A ruiva não aguentava mais dormir. O fizera por semanas e supôs que era o que ainda faria com aqueles cortes quase totalmente abertos ao lado do corpo. Até acordar naquela manhã.

A sensação foi estanha o suficiente para que subisse a camisola na altura dos seios para encarar os curativos. Estavam progredindo tanto quanto há duas noites atrás, antes de ser arrastada até a sala do trono. Ela afastou os cobertores. As pernas estavam inchadas sob as ataduras, mas não havia mais sangue. Sentia o ar entrar nos pulmões sem nenhum desconforto.

Não foi surpresa quando subiu o olhar e encontrou Jephinia de braços cruzados, sorrindo enquanto se apoiava à parede do outro lado dos aposentos.

— Você nunca vai me deixar em paz? — ela perguntou com um sorriso para a mulher.

— Eu espero que sim. Quando você for embora para bem longe e levar todos os seus problemas com você. Estou farta deles.

— Ah, deve ser por isso que sempre que abro os olhos você está na minha frente.

— Ainda é muito fácil te matar, garota. Aconselho que pare de me provocar.

Ela sorriu ainda mais e a mulher suspirou, encarando suas pernas.

— Parece que você teve uma melhora inesperada...

Veena assentiu:

— Isso não é estranho?

— Não se questiona bons acontecimentos — ela atravessou o quarto e se prontificou ao lado da cama, limpando as mãos no vestido. — Levante-se. Não pense que irei mais uma vez atrás de um soldado para te erguer.

Ela obedeceu, sem parar de sorrir, enquanto as pernas deslizavam para fora da superfície macia dos lençóis. Já havia feito aquele mesmo ato diversas vezes e finalmente não sentia mais dores. Parecia impossível.

A curandeira a segurou pelas mãos e a puxou para que se mantivesse de pé. As pernas bambearam, os músculos sacudiram, mas se firmaram. Para dar um passo, outro. Antes que notasse e o corpo pudesse finalmente se acostumar, a mulher a soltou. Os passos a seguir vieram a partir de nenhum suporte ou ajuda. O que ela andou depois que a mulher a deixou foi totalmente por conta própria.

Lentamente, ela caminhou com os pés no piso frio de mármore até atravessar totalmente o cômodo.

Ela chegara enfim na parede oposta e apoiara-se ofegante na batente da enorme janela, a qual se acostumara apenas encarar seu próprio reflexo. Andara tudo aquilo que via ao olhar por cima do ombro e ver a mulher sorrindo ao lado do dossel. Ela riu e então olhou apara o mundo abaixo.

Observou a vida, os criados andando de um lado para o outro do pátio. Alguns nobres da corte e qualquer um do castelo. Caminhando, conversando, trabalhando. Cada movimento a fez se sentir como uma pessoa. Como se nada nunca tivesse acontecido. Se sentia maravilhada, se sentia realizada.

Até notar o que a olhava de volta. Junto de mais duas damas quaisquer, havia um par de olhos olhando para a sua janela. O par de olhos era revestido de roupas formais e que esbanjavam toda a magnitude de um império. O príncipe de Fireeasy desviou o olhar após os segundos que demoraram mais que séculos em que eles se encararam e voltou a conversar com as mulheres.

¤

Era loucura.

A garota observou as três criadas postas de pé à sua frente, enquanto segurava uma xícara requintada e cara, trabalhada com perfeição em detalhes de azul e rosa e com uma asa tão delicada que ela mal se atrevia a segurar, com medo que desmanchasse em seus dedos.

Ela estava ali, sentada na poltrona de um castelo luxuoso e dessa vez estava inteiramente viva. E para ela, era loucura.

Jephinia, por outro lado, parecia totalmente entendida com aquilo. Como se fosse normal e como se esperasse por aquilo. Ela se perguntava se era mesmo algo possível que estivesse ali, sentada naquela poltrona, segurando aquela cara xícara de porcelana enquanto servas lhe mostravam vestidos para que escolhesse. Nunca nem ao menos quisera aquilo

Ela fez um aceno de mão na direção do vestido da direita, um lilás de mangas largas até a altura dos cotovelos e de laterais bordadas em branco. Parecera uma boa escolha, contando que os outros dois vestidos eram azuis e prateados, que faziam jus às exaltações do brasão do reino. Ela não daria aquele gostinho, por mais que a ideia do rei de lhe oferecer aquelas roupas fosse implícita, ela imaginou que ele não a achava tão estúpida assim.

