Correndo atrás do amor
2 Capítulo 02: O dia seguinte
Notas iniciais
Capítulo 02: O dia seguinte
Parecia que eu tinha acabado de fechar os olhos quando ouvi o despertador tocar. Eu ainda estava sonolento, mas notei um braço esticando-se por cima de mim, alcançando o relógio e fazendo com que o barulho parasse.
Olhei para o lado e o vi voltando a se deitar sobre o travesseiro, resmungando baixinho, de olhos fechados. O seu cabelo longo estava um pouco emaranhado e bagunçado, cobrindo parte de seu rosto. O lençol estava puxado, deixando o abdômen alvo à mostra. Senti um frio no estômago ao me recordar do que havia acontecido entre nós na noite passada, e acabei sorrindo feito bobo. Não resisti e passei a mão suavemente pela pele macia do seu tórax, enquanto fui me arrastando na cama para aproximar-me mais, até que finalmente o abracei. Inspirei profundamente o cabelo dele, cheirava a loção e shampoo.
Num gesto instintivo, ele se curvou meio sonambulo e também me abraçou, beijando o meu pescoço. Foi quando ele levantou o corpo de supetão, arregalando os olhos, como se tivesse sido acordado de um transe.
— O que você está fazendo aqui?!
Eu olhei para ele, meio confuso. Será que ele tinha problemas com memória?
— Nós nos conhecemos ontem à noite, e você me convidou para vir com você. Não se lembra?
— Disso eu me lembro. Eu quero saber por que você ainda está aqui.
— Você apagou depois que saímos do banheiro — comentei com um meio sorriso traquina, lembrando-me das “brincadeirinhas” que fizemos no banheiro.
— Merde! Não acredito que peguei no sono com você ainda aqui. Eu não devia ter bebido aquele drinque no Bee Gay. O Kanon deve ter colocado alguma porcaria naquela bebida. Anotação mental: aumentar ainda mais os quilômetros de distância do Kanon — ele falou, levantando-se da cama e procurando por suas roupas.
— A minha mãe sempre diz para não beber nada que estranhos oferecem... — comentei, e ele me olhou como se eu fosse um E.T.
— Como é mesmo o seu nome?
— Milo — respondi, meio decepcionado por ele não se lembrar. Será que estava mesmo drogado?
— Você tem que ir embora agora, Milo. O meu carro ficou com meu sócio ontem, e, daqui a pouco, ele virá me buscar para o trabalho — ele disse, massageando a testa com o dedo indicador.
Lembrei-me de que eu também precisava ir para a escola. Levantei-me, vesti minha cueca, que estava jogada no chão, e o segui até a cozinha. Meu traseiro estava um pouco dolorido e andar até lá foi desconfortável.
Fiquei o observando perto da bancada, ele estava com um copo de água na mão, nem olhava direito para mim, e comecei a ficar um pouco mal com isso.
— Você pode me dar uma carona até o colégio? — eu quis puxar conversa porque estava um silencio incômodo, e também porque eu realmente precisava de uma carona.
Ele franziu levemente a testa.
— Você ainda frequenta o colégio?! Quantos anos você tem?!
Cara, que mancada!
— Faculdade. Eu quis dizer faculdade — menti. — E tenho vinte e um anos.
— Você faz faculdade de quê? — ele perguntou, enquanto pegava uma cartela de comprimidos numa gaveta.
— Jornalismo — respondi. Era o curso que eu pretendia fazer quando fosse para a faculdade.
— É um curso legal. Tenho um irmão que é assessor de imprensa. Em que área você pretende atuar?
— Ah... não me decidi... — Cocei o nariz. — Ainda estou pensando sobre isso.
Ele me olhou desconfiado, enquanto colocava um comprimido na boca, e eu desviei o olhar.
— Em que ano mesmo você nasceu?
— Ah?! — Me surpreendi com a repentina e estranha pergunta dele. Cocei o meu olho e fiz rapidamente uma conta matemática na cabeça, antes de responder: — Mil, novecentos e noventa e seis.
Ele arqueou ligeiramente a sobrancelha, olhando-me analiticamente, enquanto lavava o copo que bebera água.
— Demorou demais. Acho que está mentindo. Quantos anos você realmente tem?
