Coroa de Eagenon ¤ A Ferida
8 ¤ 8 ¤
Notas iniciais
Depois de longos segundos a encarando e longos segundos que ela se manteve devolvendo o olhar, Malvor ordenou que a levassem à uma ala médica, já que de acordo com ele "seu sangue começava a manchar o seu chão".
Criadas a levaram com calma, auto-controle e discrição imprescindíveis para o primeiro local em que ela pudesse ser tratada, mas Veena ainda tinha em sua visão os olhos acinzentados do rei de Fireeasy, como se ele ainda a encarasse com aquela expressão... atormentadora, retirando dela cada vestígio de segredo. Não era uma curiosidade medíocre como o próprio príncipe havia feito, e sim evasiva.
Jephinia alcançou a sala minutos depois de a chamarem. Ela vinha apressada, ainda terminando de amarrar as tiras do próprio vestido de criada. As sobrancelhas franzidas exibiam aquela preocupação toda que ela tinha ao encarar o corpo da garota.
A lateral direita da sua cintura sangrava cada vez mais rápido e o mundo dela começou a ficar lento. Ela sorriu, anestesiada.
— Olá, Jephinia.
— Se teimar mais uma vez em falar eu vou sair dessa sala — ela disse como repreensão, mas a voz falhou por meio segundo. — O que demônios a senhorita arranjou dessa vez?
E ela responderia, se a mulher e mais duas curandeiras não comçassem a despi-la da camisola e começaram a retirar as ataduras. Ao menos daquela vez não sentia os órgãos se movimentando a medida que tiravam as faixas.
Mas a careta de Jephinia disse o contrário. Ela encarrou o corpo da garota e só então piscou:
— Tudo bem. Vou precisar dar uns pontos... de novo — ela disse e começou a colocar as luvas. — Garota... o que eu faço com você?
— Salve-me. Só mais essa vez. — a voz mal passou de um sussurro, mas ela tinha que dizer antes de a exaustão a levar e ela perder a consciência.
¤
Veena despertou em meio aos lençóis de seu quarto, novamente. Reconheceu a textura das almofadas e a coloração já tão familiarizada do dossel, assim como a forma que o sol despencava dos vãos das cortinas. Só assim percebeu que estava viva.
E ao sentir o cheiro de leite morno que notou que não estava sozinha daquela vez.
— Eu não quero saber. Sinceramente, não quero saber como você se mete em tantos problemas — foi a saudação de Jephinia, sentando-se na cama ao seu lado e concentrando-se em soprar o leite para esfriá-lo. — Sabe o que passou pela minha cabeça quando me disseram que você estava se esvaindo em sangue?
— Diga — ela respondeu, a voz rouca, mas sorrindo. Era bom tê-la ali novamente. Ranzinza e mandona, mas a melhor companhia que ela tinha em anos. E ela a encarou, como se aquela única e curta palavra pudesse fazê-la ter uma infecção grave.
— Eu pensei "agora ela vai parar de me dar trabalho". Não cuido de mortos. Mas — ela suspirou demoradamente. — você acordou. Devo me preparar para a próxima vez? Vai fazer o quê? Se jogar da escada? Colocar os intestinos para fora? Espere, isso você já fez.
— É bom estar viva para ouvir sua voz — a garota falou, ajeitando-se para sentar no colchão. Felizmente, apesar de sentir dor, não era como se tivesse regredido demais. A curandeira aproximou a xícara com o leite de seus lábios e ela o bebeu, fazendo uma careta em seguida. — Eu sabia que você tinha colocado algum remédio no meio.
— Que outra maneira de lhe fazer beber? Preciso conversar com você. A última madrugada foi... extremamente tensa e o castelo está cheio de novas regras.
— O sequestro da rainha — a mente foi inundada com lembranças e vestígios de dor. O sorriso quase sumiu de seu rosto quando se lembrou de cada detalhe da noite anterior.
— Sim. Certifiquei-me de que receberá tantos privilégios quanto qualquer um da corte, então ninguém entra nos seus aposentos sem estar acompanhado de um soldado, ninguém te dá o que comer, ou te tira daqui, com exceção de mim. Está me ouvindo? Não é para responder — ela deu mais um pouco da xícara de leite à ela, impedindo que falasse qualquer coisa.
