigada também a todos os leitores que deixaram um comentário no capítulo anterior. Essa interação de vocês é muito importante para mim. ❤ Queria também pedir desculpas pela demora em atualizar, já expliquei para o pessoal nos comentários, mas vou reforçar aqui. Eu perdi tudo o que eu tinha dessa fic, imagens para inspiração, plot e um capítulo já escrito, além de rascunhos para outros capítulos. Fiquei desmotivada em escrever tudo outra vez. Principalmente porque meu tempo para escrever está curto, pois minha carga horária de trabalho aumentou e eu ainda estou escrevendo outra fic. Mas enfim, agora que eu consegui organizar tudo, voltei. Espero que vocês gostem do capítulo novo. Capítulo não betado. Todos os erros morfossintáticos pertencem somente a mim. Boa leitura. XD

Correndo atrás do amor

Capítulo 04: A primeira tatuagem

Camus e Kanon trocaram olhares nada amigáveis por alguns segundos. Pareciam dois cowboys, como os dos filmes de Faroeste, segurando suas armas e prontos para o duelo. Eu cheguei a imaginar a cena e até pude ouvir aquela musiquinha do “assobio” na minha cabeça. Mas o momento não durou muito, pois Kanon começou a sorrir do nada, quebrando aquele clima e deixando a situação até um pouco ridícula. Ele virou-se para mim e sussurrou no meu ouvido:

— Vou buscar mais bebidas para nós, Cachinhos Dourados. Volto logo. Não vai me trair, ok? — Deu uma piscadela antes de se afastar.

Então eu me virei de frente para Camus.

— Achei que a sua mãe tivesse te ensinado a não aceitar bebidas de estranhos — ele falou.

— Kanon não é um estranho.

— Ah, não?! — Camus me lançou um olhar sério. — Há quanto tempo vocês são amigos?

Ele está morrendo de ciúmes! Meu sorriso foi de orelha a orelha.

— Você sugeriu que eu conhecesse outras pessoas, então resolvi seguir os seus conselhos — alfinetei, com uma pequena comemoração mental.

— Kanon não é um sujeito confiável, Milo. É um pervertido da pior estirpe, e também é muito velho para você. O Kanon é um dos mais velho da nossa turma.

— Bem, nem todo mundo tem problemas com a idade, Camus. — Outro ponto para mim. Quando eu não estava nervoso, eu era bom com as palavras.— E ele é bonito, interessante, charmoso. Além disso, eu gosto de um cara mais velho.

Ele mordeu o lábio inferior, atraindo minha atenção para a sua boca. Deus! Como eu tinha tara naquela boca! Fiquei me lembrando de todas as coisas que ela tinha feito no meu corpo, e isso teve efeito rápido sobre o meu amigo lá em baixo.

— Tudo bem. Se é assim que você pensa... — Ele começou a andar em direção ao bar.

Dei um suspiro, passando as mãos pelos meus cabelos, e fui atrás dele.

Camus parou ao lado do balcão e sinalizou para o garçom, pedindo uma cerveja. Pedi uma para mim também, mas ele se intrometeu, dizendo para o garçom que eu era menor de idade. Tentei argumentar que eu era amigo do Kanon, só que o cara não me deu ouvidos.

— Acha que é o primeiro garotinho que o Kanon tenta seduzir? — Ele virou a cerveja na boca, bebendo como se estivesse com muita sede.

— Quantas vezes tenho que te falar que eu não sou nenhum garotinho! Que saco!

— Você é um garoto sim. Ainda que tenha crescido bastante... — Ele reparou de esguelha no meu corpo, com o seu típico sorriso fantasma se insinuando no rosto.

Aquele ínfimo sorriso foi o suficiente para renovar minhas esperanças, e eu me aproximei mais dele, ficando frente a frente, juntando nossos corpos. Ele afastou do meu olho um cacho do meu cabelo e permitiu que eu o abraçasse.

