As pernas pareciam rasgar enquanto arrastavam pelo chão dos corredores. Os curativos ficavam gastos e parecia que a dor do dia em que o dragão a atacara voltava aos poucos, mexendo não apenas com seus traumas físicos, mas a volta de todas as lembranças, mesmo que a magnitude ainda não se comparasse. Sem contar as pontadas nas laterais de sua barriga quando a puxavam com mais força.

Mas nada daquilo se comparou à dor de quando adentraram um cômodo extremamente luxuoso e ostentoso, que era decorado em prata pura. Não teve tempo ou determinação o suficiente para observar demais, tentar arranjar alguma fuga, mas conseguia imaginar onde estava:

Os aposentos do rei. Ela quase vomitou.

Mas continuou mantendo-se inexpressiva, tentando concentrar-se para não exibir a intensidade da dor e medo que sentia... e que multiplicava.

De repente parecia que alguém batia com um martelo no fundo de sua cabeça, com a força de dez homens juntos. Parecia que seu crânio explodiria e ela desmaiaria em segundos. Mas conteve os gritos que podiam sair facilmente.

Concentrou-se. Não permitiria dar aquele gostinho a ninguém ali. Não demonstraria fraqueza e principalmente não abaixaria a cabeça diante do rei. Não importava, já que tudo indicava que morreria de qualquer maneira. Não o faria como um verme encolhido.

Execução. Talvez falecer naquela floresta fosse melhor.

Ela se concentrou mais uma vez, para acalmar o coração que parecia trabalhar por mil desde que aquele maldito príncipe adentrara seu quarto, desde que aqueles olhos de prata a encararam de cima a baixo. O que ele estava fazendo ali? Nos minutos em que ele passara em seus aposentos, seu cérebro tentava pensar em milhares de possibilidades de se livrar dele se tentasse qualquer coisa; se qualquer um dos rumores sobre as inúmeras amantes do príncipe fosse verdade.

Mas não. Ele se mostrara gentil — dentro do que era possível com as respostas defensivas da jovem — e ela quase pensara em talvez lhe contar a verdade. Passara por sua cabeça... que talvez ele não fosse como os outros governantes que ela conhecera. Que ele participava daquela mínima parcela que a ajudaria.

Mas então os guardas surgiram. E se ele tinha alguma coisa a ver com eles? Para alimentar sua ilusão, ela preferia não pensar naquilo.

De qualquer maneira, a possibilidade de um bom rei desapareceu quando os grilhões foram presos em seus pulsos, com violência e brutalidade que usavam com um assassino, e ela foi atirada aos corredores vazios que se dirigiam àquele quarto infernal. Ela encarou adiante, para o que todos os soldados encaravam metros próximos demais dela.

No chão manchado e respingado em sangue escuro, estavam mortos quatro homens. Alguns com as cabeças decepadas, outros com vestígios de golpes que lhes atravessaram os peitos e sinais tão ruins quanto. Os olhos abertos distintos que olhavam para o nada, bocas ressecadas e a cor pálida e arroxeada da própria morte. Ela permaneceu estática os encarando até que a visão alcançou as botas do rei... e seu olhar subiu.

Malvor não era nada diferente do que ela materializara em sua mente quando mais nova, nas épocas em que os conflitos entre Norte e Sul se tornavam mais fortes. Todos falavam em uma nova grande guerra e as mulheres mais velhas costumavam colocar medo nas crianças. Os cabelos acobreados, um pouco mais claros que os do filho, seguiam compridos até os ombros largos. Não era jovem e o rosto comprovava, junto das rugas em volta dos olhos azuis-acinzentados. Sobre a cabeça, havia uma coroa prateada, mas que Veena sabia que era simples demais para a coroa oficial de Fireeasy.

Bem, não deixava de gritar como ela era estupidamente insignificante.

O olhar frio a analisou como se ela fosse um pedaço de carne mal-passada em um enorme banquete, enquanto ele se acomodava em seu hobbie negro. Ela devia ser insignificante ao ponto de que ele não se incomodar em trocar de roupa.

Ela não desviou o olhar, sustentando os julgamentos que a acertavam como pedras. O martelar na cabeça se tornou mais intenso. Reuniu forças para manter-se ajoelhada, sentada nos calcanhares, enquanto os ombros se mantinham alinhados.

— Não está se esquecendo de nada? — ele disse e cada parte do corpo dela se arrepiou.

Mesmo sem baixar o olhar, curvou as costas para frente em uma reverência próxima de digna, próxima do que era possível, considerando que tudo doía.

— Aconselho que já comece a tentar se explicar. Não posso perder tempo com isso.

— Eu poderia saber o que fiz, primeiramente?

Uma dor lhe atingiu as costas quando um dos soldados lhe acertou com a parte achatada da lâmina de sua espada, comprimindo o seu corpo contra os joelhos e contra o chão.

— Deixe isso comigo — o rei proferiu ao tal soldado. — Se ela quer jogar esse joguinho, vamos jogar. O que preciso saber, bruxa, é para quem trabalha e como arranjou o sequestro da rainha.

Ela piscou para o rei, confusa, quando o guarda afastou a espada de seu corpo.

— Não sei do que está falando.

— Não me venha com essa. A senhorita planejou com esses homens como tirá-la do castelo. A comando de quem?

Ela estava prestes a responder a verdade: que não tinha nada a ver com aquilo, quando as portas se abriram com força e de maneira chamativa para que os guardas no recinto se virassem para ela.

