Notas iniciais
Aproveitem!

Magnus... o nome fixou em sua mente quando ele a encarou de cima a baixo. Qualquer um em Eagenon reconheceria aquele nome. E ela teve o enorme desprazer de ouvi-lo ecoando em sua mente, enquanto ele continuava a analisando como se a garota fosse uma peça rara de colecionador; como se ele nunca tivesse visto uma mulher, mas ela teve a impressão de que, na verdade, conhecia mulheres bem até demais.

— Agora consigo distinguir seu rosto da lama e do sangue — ela tentou não demonstrar como a respiração havia parado, mas não pôde deixar e estremecer pelo que ele disse em seguida: — Nem mesmo eu pensei que você fosse sobreviver quando a encontrei no meio do sangue.

Então ele a encontrara. E certamente vira o dragão. O príncipe de Fireeasy a resgatara da morte. Um príncipe. E não apenas isso. Ele era o herdeiro do trono do reino mais temido e avassalador do continente.

Ele poderia matá-la naquele exato instante. Poderia lhe decapitar com uma bela cerimônia de provocação, ou pior. Poderia torturá-la e enviar seus restos mortais ao rei Erodot, de Gamoust. Ela sabia que os dois reinos com a maior rivalidade da história de Eagenon levavam as competições e rixas entre si muitíssimo à sério e uma filha do Sul poderia ser um grande prêmio para eles.

E seria um enorme prazer ao seu pai, se ainda estivesse vivo por aí.

Ela engoliu em seco. Precisava sair dali rápido. Tinha que contornar aquela situação e dar o fora. Estaria mesmo no castelo? Por todos os deuses, esperava que não. O quão difícil seria fugir dali se tudo desse ainda mais errado?

Os olhos arderam ao os erguer para o príncipe e dessa vez ela se perguntou se era porque queria chorar.

— Jephinia, está dispensada. Deixe-me conversar com a senhorita.

A mulher retirou a bandeja de cima da mesinha e saiu, meio a contragosto, como se ela e o príncipe tivessem intimidade o suficiente para que ela exibisse sua insatisfação ao vê-lo mandar sobre ela.

E Veena assistiu imóvel a mulher fechar a porta do cômodo, tirando a última gota de conforto que antes havia ali.

— Qual é o seu nome? — Magnus perguntou.

— Veena.

— Só?

Ela sentiu a ironia nas suas palavras.

— Meu sobrenome não importa, você não o reconheceria de qualquer parte, Vossa Alteza.

Era melhor deixar bem claro que, mesmo com a tentativa do nobre de omitir o título — por qualquer que fosse o motivo —, ela sabia bem com quem falava. Os olhos cinzas brilharam naquela luz que parecia que ele não parava nunca de captar qualquer segredo que ela possuía. Como se uma camada de sua pele fosse retirada e ele era capaz de enxergar até mesmo a alma dela.

— E de onde você é?

— Elesmant — a mentira saiu rápida e certeira, quase totalmente ensaiada. A garganta já estava seca e arranhava a cada palavra, o peito parecia ter mais dificuldade em subir e descer.

— Do sul de Elesmant, suponho. Seu sotaque...

Maldito sotaque que ela não sabia controlar.

— Sou do sudeste de Elesmant. À leste do Rio Sul — ela o cortou, sem pensar nas consequências.

O príncipe assentiu.

— E o que faz no norte de Fireeasy? Como veio parar aqui?

E mesmo que pudesse inventar qualquer mentira, o coração ardeu ao contar:

— Fugi de casa — e a verdade acabava aí. — Estava atrás da minha tia, que mora aqui na capital.

— Quem é sua tia?

— Ela faleceu — mal conseguia pensar antes de responder, mentira após a outra. — Faleceu há quatro meses e ninguém sabia. Era uma mendiga de rua. Descobri isso essa semana apenas. E não sabia para onde ir. Ela era muito importante para mim...

Ela percebeu que sua atuação de luto e perda funcionou quando o príncipe, ao invés de começar uma onda de questionamentos, virou-se para os guardas próximos da porta.

— Berguehill, está dispensado. Lancel, quero que fique.

O soldado negro permaneceu ali enquanto o outro saía do cômodo. E quando a porta fechou com um ruído seco, Magnus voltou a falar:

— Como derrotou o dragão?

Ela piscou. Claro. Era tudo uma questão de tempo até que a pergunta viesse. E parte dela ainda havia criado esperanças de que ele não havia notado a grande besta morta a metros dela, ou que pensasse que não tinham nenhuma ligação.

— Não derrotei nenhum dragão.

— Não venha com essa. Seu corpo ainda estava quente quando a encontramos. Você matou aquele dragão castanho da Floresta de Fireeasy.

Tudo bem, ela diria. E sem tentar arranjar qualquer desculpa — por deuses, aquela ideia era tentadora demais. Mas pela primeira vez não seria uma covarde, pelo menos não na frente de seu próprio inimigo mortal. Então Veena conteve o medo que borbulhava em seu sangue e sustentou o olhar do príncipe.

— Foi um golpe de sorte.

— Isso não é resposta.