— Você está perdendo o seu tempo comigo, mon cher. Deveria aproveitar essa noite com pessoas da sua idade, ao invés de ficar tentando parecer mais velho. Eu adoraria ter a sua idade outra vez, sabia disso? Vai se arrepender se não aproveitar agora.

— Eu estou tentando aproveitar aqui, você é que não está facilitando a minha vida. Por que você não me convida para ir com você para o seu apartamento outra vez? — Não resisti àquela proximidade e tentei beijar a sua boca.

— Não costumo repetir a dose — Ele virou um pouco o rosto, sua boca puxando-se no seu fantasma de sorriso.

— Isso é porque você não tinha me conhecido ainda. — Comecei a depositar beijos no seu pescoço, enquanto minhas mãos acariciavam sua cintura esguia por cima da camisa de seda. — Hein...! Vamos sair daqui...? — Eu estava louco para puxá-lo para um canto escuro, arrancar a roupa dele e sentir aquela boca em mim outra vez.

— Você é mesmo uma encrenca! — Sua voz ficou mansa, e ele estava quase cedendo às minhas carícias, quando, de repente, apareceu um imbecil para nos atrapalhar. Um cara esquisito se aproximou do balcão, ao nosso lado, e Camus colocou suas mãos sobre os meus ombros, afastando-me quando o viu.

— Veja só, se não é o famoso Camus Chevalier — O cara estranho o cumprimentou. Percebi que era estrangeiro, mas não fui capaz de identificar o seu sotaque. Dei uma analisado no sujeito. Era alto, corpo atlético, cabelo bagunçado e uma barbicha de péssimo gosto. Vestia uma calça jeans larga e surrada, com uma camiseta preta bem cavada, que deixava de fora seus braços cheios de tatuagem.

— Giuseppe! Nós dois sabemos que o cara famoso aqui não sou eu... — Camus respondeu, parecendo conhecer bem o cara. Só esse fato foi o suficiente para que eu passasse a detestar aquela criatura. Será que Camus já ficou com ele?! — Achei que estivesse em Los Angeles!

— Eu estou morando em Los Angeles mesmo, só que eu estive em turnê pela Europa nesse mês e acabei vindo parar aqui. Atenas não estava em meus planos inicialmente, mas vim a pedido do Kanon para tocar na festa dele. Você sabe, não se pode negar um pedido a um amigo das antigas. Eu também estava louco para aproveitar as praias gregas, matar a saudade dos amigos... Cheguei hoje mesmo. — Ele fez um sinal, pedindo uma bebida ao barman. — Cara, eu adorei as modificações que Kanon fez nesse lugar. A última vez que estive aqui não era assim tão legal...

— Oi, eu sou o Milo. — Estendi a mão para o tal do Giuseppe, com uma carranca no rosto. Eu, definitivamente, não gostei da maneira como aquela criatura olhava para o meu Camus.

— Olá, Milo — ele disse, apertando a minha mão, para, em seguida, voltar a me ignorar.

Ele e Camus conversaram por mais alguns minutos. Nesse meio tempo, descobri que o cara era um DJ famoso — eu até já tinha ouvido falar sobre esse tal DJ Máscara da Morte. Tentei me meter na conversa deles algumas vezes apenas para receber olhares tortos do cara, até que a criatura desconfiou que estava sobrando e resolveu dar o fora.

— Então, Camus, qualquer dia desses me liga para combinarmos alguma coisa.

— Está certo. Nos vemos por aí...

— Que cara mais sinistro! — comentei, assim que ele tinha saído. — Você viu quantas tatuagens ele tem só no braço? Imagina pelo resto do corpo!

— As tatuagens são bonitas! — Camus respondeu, enquanto pedia mais uma cerveja. — E combina com o estilo dele.

Fiz uma cara de desagrado. Será que o Camus curtia um sujeito naquele estilo, cheio de tatuagens? Foi então que aquela lampadazinha da boa ideia se acendeu em minha cabeça. Camus gosta de tatuagem!

