Corps Tokyo
2 O retrato
Notas iniciais
Conhecemos Kaori e Hikari mais a fundo.
Depois de uma noite de sono eu já não agüentava mais ficar naquele lugar estranho e medonho, mas de algum jeito a companhia de Kaori me deixava mais tranqüila, ela me fazia rir e me distrair. O segundo dia foi mais cansativo, recebemos um monte de papéis para preencher. Acabei entrando no clube de luta onde eu poderia descontar minha raiva por estar naquele lugar tão pacato e sem graça. Depois de preencher os papéis e levá-los para coordenação cruzei com Kaori no refeitório, e lá veio ela toda feliz e saltitante.
- Hika-chaaaaan!! O que está fazendo aqui?
- Eu estava na coordenação entregando os papéis e formulários.
- Ah! Entendi, vem cá, vou te apresentar meus amigos. – não deu nem tempo de responder e ela já estava me puxando pela mão. – Esse é o Fill Counert, ele é do EUA veio pra cá quando tinha 8 anos. – esse Fill até era bonitinho, cabelo castanho claro, branquinho, olhos castanhos e tinha um porte bem atlético, mas tinha cara de bobão. – Essa é a Midori Suzuhara, Kimie Akira e Ritsu Yamada. – essas três não foram muito com a minha, mas eu também não fui muito com a delas, eram como as popularzinhas da escola e como eu nunca me dei bem com as populares... – E esse é Jun Shirota, bom... ele é meio quieto, mas é gente boa – Kaori falava como se ele não estivesse lá, Jun era do tipo quieto mas tinha uma beleza inacreditável, era magro, alto, olhos verdes e cabelo arrepiado cor vinho, mas também não era do tipo mais simpático. Depois de conhecer todos fiquei junto deles para almoçar, senti durante o almoço inteiro o trio das meninas populares me encarando, mas um eu sentia um olhar mais gélido em minha direção, o olhar de Jun era como uma facada feita de gelo.
- Kaori-chan, essa sua amiga é realmente muito bonita, como você disse. – foi assim mesmo que Fill falou sobre minha pessoa.
- Não falei que ela era gata? E ainda por cima é muito legal. – Kaori não parecia querer me ajudar nessa hora.
- Sim sim!! Muito gata ela, tem namorado Hika-chan? – Fill parecia um pouco interessado, quer dizer, bastante interessado.
- Er... n-não! – corei.
- Como uma pessoa como você não tem namorado? – eu acho que era só impressão mas nessa hora me pareceu que Kimie comentou algo a meu respeito com Ritsu e Midori.
- B-bom... nunca fui muito dessas coisas, prefiro ficar na minha mesmo.
- Entendo, mas quando tiver procurando um estou a espera ok? – Fill era bem direto quando falava, isso comprovava a minha idéia dele ser meio bobo, Kaori não me pareceu muito feliz com esse comentário.
- Então eu já vou indo. Preciso terminar de fazer as tarefas. – tarefas era um bom argumento para sair dali não?
- Ah! Eu vou com você. – e mais uma vez Kaori foi me puxando durante o trajeto inteiro.
Chegando no quarto sentei na minha mesa, abri os livros e me coloquei a ler, passado algum tempo reparei em como estava silencioso aquele quarto, se Kaori estava ali não deveria estar tão silencioso assim, afinal ela era tão barulhenta. Olhei para tras e fiquei impressionada, ela estava realmente estudando e parecia estar muito mais a fundo do que eu, mas meu espanto foi maior ainda quando a vi resolver exercícios de exatas, ela simplesmente lia o enunciado e já colocava a resposta, sem ao menos resolver a operação.
- Como você consegue? – eu estava tão impressionada quem nem reparei meu pensando alto.
- Ah... isso? Tenho facilidade. – quando vi que ela realmente tinha me ouvido fiquei meio sem graça.
- Mas mesmo assim... Como você... Tipo... COMO? – eu estava muito espantada não era normal alguém resolver uma equação com três variáveis, números complexos de cabeça.
- Bom... Como eu disse eu tenho uma certa facilidade. – ela falava como se fosse a coisa mais normal do mundo
- Facilidade? Você é um gênio! Depois de ontem eu pensei que você não levava a sério os estudos.
- Levar eu não levo tão a sério assim, mas isso não significa que eu seja burra ao ponto de não fazer nada né?
- Sim, mas... Você disse que dormiu nas aulas.