Eu confirmei a idade que havia dito antes, enquanto coçava o meu nariz outra vez, mas ele continuava a me olhar de modo desconfiado.
Droga! Por que eu não sei mentir direito? Meus amigos viviam dizendo que eu era um péssimo mentiroso. A verdade poderia ser lida claramente em meus olhos.
Então, com medo de dar novas mancadas e parecer ainda mais ridículo do que eu estava parecendo, ou ele achar que eu era um adulto que ainda frequentava o colégio — até porque eu me dei conta de que, obviamente, quando ele me levasse até minha escola, veria que não se tratava de uma faculdade —, resolvi contar logo a verdade.
— Dezessete.
— O quê!? — Ele quase gritou e engoliu em seco. — Você só pode estar brincando! — Ele balançou a cabeça, parecendo realmente incrédulo. — Você disse que frequentava o Bee Gay, como você conseguia entrar?
Como é que ele não se lembrava do meu nome e se lembrava de eu ter dito isso?! Camus era esquisito!
— Na verdade, ontem foi a primeira vez que fui até lá, mas nem cheguei a entrar na boate.
— Mon Dieu! Eu achei que você só estava nervoso porque nunca tinha transado com outro homem antes e estivesse inseguro quanto a sua orientação sexual, mas você... você é só um garoto.
Tudo bem, eu sabia que ele era mais velho do que eu, só não imaginava que isso fosse algum problema tão grande para ele.
— Eu não sou tão novo assim... — bradei. — Faço dezoito anos daqui a seis meses.
— Você é muito novo sim. Estou me sentindo um pervertido — ele falou, parecendo incrédulo ainda. — Qual é o problema dos adolescentes de hoje em dia?
— Você está reagindo como se eu tivesse doze anos — praticamente rosnei, já perdendo a paciência com a reação dele. Depois meus amigos diziam que eu é que era exagerado. — Além do mais, acho que eu sou, o melhor, eu era o último virgem com essa idade.
— Hey... Tudo bem. Não precisa ficar assim tão irritado. O que está feito, está feito, não adianta mesmo ficar lamentando. Agora, vista-se logo. Eu vou te levar para o seu colégio.
— Posso tomar um banho primeiro?
— Pode. Mas seja rápido. Ah, tem escova de dente nova no armário, pode pegar uma.
Eu o escutei resmungando baixinho com ele mesmo algo sobre não acreditar que havia transado com um garoto menor de idade, dei de ombros e entrei no banheiro.
Enquanto eu escovava os meus dentes, fiquei reparando na quantidade de cosméticos que ele tinha, lembrava o armário da minha mãe. Não resisti e peguei alguns frascos de cremes para ler os rótulos. A maioria era creme para cabelo, mas acabei rindo quando vi um creme anti-idade. Como se ele precisasse disso! Guardei os vidros no lugar e entrei com tudo no chuveiro, aproveitando daquela ducha forte e da água quentinha. Eu estava pegando o shampoo quando percebi que ele tinha entrado no banheiro e estava escovando os dentes. Ele ficou me observando ensaboar meu corpo antes de se juntar a mim embaixo do chuveiro.
— Esfrega as minhas costas — pediu.
Dei um sorriso malicioso e comecei a passar o sabão pelas costas dele de forma lenta, em movimentos circulares. Em um determinado momento, eu o abracei por trás e beijei o seu pescoço alvo, antes de sussurrar rouco:
— Você quer que eu...
— Eu quero que você apenas esfregue as minhas costas. Só entrei com você para economizar tempo, não gosto de me atrasar — ele falou e, infelizmente, foi apenas isso o que aconteceu.
* * *
Eu já me encontrava sentado de forma relaxada na cama, vestido a minha calça jeans e minha camiseta, observando Camus se arrumar impecavelmente em seu terno elegante. Ele parecia muito vaidoso e preocupado com a aparência, principalmente com o cabelo. Passara um bom tempo o alisando com uma escova, enquanto eu havia apenas prendido o meu cabelo com meus próprios fios. Não que eu não fosse vaidoso, eu era; mas Camus parecia ser engomadinho demais. Eu sorri ao pensar nisso, e já estava prestes a fazer algum comentário quando alguém entrou na casa, na maior intimidade, e subiu as escadas até o quarto.
Era o cara que saíra da boate com ele, ontem.
— Já está pronto, Cam?