Abri um largo sorriso, com algumas ideias perambulando em minha cabeça, e tentei abraçá-lo novamente. Ele fechou os olhos e suspirou antes de colocar a lata de cerveja, que acabara de pegar, sobre o balcão.

— Quer saber, acho melhor eu ir embora...

Ele se afastou do meu abraço e já estava saindo quando o segurei em seu pulso.

— Hei... Espera...! O que foi?

Camus respirou fundo.

— Eu disse que estou indo embora.

— Eu vou com você.

— Não, Milo! Eu estou indo sozinho! — Seu tom foi enfático.

— Se não queria nada comigo esta noite, por que veio atrás de mim?! — Meu sangue ferveu e acabei alterando um pouco a minha voz. Camus tinha o dom de me roubar qualquer resquício de autocontrole.

— Eu estava te tirando de uma enrascada, deveria me agradecer!

— Eu agradeceria se você fosse menos cabeça dura e facilitasse um pouco as coisas.

— Acho melhor você ficar com os seus amigos. Eles estão vindo aí... Até mais, mon cher. — Bateu com a mão em minha testa. — Tenha juízo! — Depois disso, ele seguiu em direção à saída.

Não fui atrás dele. Eu tinha o meu orgulho, afinal. Ainda que boa parte da minha dignidade fosse jogada na lata de lixo toda vez que o assunto era Camus.

Mal ele se afastou, Mu e Aiolia apareceram no meu campo de visão.

— Milo, já está tarde. Vamos embora — disse Aiolia.

— É. Vamos... — concordei. — Acho que essa noite já deu o que tinha que dar.

Quando estávamos próximos da saída, eu notei Kanon conversando, animado, com o tal do Giuseppe. Estranhamente, não gostei de ver o Kanon pegando e admirando as tatuagens daquele cara. Qual era o daquele sujeitinho?! Ele queria o Camus e também o Kanon?! De repente, o olhar de Kanon veio na minha direção e acho que ele percebeu que eu estava olhando para eles, porque ele franziu a testa, como que se perguntando o que diabos eu estava querendo. Eu acenei a mão, dando tchau, e saí da boate.

* * *

No dia seguinte, acordei decidido a fazer uma tatuagem. Pesquisei na Internet alguns modelos e os melhores lugares onde eu poderia me tatuar e, ao ler várias recomendações positivas sobre o Poseidon Tattoo Studio — Tatuagem Profissional & Piercing, decidi ir até lá.

Quando cheguei em frente ao estúdio, fiquei um pouco nervoso, mas, ao mesmo temo, me senti bastante confiante em relação ao lugar. O prédio tinha uma grande infraestrutura e parecia bem moderno e sofisticado, além de limpo. Esse último detalhe fazia toda a diferença para mim.

— Cara, eu não acredito que você vai mesmo fazer uma tatuagem só para impressionar esse tal de Camus — disse o meu primo Aiolia, balançando a cabeça negativamente. — Se o meu tio descobrir, ele vai te arrancar o couro. Literalmente.

— Não tem como ele descobrir, Aiolia. Ele só vai saber se você contar. E eu não estou fazendo isso só para impressionar Camus. Eu sempre tive vontade de fazer uma tatuagem, afinal, a tatuagem é uma forma de arte corporal muito admirada, que permite a quem se tatua expressar-se de uma maneira muito pessoal. — Eu reproduzi um dos argumentos que eu tinha lido num site, quando pesquisei as vantagens de ter uma tatuagem, antes de decidir se eu realmente iria fazer.

— Isso é tão gay! — Ele revirou os olhos, enquanto entrávamos no estúdio.

Eu quase não acreditei em quem eu encontrei ali, debruçado sobre o balcão, conversando com a recepcionista: uma moça loira, bonita e simpática.