Bem, ela esperava que a escolha deixasse claro que ela deixaria aquele castelo — e em poucos dias, caso tudo funcionasse — com a honra intacta.

— Então está decidido — Jephinia disse ao se erguer de uma das poltronas postas mais próxima da lareira acesa que crepitava no silêncio do cômodo. Ela levantou, se aproximando da jovem que segurava o cabide com o vestido escolhido. — Você fique, as outras estão dispensadas — e então se virou para Veena. — Precisamos vesti-la para o primeiro dia na corte.

Então as outras duas mulheres deixaram o quarto com uma reverência curta, enquanto a última delas começava a abrir o vestido. Veena levantou-se apoiando a xícara em uma mesinha ao lado e então as duas começaram a tirar seu hobbie.

O vestido lhe adornou com perfeição. Não se lembrava de quando a haviam medido, já que não imaginava que seria necessário um vestido para si, mas ele escorregou por sua pele como se fosse feito para ela. Não era parecido com nada que já havia experimentado: o tecido bom, macio e de qualidade que ela nunca esperara conhecer.

A criada fechou a vestimenta em suas costas e ajudou a caminhar com as pernas confusas entre tanto tecido até ela estar de frente para o grande espelho de prata, admirando o caimento das mangas, do decote e da enorme saia do vestido que cobria seus tornozelos para que ninguém visse seus últimos curativos. Como Jephinia garantira, impecável.

— Providencie um calçado confortável para ela e o traga aqui — Jephinia disse ao se virar para a mulher, que saiu do quarto silenciosamente. Ela se aproximou para ajeitar alguns detalhes brancos em sua cintura, como fosse acostumada a fazê-lo todos os dias. — Eu diria para você usar um corselete, mas ainda está muito magra para isso.

— Achei que o rei fosse querer que eu não saísse enquanto eu estivesse aqui.

— A corte do rei é extensa o suficiente para que não tenhamos esse tipo de preocupação. Além disso, Sua Majestade fez questão de que todos comparecessem. Ao que as fofocas contam, algum grande nobre de Lupina chega hoje.

— Lupina? Quem?

— O reino do Leste pode gostar de esbanjar riqueza, mas não quis que a notícia ganhasse grandes proporções. De certo modo, falharam miseravelmente.

Jephinia a guiou até que ela se sentasse no banco estofado em frente à penteadeira e começou a passar a escova com safiras encrustadas por seus cabelos avermelhados. As cerdas deslizaram de cima a baixo com calma, enquanto Veena encarava Jephinia pelo espelho.

Seu nariz empinado e largo, a pele extremamente branca, própria de quem vivia no Norte. Os olhos eram pequenos e escuros, livre dos cabelos que estavam sempre presos à nuca. Mas por trás disso... a compaixão, a determinação. Era algo que ela não pensaria em ter, nem em um milhão de anos.

Bem, Jephinia não a conhecia, por mais que estivesse próxima. Não conhecia seu passado, sua história, nem sequer seu sobrenome. Não sabia o que a jovem já fizera e o quanto já sangrara. E se descobrisse... com certeza aquela compaixão seria diluída. Inicialmente, porque a garota vinha do Sul e então por conta de todo o resto. A sombra fazia parte de sua vida, aquilo era fato, e um pouco de pena de uma criada gentil não mudava nada.

— É melhor que treine seu gênio — ela começou, então e Veena tratou de desviar o olhar. — Soube que seu encontro com o rei não foi dos melhores.

— O que soube?

— Sei sobre tudo. Mas os guardas mantêm em segredo. Só sei de tudo porque o próprio rei me contatou para perguntar sobre você.

Ela não queria perguntar, não perguntaria, mas o fez:

— O que você disse?

Ela juntou parte de seu cabelo vermelho para prendê-lo, como era comum no visual das outras damas da corte que ela já vira.

— Que não tinha chances de você causar mal a ninguém da família real. Que você está sob minha custódia e eu me responsabilizaria para que você fosse vigiada dia e noite. E eu o fiz. Ele tem razão de suspeitar de você, mas... foi precipitado o que fez... o trabalhão que me deu com você. O rei me conhece, sabe que eu não sou de guardar o que penso. Que corte minha garganta, se quiser.