Um pensamento passou pela mente da garota.
— Isso tem algo a ver com o príncipe, certo?
Jephinia lançou um olhar nada simpático a ela, parando de soprar sobre o leite. E naquele instante, pareceu entender tudo.
— Agora entendo o porquê de ele querer tanto vê-la mais cedo.
A garota sentiu o coração parar por um milésimo de segundo. Ela mudou de posição entre as almofadas, sem se importar se sentia dor, ou não. De repente, alguns fios soltos de um dos cobertores pareceu muitíssimo mais interessante que erguer os olhos para Jephinia.
— Ele veio?
— Magnus tem mania de se interessar pelo que não deve. De se importar com o que não deve. Sempre foi assim. Você deve ser um paraíso para ele.
Uma das sobrancelhas da garota se levantou involuntariamente enquanto analisava um dos fios do cobertor. Bem, não importava. Porque não sabia que dimensão os problemas haviam acabado de tomar e já deveria estar começando os planos de fuga. Precisava conseguir o que queria e sumir sem deixar quaisquer rastros.
E ali começava a jornada. E deveria terminar antes que o rei desconfiasse de qualquer coisa.
Ela não era estúpida, aquela noite não seria simplesmente anulada. Ela teria o que menos precisava: um soberano a observando de perto. Ela ainda não havia pensado em maneiras de converter aquela situação, quais mentiras e desculpas inventaria, como faria para que ele não desconfiasse sua origem. Apenas aquilo. E o medo a corrompia. A corrompia como se devorasse seus ossos e dissolvesse a pele. Qualquer passo em falso, qualquer palavra errada...
Uma chance. Um golpe de sorte.
Precisaria seguir as regras que ela mesmo impusera a si mesma. E teria que fazer em pouco tempo. E acima de tudo, teria que ser perfeita.
Quando o leite da xícara chegou ao final, Jephinia se ergueu da cama e organizou sua bandeja.
— Voltarei mais tarde. Descanse, vai ser bom. E não faça esforço para falar.
Veena sorriu mais uma última vez para a mulher antes de ser deixada sozinha no quarto.
¤
Os aposentos da rainha ficaram abarrotados a noite toda. Cheio de guardas, nobres, damas da corte que tentavam acalmar a mulher, serviçais e todo o Conselho do rei tinha uma conversa silenciosa com o mesmo, em um canto discreto.
Todos os homens do conselho. Menos Magnus.
Depois de ver Veena carregada para longe do salão do trono e tentar falhamente e várias vezes entrar na ala médica para entender a gravidade de seus ferimentos. E ele ainda tinha alguma esperança em convencer os serviçais que vinham hesitantes lhe negar a passagem, mas na última vez que tentou pedir para entrar, Jephinia saiu abriu e fechou a porta com velocidade que o impediu de tentar enxergar qualquer coisa lá dentro.
O príncipe guardou no fundo da garganta as exigências reais e bruscas que estava prestes a fazer ao ver a mulher baixinha cruzar os braços para ele, com expressão de que poderia socar o rosto dele em segundos, se ele a irritasse demais.
Então ele limpou a garganta, cerrando os pulsos para conter os xingamentos.
— Jephinia.
— Magnus — ela cantarolou. — Posso saber por que está atormentando meus médicos?
Jephinia fora designada para ser a mulher que cuidava de Magnus, até ele completar oito anos — foi na época em que ele descobrira as trilhas da floresta e então suas verdadeiras companhias passaram a ser os homens da guarda e os cavalariços — e mesmo assim não largou de seu pé. Magnus aprendera e temê-la e temer sua preocupação ampla e sem limites. E aquilo parecera lhe dar direito de dar comandos à ele, mesmo aos dezoito anos.
— Vim me certificar se ela está bem. Ela caiu da escada...
— Sim, foi o que ouvi dizer — sempre muito esperta, o príncipe não se surpreendeu quando ouviu aquele quê de que ela sabia exatamente o tipo de mentiras que contavam à ela. Ao menos convencera o pai de manter tudo em sigilo, para o bem dela. — Mas, Magnus, querido... Está subestimando meus cuidados e os cuidados das minhas mulheres?