— Kanon?!

— Whoa! Olha só quem está aqui! Atenas é mesmo pequena! — Ele cruzou os braços fortes, suas feições mesclavam o surpreso e o satisfeito. Estava vestido de maneira bem despojada: uma camiseta branca, muito parecida com a que ele usara ontem à noite, uma bermuda jeans clara e chinelos; como se estivesse indo ou vindo da praia.

— O que você está fazendo aqui? — Não resisti ao impulso da minha curiosidade.

— Eu vim rever alguns amigos, entregar pessoalmente alguns convites, tal e coisa, coisa e tal... — Ele deu uma piscadela para a garota. — Eu já trabalhei aqui, Milo, como tatuador, antes de comprar a boate.

— E ele é o melhor tatuador que eu conheço — a moça o elogiou, fazendo Kanon estufar o peito. — Alguns clientes antigos ainda ligam, implorando para serem tatuados por ele.

— Que isso, Thetizinha, minha sereia! Não sou isso tudo não... — Ele fez um ar de falsa modéstia, mexendo em algumas mechas do cabelo da garota, depois sorriu largo. — Ah, quem estou querendo enganar, eu sou bom mesmo!

A garota sorriu, divertida, antes de se voltar para nós.

— Então, garotos, o que vão querer? Piercing ou tatuagem?

— Cara, ela é muito gata! — Aiolia cochichou do meu lado.

— Eu quero fazer uma tatuagem — respondi.

— E eu um piercing...

— O quê?! — Exclamei para Aiolia, que olhava feito um cachorro babão para a garota.

— Igual ao da foto — ele acrescentou, apontando para a parede, onde tinha um cartaz de um cara com um piercing nos lábios. Ao lado da imagem, havia um retrato indicando as atribuições de cada funcionário, e percebi que a garota era a responsável pelo piercing.

E depois ele ainda me critica! Hipócrita!

— E você? — Ela se virou para mim. — Já decidiu que desenho vai fazer?

— Bem, ainda não. Eu gostaria de algumas indicações.

— Thetis, minha linda, vá fazer o piercing no garoto, eu ajudo o Milo a escolher um desenho — Kanon falou, tirando os óculos escuros e encaixando-os na gola de sua camiseta.

— Está bem. — Ela sorriu. — Venha, gracinha, vamos colocar o seu piercing...

— Escutou? Ela me chamou de gracinha — Aiolia cochichou outra vez para mim, antes de seguir a garota, e eu revirou os olhos.

Kanon pegou alguns álbuns com fotografias de tatuagens para que eu pudesse olhar. Sentamos no sofá que havia na recepção, e comecei a folhear o álbum. Eu o perguntei se ele tinha alguma daquelas tatuagens, e ele levantou a camiseta para me mostrar a tatuagem de um dragão marinho que ele tinha no lado esquerdo da cintura. Era um desenho muito bonito, só que eu acabei prestando atenção mesmo foi na barriga de tanquinho dele. Senti até vontade de passar a mão, mas me controlei, porque o meu amigo lá em baixo tinha a mania de se empolgar com facilidade.

— Que tal essa aqui? Ela é incrível! — Ele indicou com o dedo uma tatuagem de um tigre, e eu recusei. Pouco depois, ele me mostrou outro desenho ainda maior que o tigre. — Eu já fiz essa tatuagem nas costas de um cara, e ele adorou. Eu me lembro que era um turista, acho que o cara era chinês, tinha um cabelão preto bonito...

Era mesmo um desenho muito interessante. Um dragão enorme, meio esverdeado, com várias cabeças. Mas se eu fizesse uma tatuagem daquele tamanho, o meu pai descobriria e arrancaria o meu couro, como disse Aiolia. Literalmente.

— Não sei. É muito grande. Eu queria algo menor e mais discreto.

