Coroas de Ferro e Veludo
5 Máscaras Caídas e Verdades Nuas
Dhorwack resistiu por três dias. Três dias em que o mármore do palácio pareceu mais frio e as conversas de Richard mais vazias. Naquela tarde, porém, a necessidade de silenciar o barulho em sua mente falou mais alto. Sem aviso ou escolta real, ele atravessou a cidade sob uma capa comum e bateu à porta da casa de Elowen.
— Majestade, não atendemos neste horário. A casa ainda está sendo preparada e... — a criada começou a dizer, mas foi interrompida pelo vulto de Dhorwack cruzando o hall.
Elowen descia as escadas, vestindo um robe de seda simples, o rosto limpo de qualquer maquiagem. Ao vê-lo, ela parou, surpresa.
— Dhorwack? Eu disse que o esperaria, mas o sol ainda está alto e eu não...
Ela não terminou a frase. O rei a alcançou em dois passos, prendendo-a contra o corrimão da escada. Seus lábios encontraram os dela com uma urgência quase violenta, um beijo que carregava toda a frustração dos dias em que ele tentou esquecê-la. Elowen tentou protestar com um suspiro, mas as mãos dele, possessivas e firmes em sua cintura, calaram qualquer resistência. Ela cedeu, deixando-se levar pelo calor avassalador daquele homem que não aceitava um "não" como resposta.
Mais tarde, no refúgio do quarto mergulhado em uma luz vespertina suave, o clima era outro. Deitados entre os lençóis bagunçados, a tensão dera lugar a uma intimidade curiosa. Dhorwack observava o teto, enquanto brincava com uma mecha do cabelo dela.
— Como você chegou aqui, Elowen? — perguntou ele, a voz baixa. — Uma mulher como você... não parece ter nascido para seguir ordens de ninguém.
Ela soltou um riso seco e se apoiou no braço.
— Eu era a faxineira, Dhorwack. Esfregava este mesmo chão que você pisa. Eu era órfã, sozinha no mundo, e Madame Sinclair me acolheu. Quando ela morreu, deixou-me a casa e as dívidas. Eu transformei este lugar na joia de Valerius. Treinei as meninas, escolhi o vinho, ditei as regras.
Ela fez uma pausa, o olhar perdendo-se na janela.
— Depois que fui estuprada por um homem que achava que meu corpo era propriedade pública por eu morar aqui, decidi que as coisas mudariam. Só me entrego a nobres. Nada de plebeus. Se é para ser usada, que seja por quem tem algo a perder, como minha antecessora fazia.
Dhorwack ficou em silêncio por um longo tempo, processando a dureza por trás da beleza dela.
— Você nunca pensa em sair? Em ter uma vida... normal? Casar-se?
Elowen soltou uma gargalhada genuína, embora triste, e inclinou-se para beijar a ponta do nariz dele.
— Quem quer uma cortesã como esposa, meu querido rei? O mundo perdoa um homem por suas aventuras, mas nunca perdoa uma mulher por sua sobrevivência.
— Eu casaria — disse ele, com uma seriedade que fez o riso dela morrer.
Ela o olhou por um segundo, os olhos brilhando de diversão.
— Você é muito engraçado, Dhorwack MacKenzie. Um rei com senso de humor... isso sim é uma raridade. — Ela o beijou novamente, tratando a declaração dele como a mais doce das piadas.
A Tempestade no Palácio
Enquanto isso, em Valerius, o ar estava carregado de eletricidade, mas não daquela que traz prazer. Catarina Lioncurt estava parada no centro do grande salão, os olhos faiscando de uma fúria contida que finalmente explodiu quando Richard entrou.
— Você achou mesmo que eu não saberia, Richard? — a voz dela cortou o salão como uma chicote. — Sair às escondidas com seu irmão para bordéis de luxo enquanto eu mantenho a dignidade deste nome diante da corte?
— Catarina, não comece com suas cenas de virtude ferida — Richard rebateu, a voz cansada. — É um casamento de conveniência, você sabe disso tão bem quanto eu.
— É um contrato de respeito! — ela gritou, aproximando-se dele. — Você não passa de um rei idiota, Richard! Um moleque devasso que prefere o cheiro de prostíbulos ao peso da própria responsabilidade! Você envergonha o trono que ocupa!
A discussão seguiu aos gritos, ecoando pelos corredores de pedra, expondo as feridas abertas de um reino onde o poder era abundante, mas o amor era um estrangeiro indesejado.
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