De todas as vezes que Veena vira a morte, aquela era certamente a vez que ela se mais se aproximara dela. Na verdade, a morte a tocou e ela sentiu o mundo dos mortos invadir o sangue e pigmentar cada órgão, participando até mesmo da respiração que, por mais que precisasse ser eficaz, era falha e perigosamente oscilante.

A cabeça doía como se alguém a chocasse contra a parede constantemente. A visão estava embaçada pelo sangue, lágrimas e esforço. As pernas bambas quase cediam e as mãos se preocupavam em não permitir que os intestinos saíssem por um corte profundo nas laterais do corpo que parecia rasgar a cada segundo mais.

E tudo só piorou quando ela caiu se joelhos, quando a dor forte, inabalável, a atingiu em cheio e ela gritou, sentindo as lágrimas escorrerem com mais velocidade pelo rosto.

A pele das pernas foi inundada por algo que ardia como o inferno. E, mesmo com a mente embaralhada e confusa demais para pensar em qualquer coisa, ela entendeu exatamente o que havia acontecido.

A maldita cauda do dragão. A cauda cheia de farpas, espinhos e provavelmente o veneno mais letal que alcançara aquele mundo. Os olhos da jovem tinham ido até aquela cauda antes do início do conflito que a levara até aquela situação, quando a respiração parou por medo e ela atirou a primeira flecha — a primeira das várias que já haviam acabado minutos depois. Foi quando soube que morreria, mas não deixou que aquilo a fizesse desistir ali.

E, pelo visto, era exatamente aquilo que a mataria.

Claro, estava indo tudo muito bem para ser verdade. Talvez não faltasse mais tantos quilômetros para chegar ao seu destino e depois dos dois meses caminhando para o Norte, mais um pouco não era nada. Ela quase podia sentir o cheiro da liberdade, mas então o dragão — talvez o ser mais raro de Eagenon, ironicamente — surgira e... havia sangue e mais sangue ao seu redor.

Quando acertou aquela última flecha e o dragão finalmente desabara — felizmente, a besta já parecia doente demais para sequer lançar chamas e fogo na ruiva — nem a mente pôde conciliar tudo. Na verdade, era impossível que uma garota como ela, principalmente naquele estado deplorável de fome intensa e mais magra do que jamais fora, conseguisse derrubar um dragão.

Era óbvio que era tudo uma grande piada. E não foi uma surpresa quando o mundo se virou contra ela mais uma vez.

Os antebraços impediram que seu rosto fosse com tudo no chão enlameado e ela viu as lágrimas molhando a terra sob si, a centímetros do próprio nariz. Não se atreveu a olhar para as pernas, que deviam ser pouco mais de apenas osso, carne destruída e muito, muito sangue. Era aquilo, era o fim.

Olhou para trás, tentando não descer os olhos para o ferimento nas panturrilhas. O dragão já respirava com dificuldade, jogado ao chão. Ele também já devia ter aceitado a própria morte e usara seu último esforço para um último golpe com a cauda, que não lhe garantiria a vida, mas ao menos uma vingança. Bem, ela também teria um último esforço.

E com toda a força que ainda lhe restava, ela virou o corpo a fim de que pudesse encarar o teto que as árvores densas formavam, o sol esvaindo pelas folhas e causando uma última sensação de acolhimento e bem-estar, enquanto tudo desabava e doía ao redor. E tudo bem, ela esforçou a si mesma a pensar ao utilizar a força que lhe restava contra o abdome destruído. Porque não havia alcançado Dawnberg e ainda estava distante de seu sonho e destino, mas ao menos se livrara de morrer no pior dos lugares: a casa do pai. Seu corpo jazido não seria dado aos cães. E mesmo que qualquer outro animal aproveitasse de sua carne ali, ela não se importaria.

Pois estava longe do Sul e pela primeira vez entendera que aquela sensação boa e pura de quando soube que atravessara a fronteira era a prova de que poderia morrer feliz naquele território, não importava qual fosse seu fim.

O Norte pareceu abrir os braços e aninhá-la enquanto seu sangue continuava a ensopar a grama e a terra. E tudo bem. Se sentia grata. Mesmo por sua vida miserável, ela poderia ter o mínimo de paz naquele instante. Poderia morrer ali. Era tão, tão, tão melhor que nada. E o suficiente.

E segundos antes de perder a consciência, pouco antes de centralizar sua última imagem para que fosse aquele conjunto de árvores e mata refrescante, uma onda de energia prateada e cinza a invadiu. E tudo escureceu.

¤

O despertar de Veena foi tão veloz o quanto o corpo podia ser naquele estado. Que estado? De morte invicta e total. A explicação era que estivera morta no tempo que passara desacordada. E quanto tempo? Ela não fazia ideia. Segundos, anos?