— De maneira alguma, Jephinia...
— Ah, pois está parecendo — a mulher cruzou os braços sobre o vestido sujo de sangue e ele se sentiu nauseado ao perceber a quantidade de líquido vermelho. — É isso, ou é o mesmo motivo de você ter passado as duas últimas semanas muitíssimo interessado em visitar a minha paciente.
— Fui eu quem a salvei.
— Eu a salvei. Você só a carregou para que ela morresse em outro lugar. Do contrário, fui eu quem mexeu entre suas vísceras durante uma noite inteira. E, acredite em mim, eu desejo o melhor para essa garota que está muitíssimo claro que já sofreu demais.
— Você acha que eu planejo algum mal à ela? O que você acha que eu poderia fazer de ruim à ela?
— O que você poderia fazer de ruim a qualquer um dos dois — a mulher corrigiu e só interrompeu, baixando a voz, quando dois curandeiros apareceram no corredor, com instrumentos para conter seu sangue. Ela deu espaço, aproximando-se do príncipe e o fazendo com que recuasse para a parede. Ela permaneceu calada até que eles adentrassem a sala e só então prosseguiu, com a voz baixa: — Você acha mesmo que não sei das suas histórias com metade das mulheres de todo esse castelo, inclusive minhas mulheres?
Magnus não conseguia acreditar ao encará-la, com um sorriso sarcástico e uma leve risada.
— Você acredita mesmo que eu...?
— Poupe os argumentos. Não vai me convencer. Eu fiz seu parto, criança.
Magnus a encarou incrédulo. Não era possível que sua fama estivesse tão ruim. Ele usara aquilo como desculpa, mas nem pensava que acreditariam nele. E era lógico que Veena... por deuses, ele não era maníaco. Afinal, havia mulheres mais acessíveis que uma assassina de dragões quase paraplégica. Ele não negava sua beleza, ou qualquer atração, já que não era difícil se interessar por uma ruiva como ela; mas ainda assim, não era o tipo de investida que ele faria. Não enquanto príncipe.
— Eu não acredito que você...
— Vamos terminar esse assunto aqui. Poupará nós dois. Apenas pare de tentar procurá-la. Eu sei o quão decepcionadas as garotas saem depois de você as dispensá-las de suas vidas. Essa garota não merece isso.
E depois daquilo havia se apressado até os aposentos da rainha, que estava imerso em gente.
E estivera ali, durante a última uma hora e meia, tentando não somente acalentar sua mãe, que encarava o vazio com os olhos azuis marejados e nariz vermelho de choro enquanto todos se mantinham em silêncio ao seu redor, mas também Freya, que ainda não havia parado de chorar. E só depois de todo aquele tempo Magnus lhe fez um sinal com a cabeça, para levá-la até a sacada dos aposentos da mãe, onde não havia tanta gente.
A garota foi, com os ombros comprimidos e lágrimas ainda pingando de seu queixo, quando finalmente alcançaram a beira da sacada. O sol já começava a aparecer no horizonte e ele já reconhecia alguns pássaros voando em meio a curta estrada arborizada e declinada que levava à capital. Ao contrário dos aposentos de Magnus que eram direcionados para o Norte e à grande mata, aquele quarto possuía uma vista ampla para a urbanização que ele detestava de Geada Perpétua.
Ele e a irmã ficaram em silêncio ali por longos minutos. Magnus conhecia Freya. Era quatro anos mais nova e a preferida pelo conselho na linha de sucessão, ele sabia bem. Mas ele sabia o quanto ela ainda era uma criança e o quanto só queria poder brincar de fazer tranças nas criadas e somente sonhar acordada em seu quarto. Aquele corpo pequeno, herdado da mãe significava tudo que ela era. Na verdade, a garota era a própria Gleony. Tinha os cabelos acobreados mais escuros da família, mas os olhos um pouco mais claros do que os da progenitora. E era somente uma garotinha com medo em meio a tantos adultos mais interessados com o dinheiro do que com a rainha.