- Mas eu durmo nas aulas, eu aprendo mais sozinha, autodidata. – ta, isso comprovava a minha hipótese dela ser um gênio.
- Entendi... Então ta né. – me voltei para os livros para terminar os estudos. Depois de estudar e jantar estávamos conversando na cama antes de dormir, já estávamos de pijamas. Apesar da cara e jeito de criança, talvez Kaori seja a pessoa mais inteligente que eu já conhecera, ela brincava, zoava, mas quando falava sério, era muito sério mesmo! De certo modo a gente até entrava em sincronia. Uma pergunta dela me chamou muita atenção.
- Quem é essa pessoa no retrato? – ela olhava fixamente para o retrato na mobília ao lado da minha cama.
- Esse? O nome dele é Shin. – Shin... Esse nome me trazia as lembranças mais felizes, mas também as mais tristes.
- O que ele é seu? Pai? É meio novo para ser seu pai não?
- Não, não. Não é meu pai. – as palavras para descrevê-lo não saiam da minha boca.
- É seu irmão?
- Não tenho irmão. – eu queria falar, mas alguma coisa impedia as palavras de fluírem.
- Então quem é?
- Shin era um amigo eu. Da minha antiga cidade. – era muito doloroso pronunciar o nome dele, ainda mais chama-lo de amigo.
- Amigo? Porque você carrega o retrato de um amigo? – ela tinha todos os motivos para questionar, afinal, o normal seria ter o retrato dos meus pais ou meu e das minhas amigas.
- Ele morava na mesma rua que a minha, era 9 anos mais velho que eu. – eu precisava contar sobre Shin, se não eu ficaria com esse pensamento na minha cabeça o resto da semana. – Como meus pais sempre trabalharam fora, desde pequena eu aprendi a me virar em casa. Eu o conheci quando tinha 4 anos e ele 13, eu estava voltando da minha antiga escola, sozinha, quando um grupo de meninos mais velhos apareceram querendo levar minhas coisas, me jogaram no chão e eu comecei a chorar, ele gritavam mandando eu parar de chorar e de repente eu vi alguém batendo nos meninos, lembro da cena como se fosse ontem. Um menino muito bonito, o cabelo dele era branco e ele tinha olhos dourados como um topázio amarelo líquido, era muito menor que os outros meninos, mas mesmo assim toda vez que era jogado no chão se levantava e batia mais ainda neles, quando apareceu um policial, os meninos fugiram, Shin tentou correr também, mas o policial já estava segurando-o pelo braço e nos levaram para a delegacia. Quando minha mãe chegou toda desesperada me procurando o delegado disse que o menino de cabelo branco estava tentado roubar minhas coisas, eu até tentei dizer que era mentira, que ele só estava me protegendo, mas não me ouviram e ela me levou embora.
- Nossa, mas também... Cabelo branco? Cara de gangster.
- Até hoje eu não sei porquê ele tinha cabelo branco, mas não era gangster. Depois daquele dia eu ficava andando procurando-o, mas não achava, até que encontrei-o todo machucado na frente da casa ao lado da minha. Entrei em casa correndo, peguei curativo, limpei os ferimentos ali mesmo e coloquei curativos coloridos, sentei do lado dele e esperei que ele acordasse, quando acordou, estava assustado, olhou para mim e disse: “Que bom que está bem, estava te procurando.”, fiquei vermelha na hora e ele sorriu, conversamos mais e ele me contou que depois daquele incidente na policia ele ficou na delegacia até a manhã do dia seguinte quando o pai dele foi buscá-lo, mas uns três dias depois os mesmos garotos que bateram nele da última vez, voltaram e bateram mais ainda, quando ele estava voltando para casa perdeu a consciência e desmaiou em frente a casa dele.
- Mas se ele era seu vizinho como não te encontrou? Aliás, como você não o encontrou?
- Não imaginei que ele era meu vizinho, eu procurava em outros lugares, assim como ele.
- Ah ta! Mas e aí? O que isso tem haver com você carregar a foto dele?
- Bom... depois disse comecei a passar os dias com ele, enquanto meus pais estavam trabalhando ele ficava comigo, a gente brincava, ele me ensinava muitas coisas, mas minha mãe não gostava dele, ela pensava que ele realmente tinha batido em mim aquele dia, mas no final ele virou um irmão para mim, eu o amava.
- Como irmão né?