— Ela não participou do sequestro — ela ouviu a voz do príncipe, autoritária, e não soube nem ao menos o que pensar diante de tantas perguntas. — Esteve comigo durante toda a noite. Não tinha como ordenar tudo aquilo.

— Ela estava com você para distraí-lo — o pai rebateu, apoiando sua taça de vinho com tranquilidade em uma bandeja. Ela nem sequer se virou para Magnus, que provavelmente se aproximava atrás dela.

Os passos pararam assim que um barulho de sacada de espadas foi ouvido. Provavelmente o impediram de se aproximar dela.

— Não! Ela não queria nem ao menos que eu ficasse com ela por muito tempo. Ela só não sabe que eu reparei o quanto queria me tirar do quarto.

— Então está confessando que além de ser um insolente e irresponsável que traz uma desconhecida para dentro do castelo, ainda foi até seu quarto no meio da noite, sem testemunhas?

— Acredite, pai. Se visse que tipo de mulher ela é, teria feito o mesmo que eu.

A frase fora bem clara. Veena rezou para não estar vermelha de vergonha quando sentiu o rosto esquentar. Ela sabia muito bem o que passava na mente de cada homem naquele quarto e se não estivesse em uma situação como aquela, Magnus já teria levado um belo soco por aquela mentira.

— Não quero saber nada que você faz entre quatro paredes — era oficial: com aquela fala do rei, ela abaixou a cabeça para que os cabelos avermelhados escorressem para cima do rosto e escondessem suas bochechas que deviam estar tão coradas que faziam as sardas sumirem. Sua cabeça abaixada proporcionou uma visão ampla dos homens mortos à sua frente. Os olhos correram por eles e ela se perguntou se já não os tinha visto... — E nada que disser vai defendê-la, Magnus. Eu o aconselho que vá para seus aposentos. Não estou a fim de grandes cerimônias para a morte dela e mesmo aqui e agora seria aceitável. Imagino que ficará abalado quando ela morrer, se está tão apegado assim.

— Você não pode simplesmente dizer que foi ela. Não tem provas. As ameaças contra a minha mãe vêm de quase um mês, desde que mandou essas merdas de soldados me vigiarem. E não foi escolha dela se infiltrar no castelo. Eu a trouxe e ela estava quase morta...

— Vossa Alteza. Se me permite ter o uso da palavra... — ela disse, tentando mais uma vez ignorar a dor na cabeça enquanto a erguia o suficiente para poder olhar para a altura dos olhos do rei. — Como pode ter tanta certeza que fui eu, Majestade? Mal posso andar, nem mesmo vi sua esposa ou sei como ela se parece.

— Não é o mais lógico a se pensar, senhorita? — a frase soou como um desafio. — O que faria no meu lugar? A pouparia?

— Eu analisaria melhor com o que estou lidando — ela falou, enquanto a mente terminava de juntar os fatos. Aquela dor que sentia na cabeça não era inédita... ela olhou por mais um segundo para os homens atirados ao chão. As marteladas aumentaram e ela fez esforço para não grunhir. — Eu não sou responsável pela tentativa de sequestro da sua rainha, Majestade, mas sei quem é.

— E como sabe? — ele foi sarcástico e desdenhoso ao cantarolar, mas ela não se sentiu intimidada ao inclinar-se para frente.

O homem mais próximo atirado ao chão — com múltiplos cortes na altura do estômago — teve os cabelos castanhos escuros afastados da nuca ensanguentada pelas mãos da ruiva, que pareceram queimar ao tocar sua pele. Ela tirou o excesso de sujeira e sangue para revelar o que já esperava: uma tatuagem. Negra, e que representava aponta de uma fecha, com seu cabo que se transformava em um círculo nem um pouco geométrico ao seu redor.

— Já vi esse símbolo antes — ela explicou e o corpo inteiro doeu quando ela se arrastou mais para frente para o pescoço solto do corpo de mais um assassino: a mesma tatuagem, o mesmo símbolo, igualmente malfeito. A mente pareceu fumegar. — E aposto que os outros dois também carregam.

Malvor fez um aceno com o queixo e os soldados se aproximaram dos corpos, analisando suas nucas. Se precisasse fugir, aquele era o momento. Mas confiava naquela hipótese, por mais que quisesse — pelo bem da própria Eagenon, não por ela — que fosse mentira.

Como ela previra: as marcas estavam em todos eles. Pelas drogas de deuses...

Malvor não teve alteração na expressão. Somente aparentava interessado, como se aquilo fizesse algum sentido. Ela esperava que sim.

— O que infernos é isso? — o rei pronunciou, a encarando e ela se sentiu tentada demais a desviar o olhar.

— Os homens contratados pelo rei Erodot a utilizam. Os que não são oficiais da Armada Dourada. Quem faz o trabalho sujo dele.

— E como sabe disso?

Ela hesitou quando um arrepio a percorreu.

— O comando de Gamoust está em todo lugar. E principalmente onde eu vivia. Inúmeros de seus homens passaram pela minha cidade, em Elesmant, durante a minha infância. Nós os reconhecíamos pelas tatuagens. E sabíamos que deveríamos ser cautelosos quando se tratava deles por perto.

— E por que eu deveria confiar em você?

Ela engoliu em seco. Era mais difícil quando precisava dizer em voz alta.

— Por que, acreditando ou não, se Erodot mandou homens com essa marca para lhe ameaçar, Vossa Majestade, não só você, mas toda a sua corte e seu reino correm perigo.