Cam?! Que apelido mais sem graça. Eu poderia arrumar um apelido muito mais legal para ele.
— Quase — ele respondeu, terminando de prender as abotoaduras douradas em sua camisa branca e arrumar a gravata vermelha.
— O que ele ainda está fazendo aqui?! — o cara questionou, claramente surpreso quando me viu.
— É uma longa história. Já estou pronto. Vamos?
Estávamos descendo a passarela, quando passei a mão pelo bolso da minha calça e percebi que tinha perdido o meu celular em algum lugar do quarto.
— Eu esqueci uma coisa lá em cima — falei e subi as escadas novamente.
Encontrei o meu celular caído no chão ao lado do criado mudo. Peguei e voltei. Enquanto eu descia a passarela, percebi que eles estavam na cozinha conversando sobre mim e fiquei prestando atenção.
— Eu não acredito nisso! Você perdeu o juízo, Cam?!
— Como eu iria saber que ele só tinha dezessete anos, Shura? Olha só para ele, e aquele corpão de homem que ele tem — Camus falou, e o tal Shura fez uma careta que parecia a de alguém com ciúmes. — O garoto parece um deus grego de tão bonito! Eu não sou imune a isso...
Eu poderia desmaiar naquele momento. Camus me achava um deus grego!
Tudo bem, eu sabia que eu não era de se jogar fora, ou, então, não haveria tantas garotas na minha cola lá no colégio. Além disso, as pessoas sempre falavam que eu tinha um rosto bonito e o meu corpo era bem desenvolvido para a minha idade. Não era como se eu fosse um monstro musculoso, estava longe disso, mas fazer parte do time de futebol da escola, praticar lutas nos finais de semana e malhar de segunda a sexta-feira na academia que o meu primo Aiolos tinha em casa me garantia um bom porte físico. Só que ouvir aquele homem deslumbrante dizer que eu parecia um deus grego foi simplesmente incrível, e acabei não segurando uma risada boba.
— Você está escutando a nossa conversa?! — Shura me repreendeu, e então eu apareci no campo de visão deles, sem conseguir desfazer daquele sorriso do gato de Alice.
Camus balançou a cabeça e eu podia jurar que vi um traço de um sorriso em seus lábios. Não parecia envergonhado por eu tê-lo ouvido — eu, no lugar dele, teria ficado.
— Vamos logo, não quero me atrasar por sua causa, garoto — Shura reclamou. Ele era tão chato!
* * *
Quando já estávamos no carro, Camus me perguntou onde ficava o meu colégio e, assim que eu o respondi que estudava no Liceu, Shura me olhou de esguelha.
— Esse não é um colégio tradicional? Achei que exigissem o uso do uniforme por lá.
O meu colégio era a escola de elite mais tradicional da Grécia, conhecida por ser rigorosa no cumprimento das normas e comportamento de seus alunos. O meu pai fazia questão de que eu estudasse nesse colégio, ainda que a mensalidade fosse uma verdadeira fortuna.
— O meu amigo Mu está levando o meu uniforme e a minha mochila. Os meus pais pensam que eu dormi na casa dele.
Shura sacudiu a cabeça, revirando os olhos.
— Esse não é o colégio onde o Saga trabalha? — Camus perguntou a Shura.
— É esse mesmo.
— O professor Saga também é gay?! — eu quis saber.
— Isso não é da sua conta — Shura me cortou.
Fiquei meio empolgado com a ideia do meu professor de Literatura também ser gay, me senti um pouco menos idiota por ficar tendo sonhos eróticos com ele. Não que isso fosse fazer diferença, já que, agora, eu tinha certeza de que não sonharia com qualquer outra pessoa além de Camus.
Logo que chegamos em frente ao meu colégio, avistei Mu na entrada, provavelmente me esperando.
Desci do carro e dei a volta até ficar em frente a Camus, que estava no banco de carona. Ele abaixou o vidro do carro.
— Quando eu vou te ver outra vez? — perguntei, ansioso.
Pude notar Shura dando uma risada sarcástica quando fiz essa pergunta. Camus, por sua vez, não respondeu nada, apenas mexeu em um cacho do meu cabelo, num gesto carinhoso. Nesse momento, ouvi a voz de Mu me chamando.
— É melhor você ir, deve estar atrasado.