— Tudo bem, vamos começar com algo mais discreto, aí, se você gostar, e eu sei que vai, você pode fazer outras. Só não pode se empolgar como o Máscara. — Ele pareceu se lembrar de alguma coisa e riu animado. — Fui eu quem fiz a primeira tatuagem no Máscara, e ele gostou tanto que não parou mais. Ele vem lá da Itália só para se tatuar comigo.

Torci os lábios, já imaginando que esse Máscara era o mesmo cara que eu conheci ontem na boate.

— Não quero ficar igual esse tal de Giuseppe. — Eu preferia chamá-lo pelo nome original, ao invés do artístico. Acho que era uma maneira de não dar muito ibope para o fato dele ser um DJ famoso. Eu não conseguia engolir essa cara, principalmente porque eu estava cismado de que havia alguma coisa entre ele e Camus.

— Você o conhece? — Kanon franziu o cenho.

— Ontem, na boate, ele estava se jogando para cima do Camus.

Kanon começou a gargalhar com gosto, depois me olhou como se achasse que eu estivesse ficando maluco.

— O Máscara?! Dando em cima do Camus?! — Gargalhou outra vez. — Então acho que não estamos falando da mesma pessoa. — Ele estalou a língua. — Cachinhos Dourados, deixa eu te dizer uma coisa: só você acha graça naquele ruivo poker face.

Ele dizia isso porque não tinha visto a maneira com esse tal de Giuseppe ficava olhando para a bunda empinada de Camus. Mas não comentei o fato, apenas questionei por qual motivo ele havia chamado Camus de ruivo poker face.

Poker face é a cara de blefe que os jogadores fazem no jogo de pôquer. O Máscara e eu demos esse apelido carinhoso ao ruivo, por conta daquela expressão vazia dele. — Kanon sorriu de lado, olhando-me com uma expressão maliciosa e abaixou o tom da voz. — Nós até apostamos que ele tinha essa mesma cara na hora do sexo. Deve ser mais frio que uma pedra de gelo. Conta aí para mim, Cachinhos Dourados, ou vocês nem chegaram a transar?

Eu nunca que conseguiria me esquecer das expressões no rosto de Camus na noite em que ficamos juntos. Os olhos semicerrados, os lábios entreabertos, a respiração ofegante, os gemidos roucos... A visão mais avassaladora da minha vida. Ah, Deus! O Kanon não tinha noção do quanto Camus era quente durante o sexo.

— Claro que transamos — eu contei, mas nunca que eu revelaria os detalhes. Muito pelo contrário, eu queria que aquelas expressões fossem somente para mim. — E foi muito bom.

— Comparado com quem? — Ele levantou a sobrancelha, em uma expressão irônica. — Você só deve ter garotinhos nessa lista para comparar. Com quantos pessoas você já transou?

— Contando somente homens? — Não que eu tivesse transado com alguma garota, mas ele falava de um jeito tão experiente, que até me senti sem graça por ter uma lista tão pequena e tentei fazer parecer maior.

— Você também gosta de mulheres?

Eu neguei.

— Eu quero saber em relação ao que você gosta. Com quantos caras você já transou? Somente beijos não conta.

— Na verdade, eu só fiquei com o Camus.

Ele me olhou como que dizendo “viu só?”, antes de estalar a língua e balançar a cabeça.

— É por isso que você está gamado nele — disse num tom de voz que implicava que aquilo era óbvio. Mas eu sabia que não era somente por essa razão. Eu sentia que havia alguma conexão especial entre Camus e eu. Eu só não sabia como explicar isso a alguém. — Olha, sexta-feira eu vou dar uma festa em comemoração ao meu aniversário, e você é meu convidado especial. Vai ter uma galera legal lá, todo mundo que vale a pena conhecer. Pode levar os seus amigos também, o de cabelo lilás e o invocadinho.

— O Camus também foi convidado? — Não consegui segurar o impulso de perguntar.