— Não se arriscaria por mim — ela disse, mais do que uma pergunta, sentindo o coração acelerar só por pensar que alguém estava metido nos problemas sem fim dela.

— Não é apenas você, garota. Já passou da hora de Malvor entender que, rei de Fireeasy ou não, os limites são para todos. E a arrogância dele deve ser detida.

Veena segurou uma risada de sarcasmo e se contentou com um sorriso.

— Deter a arrogância de um rei? Isso é sequer possível?

O semblante da curandeira tornou-se sério.

— Malvor é um humano, mortal. Não pode fazer nada que não possamos fazer com ele. A arrogância dele que deixa todo esse continente cego.

O mortal mais poderoso do vasto continente, com cada centímetro de seu corpo sendo imensamente perigoso e ameaçador. Mas humano, sim. Não parecia melhorar nem um pouco as coisas.

Elas ouviram batidas na porta no instante em que Jephinia terminou o penteado. A criada entrou com um par de sapatos baixos e que combinavam com suas vestes. Ao menos ela não seria obrigada a usar calçados altos e enfeitados.

Depois de calçá-los, Jephinia finalmente se afastou para observá-la de cima a baixo. A ruiva ainda usava brincos e um colar de prata — não houvera outra maneira — que a curandeira havia conseguido furtivamente de alguma outra mulher na corte que nem sabia mais da existência delas. Podiam ser simples, mas eram muito mais do que ela já tivera.

— Bem, está linda — a mulher disse com um suspiro e soltando as mãos ao lado do corpo, que bateram contra o próprio vestido de criada. A palavra "linda" ecoou na mente de Veena, que segurou um sorriso. — Mas precisa ir. A pontualidade de Sua Majestade é insubestimável e estamos atrasadas. O soldado Lancel a levará. Está esperando do lado de fora.

A criada que saía do cômodo a acompanhou. Veena ainda conseguiu se admirar quando passou na frente do espelho e foi mais difícil conter o sorriso bobo, mas ergueu o queixo e continuou a andar, conseguindo até mesmo ignorar um pouco o incomodo das ataduras roçando na pele.

— Está bem, milady? — a serva perguntou, com cautela.

— É claro — e ela então abriu as portas, encontrando o segurança negro que a visitara junto do príncipe em seus primeiros minutos acordada.

O soldado Cedric Lancel. Estava estampado em seu semblante mal-humorado que ele a odiava e que acompanhá-la a qualquer lugar que fosse sem enfiar uma espada no seu fígado seria um pesadelo. O desgosto bem escondido de Berguehill era tão melhor...

O homem era alto, ainda mais alto que Magnus. Tinha os ombros largos e que formavam braços tão largos quanto, os músculos sobressaindo no uniforme que lhe aparentava ser justo demais. Tinha diversas cicratizes no queixo e os olhos escuros a julgavam. Ele poderia ser até mesmo bonito, mas aquela expressão de ódio definitivamente não o valorizava.

Ele estendeu o braço para que ela o entrelaçasse no dela e a encarou, esperando. Ela poderia ter hesitado com medo, mas ergueu ainda mais o queixo e apoiou-se no guarda, que grunhiu, resmungando algo.

Eles começaram a caminhar pelo corredor a contragosto. O clima ficou pesado e quase assassino em volta do dois, mas ela ignorou a sensação.

Mas assim que viraram a primeira esquina de corredores, ele resolveu abrir a desagradável boca.

— Achei que já estivesse morta a essa altura.

— Ao que parece, no fim estavam todos errados a meu respeito e se tocaram que eu não sou um monstro.

— Fim? — Ele soltou uma risada irônica, como se ela fosse uma tola completa. — Acha que essa história chegou ao fim?

Veena escondeu a surpresa por ouvir aquelas palavras.

— Se continuarem pegando no meu pé, suponho que não. Mas acho que seu rei tem mais coisa a fazer além de me encher o saco.

— Sim. Ele tem que proteger visitantes ricos e poderosos. Proteger de intrusos e traidores como você. É a primeira suspeita se qualquer coisa acontecer.

— Vocês de Fireeasy são idiotas? Não ouviram o que eu disse? Gamoust está por trás de tudo isso — burrice, mas naquele momento era o que tinha. Mas se descobrissem sua origem... — As tatuagens...