E Magnus passara muito tempo da sua infância se perguntando por que ela era a preferida. Por que uma mulher, sendo mais nova que ele? Mas estava bem claro naquele momento. O coração dela era gigante, assim como sua sensibilidade e humildade. Seria um peão fácil de se manusear no trono, muito diferente da mente impulsiva do príncipe.
— Vai ficar tudo bem.
Ela continuou quieta, olhando para o horizonte à esquerda, de onde despontava o sol.
— Ela estava tão apavorada quando as curandeiras e eu fomos atrás dela. Eu não quero nem saber o que fizeram... — ela respondeu baixinho próximo de um sussurro embargado. — Demorou muito para ela se acalmar da maneira que está agora e... Mag...
As lágrimas dominaram sua voz e Magnus a puxou para perto pelo pulso trêmulo, a abraçando. Demorou alguns segundos entre soluços para que ela juntasse forças nos braços e retribuísse.
Magnus e Freya foram próximos o máximo que podiam ser. O máximo que lhes era permitido, correspondendo às circunstâncias. Magnus era o primogênito, herdeiro do trono e homem; Freya era a indefesa, amável e preferida, ainda assim mulher. Estava muito claro que mal deveriam se ver no castelo, mas... bem, a mais nova sempre gostou muito de ser arrastada para andar à cavalo por aí.
Portanto, a infância deles de baseara em cumprir as demandas que o castelo e todo o reino esperavam — que fossem inteligentes, sábios, responsáveis e fossem a todos os tipos de aulas — e fugir nas horas vagas, para que o príncipe pudesse ensinar coisas mais valiosas à irmã: como montar, como construir uma armadilha na floresta e como mentir para os pais que estava apenas dando uma volta no jardim. Com êxito; na maior parte das vezes. Mas a vida que queriam levar, cavalgando pela floresta, foi arrancada pelo destino já traçado de ambos desde o berço.
E Magnus estava cômodo com a ideia de reinar sobre o poder imenso de Fireeasy. Ele só queria que a irmã pudesse desviar de seu próprio e caminho e também se acomodasse em algo verdadeiramente importante para ela.
Ele subiu os olhos para a silhueta próximo da porta da sacada, que os encarava distante. Magnus soltou a irmã lentamente e fingiu um sorriso calmo à ela.
— Não se preocupe com isso. Foi apenas um susto, tudo vai voltar ao normal... Eles estão mortos.
Mas a figura ainda olhava para ele.
— Fique calma — ele a aproximou pelos ombros e beijou o topo de sua cabeça — Nada vai acontecer conosco. Eu já volto.
E então se distanciou, a passos largos, na direção do homem próximo à porta. Antes de se direcionar a ele, pediu baixinho que chamasse Lady Catelyn, a melhor amiga da princesa na corte, para que fosse lhe fazer companhia.
E então posicionou-se ao lado do homem, que continuou a olhar para a jovem garota que observava o nascer do sol. O príncipe seguiu seu olhar, sentindo o coração trincar ao ver o medo estampado na irmã quando a amiga se aproximou para abraçá-la.
— Ela é mais forte do que parece — o homem disse. Magnus tinha que concordar: Freya era extremamente forte, porém extremamente preocupada.
— Será uma rainha digna algum dia.
O rapaz sabia o que ele queria dizer. Fechou os olhos, contendo a ira. Sabia que a irmã mais nova já estava prometida há pelo menos um ano ao príncipe de Echo, um reino de divisa com Fireeasy. A garota não sabia, mas porque Magnus suplicou que não lhe contassem... não ainda. Ele sabia como ela ficaria arrasada em saber que seu futuro já estava escrito por ela. E ainda era jovem. Demoraria um tempo para que soubesse lidar com aquela situação.
Os irmãos eram lados de uma mesma moeda; lados da lâmina de uma mesma espada, forjados do aço e prata que os rodeavam. Por mais que qualquer um quisesse negar, eram mais parecidos do que era possível que fossem. Era impossível negar o lado aventureiro da garota, ou a parte sentimental errante dele. E a vontade de sumir sobre cavalos pelas montanhas era comum. O desejo de simplesmente se livrar de qualquer responsabilidade corria pelas veias de ambos.