— Eu quero te ver de novo... — falei. — O quanto antes!
— Nos vemos por aí, mon cher.— Eu notei outra vez aquele fantasma de sorriso e, em seguida, Shura arrancou com o carro.
Fiquei ali, parado, observando o veículo desaparecer do meu campo de visão, que nem notei que Mu havia se aproximado.
— Tentei te ligar várias vezes hoje mais cedo, o que aconteceu?
Mu era um dos meus melhores amigos, desde criança, e eu adorava passar as tardes na casa dele, porque seus pais eram muito legais; sem contar que a mãe dele fazia doces divinos. O pai dele já era bem mais velho, parecia mais ser o seu avô do que o seu pai, mas era um homem muito tranquilo; diferente do meu, que era jovem e bem rigoroso. Meu pai achou um absurdo o pai de Mu tê-lo deixado pintar o cabelo de lilás com treze anos de idade. Na época, eu também pintei o meu de azul, mesmo sem a autorização do meu pai, e fiquei de castigo até o meu cabelo crescer para que eu cortasse fora as madeixas tingidas. Uma pena, eu tinha gostado do meu cabelo pintado. Mu também gostara do dele, tanto que nunca mais parou de pintar.
— Meu celular descarregou— respondi.
— Sua mãe ligou. Eu tive que falar que você estava dormindo ainda, e eu não gosto de mentir.
— Foi por um bom motivo, Mu — contei, dando um beijo no rosto dele. — Obrigado.
— Pare com isso... — Ele corou pelo beijo, colocando uma mecha de seu longo cabelo lilás atrás da orelha, e acabei rindo. — Vamos entrar, nós estamos atrasados e você ainda precisa vestir o uniforme.
Dei um longo suspiro, com um sorriso de orelha a orelha, e passei o braço pelo ombro dele.
— Ah, Mu... Eu tive a melhor noite da minha vida!
Ele riu do meu jeito empolgado e saiu me arrastando para entrar no prédio da escola.
* * *
Eu não consegui me concentrar em nenhuma aula. Passei o tempo todo fingindo prestar atenção nas palavras dos professores, enquanto fazia alguns rabiscos no caderno. Na hora do intervalo, me sentei com Mu e Aiolia numa mesa mais afastada para que pudéssemos conversar.
— Então, você realmente transou com outro homem? — Aiolia quis saber, e eu confirmei depois de fazer um breve suspense. — Cara, eu não sei o que se passa em sua cabeça. Fala sério! Deixar uma garota cheirosa e gostosa para se agarrar com um cara peludo e desengonçado.
— Gosto é gosto, Aiolia... Não tem que ficar julgando. — Mu saiu em minha defesa.
Aiolia, além de meu amigo, era meu primo. Segundo os nossos pais, nós dois éramos muito parecidos, tanto na personalidade quanto nos traços físicos; só que eu discordava totalmente deles. Não tínhamos nada a ver um com o outro, exceto pelo mesmo porte físico e altura. Os cabelos dele eram cacheados como os meus, mas eram curtos, queimados de sol e bagunçados; enquanto os meus eram longos e de um loiro mais claro. Ele também era um pouco mais moreno do que eu, ainda que minha pele também fosse bronzeada por causa do sol forte da Grécia. Os olhos dele eram verdes; e os meus, azuis. Quanto a personalidade, não sei de onde eles tiraram as semelhanças, só sei que a minha mãe vivia repetindo que tínhamos a mesma teimosia.
— Camus não é peludo, nem desengonçado — protestei. — Ele é vaidoso, elegante, tem a pele macia e cheirosa, e ele até se depila.
Aiolia arregalou os olhos e gargalhou.
Babaca!
— Nem todo mundo quer parecer o homem das cavernas igual a você, seu idiota! — retruquei.
— Então posso desiludir a amiga da Marin? Posso dizer para a garota que você curte um cara depilado? — Aiolia zombou.
Fechei meus punhos sobre a mesa, com vontade de dar um soco no meu primo.
— Ficou maluco, seu retardado?
— Você é que é um retardado, seu... — ele se exaltou também.
— Vocês dois querem parar com isso! — Mu nos olhou com desaprovação, balançando a cabeça. — Aiolia, nós combinamos de que iríamos apoiar o Milo, não se lembra?