— É, essa desculpa você já usou para se safar, noites atrás. Não tem nada mais criativo? — ele interrompeu com descaso.

Era aquilo que recebia por dar boas informações? Por auxiliar um rei sem nem ater ao menos a necessidade de fazê-lo? Claro que a ocasião pedia, mas ela podia se safar com qualquer mentir. Sentiu raiva fervilhando nos punhos que quase fechavam.

— Estou ajudando o seu reino — ela cuspiu como uma ameaça, entredentes, a medida que observava ao redor para conferir se alguém veria se ela desse um chute entre as pernas do soldado. A calmaria que ela aproveitara com aquela xícara, minutos antes, desapareceu por completo ao sentir o guarda segurar seu braço com mais força e agressividade contra o dele.

O olhar escondeu a raiva aumentada para se passar por uma mulher comum da corte quando dois homens, se portanto de maneira elegante e arrogante, passaram. Ela trincou a mandíbula. Não havia parado para pensar que teria que aguentar os engomadinhos do castelo até então.

— Você ajuda melhor morta — ele falou baixo, ciente de que o número de pessoas próximas aumentava.

— Deixe-me ir — ela manteve a voz no mesmo tom, mesmo que não diminuísse o rancor nela. — Juro que nunca mais pisarei em Fireeasy. Nunca fiz nada demais além de ser acusada injustamente.

— Nunca? — ele riu mais uma vez. — Nunca. Uma mulher como você, matar um dragão, sobreviver na floresta...

Não importava se as pernas ainda estivessem terminando de cicatrizar, ou se aqueles sapatos eram incrivelmente chiques. Veena afundou o calcanhar sobre o pé de Cedric com força e sutileza para que ninguém notasse seu movimento até que ele grunhisse e afrouxasse seu braço.

Ela se desvencilhou e continuou a caminhar sem ele, de maneira rápida e ainda feminina que não chamasse mais atenção do que já chamava.

Ela sentiu e ouviu os passos que aceleraram dele e ela também acelerou os próprios, apressando-se enquanto as pernas ardiam até chegar na próxima esquina de corredores. Ficar perto naquele homem nauseante não facilitaria nada. Quais as chances de ele querer provocá-la a ponto de ela perder a paciência e causar um tumulto digno de ser usado contra sua estadia ali?

Ela esperou que pudesse acalmar o andar ao virar a direita, mas então se arrependeu profundamente de sequer ter saído do próprio quarto.

Ela usou todo o reflexo para se apoiar na parede e usar as fracas pernas para impedir que caísse. Dois soldados ao lado sacaram suas espadas sem sequer um segundo passado depois que a outra mulher foi ao chão. A mulher quem Veena empurrara sem querer e estava tentando se recompor no piso.

Ao se estabilizar, a ruiva socou discretamente a parede no qual se apoiara, quase se xingando em voz alta.

Um dos guardas próximos correu para ajudar a mulher a se levantar e um bando de curiosos fez menção para olhar a cena que pareceu silenciar todo o castelo e fazer o cérebro da jovem ficar oco.

— Quem é você? — o outro soldado falou, com a voz grave e ameaçadora que fez com que suas desculpas fugissem da garganta.

— Não se preocupe, senhor — Lancel se aproximou de imediato, a puxando para trás enquanto enrolava o homem raivoso. Ela se perguntou porque ele chamaria uma colega de trabalho de senhor, mas então notou que seu uniforme... era diferente dos demais que já vira no castelo.

Ela moveu o olhar lentamente para a mulher que acabara de se levantar.

O cabelo negro, espesso e cacheado estava preso em um alto coque preso com presilhas prateadas no mesmo tom do vestido branco de inverno. Os olhos azuis escuros como noite estavam torneamente delineados na pele escura de sol. Aqueles olhos... a encaravam de cima a baixo com desprezo encarnado.

Merda.

— Quem é a mulher? — o homem perguntou mais uma vez.

— É apenas a amante preferida do príncipe.

A partir do momento que as palavras ecoaram por sua mente, ela não se arrependeu de mais nada. Principalmente ter pisado no pé de Cedric. Aliás, se arrependera de não pisar com mais força.

Os dentes quase trincaram quando os guardas e a mulher a encararam — a fuzilaram com todos aqueles pares de olhares. Ela forçou um sorrisinho sem graça.