Até mesmo os olhos doeram ao fazer um esforço para olhar ao redor. A primeira pontada na cabeça veio e ela direcionou o olhar para baixo. Por todos os deuses. Havia ataduras e faixas cobrindo toda a extensão dos pés aos tornozelos e sua barriga... Miseravelmente magra e encolhida como ela já havia se acostumado nos últimos meses, mas... as ataduras ali, apesar de parecerem novas, já estavam manchando com o sangue.

Ataduras... Não estava morta, então. O coração, mesmo que lento e cambaleante, acelerou com o susto e o esforço para tentar sentar-se na cama a fez morder o lábio para segurar o grito.

Dor, dor, dor. Os órgãos pareceram pegar fogo e a dor a se alastrar por todo o abdome enfaixado. A visão ficou confusa ao deitar-se novamente e se concentrar em não gemer de dor e ficar quieta.

Onde infernos estava? Não fazia sentido que alguém houvesse se preocupado em retirá-la da floresta, principalmente se a tal pessoa fosse dona de um lugar como aquele. Um arrepio lhe percorreu quando observou ao redor, fazendo o esforço possível com a dor nos olhos: paredes ornamentadas e móveis escuros e belos. Do outro lado do cômodo, estavam quatro grandes janelas de cortinas fechadas, mas que deixava um pouco da luz entrar e por onde se podia ouvir um pouco de vida do lado de fora. Os lençóis... esperava não ter sujado nenhum deles com sangue, porque deviam ser bem mais caros que qualquer coisa que ela tivesse para pagar.

Alguém havia tratado seus ferimentos, curado sua pele e carne e a revestido novamente. E se pedissem algo em troca... Ela não saberia o que fazer. Não tinha sequer uma moeda de bronze e não aguentaria ser escravizada mais uma vez.

Não, não. Mais uma vez, não.

E então, a maçaneta da porta do cômodo girou. E talvez ela tivesse pensado em fechar os olhos e fingir estar dormindo. Talvez fosse o mais inteligente a fazer, mas no momento apenas olhou para a mulher que entrava no quarto.

A luz do lado de fora entrou junto com senhora que a encarou duvidosa, enquanto segurava uma bandeja prateada. Ela apoiou a bandeja em uma mesinha ao lado da enorme cama onde a ruiva estava imóvel.

— Bom dia — a mulher disse, ajeitando os cabelos longos, espessos e escuros atrás do lenço que os segurava para trás. Então caminhou rebolando seu quadril largo e puxando as mangas do vestido cinza até os cotovelos pálidos. Chegou até as cortinas e as puxou com força. — Mandei que não a deixassem em um lugar fechado, mas parece que já contavam demais com a sua morte.

A luz atingiu seus olhos rápido demais e ela os cravou forte para aliviar o choque da iluminação repentina. E ao abri-los, a mulher estava ao seu lado, colocando a mão em sua têmpora.

— Nós vínhamos vê-la e, ora você estava morrendo de frio em uma febre descontrolada, ora suava como se fosse desidratar. Não pensei que fosse durar uma única noite — ela subiu os cobertores aos seus pés até sua cintura, como se quisesse livrar a jovem de ver aqueles ferimentos grotescos. — É muita sorte que ainda esteja viva.

Sorte? Ela ainda não sabia dizer.

— Não faça esforço para falar. Ainda está bamba na fronteira entre os dois mundos.

A mulher a ajudou a organizar as muitas almofadas atrás de si para que ela se apoiasse nelas, mas todo o movimento doeu de modo que Veena lutou para não gritar e cerrou os punhos, quase fazendo as palmas das mãos sangrarem por conta das unhas. Mordeu o lábio inferior com força o suficiente para senti-los ficarem brancos.

E ela só conseguiu respirar sem sentir dor novamente quando finalmente se ajeitou ali e a senhora encheu um copo com a jarra de água, ajudando-a beber. E a bebida escorreu pela garganta de Veena como se fosse o paraíso em forma líquida. A mulher teve que encher o copo mais duas vezes até que ela estivesse satisfeita.

— Muito bem. Você só se mostrou viva nesses três dias para vomitar. Acho melhor comer um pouco também.

E então encheu a primeira colher com uma sopa quase inteiramente líquida que se encontrava na tigela também em cima da bandeja.

— Pode me chamar de Jephinia — ela falou ao erguer a colher à boca da ruiva. A comida era boa, mas desceu desconfortável pela garganta e se acomodou estranhamente no estômago, como se nunca houvesse comido nada na vida. Mas assim mesmo, foi a primeira vez que se sentia viva novamente.

— Onde estou? — a voz saiu rouca, baixa e falha, mas surpreendeu até a si mesma. Jephinia a olhou com os pequenos e negros olhos.

— Poupe a voz, garota. Estamos em Geada Perpétua, capital de Fireeasy. Mas acho que isso você já sabe.

— Na verdade, não — o segundo olhar da mulher foi quase como uma ameaça e ela enfiou mais uma colherada de sopa na boca dela. — Como... vim parar aqui?