— Não sei por que eu ainda confio contar as coisas para esse babaca...
— Tudo bem. Tudo bem... — Ele respirou fundo e levantou as mãos. — Admito que extrapolei um pouquinho. Mas é que... é só que ainda não caiu a ficha de que o meu o primo mais chegado, aquele que sempre foi o meu parceiro de aventuras desde que eu me lembro por gente é gay. Quando você nos contou, eu ainda tinha esperanças de que estivesse de sacanagem. Tudo bem, eu sei que já cheguei a cogitar isso, sempre desconfiei de que havia alguma coisa errada quando você ignorava algumas meninas dando mole para você, mas... é estranho, cara. Não parece você, entende?
— Eu continuo sendo o mesmo, Aiolia. O mesmo garoto que gosta de aventuras e de futebol... Só que prefiro beijar um homem a uma mulher.
— Ainda não consigo entender como você sabe que prefere homens se você nunca transou com uma garota.
— Do mesmo modo que você sabe que prefere garotas sem ter transado com um homem...
— É diferente! — ele se indignou. — O certo era você tentar o normal... — Eu o olhei enviesado e ele, imediatamente, entendeu o que eu queria dizer. — Digo, o certo era você tentar o tradicional primeiro, aí, caso você não gostasse, você tentaria ficar com um cara. Só para ter certeza.
— Eu já tenho certeza, e é melhor você calar a boca... — O meu primo já estava me irritando.
Eu já tinha começado a notar que eu era diferente dos meus amigos desde os dez anos de idade, quando eu ficava mais empolgado em ficar brincando de luta com os meninos do que ficar vendo as meninas pelo buraco do banheiro. Mas só fui ter certeza mesmo, depois que comecei a ter sonhos com o professor Saga. Além disso, eu não sentia nada quando beijava uma garota, diferente dos meus colegas que sempre ficavam empolgados.
— Você está agindo como um homofóbico, Aiolia! — Mu chamou sua atenção, pegando mais um bolinho da sua bandeja.
— Claro que não! Acha que eu estaria aqui tento esse tipo de conversa se eu fosse homofóbico? Eu não tenho preconceito! Só não entendo como um cara igual ao Milo pode ser gay, eu não teria ficado tão intrigado se fosse você, Mu, que é assim todo jeitoso.
Eu mordi o lábio para reprimir minha vontade de rir da expressão de indignação de Mu. A verdade é que Mu não era exatamente afeminado, só que ele tinha traços bem delicados e era mimoso demais para um garoto. Apesar disso, ele garantia gostar de meninas. Mas eu não estava em condições de julgar esse tipo de coisa.
— Eu nem vou retrucar, Aiolia. Não vale a pena discutir com você — Mu balançou a cabeça em negação, depois suspirou e voltou sua atenção para mim. — Quando você irá vê-lo outra vez?
Acho que Mu estava tentando evitar que sua orientação sexual virasse o assunto.
— Não combinamos ainda. Mas eu não vejo a hora de ficar com ele de novo.
— Ah... Milo está apaixonado! — Mu falou com os olhinhos piscando.
— Viu só? Parece uma menina falando, depois reclama quando eu o chamo de jeitoso — Aiolia implicou.
Mu fechou os olhos, inspirando e expirando bem devagar. Algo que ele sempre fazia para evitar brigar com o meu primo.
— Aiolia, quero só ver se você vai continuar me comparando com uma menina o dia em que perder uma briga para mim, na frente da escola toda... — ele falou de um jeito lento que fez a frase perder o seu caráter ameaçador.
Aiolia simplesmente riu, como se duvidasse de que aquilo aconteceria algum dia, depois começou a reclamar do lanche da cantina, dizendo que estava ficando cada vez pior.
* * *
As aulas passaram de modo ainda mais lento depois do intervalo, e as horas seguintes pareceram uma eternidade.
Quando cheguei em casa, fui logo pegar o meu notebook para procurar por Camus no facebook. Não havia muitos posts dele, não consegui ver suas fotos nem nada. Talvez fosse por conta da privacidade, pensei, e o adicionei como amigo. A única coisa que deu para descobrir é que o sobrenome dele era Chevalier e ele era advogado.
