Coroa de Sangue
2 Capítulo 1-Arcadia
Julian levantou-se da cama com cautela, a lua ainda fazia seu brilhante papel na noite fria em Arcadia, olhou pela janela onde tinha uma vista panorâmica de todo reino, inspirou o ar frio e o soltou pesadamente.
“Um guerreiro nunca desiste da batalha, ainda mais um com sangue real” as palavras de seu pai ecoavam em sua cabeça, sabia que estava destinado a reinar Arcadia, a proteger com seu próprio sangue, mas algo em seu interior pedia por mais, clamava por mais poder.
–Não conseguiu dormir?- disse Crystinne, em sua voz mais rouca e sensual, Julian a olhou com indiferença e voltou seu olhar para frente.
–Já deverias estar dormindo. — disse friamente, Crystinne sorriu fracamente, levantou-se da cama deixando os lençóis para trás, sentiu uma rajada de vento percorrer por todo seu corpo desnudo, mas ignorou, pois seu objetivo era chamar a atenção de seu prometido.
O envolveu com seus braços, suas mãos percorreram seu abdômen nu, sentindo cada forte musculo formado pelas varias lutas e treinamentos.
– No que estais pensando?- sussurrou ela em seus ouvidos, Julian revirou os olhos e saiu de seus braços.
–Volte a dormir Crystinne... – Crystinne sentiu uma pontada de dor causada pelas palavras dele.
–Até quando vai negar seu amor por mim?- disse convencida, mesmo ela dizendo aquelas palavras, ela sabia o que ele verdadeiramente sentia por ela, e estava longe de ser algo chamado de amor.
Julian sorriu com aquelas palavras, Crystinne mordeu seu lábio inferior , nunca fora tão rebaixada como naquele momento.
–Somos prometidos Julian, você é o futuro de nossa nação, não podes fugir de seu destino...
–Meu destino...- disse virando-se para encara-la.- sou eu que faço, e posso te assegurar que você não esta nele...
Crystinne sentiu uma imensa dor em seu coração, Julian era o único em sua vida, e aquilo não poderia ficar assim, ela já havia desistido de muito para ficar com ele.
–É o que veremos... — disse por fim, pegou seu vestido jogado no chão, abriu a porta e olhou para trás, Julian estava apenas com uma larga calça, seus músculos estavam mais radiantes sob a luz do luar, de repente, lembrou-se de algumas horas atrás, quando cedeu-se totalmente para ele, apertou a maçaneta com certa força e fechou –a com agressividade.
–Isso não irá ficar assim Julian....- ameaçou-o, indo em direção ao salão principal, seu objetivo? Era apressar aquele casamento de uma vez por todas...E sabia exatamente com quem falar...
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O sol invadia o extenso campo do pequeno vilarejo, Helena andava pelas terras que antigamente eram de seus pais, fechou os punhos apenas ao lembrar que aquele lugar não a mais pertencia.
Seus pais haviam morrido, e infelizmente, ela e suas irmãs não haviam se casado, por consequência disso, as terras passaram para a Coroa Real, eles não permitiam que uma mulher tomasse a posse de vastas terras, como aquela.
–Helena o que estais fazendo aqui?- disse Danna, sua irmã.
Danna era uma mulher independente, e mesmo não sendo a mais velha, tomava conta de suas irmãs, como se fosse a mãe.
–Eles tiraram tudo de nós...- Danna se aproximou dela e a abraçou por trás.
–Iremos dar um jeito minha irmã, sempre damos... — Helena assentiu ainda pensando em um jeito de conseguir aquelas terras de novo.
–Os impostos subiram, temos apenas duas vacas e poucos leitões, como iremos conseguir? – Danna sorriu fracamente para ela.
–Sabemos caçar, lembras? Podemos nos virar ...Agora vamos, precisamos treinar.- Helena assentiu e seguiu sua irmã até sua casa.
Há muito tempo atrás, quando as três presenciaram a morte da mãe, por seres que elas nunca tinham visto, a partir daquele momento, elas começaram a treinar, pois juraram que um dia, eles iriam sofrer, como elas sofreram com a perda da mãe, elas eram mais do que simples camponesas, eram guerreiras, mas para os que as conheciam e sabiam da historia da família, elas eram apenas três órfãs...
Quando chegaram na pequena casa de pedra, olharam para longe e viram Dannie com uma espada na mão, treinando seus golpes em um tronco enfiado na terra.
Dannie era a mais nova das três, seus cabelos eram longos , mas por conta dos treinos ela sempre os deixavam presos.
Dannie era a mais que parecia com a mãe, seus olhos eram de um verde esmeralda e seus lábios eram carnudos, sua bondade com os outros era notável, sempre ajudava os vizinhos no que podia, mas além de ser abnegada, era corajosa e como suas irmãs, a vingança pulsava em seu coração...
–Vejo que alguém pegou minha espada! – disse Danna se aproximando com outra espada feita de madeira, apropriada para treinos pesados.
Dannie viu sua irmã se aproximando, com a espada que pesava 3 quilos a mais com a que estava sem suas mãos, sorriu, sabia que ela estava a chamando para um duelo, deixou o tronco de lado e se virou totalmente para Danna, aceitando o duelo.
–Fique sabendo que melhorei bastante... — disse em posição de ataque, Danna sorriu ao ver sua irmã já crescida.