— Você deve estar se confundindo, senhor. Não tenho nenhuma relação com o príncipe.

— Claro que tem. Ele fez questão de que eu a levasse em segurança até a cerimônia. Sua Alteza não tem esse tipo de preferência com mais ninguém na corte além de suas parceiras. E é claro, não são todas que foram criadas a devidos modos. Os gostos de Sua Alteza são peculiares.

Veena esforçou-se para não permitir o rosto corar em raiva e vergonha. Não era possível que aquela seria sua fama: a prostituta do príncipe.

A mulher morena endireitou-se em seu vestido e ergueu o queixo ao direcionar a palavra aos dois.

— Acho que devemos ir. Melhor prestar mais atenção por onde anda.

A jovem abriu mais um sorrisinho de apertar os olhos.

— Perdoe-me. Eu não tinha a intenção de...

— Eu já entendi. Não se preocupe mais com isso.

E depois virou-se para seguir seu caminho, juntamente dos dois guardas que embainhavam novamente as enormes espadas.

A adrenalina que escorria por suas veias foi se tornando mais branca, mas a ira continuava a encarar o guarda com os olhos verdes ardentes, assim que a grande multidão a volta começou a se dispersar a cochichos.

— Por quanto tempo pretende me humilhar?

— Humilhar? Por dizer sobre sua relação com Magnus? Não vejo outra maneira de um nobre como ele ter piedade de uma maltrapilha como você — não foi nenhuma surpresa o apelidinho não a afetar. Estava totalmente acostumada com termos assim. — Melhor eu levá-la sem mais acidentes, ou perco meu emprego.

Ela responderia, se não tivesse certeza que revidaria com um tapa de ódio em sua face. Logo, logo ela iria embora e nunca mais teria que se preocupar de que modo seria melhor de torturar certo guarda real.

Eles seguiram pelo corredor até que ele se abriu em um grande espaço, com enormes janelas e corredores que passavam nas laterais acima. Em cada extremidade havia uma luxuosa escada e se descesse dois degraus... estava no salão do trono e ao descer o olhar... o próprio Trono.

O Trono de Prata já era majestoso e opressor por si só. Ela ouvira as histórias... de que o homem que o construíra havia sido um dos maiores dominadores — e ela não duvidava que podia ter sido muito bem o maior deles — da época que sucedeu o descobrimento do continente. Durante a Guerra Cega, para ser mais exato, e todos diziam que o próprio e lendário rei Gariol havia o erguido, com o poder avassalador que possuía. Mas ainda assim, não era tão ruim quanto o que ela presenciava... Não. Vê-lo sustentando o atual rei de Fireeasy fez com que Veena quisesse vomitar de medo.

Definitivamente os enfeites calmos e acolhedores não conseguiam oprimir aquilo e qualquer um da corte devia saber que estavam sendo ameaçados somente por estrarem no mesmo cômodo do símbolo do Norte.

Um arrepio lhe percorreu enquanto controlava o tremor do corpo para continuar se direcionando. Conseguiu alguns segundo para que os olhos desviassem daquela droga de trono. O salão estava cheio de pessoas bem vestidas e com bancos espalhados, com um corredor entre eles que seguia até o rei, onde estava sentadas também a rainha e a princesa Freya, de mãos dadas com a mãe. O trono menor à esquerda do rei estava vazio.

A rainha Gleony: calma como ouvira falar, plena como uma líder deveria ser. Havia uma confiança nela que era inabalável. Podia estar traumatizada, mas a atuação em seu rosto sorridente era impecável. A filha mais nova lhe dizia algo, com seu porte pequeno e muitíssimo parecida com a rainha. Nem se Veena não tivesse qualquer coração seria capaz de sequestrar um símbolo de delicadeza como aquele.

Mas os olhos pararam quando o par prateado do rei lhe alcançou. Achava que seria capaz de evitar seu olhar, mas... A calmaria que a plenitude da rainha esbanjara foi tomada de seus sentimentos como se nunca tivesse existido e seus braços foram tomados por um peso de terror. Aquele homem... por trás de toda aquela noite que podia jurar que morreria a seu comando, havia algo que não reparara antes... Sombrio, obscuro...