Depois do almoço, eu e meus colegas nos reunimos na casa de Aiolia para jogar videogame e, de lá, seguimos para a quadra. Sexta-feira era dia do meu treino de futebol. No entanto, além de não conseguir me concentrar no jogo, meus reflexos ficaram meio lentos, porque eu ainda me sentia um pouco dolorido. O treinador reclamou que eu estava muito desatento e me colocou no banco de reservas.
Aproveitei para ficar pensando no que Camus deveria estar fazendo, com quem estava conversando, o que ele tinha comido e se igualmente estava pensando em mim. Imaginei também a reação da minha família quando soubesse que eu estava namorando um cara mais velho. Quer dizer, o que eles diriam quando soubesse que eu estava namorando um homem! Passei todo o restante do dia assim, pensando nisso.
Quando finalmente chegou à noite, peguei o carro da minha mãe, emprestado, com a desculpa de que sairia com uma garota. Eu não gostava de mentir para ela, mas essas eram as únicas ocasiões em que ela me emprestava o seu carro, e eu estava meio que desesperado. Não dava para ir de transporte público como havia feito ontem, porque se Camus não estivesse em casa eu teria que procurar por ele na boate, ou naquela rua, ou em qualquer outro lugar até encontrá-lo.
Eu precisava vê-lo.
Enquanto eu dirigia rumo ao apartamento dele, refleti sobre a ideia de aparecer sem aviso prévio. Mas eu não tinha o seu número de telefone, e ele ainda não havia visualizado a mensagem que deixei no facebook, o que eu poderia fazer?!
Talvez teria sido melhor se eu tivesse ido atrás dele na boate, já que era sexta-feira e ele não parecia o tipo de homem que passava os finais de semana em casa. Entretanto, a minha intuição me levou a ir primeiro para o seu apartamento. Até porque ainda estava cedo para a balada.
O porteiro foi muito discreto, nem perguntou o meu nome, apenas avisou pelo interfone de que havia alguém querendo subir e depois me autorizou a entrar. Fiquei pensando que ele já estava acostumado com isso, ou que Camus estivesse esperando por alguém.
Depois que bati na porta do apartamento dele, ouvi a volta do trinco e, assim que a porta se abriu, um cara vestido de forma bem à vontade, como se estivesse em sua própria casa, apareceu na minha frente. Seu cabelo na altura dos ombros era de um tom ruivo acobreado, com umas trancinhas de gosto duvidoso. O cara tinha a minha altura, só que bem mais magro do que eu. Ele piscou para mim, claramente a espera de uma explicação de quem eu era e o que eu queria.
— Quando o porteiro avisou que tinha alguém, achei que fosse outra pessoa.
Antes que eu conseguisse responder algo, ouvi a voz de Camus o chamando de mon cher, como ele havia me chamado, e, depois disso, não consegui falar nada. Eu tinha certeza de que meu coração tinha se alojado no meu esôfago e parado de bater naquele momento.
Então, Camus apareceu bem ao lado dele, questionando alguma coisa que não ouvi direito, e, quando me viu, levantou ligeiramente as sobrancelhas.
— O que você está fazendo aqui?!
Engoli em seco, e a minha voz era quase um sussurro.
— Preciso falar com você.
— Você não pode vir aqui sem avisar.
— É que nós não tínhamos trocado telefone, mas eu deixei um recado no face...
— Estou ocupado agora — ele me cortou.
— Quem é ele, Cam? — o cara quis saber.
— Ninguém — Camus respondeu. — E ele já está indo embora.
De repente, o susto inicial foi substituído pela raiva. Como assim eu não era ninguém?! Por que ele não queria falar de mim para aquele cara?! Ele não tinha se importado com Shura, tinha até dito que eu parecia um deus grego, então o que aquele cara tinha de especial? Meu sangue esquentou e eu podia sentir todos os meus músculos tensos. Eu queria espancar aquele cabeça de cenoura enfeitada.
— O que esse cara está fazendo em seu apartamento?!
Camus franziu o cenho, me encarando de um jeito que deixou bem claro que ele não havia gostado nada do modo possessivo com que eu o questionei. O cara ficou olhando para ele como se estivesse perdido, querendo explicações.
— Acho melhor você dar o fora daqui — ele disse seco, e eu senti vontade de esganá-lo.
Como ele podia me tratar daquele jeito?! Logo ele, o homem que tinha me dado a melhor noite da minha vida. O homem pelo qual eu estava apaixonado?!