- É aí que tá! Há mais ou menos 7 anos atrás, quando disse que eu o amava ele corou e me abraçou. Eu fiquei muito confusa na hora, mas retribui, porém para minha surpresa depois do abraço ele tentou me beijar e eu vi que não era amor de irmão que ele tinha por mim, eu sai correndo chorando, isso o machucou muito. Nos dias seguintes ele vinha a minha casa e não atendia, estava assustada ainda. Quando um dia ele simplesmente desapareceu, recebemos um convite para ir ao funeral dele, foi então que eu vi... Ele morreu e por minha causa! Não tive a chance de dizer a ele que também o amava da mesma forma que ele me amava, percebi isso tarde demais.
- Nossa, que história triste. – Kaori olhou para mim com pena ou dó, sentou na minha cama e me abraçou. Não agüentei e comecei a chorar e a me lembrar dos anos seguintes, quando eu comecei a me tornar mais fria, menos sorridente, séria, triste eu perdi toda inocência de criança. Sentia uma rancor enorme. – Você chorou depois disso?
- E-e-eu acho que não... – realmente, depois disso eu nunca mais chorei, comecei a prender todos os sentimentos, a não mostra-los mais, comecei a me fechar. – Eu não conseguia chorar por ele, por mais que eu tentasse. – eu soluçava enquanto falava. – será que isso mostra que eu não o amava?
- Claro que não Hika-chan! – Kaori parecia ser minha mãe agora, o olhar dela para mim, era como o se minha mãe estivesse me consolando. – Você era pequena demais, foi um susto enorme. Cada um teria reagido de um jeito, o jeito que você encontrou foi se afundar em arrependimento e se fechar. – após essas palavras sábias ela me abraçou novamente, chorei mais ainda, ela levantou repentinamente. – Hei! Venha cá! – pegou minha mãe e começou a me puxar para fora do quarto, depois para fora dos dormitórios e fomos parar no local proibido.
- Kaori! O que você ta fazendo? A gente não pode ficar aqui. – eu estava morrendo de medo e se alguém nos achasse lá?
- Relaxa Hika-chan. – ao dizer isso se sentou na grama e me chamou para sentar ao lado dela, sentei e então deitamos uma ao lado da outra. – Tá vendo as estrelas? Fill me contou uma vez que quando alguém morre, essa pessoa vira uma estrela, eu sei que é coisa de criança, mas eu acredito nisso. – ela olhava fixamente para o céu enquanto falava, as palavras saiam com sentimentos da sua boca. – Por que você não diz a ele agora, que também o ama? – então olhou para mim e sorriu calorosamente.
- O-obrigada... – comecei a chorar novamente, Kaori ficou ao meu lado até eu dormir.
Acordamos de repente, assustadas com o sinal da primeira aula, eu estava abraçada com Kaori e com olho inchado, ela estava dormindo tão profundamente que nem ouviu o sinal.
-O que vocês estão fazendo aqui? – quando me virei para o lado o inspetor estava atrás de nós com cara de bravo e desapontado. – Não sabem que aqui é um lugar proibido para alunos? – acordei Kaori que ao ver o inspetor se assustou e se levantou num pulo.
- Sabe o que é Koiti-san? É que ontem estávamos voltando para nossos quartos, quando nos perdemos e viemos parar aqui. – ela mentia tão bem.
- Conte-me outra Nakao-san! Como você se perde? Estuda aqui desde a vida inteira! – é... Essa desculpa não colou. – Vou ter que leva-los para diretora.
- Não! Por favor senhor inspetor!!! – implorei.
- Sinto muito aluna nova. – este olhou decepcionado para Kaori. – Sua irmã vai ficar uma fera com você!
- Irmã? – repeti para mim mesma
- Aí meu Deus, ferrou! – Kaori estava com olhar assustado ao ouvir a palavra irmã.
Koiti-san nos levou até a sala da diretora. Lá estava ela, de pé atrás da mesa, de costas.
- Eu encontrei essas duas na ala 7 senhora! – ele olhou para Kaori e completou – E pelo que parece, a idéia foi da sua irmãzinha!
- IRMÃ?!?!?!?!
Notas finais
Eu adoro a Kaori-chan, acho ela super divertida. Como devem ter percebido, há bastante alunos estrangeiro e mestiços no Ryokaku, mas isso será explicado mais para frente. Quem sabe no próximo capítulo né?
Prometo que o próximo será mais comprido, aliás, tem que ser.
Hahahahahaha
Bjs
Proximo capítulo: "ExSo, o lado ruim"
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