Coroas e destinos

36 Físcas de Ódio, Chamas de Paixão



​A tarde trouxe um céu de chumbo sobre o porto de La Push, mas a temperatura no pátio do Palácio do Sol Nascente parecia ferver. As carruagens da comitiva italiana estavam prontas para a partida. Nobres, guardas e a corte real reuniram-se no grande pátio para as despedidas formais.

​O Conde Alec Volturi, impecável em sua túnica de viagem de veludo negro, aproximou-se de Renesmee com a graciosidade que lhe era peculiar. Ela trajava um vestido de passeio lilás, com os cabelos acobreados caindo em ondas suaves sobre as costas.

​— Grã-Duquesa Renesmee... — disse Alec, segurando a mão delicada dela e curvando-se com elegância. Ele ergueu os olhos, fixando-os nos dela com um brilho sincero e charmoso. — O caos deste café da manhã só provou o quanto a sua presença é capaz de desestabilizar reinos inteiros. Mas devo reiterar a minha proposta: se em algum momento decidir que deseja a serenidade e o esplendor da Itália, o meu convite para cortejá-la continuará aberto.

​Renesmee sorriu, um sorriso genuíno e doce, sem a provocação da noite anterior.

​— O senhor é um verdadeiro cavalheiro, Conde Alec — respondeu ela suavemente, apertando a mão dele com carinho. — Fico profundamente lisonjeada com o seu carinho e a sua generosidade. Mas, neste momento, receio que não possa aceitar tal convite. O meu coração ainda tem pendências demais para resolver neste solo.

​— Uma pena para a Itália, mas uma sorte incalculável para La Push — comentou Alec com um suspiro dramático, depositando um beijo demorado sobre os nós dos dedos dela.

​Afastado junto aos pilares do portão, Jacob mantinha os braços cruzados sobre o peito largo, as juntas dos dedos brancas de tanta tensão. Ao ver Alec beijar a mão de Renesmee com tanto afeto, um rosnado baixo, vibrante e visceral escapou-lhe da garganta, fazendo o tecido da sua túnica esticar sobre os ombros musculosos.

​Ao seu lado, Emmett e Jasper riam abertamente, aproveitando cada segundo da tortura do ex-rei.

​— Olhe para ele, Jasper! — debochou Emmett, dando uma cotovelada no irmão. — O Jacob parece um cão de guarda acorrentado! Se o Conde demorar mais dois segundos a soltar a mão da Nessie, o nosso 'Príncipe Conselheiro' vai virar um lobo gigante e devorar a diplomacia europeia inteira!

​— Calem a boca, os dois — rosnou Jacob entredentes, o olhar fixo no conde italiano como se pudesse fulminá-lo a distância.

​— Relaxe, Jacob — provocou Taylor, aproximando-se com a mão na cintura. — O homem já está a ir embora. Mas devo admitir... a elegância dele faz você parecer um camponês furioso.

​A comitiva italiana finalmente partiu, e Renesmee virou as costas, subindo as escadarias sem ao menos olhar na direção de Jacob, deixando o ex-rei a remoer a própria fúria no pátio sob os risos contidos de toda a corte.

​O Incêndio nos Aposentos da Grã-Duquesa

​Mais tarde, o silêncio da noite caíra sobre o palácio. Nos seus aposentos, Renesmee estava diante do espelho da penteadeira, desfazendo os ganchos do cabelo, trajando apenas uma fina camisola de seda branca que delineava a sua silhueta.

​A porta do quarto não foi apenas aberta; ela foi arrombada com violência, chocando-se contra a parede de pedra.

​Jacob invadiu o quarto como uma tempestade fora de controle. Ele trancou a porta com um baque seco e deu passos largos até ela, a respiração desordenada, os olhos queimando em pura raiva e desejo reprimido.

​— Você perdeu o juízo, Jacob?! — exclamou Renesmee, levantando-se num salto, o peito subindo e descendo aceleradamente. — Como ousa invadir o meu quarto a esta hora?!

​— Eu cansei dos seus jogos, Renesmee! — vociferou ele, encurralando-a contra a borda da penteadeira, a sua figura imponente cobrindo-a completamente. — Ficou a sorrir para aquele desgraçado no pátio! A despedir-se com 'carinho'! Você estava se oferecendo para ele na frente de todo o palácio! Estava se oferecendo como se fosse uma...

​ESTALO!

​O som da esbofetada ecoou pelo quarto como um tiro.

​O rosto de Jacob virou para o lado com a força do golpe. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Renesmee tremia de raiva, a palma da mão ardendo, os olhos marejados de indignação.

​— Nunca mais... nunca mais ouse me insultar dessa forma, Jacob Black! — sibilou ela, a voz embargada pela dor e pela fúria. — Eu nunca me ofereci para homem nenhum! Se eu não aceitei a proposta dele, foi porque a minha única maldição é continuar presa a um idiota covarde como você!

​Jacob lentamente virou o rosto de volta. A marca vermelha da mão dela brilhava na sua bochecha, mas a raiva nos seus olhos fora substituída por uma chama devastadora e incontrolável.

​— Maldição? — murmurou ele, a voz num tom perigosamente grave. — Então vamos queimar juntos.