Ela sentiu um impaciente empurrar no ombro por Cedric e desceu os degraus, tentando se concentrar em outra coisa. Como nos arranjos de flores lilases pelas paredes e ornamentos de pedra, ou como a fraca luz do sol de outono permeava por entre as janelas, trazendo uma sensação morna — se é que a temperatura no Norte se diferenciava muito de gélida e cortante.

Prestou atenção no lugar luxuoso e na tapeçaria clara, e fingiu não notar nos inúmeros olhares sobre ela. Não podia ser que sabiam se sua suspeita sobre o sequestro da rainha, então provavelmente os observadores checavam se podia ser atraente o suficiente para o príncipe, ou algo assim. Como todos já sabiam ela não fazia ideia. E eles nem se preocupavam em ser sutis!

Lancel a guiou até um dos bancos e a instruiu que se sentasse.

— Está sendo vigiada por dezenas de soldados, os mais bem treinados do reino. Não tente nenhuma loucura. Já está chamando atenção demais.

— Se eu quisesse tentar, você já estaria morto.

Ele a ignorou com maestria e se afastou para conversar com outro soldado uniformizado. E então ela foi deixada ali, desfrutando dos olhares tortos e murmúrios, enquanto tentava manter a concentração em não parecer envergonhada. Mais uma vez, prometeu a si mesma que não abaixaria a cabeça para nenhum nobrezinho de nariz em pé. E era melhor que eles soubessem que ela não ligava para as fofocas.

Mesmo que se sentisse extremamente desconfortável. Quanta relevância tem uma amante do príncipe? Bem, talvez tivesse uma popularidade melhor que o título de assassina da rainha. Mas se tivesse que usar aquela desculpa para se safar de mais suspeitas... Atuar daquela forma seria um pesadelo. Mas pior que isso: Magnus era o príncipe herdeiro de Fireeasy. Se ele a ordenasse que colocasse a fama para valer entre quatro paredes...

Ela não teria muitas escolhas. A ruiva conteve a vontade de encolher os ombros. A verdade é que Veena nunca deitara com nenhum homem — na verdade, não eram muitos que passavam pela propriedade de seu pai e a quantidade diminuía no quesito "homens que podiam lhe dirigir a palavra". No máximo eram comerciantes que ela deveria servir um chá ou coisa assim e estavam constantemente sobre ameaças de Voldec.

É, sim. O pai...

Claro que quando decidira fugir, havia coisas que suspeitava... Usara todas as forças para tentar não pensar naquilo — durante a viagem porque já comia pouco e se vomitasse por nojo não duraria muito tempo e no castelo porque os intestinos provavelmente sairiam pela boca — mas a hipótese vinha sendo cada vez mais frequente em sua mente. Tentava não acreditar, mas...
Voldec sempre fora sujo e asqueroso. Mesmo a mãe não ficava muito contente com sua companhia e Veena agradecia por seus empregos não os permitissem morar juntos. Mas nada que o pai já fizera se comparou às suspeitas que foram arremessadas em cima dela quando decidiu fugir.

Não havia nenhum homem que Voldec permitiria levá-la para longe dele. E ela era a sua única filha mulher, já que as duas irmãs mais novas morreram junto com a mãe. Quando as peças começaram a se juntar, já no fim da primavera...

Ela engoliu em seco. O pai planejava engravidá-la — ele mesmo, ou um dos irmãos. Ela não sabia dizer o que era pior. Se ele já causava tremores nela, os irmãos mais velhos não eram tão diferentes. Amin, o mais novo dos dois, era repulsivo só por ser um idiota sem cérebro, mas Keid conseguia ser tão ruim quanto, com uma índole perversa assustadoramente semelhante ao pai.

Foram semanas que negava a ficar sozinha em algum cômodo com um deles, que o desespero fazia bater forte no coração e que o ar faltava. Só de ouvi-los pronunciar seu nome já a fazia querer fugir para muito longe e mal conseguia dormir sem certificar-se que sua estratégia para trancar a porta do quarto funcionava.

O foco da visão voltou ao perceber que as mãos haviam se fechado na saia do vestido com força. Levou segundos para que conseguisse fazer com que relaxassem sobre as coxas e respirasse fundo. Nada daquilo aconteceria. Iria embora em poucos dias e se Magnus a obrigasse a fazer algo, já teria obrigado.