— Camus! Camus! Camus! Você parece uma vitrola quebrada igual ao que o meu pai tem na coleção de antiguidades dele. — Ele revirou os olhos de uma forma exageradamente teatral, que me soou engraçado. — Mas acho que ele vai estar lá sim. O meu irmão deve ter convidado. Mas esqueça o ruivo poker face. Você é lindo, é sensual sem fazer esforço... Eu percebi que você tinha futuro assim que te vi. Só precisa de uma pessoa como eu para te orientar e te ensinar a aproveitar a vida.

— Não sei se devo confiar em você — soltei, lembrando-me do que Camus havia me dito sobre ele. No entanto, quando percebi o seu semblante nada satisfeito, me arrependi de não ter segurado a língua. — Tô achando que você colocou alguma coisa na minha bebida ontem. — Meu objetivo era explicar o porquê da desconfiança, a fim de amenizar o peso das palavras. Mas acho que teve o efeito contrário.

— De onde você tirou essa ideia?! — exclamou, indignado. — Para início de conversa, a bebida era minha. Acha que eu colocaria algo ruim na minha própria bebida? — Eu respondi que não com apenas um balançar de cabeça. — E se caso eu colocasse alguma coisa, pode ter certeza que seria coisa boa. Devia aproveitar ao invés de ficar com esse mi mi mi enjoado. Mas isso deve ser coisa daquele poker face, ele adora me acusar. De qualquer forma, já fiz o convite. Você que decide se vai ou não... — Ele deu de ombros.

De fato, eu não havia sentindo nenhum efeito diferente do que já tinha sentindo antes, nas poucas vezes em que bebi. Talvez o Camus só tivesse falado aquelas coisas porque estava com ciúmes. E ele ficaria com mais ciúmes ainda quando descobrisse que o Kanon me convidou para o aniversário dele. Esse pensamento me deixou animado. Eu tinha que ir a essa festa!

— Foi mal... Eu não quis te ofender — Tentei me desculpar. Até porque eu não queria mesmo, eu gostava do Kanon. — E eu quero ir ao seu aniversário.

— Está certo... — Ele suspirou, olhando-me como se estivesse me dando uma chance, e voltou a acalmar o seu tom de voz. — E então, vamos decidir logo essa sua tatuagem?

— Acho que já sei que desenho eu vou fazer — Mostrei a fotografia de um cara tatuado com um escorpião, e Kanon fez uma expressão de desagrado.

— É muito simplesinha e clichê! Por que essa?

— Porque é discreta. O meu pai não pode ver a minha tatuagem. Além disso, é o meu signo, então acho que combina comigo.

Kanon sorriu malicioso.

— Dizem que o sexo com um escorpiano é intenso do início ao fim. Agora fiquei ainda mais curioso para experimentar contigo...

Retribui o sorriso malicioso de Kanon. Ainda que eu não tivesse lá muito experiência para falar do assunto, era gostoso passar a impressão de que eu era “o cara” na hora do sexo.

— Você acredita em horóscopo? — Acabei perguntando, não achei isso muito a cara dele.

— Não acredito, nem duvido de nada nesse mundo, Cachinhos Dourados. Mas deixa esse papo furado pra lá... — Ele pegou o álbum das minhas mãos. — Venha, eu mesmo vou fazer a sua tatuagem, num lugar onde o seu pai não terá como ver.

Ele levantou-se e caminhou em direção à uma outra sala. Eu o segui. Enquanto ele fazia a tatuagem, trocamos telefone, conversando sobre vários assuntos, inclusive sobre a festa de aniversário dele.

* * *

Quando já estávamos no carro, voltando para casa, comecei a questionar a hipocrisia do meu primo.

— Não acredito que você está fazendo uma tatuagem só por para impressionar outra pessoa — tentei imitar a voz dele. — Eu é que não acredito que você me criticou e depois fez a mesma coisa.

— O quê? Do que você está falando?

— Você só colocou esse piercing por causa da garota, Aiolia. Admita!