— Sim — ele respirou fundo ao dizer, as mãos postas juntas atrás do corpo. — Será uma mulher digna.
O rei finalmente se virou para ele, com o rosto inexpressivo que utilizava sempre que conversavam. O príncipe devolveu o olhar tão igualitário o quanto conseguia. Não era mestre da arte do mistério como o monarca.
O pai e ele eram definitivamente opostos. Naturalmente, havia uma aversão entre os dois que vinha desde o berço do herdeiro. E por mais que se parecessem fisicamente — pelo inferno, eram idênticos —, havia muito, ou quase tudo, da personalidade que se contradizia.
O nariz reto de ambos não passava de semelhança exterior. Assim como os olhos, os do pai ainda um pouco mais escuros e profundos, ou a boca pequena. O formato do rosto e o maxilar bem marcado... Não passava de meras coincidências genéticas. No fundo, Magnus se perguntava se eram mesmo da mesma linhagem.
— Não pense que poupei a jovem.
— Não penso. Ela irá embora assim que se recuperar dos acontecimentos dessa noite. Houve algumas complicações com seus pontos cirúrgicos e me parece que o motivo foi a total irresponsabilidade de seus guardas ao arrastarem-na pelos corredores.
— Magnus — ele voltou a dizer, lentamente, como se falasse com um leigo. — Pode ser que a garota não tenha nada a ver com o sequestro. Pode ser verdade. Mas não significa que ela não saiba de informações valiosas. E ela sabe.
O coração do príncipe deu um pequeno salto, que ele controlou atuando com perfeição:
— Irá interrogá-la?
O príncipe sabia que qualquer um que fosse interrogado pelo rei estava sujeito a uma tortura certeira. Ou pior. Ele não imaginava que a garota ruiva fosse se negar a dar qualquer informação, mas se por acaso o orgulho e teimosia dela falassem mais alto... pelos deuses, como as chances eram altas se tratando dela.
E ele sabia que o rei tinha consciência que se Magnus estivesse presente na sala no momento das perguntas, ele tentaria impedir qualquer guarda de simplesmente tocá-la.
Maldita sensibilidade.
— Certamente.
— E vai feri-la? — ele resolveu perguntar, porque precisava quebrar o joguinho que o pai tanto adorava.
— Se for necessário.
Magnus estava prestes a intervir, a elevar a voz da maneira mais calma possível e simplesmente dizer que não, mas o rei segurou seu pulso que estava prestes a se elevar.
— Não quero saber de suas ordens, suas considerações pela garota. Afinal de contas, seus interesses pelas diversas mulheres com quem dorme nunca passaram de questões físicas. E prefiro que isso não mude.
— Ela não é qualquer um que você possa colocar em uma mesa de tortura.
— É nesse ponto que você erra — o soberano continuou, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. — Ela é qualquer um e é com quem eu posso fazer o que eu quiser. Você é apenas fraco demais para entender.
Era melhor acalmar. Acalmar aquele borbulhar de ira e vontade de socar a cara do pai — aquela cara com olhos, nariz e queixo tão miseravelmente iguais aos dele —, que se acumulava por tanto tempo. Mas era tão, tão difícil com a sua presença ali.
O príncipe então cerrou os pulsos e se preparou para sair dali, quando o pai segurou seu ombro, com sutileza e força, fazendo-o parar. O rapaz voltou ao seu lugar com calma para esconder a fúria acumulada na garganta para encará-lo com um sorrisinho.
— Achei que fosse mais esperto. Pensei que viesse me perguntar.
Magnus mudou o peso do corpo entre os pés, olhando ao redor para se certificar que nenhum dos bajuladores da corte prestava atenção na conversa dos dois. Havia sido ensinado a ele há muito tempo: mal mexer os lábios, ser discreto e sutil em público e diante de qualquer um.
Ele sabia exatamente sobre o que ele falava. Esperava para que lhe fosse perguntado sobre o assunto, mas não tomaria a responsabilidade do primeiro passo. A recordação daquele assunto o fez baixar o tom de voz, quase como uma ameaça. Se fosse possível ameaçar o rei.