— Temo que eu não possa te dar muitas informações e a senhorita não possa mais fazer tanto esforço assim. Eu não a culpo por estar confusa; você já chegou aqui meio-morta. Mas do jeito que estava você não devia ter recuperado. Sabe como seu corpo se encontrava?

A lembrança a sacudiu e a arrepiou. Claro que se lembrava, mesmo que estivesse em uma luta intensa com a própria mente para que esquecesse. Podia sentir... o desespero, a agonia e a sensação de não ter o corpo preenchido, porque seus órgãos haviam vazado para as suas mãos. E as pernas... ainda duvidava se poderia se manter de pé algum dia — e aquele medo a dominava nos momentos em que a mente não conseguia concentrar-se o suficiente para não pensar.

— Poucos soldados já chegaram aqui piores que você. Uma das minhas curandeiras até mesmo vomitou. Abaixo do joelho só havia osso e restos do veneno que, pelos deuses, nem quero saber como foi parar aí. Suas vísceras estavam entre seus dedos e eu não sabia dizer se o seu cabelo era vermelho assim ou se era só sangue. Eu não sei por onde você passou, garota, e, que os deuses me levem, nem quero saber. Mas o inferno deve ser bem parecido.

Ela teve vontade de lhe explicar que não. O inferno não era somente aquilo. E ela já o visitara, uma vez, anos antes. Sabia bem como ele matava e como destruía; muito pior que meros danos físicos.

Veena engoliu mais algumas colheradas de sopa que, mesmo que descessem de forma desconfortável e estranha, nunca pareciam demais. Foi quando Jephinia apoiou a tigela na bandeja mais uma vez.

— Está bem por enquanto. Do jeito que está magra, se comer muito agora vai colocar tudo para fora dentro de alguns minutos. E não sei se sobrou qualquer coisa daquele líquido mortal em você para qualquer efeito colateral.

Ela realmente sentia como se o organismo protestasse, mesmo que a vontade dela era devorar toda aquela tigela e muito, muito mais. Porém, além de todos os dias que havia passado desacordada, não comera nada tão bom e nem em tanta fartura como aquela sopa em mais de dois meses — na verdade, a alimentação não era completa fazia anos — e o corpo parecia desacostumado com qualquer tipo de alimento a mais que não fosse o que a mantinha de pé.

— Você me disse que eu seria interrogada — ela comentou, para tentar arrancar pelo menos um pouco do que estava por vir, ou pelo menos de onde estava.

— É importante saber quem perambula pelas terras de Fireeasy. É apenas uma burocracia padrão, cumprir protocolo. Não precisa se preocupar. Garanto que estará livre para ir assim que estiver melhor. Até porque... não teriam feito questão que a curássemos se fossem mandá-la para decapitação.

A jovem assentiu, tentando manter-se calma. Então havia a palavra "decapitação" no meio. Que ótimo.

— Não se preocupe com isso, garota. Se eu bem conheço quem te resgatou, e se ele não se mostrar o arrogante que é, você poderá seguir seu caminho em pouco tempo.

— Quem... — mas a frase não continuou. Não porque as forças acabaram por conta de sua fraqueza, mas porque a porta se abriu em um impulso que pegou até mesmo a mulher de surpresa, que se levantou com um só movimento.

Um homem de vestes educadas e que esbanjavam poder adentrou o quarto e, mesmo parecendo surpreso por encontrá-la acordada, não se intimidou ou se envergonhou. Apenas a encarou antes de dar mais um passo para dentro do lugar.

A jovem procurou rapidamente por armas em potencial que poderiam estar espalhadas por seu corpo, qualquer tipo de ameaça ou pior. Ele se aproximava rápido demais da beira da cama, tanto que aquilo a angustiou, acelerando o coração fraco.

Mas o que fez seus músculos tencionarem e fez com que a pulsação soasse em seus ouvidos foram os olhos. Que, apesar de não serem especiais e só se destacavam por serem de um cinza escuro e profundo como prata derretida, pareceram familiares e ao mesmo tempo desconexos de tudo o que ela conhecia. As mãos ficaram trêmulas por um segundo e ela não entendia o porquê.

Mas então quando ele se apoiou à cabeceira da cama e ela o observou mais nitidamente... a pele que não era morena, mas parecia bronzeada demais se vivia em Fireeasy. O cabelo acobreado, meio castanho, e curto... mas então percebeu o que estava estampado no uniforme e seus olhos passaram a não ser mais seu maior problema.

Dois soldados entraram, uniformizados e com ao menos duas espadas visíveis consigo e mantiveram-se próximos da porta. O coração parecia querer sair de seu peito de tão assustado.

— Fico feliz por ter finalmente acordado, milady. Meu nome é Magnus, e eu vim para fazer algumas perguntas. Espero que ouça com atenção.