— Nada a ver — Ele riu cínico, me olhando de relance e voltando sua atenção para a estrada. — Eu sempre quis usar um piercing, só aproveitei a oportunidade.

— Tá bom! Então por que você nunca comentou isso antes?

— Sei lá... Vai ver eu comentei, e você não se lembra. Além do mais, a situação é diferente.

— Exatamente o quê que é diferente? — Eu o encarei. Se ele dissesse algo relacionado ao fato de eu gostar de um homem, eu juro que dava um soco nele ali mesmo, ainda que ele estivesse dirigindo.

— Porque a garota me deu o telefone dela, e o Camus não está nem aí para você. — Ele gargalhou, tirando onda com a minha cara.

Revirei os olhos. Babaca!

— Achei que você estivesse interessado na Marin.

— Claro que estou. Eu só estava flertando com a garota gostosa, mas eu nunca trocaria a Marin por ela. Além disso, ela é muito mais velha do que eu.

— Idade não é problema.

— Realmente não é um problema. Mas a Marin é minha paixão!

— Seria lindo se ela sentisse o mesmo. — Me vinguei. Ele não estava debochando de mim pelo mesmo motivo?

Aiolia fez um muxoxo, consentindo sobre o que eu disse e mudando o assunto. Começamos a falar sobre a minha tatuagem e sobre o piercing dele. Em seguida, apostamos sobre qual das duas coisas Mu também faria, depois contei para ele sobre a festa do Kanon, enquanto seguíamos para uma loja de presentes. Ainda tínhamos que comprar o presente de aniversário da nossa avó.

* * *

Logo que entrei em casa, fui direito para o meu quarto. Parei em frente ao espelho, abri o zíper da minha bermuda e admirei o desenho na parte interna do osso do meu quadril. Apesar de ainda estar coberta por uma película — que o Kanon me disse para não retirar, quando me orientou sobre os cuidados que eu deveria ter nos próximos dias —, e da pele estar ainda vermelha e inchada, dava para perceber que havia ficado incrível.

A imagem de um escorpião e, logo abaixo, a frase: “Renda-se à minha sedução”. Inicialmente era para ser “Renda-se ou morrerá”, mas depois cheguei à conclusão de que esta última soaria muito estranha.

Satisfeito com o resultado, troquei a minha bermuda por uma de tecido mais leve — porque a calça jeans estava roçando em minha pele ferida — e fui ligar o meu computador. Dei uma olhada rápida no facebook e quase tive um treco quando notei que Camus estava online, algo que era uma raridade. Eu fiquei louco para contar a ele sobre a minha tatuagem e perguntar se ele iria à festa do Kanon. Só que eu também não queria parecer um desesperado, ainda mais depois dele ter me dispensado ontem. Fiquei indeciso sobre o que fazer e tentei a todo custo resistir ao impulso. Consegui resisti por uns quinze minutos, até que mandei a mensagem:

Milo Panagoupolis: Oi, Camus. Tudo bem? :-)

Uns cinco minutos depois, ele respondeu:

Camus Chevalier: Oi. Tudo bem.

Respira fundo. Ele respondeu, e isso é um bom sinal — pensei, empolgado.

Milo Panagoupolis: Vc vai ao aniversário do Kanon?

Encostei minha cabeça na cadeira e cruzei os braços, esperando pela resposta. Deus, porque ele estava demorando tanto para responder? Será que ele estava falando com outra pessoa? Droga! Bateu aquela vontade de espancar essa pessoa que eu nem sabia quem era.

Camus Chevalier: Vou ao aniversário do Saga, que é a mesma festa.

Milo Panagoupolis: Eu tbm vou!

Camus Chevalier: Você foi convidado???

Milo Panagoupolis: Sim.

Milo Panagoupolis: O Kanon me convidou.