Bem, era melhor mesmo não pensar sobre aquilo. Estava prestes a começar a registrar em sua mente o número de janelas, guardas, entradas e saídas do local quando o príncipe herdeiro caminhou a passos largos e tensos pela lateral do salão, até se sentar no trono, como se nunca tivesse saído dali.

Houve uma troca de sussurros entre ele e o pai e a expressão carrancuda de Magnus se estabilizou ali, como se fosse mais forte que ele.

Hipóteses rolaram por sua mente, desviando seu principal objetivo. De repente, as probabilidades do porquê um nobre de Lupina visitava Fireeasy inundaram sua mente com milhares de perguntas que deixaram sua mente embaralhada o suficiente para não desviar o olhar quando ele seguiu involuntariamente para Magnus.

E ele a encarou de volta, inexpressivo.

Me diga o que está acontecendo, ela tentou dizer com os olhos, mas o príncipe apenas continuou olhando-a. Quando uma trombeta soou no salão e todas as pessoas no local seguiram calma e educadamente para os bancos. Mas ela se concentrava em somente tentar arrancar respostas de Magnus, sem entender porque de repente se sentia tão eufórica.

Tentou falhamente parar de bater os pés no chão quando ele finalmente desviou o olhar para frente e quando uma voz ecoou pelo castelo:

— Sua Majestade, rei Malvor Chromestie Goren North Frost e toda a família real de Fireeasy tem a imensurável honra de receber em seu castelo, a princesa Brior Egnerm Lupus Serhen, de Lupina. Que os deuses abençoem essa reunião.

A própria princesa. A ruiva não teve tempo de pensar naquilo, levantando-se a medida que todos se levantaram para receber a garota real.

Então uma música estrondosa e cheia de vigor — digna de uma princesa — fez com que a jovem sentisse as paredes do salão sacudirem. As trombetas gritaram harmoniosamente a medida que todos esticavam o pescoço para admirar a mulher que atravessou o lugar de queixo erguido e pose intimidadora.

Apesar do esforço de Veena, a quantidade de cabeças por perto não permitiu que ela enxergasse a princesa caminhando, seguida de dois guardas com espadas em punho. Teria ficado na ponta dos pés se aquilo não fizesse que as panturrilhas doessem tanto. Só então quando todos sentaram que ela a viu. E agradeceu por estar sentada.

A visão mal precisou subir até alcançar os cabelos anelados. O vestido branco e prateado já revelava tudo que ela precisava saber. E até aí não sentiu mais que vergonha e a vontade de desaparecer por ter empurrado uma princesa ao chão, minutos extremamente curtos antes.

Mas até parece que pararia ali.

Ela fez uma longa reverência perante os tronos e a família real respondeu com um abaixar leve de cabeça. Brior posicionou-se elegantemente nas laterais, próxima do trono de Magnus que mudou de posição em seu trono, como se estivesse desconfortável com a situação.

Ela trincou o maxilar, alternando o olhar entre os dois. Havia algo ali...

Mas os pensamentos sumiram quando o rei Malvor ergueu-se de seu trono e anunciou a alto tom:

— É com grande prazer que anuncio perante todos vocês e diante de toda Eagenon que está finalmente selado o acordo que eu e meu reino sempre esperamos. Hoje finalmente começamos a construir a gloriosa ponta que ligará dois merecidos reinos desse mundo para uma união que sustentará todo um império.

Alguns sussurros baixos se iniciaram entre as pessoas sentadas. Mas a garota apenas levou os olhos verdes até o príncipe, que a olhou por dois segundos, como se concluísse o que ela pensava.

— E com uma presença real de Lupina aqui conosco, eu decreto oficialmente o casamento entre meu herdeiro, Magnus e a princesa Brior, que acontecerá em nossas terras. Uma salva de palmas para o nosso novo casal.

As palmas ecoaram pelo salão e Magnus pareceu acordar de um transe, erguendo-se e sorrindo confiantemente enquanto se direcionava até Brior. O príncipe abaixou-se para apanhar sua mão e depositar um beijo de leve em seus dedos. A princesa sorriu para os aplausos a medida que a ruiva se concentrava em não pensar no que acabara de acontecer.

Afinal, que tipo de pensamentos deviam ter passado pela cabeça da noiva do príncipe herdeiro quando Cedric Lancel encheu a boca para dizer que Veena era a sua amante preferida?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.