Quando senti os meus olhos ardendo e úmidos, como sempre acontecia quando eu ficava terrivelmente nervoso, saí o mais rápido que pude dali. Entrei no elevador e, então, senti uma lágrima descendo do meu olho. Droga! Eu não deveria chorar por aquele babaca. Onde estava a minha dignidade? Se Aiolia ou meu pai me vissem daquele jeito iriam dizer que eu estava parecendo uma garotinha. Eu podia ouvir a voz do meu pai em minha mente: “Milo, seu bebê chorão”.
Eu era mesmo patético.
Desci do elevador e saí rápido para fora do prédio. A primeira coisa que eu vi, eu chutei. Depois escorei na parede, respirando fundo.
Foi então que eu ouvi a voz dele.
— Ei, ei... — ele me chamava e tentei apressar os passos em direção onde eu tinha estacionado o carro. — Não fuja de mim. Eu desci às pressas para te alcançar.
Ele me segurou pelo braço.
— Me deixa em paz! — puxei o meu braço, mas ele me segurou firme e percebi o quanto ele também era forte. Entretanto, na verdade, eu não me soltei porque não fiz tanto esforço assim para me desviar do seu toque.
— Você não queria conversar? Então pode falar o que você quer. Mas antes precisamos esclarecer algumas coisas...
— Esclarecer que você tem um namorado! — gritei. — Eu já entendi.
— Para de dar um show na frente do meu prédio. Você está chamando atenção das pessoas, e não gosto disso.
— E o seu namorado nem é bonito, se quer saber. Eu sou muito mais bonito do que ele — deixei claro.
Ele balançou a cabeça, com uma expressão ilegível, que tanto podia estar achando engraçado, como estar achando uma idiotice.
— Surt não é meu namorado. É só um primo que veio passar o final de semana na Grécia e está hospedado em minha casa. Mas isso não é da sua conta, eu não tinha nem que estar aqui dando satisfações para você.
— Como não? E o que aconteceu entre nós?
— Milo... O que aconteceu na noite passada foi apenas uma boa transa.
— O quê?! — eu me exasperei. — Apenas uma transa?!
— O que pensava que tinha sido?!
— Eu... eu pensei que nós...
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos.
— Olha, nós ficamos juntos ontem, foi incrível, foi maravilhoso. Mas foi tudo o que aconteceu. Agora cada um segue a sua vida. É assim que as coisas funcionam.
— Mas... eu estou apaixonado por você...
Ele me olhou, incrédulo.
— Você nem me conhece...
— Foi amor à primeira vista! — expliquei o óbvio.
— Milo... Eu não acredito nesse tipo de amor — ele falou. — Na verdade, eu não tenho fé em nenhum tipo de amor romântico. Isso é coisa que as pessoas criaram para justificar o casamento, que, para mim, não passa de uma convenção social, um acordo financeiro que quase sempre acaba dando errado. — Ele respirou fundo novamente. — Olha, você é jovem, bonito, vai conhecer outros caras e ter momentos maravilhosos como o de ontem...
— Eu não quero conhecer outros caras... — Eu perdi a paciência. Será que ele não entendia isso? — Eu quero você, Camus.
— Você não pode me ter, Milo. Para início de conversa, você é muito novo para mim. Mon Dieu! Você só tem dezessete anos. Eu tenho quase trinta. A diferença de idade é muito grande.
— Isso é bobagem! — rosnei. Minha mandíbula já se apertando. — Esse negócio de idade não tem nada a ver.
— Claro que tem... Somos de gerações diferentes, de mundos diferentes. Você ainda é muito novinho, mas um dia vai entender essas coisas.
Eu olhei para o chão e respirei fundo, desolado, tentando me controlar para não chorar na frente dele. Ele se aproximou e passou a mão pelo meu cabelo. Eu afastei sua mão com um safanão de forma brusca.
— É melhor você ir para casa — ele disse, olhando-me com aquela cara de quem não queria me magoar, mas não tinha uma escolha.
Isso doeu e ainda me deixou extremamente chateado. Eu queria o seu amor, não a sua piedade.
Quando eu percebi meu rosto molhado, fugi rápido dali. Eu te odeio, Camus! Eu te odeio!
* * *
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