— O que quer que pense ao trazer esses soldados de Lupina para cá...
— Quando foi que notou? — o rei perguntou, o interrompendo.
— Quando dois deles saíram do salão do conselho. Não se preocupou nem ao menos em esconder os uniformes reais do país.
Isso fora há quatro dias... e vinha observando de perto. As cores de Lupina, o reino abençoado pela deusa da caça, reluziam no verde e castanho naqueles uniformes em seus guardas, mais primitivos do que os de Fireeasy. Até onde ele sabia, o filho mais novo da rainha estava no castelo, para resolver negócios sigilosos com o rei. E ele sabia que Lupina dava ênfase ao sigilo, pois descobrir qualquer detalhe fora incrivelmente árduo.
Mesmo assim, ele tentara. Mesmo que por dentro já soubesse do que se tratava. Mesmo que estivesse claro, ele precisava de uma confirmação antes de enlouquecer.
Mas o rei apenas apertou os olhos e lhe mostrou um meio-sorriso, nem um pouco gentil.
— Você sempre foi um garoto esperto, não é mesmo, Magnus? Eu não devia ter pensado que poderia esconder algo de você. Suponho que já tenha descoberto tudo. — ele continuou imóvel, estável, inexpressivo. O coração acelerou, mas ele se manteve morbidamente quieto. — E antes que sua mente insolente planeje qualquer coisa, saiba que nada pode ser desfeito. Seu casamento com a princesa de Lupina já está arranjado, independente de suas teimosias.
Sim, estava confirmado. Sim, Magnus sentia a própria alma ser trancafiada em uma gaiola de prata; uma prisão para a própria vida. Ele sabia bem o destino de um príncipe casado. Sabia das consequências, cada história que ouvia e as demandas dos súditos. Sabia que não importava quem fosse, um casamento não era desfeito. E sabia que precisava de filhos e herdeiros e seu título seria mais cobrado que nunca. E se ela era uma princesa, na linha de sucessão de um reino como Lupina...
Não havia nada que ele pudesse fazer. Como, de fato, nunca havia.
Ele continuou encarando a face iluminada de vingança do pai. Vingança pelo quê? Ele não fazia ideia. Por ter nascido, talvez. Por ser sua única opção como futuro rei, sem causar nenhum grande alarde e enfraquecimento político de seu país.
— Brior Serhen — foi o que a garganta seca pôde dizer, quase em um sussurro. Era a única jovem da família real que já não estava casada com algum nobre rico. Ele tentara não pensar muito naquilo, mesmo que seu racional soubesse que não havia volta e o máximo que podia fazer era explorar seu histórico. Teria sido realmente inteligente saber com que tipo de mulher estava lidando, mas aquela barreira dentro de si que o impedia que se ferisse demais suplicara que aquele fosse um assunto para depois.
— E aposto que já tinha ciência disso também — o rei continuou e então suspirou, como se tudo estivesse bem. Como se o mundo não tivesse sido totalmente abalado durante aquela conversa. — Estou contando com sua esperteza, então espero que a utilize. Seria burrice de sua parte tentar evitar ou impedir, pelo seu próprio bem e pelo bem de todo o reino. Não me decepcione.
E dando mais uma olhada para a jovem princesa na beirada da sacada, abraçada à amiga, o rei Malvor o deixou sozinho naquele canto do quarto, cumprimentando mais meia dúzia de homens que vinham lhe dar conselhos os quais ele não precisava.
Magnus seguiu o olhar para a irmã mais uma vez, que soltou Lady Catelyn do abraço e recepcionou outros nobres que vinham para acalentá-la.
Observou a garota que sorria quase com sinceridade agradecia o apoio que provavelmente não significava nada.
Ele a olhou e sentiu pena. Às vezes o sentia ao se lembrar do que lhe aguardava no futuro, do destino de mulher traçado à ela — e não por ela — que seria inevitável e contraditório a tudo que ela sempre desejara. Viver livre, encontrar o "verdadeiro amor", fazer suas próprias escolhas... bem, somente tirado dela.
E então percebeu que apenas se encarava em um espelho.
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