​Antes que ela pudesse reagir, Jacob segurou-a pela nuca com uma mão firme e puxou-a para junto de si, cravando os seus lábios nos dela num beijo avassalador, faminto e selvagem.

​Renesmee soltou um gemido abafado de surpresa, mas em menos de um segundo a sua resistência ruiu por completo. Os dois anos de seca, dor, saudade e orgulho explodiram numa paixão violenta. Ela enlaçou o pescoço dele com os braços, puxando-o para mais perto, enquanto Jacob a erguia pela cintura, colando o corpo quente dela contra o seu. A camisola de seda deslizou parcialmente pelo ombro de Renesmee enquanto os lábios dele desciam pelo seu pescoço com uma urgência desesperada, fazendo-a arfar de puro prazer.

​O calor do corpo de Jacob queimava a pele dela; as mãos dele percorriam as curvas da sua cintura com uma posse e uma fome que ameaçavam consumir todo o quarto. Eles estavam prestes a perder completamente o controle, entregando-se ao desejo reprimido sobre a mesa da penteadeira...

​NOC, NOC!

​A porta do quarto abriu-se de estalo, sem qualquer aviso.

​A Rainha Carlie entrou no recinto, segurando o pequeno Bernardo nos braços para acalmá-lo.

​— Nessie, você viu a pomada do... — Carlie parou no meio do quarto, congelando ao ver a cena.

​Jacob estava com a túnica entreaberta, segurando Renesmee no colo contra a penteadeira, com os lábios vermelhos e a respiração descontrolada. Renesmee estava com a camisola desalinhada, os cabelos em desalinho e as bochechas coradas como pimentões.

​O silêncio no quarto tornou-se absurdamente cômico.

​Jacob largou Renesmee no chão devagar, tentando recompor a túnica com as mãos trêmulas, o rosto corando de um jeito que ele não conseguia disfarçar.

​— Eu... hum... o dever me chama no conselho — gaguejou Jacob, a voz totalmente desconfigurada, passando por Carlie a passos apressados e quase tropeçando no tapete antes de sair e bater a porta.

​Carlie olhou para a irmã, que estava encostada à penteadeira tentando desesperadamente arrumar a camisola e disfarçar o arfar do peito. A jovem rainha não aguentou e soltou uma gargalhada deliciada.

​— Oh, minha nossa! — debochou Carlie, cobrindo a boca enquanto ria. — Peço mil desculpas por interromper a 'reunião de emergência do conselho'! Eu só vinha buscar a pomada do Bernardo, mas vejo que o clima aqui estava bem mais... quente do que o normal!

​— Carlie! Sai do meu quarto! — gritou Renesmee, jogando uma almofada na irmã, com o rosto queimando de vergonha, embora o seu coração continuasse a bater desordenadamente pela lembrança do beijo.

​A Confissão dos Reis

​Minutos depois, no corredor da ala real, Jacob caminhava a passos largos, com os cabelos desalinhados, a túnica torta e o peito ainda subindo e descendo desordenadamente.

​Ele praticamente arrombou a porta da sala de mapas, onde o Rei Taylor terminava de assinar alguns documentos da noite.

​Taylor ergueu os olhos, surpreso pela figura desarrumada e atordoada do irmão.

​— Jacob? O que aconteceu com você? Parece que foi atropelado por um cavalo — comentou Taylor, rindo levemente.

​Jacob caminhou até à mesa, serviu-se de um copo inteiro de uísque forte, virou-o de uma só vez e bateu o copo no balcão com força.

​— A sua mulher não tem o costume de bater na porta antes de entrar nos quartos dos outros?! — esbravejou Jacob, levando a mão à nuca e passando-a pelos cabelos.

​Taylor arqueou as sobrancelhas, um sorriso de puro entendimento e divertimento surgindo no seu rosto:

​— A Carlie? O que a Carlie fez?

​— Ela entrou no quarto da Renesmee! — desabafou Jacob, a voz tremendo de pura frustração e desejo reprimido. — Taylor... se a sua esposa não tivesse entrado com o bebê naquele exato milésimo de segundo... agora mesmo, eu e a Grã-Duquesa estaríamos completamente nus na cama dela!

​Taylor soltou uma gargalhada tão alta e genuína que o som ecoou pelas paredes de pedra da sala de mapas. Ele levantou-se, batendo com a mão na mesa.

​— AHAHAHA! Pela Deusa, Jacob! A Carlie salva a diplomacia de La Push mais uma vez!

​— Não tem graça, Taylor! — rosnou Jacob, encarando o irmão com os olhos queimando. — Eu beijei a Nessie... Eu quase a tomei ali mesmo na penteadeira! O fogo entre nós não apagou nada! Está pior! Está me matando por dentro!

​Taylor parou de rir, ajeitou a postura e olhou para o irmão com uma expressão de profundo orgulho e satisfação.

​— É claro que está pior, Jacob — disse Taylor suavemente, caminhando até ele e pondo a mão no seu ombro. — Porque o amor de vocês nunca foi feito para ser morno. E agora que você finalmente parou de fugir, irmão... a única opção que te resta é queimar nessa chama até reconquistar a sua rainha.