— Se não fosse eu não teria pisado com ambos os pés no mundo dos mortos há alguns dias. A única noção que eu tinha dos meus atos é que eu precisava deles para sobreviver. E só. Não tenho nenhuma técnica...

— Pode muito bem ser uma bruxa — ele respondeu com velocidade quando ela notou que seus olhos passaram por seu cabelo.

— Garanto que já estaria morto se eu fosse uma.

Ele a olhou de cima a baixo novamente, mas dessa vez ela sentiu o reflexo daquela frase que saíra por puro impulso e que definitivamente teria sido melhor se ficasse enterrada somente no fundo dos seus próprios pensamentos. Bem, teria sido melhor se ele não tivesse feito aquela insinuação também.

— Mas alguém como você não derrubaria uma fera como aquela.

— Acho que sua arrogância o faz subestimar demais algumas coisas que não deveria. Ou pessoas.

Veena quis socar com força o próprio maxilar. E talvez houvesse feito naquele exato instante se tivesse forças para erguer o braço. Inconsequente e teimosa. Até mesmo o guarda arregalou um pouco os olhos para ela e as mãos foram levadas sutilmente até a espada.

Mas o meio-sorrisinho de Magnus apenas alargou um pouco, fazendo uma das bochechas se erguerem por meio segundo, antes de tirar os braços da cabeceira da cama. Só então Veena notou o quanto ele havia se apoiado e como estiveram próximos um do outro: a cada frase que proferiam mais próxima, mesmo que ela mal pudesse mexer as costas sem berrar de dor.

— Acho melhor se atentar mais às suas palavras. Uma boca respondona assim não costuma sobreviver muito tempo no castelo de meu pai.

Isso. Certo. Castelo. Já sabia exatamente onde estava. E depois do alívio, percebeu que aquilo era muitíssimo ruim.

E só então analisou suas palavras e...

— Quero ir embora. O quanto antes. Hoje mesmo.

Sua expressão demonstrou uma quase gargalhada em desdém.

— Não vai sobreviver no seu estado. Você perdeu muito sangue com toda aquela batalha e as suas séries de vômitos sem fim. E não quero ter gastado tempo das minhas curandeiras só para te encontrar morta em algum beco amanhã cedo.

— E o que você acha mais sensato? Morrer lá fora ou aqui dentro pelas mãos de Vossa Majestade?

Ela não tentou esconder o real medo que passava pela cabeça e coração, quando durante toda aquela discussão ela só conseguia imaginar todas as maneiras que o rei de Fireeasy tinha de matá-la. Estuprá-la, desmembrá-la, torturá-la... ainda não conseguira decidir qual era a pior. Mas se aquele homem soubesse de sua origem, se soubesse que ela passara pelos guardas na fronteira ao sul do reino e chegara ali com facilidade absurda — que surpreendia até mesmo ela — a ameaça poderia fazer com que ele fosse capaz de qualquer coisa. Mesmo que somente para demonstrar um pouco de seu poder sobre toda aquela imensidão de continente. Uma vida como a dela não valia nada.

— Se esse é o seu medo, posso lhe garantir que meu pai não vai te machucar.

— Vossa Alteza me promete? — ela perguntou, irônica, mas não imaginava que o príncipe fosse se aproximar, apenas um pouco menos da maneira que estivera antes, e dizer:

— Eu lhe prometo, milady. E faço questão que fique. Eu nunca permitiria que uma jovem como você se arriscasse dessa maneira.

Nem pense nisso, a parte ainda sensata dela gritou.

Mas era fato. Já sentia o estômago doer e a visão embaçar em vários momentos. Nem sequer sabia se voltaria a andar com aquelas pernas destruídas. Ela poderia sair de perto dos muros do castelo e dar alguns poucos passos até que estivesse distante o suficiente, para se recompor ali por si mesma. Mas logo sentiria fome, ficaria sem comida e provavelmente definharia até a morte.

Mas dentro do castelo de Fireeasy... por deuses. Se alguém descobrisse, ela certamente seria considerada traidora da coroa. Como ela já dissera a si mesma, eles levavam aquela rixa, que era tão antiga quanto o próprio continente, muito à sério e as punições para aquilo nunca eram agradáveis.

Ela não respondeu e esperou até que ele entendesse o recado e se afastasse. A angústia não a deixou tomar qualquer decisão que fosse. A mente embaralhava os pensamentos sem que ela soubesse o que fazer.

— Que bom que concordamos — ele endireitou o corpo e ajeitou o colarinho da camisa requintada, própria de um príncipe. — Direi aos curandeiros para que lhe visitem de hora em hora e que as refeições sejam entregues. Se precisar de qualquer coisa, fique à vontade para me contatar. E peço sigilo quanto ao dragão. Meus guardas entrariam em desespero se soubessem que estão competindo com alguém com tamanha habilidade.

Veena permaneceu calada a medida que Magnus virou o olhar para o soldado calado como um fantasma no canto do quarto. Então fez um aceno com a cabeça e o homem pareceu entender, colocando-se a postos.

— Foi um prazer — foram suas últimas palavras antes de dar as coisas e sair junto do guarda, fechando a porta em seguida.