Fiquei esperando ele mandar outra mensagem, no entanto, ela não veio. Então, eu respirei fundo e comecei a digitar algo quando uma nova mensagem dele apareceu na tela.

Camus Chevalier: Quando foi que o Kanon te convidou? Você não comentou sobre isso ontem.

Ah, ele deve estar morrendo de ciúmes. Com certeza é isso! Fiquei sorrindo sozinho, comemorando feito um bobo, em frente ao computador.

Milo Panagoupolis: Hj mais cedo. Encontrei com ele no Poseidon Studio, quando fui fazer uma tatuagem.

Pronto. Não aguentei me segurar e falei sobre a minha tatuagem. Só faltava mostrá-lo agora. E eu estava ansioso por isso.

Camus: Ok!

“Ok!”? “Somente ok!”? Confesso que eu esperava alguma reação do tipo: “Uau! Você fez uma tatuagem!” Ou “Que desenho você fez?”, “Em que parte do seu corpo?”. E ele me vem apenas com um “Ok!”?

Milo Panagoupolis: Foi ele mesmo quem fez a tatuagem em mim.

Tentei provocá-lo.

Camus estava digitando uma resposta bem no momento em que minha mãe entrou no quarto.

— Milo, querido...

Droga!

— O que é, mãe?

— Você está usando o seu iPod? — Ela se aproximou de mim, o que me obrigou a fechar a tela do notebook sem ter visto a resposta de Camus. — O meu está com problemas e preciso fazer uma pesquisa.

Peguei o meu iPod em cima da mesa e o entreguei a ela, de forma rápida, louco para que ela saísse logo do meu quarto.

— Não se esqueça que amanhã é o aniversário da sua avó. Nós vamos logo cedo para casa dela. Você comprou algum presente?

— Eu e Aiolia compramos algo, só que ficou com ele.

— O seu pai vai chegar hoje à noite...

— Eu sei, mãe. Eu sei... — O meu pai tinha viajado para Corinto, a fim de visitar uma filial de sua empresa. Ficou a semana toda lá. — Você não vai usar o iPod?

Ela riu.

— Tudo bem, querido, já entendi. Deve estar conversando com alguma namoradinha, não é?

Eu suspirei, tentando controlar a minha paciência. Ou a falta dela.

— Ok! Eu já estou indo... — Ela levantou as mãos para cima.

Minha mãe saiu, deixando a porta entreaberta. Eu abri o notebook, ansioso pela resposta de Camus.

Camus Chevalier: Lembre-se do que eu te falei. Cuidados com as influências e tenha juízo.

E então, ele estava off-line novamente. Droga!

Nesse momento, recebi uma mensagem de Mu.

Mu Yonjan: É verdade que você fez uma tatuagem? :-O

Revirei os olhos. O meu primo era mesmo um “boca grande”. Custava ter esperado eu mesmo ter contado a novidade para Mu?

Conversei com Mu e mais uns dois colegas por algum tempo, até que fui jogar videogame online com Aiolia. Antes disso, eu adicionei Kanon como amigo no facebook.

* * *

Notas finais
Gente, eu fiquei com esse capítulo escrito há alguns dias, indecisa sobre a tatuagem de Milo. Eu queria fazer um escorpião porque, além de achar sexy, é uma referência à constelação dele no anime. Mas fiquei indecisa porque deve ter tantas fics com Milo fazendo tatuagem de escorpião, não é? Depois de refletir e de até tentar reescrever com outra tatuagem, decidi fazer o que eu estava com vontade. Pode parecer clichê, mas eu amo. ❤ A frase "renda-se ou morrerá" é título do episódio no qual ele luta contra Hyoga, e ele também usou essa frase na saga de Hades quando foi explicar como funciona a técnica da agulha escarlate. Afinal, a agulha escarlate é uma técnica misericordiosa que permite ao inimigo render-se e arrepender antes de... blá, blá, blá... hahahah... Então é isso. Beijokas e até o próximo capítulo. ❤
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.