–É o que veremos... — Danna a atacou, mas Dannie foi rápida e esquivou-se de seu ataque, Helena revirou os olhos e foi para o outro lado do campo, pegou seu arco e flecha que estavam pendurados em um gancho no celeiro e começou a treinar.
A casa era pequena, mas acolhedora, era a mais afastada do vilarejo, situava-se entre as colinas de Arcadia, onde quase ninguém passava por lá.
–Dannie! Lute como uma guerreira!- disse Danna a atacando pelas costas.
–Aah!- gritou ela pela dor que a espada de madeira causou-lhe.- Poderias ser mais gentil, por favor?- disse enfurecida e recompondo-se o mais rápido possível.
–Um adversário, nunca irá ser gentil, minha irmã.
–Ela tem razão...- disse Helena se aproximando das duas. – eles não serão gentis conosco e nem nós com eles...- Danna e Dannie olharam para Helena, a conheciam muito bem e algo a estava incomodando.
–O que lhe aflige Helena?- disse Dannie largando a espada no chão, Helena permaneceu calada.
–Helena? Nós a conhecemos o bastante, e alguma coisa me diz que não são os impostos que estão te atordoando. – Danna fitou Helena, de repente lembrou-se de seus gritos de dias atrás, seus pesadelos constantes estavam tirando seu sono.
–Seus pesadelos... — começou Danna. –Do que se tratam?
Helena abaixou a cabeça pensativa, não queria lembrar-se daquelas imagens.
–Não quero falar sobre isso...
–Ah, vamos minha irmã, são apenas sonhos... — disse Dannie pegando em seu braço.
–Não Dannie, são pesadelos, eu os tenho todas as noites, a mesma coisa... — disse perdida em pensamentos.
–Nos conte... — Danna insistiu.
Helena olhou ao redor, às vezes ela odiava ter que morar longe do vilarejo, mas muitas vezes amava aquele pacato lugar, olhou paras as irmãs à frente, esperando uma resposta, mas realmente não queria falar daquilo agora.
–Outra hora, eu prometo que contarei para vocês.
Danna e Dannie se entreolharam e assentiram para Helena logo em seguida.
– Tudo bem, não iremos mais te incomodar. — Dannie abraçou sua irmã, Helena retribui o abraço, como ela a amava, estendeu outro braço para Danna se juntar a elas, logo as três estavam em um abraço apertado, naquele momento, Helena jurou para si mesmo, que nada de mal poderia acontecer com elas, e faria de tudo para mantê-las em segurança.
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Crystinne andava pelos corredores do castelo, olhou mais uma vez para trás, apenas certificando-se de que não estava sendo seguida.
A escuridão dominava o extenso corredor que era iluminado por tochas espalhadas por toda parte, Crystinne apressou os passos, ao longe viu uma porta entreaberta, desacelerou os passos e entrou cautelosamente na pequena sala.
–Sabia que virias...- disse o homem de capuz negro, ele estava encostado na parede, dentre as sombras.
–Não viria se não fosse tão importante..- engoliu o seco.
O homem saiu rapidamente do lugar em que estava e se aproximou dela a pegando pela cintura, seus dedos roçavam seu queixo, Crystinne parou de respirar com a aproximação sabia que ele era perigoso demais para contrariá-lo.
–Eu podia te tê-la, aqui e agora..- sussurrou em seu ouvido, a fazendo estremecer.
–Mas não vai...- pegou a mão do homem o fazendo se afastar, ele riu. – peço que fale o porquê de sua visita...
–Eles querem respostas Crystinne, e se não tiverem...- disse o homem o mais frio possível.
–E se não tiverem?
–Bem, digamos que Arcadia será apenas um nome a ser lembrado...- Crystinne fechou os punhos ao ouvir aquelas palavras, eles não podiam fazer isso, ainda não era o momento, a única pessoa que veio em sua mente era Julian, mordeu o lábio inferior, pensando em algum plano para protege-lo de tudo aquilo.
–E-eu não descobri ainda e-eu... — disse dando um passo para trás.
–Crystinne, minha bela Crystinne... A princesa de Engard... — disse o homem explorando cada canto da sala com seus pés. – Os que eles fariam com você, se soubessem que não passas de uma farsa? O que fariam com você, se soubessem que veio de uma família de bruxos?
Crystinne continuava a dar passos para trás até que suas costas se encontraram com a parede fria e úmida.
–Lonios, meu primo, por favor, eu irei descobrir quem são as filhas de Zhoan, eu apenas preciso de, tempo..
Lonios caminhou até sua prima e depositou um beijo em sua bochecha.
–Três dias minha princesa... — sussurrou em seu ouvido, inspirou seu perfume inebriante e disse. – somente três dias, e não se esqueça, que precisas estar casada para que o nosso plano ocorra perfeitamente.
Crystinne fechou os olhos contendo a raiva dentro de si e quando abriu, ele não se encontrava mais ali.
–Três dias... — repetiu para si. Crystinne não tinha tempo, tinha que agir, sem ou com ajuda, seu povo precisava dela e ela, mais do que tudo, precisava de seu povo.
Saiu daquela sala determinada, determinada em trazer paz para Engard, sua terra natal, mais conhecida como a terra proibida, pelos arcadianos, pois lá se encontrava seres que ninguém pudesse imaginar sua existência.
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