Cores
5 Crime
Notas iniciais
Bernardo pegou o carro e foi com Lucas até a delegacia. Estava bastante enfurecido, e encarou Emerson agressivamente:
– O que você aprontou dessa vez, Emerson?
– Nada... Eu não fiz nada! Esses cretinos me pegaram sem motivo!
– Olhe lá! – interrompeu o policial – Posso lhe prender por desacato a autoridade! “Cretinos”?
Bernardo notou que Emerson estava bêbado, e quase lhe disparou um murro. Mas a educação falou mais alto. O policial disse que Emerson iria sair de um bar sem pagar a conta.
Emerson falava palavras isoladas, tentando se explicar, o que só piorava a sua situação. Bernardo decidiu que o amigo merecia ser preso, e não ser solto:
– Bernardo?! Como ousa fazer isso comigo? Me tira daqui agora mesmo!
– Nem adianta implorar. Há cinco anos eu aguento os seus chiliques, as suas confusões. Eu não sou o seu anjo da guarda! Está me ouvindo? Apodrece na sela e pelo menos aprende alguma coisa!
Bernardo saiu andando, e Emerson não parava de gritar. Ele empurrou o jovem pintor no chão, mas foi cercado pelos seguranças. Bernardo riu e disparou sutilmente o dedo do meio para o amigo:
– Você vai se arrepender, seu filho da mãe! Desgraçado!
– Dane-se o que pensa Emerson. Pode berrar o quanto quiser a minha resposta é NÃO! Não irei tirar você daqui. Cresce! Você tem 31 anos, não quer arrumar emprego, nem diploma tem e adora queimar o meu filme. Chega! Sai pra lá, carma.
***
William, deitado na cama do hospital, se lembrou do dia em que se casou com Solange. Seus lábios franzidos encostavam um no outro vagamente. Desfocou do filme que estava assistindo por um momento e pegou o lencinho da esposa que sempre guardava no bolso. Deu fortes cheiradas:
– Ai, minha marrom bombom. Você era tão diferente! Eu sei que sou um bêbado de merda, mas em consideração às nossas bodas de prata, poderia ter um pouco mais de paciência comigo:
Solange se aproximou da Igreja, e viu que William ainda não tinha chegado e se desesperou:
– Mãe, e agora?! Ele não chegou! Ai, eu mato aquele cara!
– Calma Solange. Vamos esperar.
Pouco depois, William apareceu, porém bêbado, e o casamento teve que ser remarcado.
– Pensando bem, eu nunca facilitei para a Solange.
***
No dia seguinte. Bernardo saiu com Lucas, para o Juizado de Menores, recorrer à guarda do menino. Nesse meio caminho, Dalila passeava sozinha pela praia, com sua bengala:
– Ei, você não é aquela moça que encontrei há uns dias na praia? Que me perguntou sobre o azul?
– Acho que sim. Caso não lembre, sou Dalila.
– Claro que eu lembro! Se lembra do meu nome, não é?
– Sim, se chama Bernardo.
– Sabe, não acha meio perigoso andar sozinha? Tipo, você sabe onde eu quero chegar!
– Sei sim. Felizmente já conheço Copacabana como ninguém. Sinto um cheiro diferente. Está com alguém?
– Sim, esse é o meu filho, Lucas.
– Tão jovem e já tem filho?
– Adotivo. Estou indo pedir sua guarda na Justiça.
Bernardo e Dalila conversaram por bastante tempo. Ambos estavam começando a se apaixonar um pelo outro. A cada palavra, cada suspiro. A jovem podia até não conseguir vê-lo, mas o sentia.
Bernardo deu dinheiro a Lucas, que foi comprar água de coco em um quiosque, enquanto os jovens se sentaram:
– Você tem namorado?
– Não, Bernardo! – disse ela, envergonhada – Acha que alguém olharia para mim?
– Por que não? Mesmo não enxergando deveria saber que é a garota mais linda que eu já vi. Os seus cabelos da cor do sol, o seus olhos iguais a duas piscinas olímpicas, suas bochechas levemente coradas e alguns fios castanhos claros na frente do rosto. Dalila, você é incrivelmente magnífica.
Dalila permaneceu calada, porque não poderia dizer se Bernardo era bonito. Mas decidiu tocá-lo. Passou a mão em seu rosto, nos olhos, no nariz, esfregou as mãos em sua barba meio raspada, nos seus cabelos castanhos completamente cheios na parte de cima. Depois pôs o dedo indicador em sua boca, e teve vontade de beijá-lo:
– Boca carnuda.
– Sério? – ele riu – Nunca me disseram isso, mas obrigado.
Dalila foi se aproximando, mesmo não enxergando, poderia sentir que estava se aproximando dos lábios de Bernardo, até que ele hesitou:
– Não acho que seja o momento, Dalila. Confesso que estou com vontade de te beijar, mas nos conhecemos muito pouco e posso dizer que somente agora somos amigos. É a segunda vez que nos vemos.
Dalila o ouviu, mas tascou um selinho. Um simples beijinho de dois segundos para não dizer que nada aconteceu. Bernardo se mostrou surpreso, e ficou calado.
***
Isadora acordou. Beijou Timóteo e tomou um banho:
– Tim, seus pais ainda estão dormindo? Às dez e meia da manhã?
– Meus pais não tem uma rotina regrada, e além do mais, é sábado. Vamos tomar café na padaria.
– Ok, eu vou pôr o biquíni, caso a gente passe na praia depois do café.
Timóteo olhava Isadora diferentemente da visão que ela passava para os outros jovens. Ele não a enxergava como uma tiazinha quarentona cheia de pelanca debaixo do braço. A via como mulher. Achava que ela tinha tudo o que Yolanda não tinha para oferecer para ele. Caráter, amor, afeição, carinho e fidelidade.
Os dois desceram o elevador e saíram. Foram para a padaria, sentaram no balcão e fizeram os pedidos:
– Dois queijos-quentes, um refresco de maracujá e dois canudos, por favor.
Uma figura misteriosa se aproximava. Era o homem com quem Yolanda falou, e pediu o tal serviço sujo para Isadora.
A figura os observou. Estava coberta por véus pretos, então provavelmente era uma mulher. Vestida com uma túnica negra, a ponto de ser quase azul. Foi então que se ouviu um disparo.
Isadora caiu no chão. Não estava morta, apenas ferida. O tiro foi na barriga. Timóteo se desesperou e chamou a ambulância, que chegou imediatamente.
Timóteo foi com Isadora para o hospital e se certificou que tudo estava bem. Depois, saiu e foi procurar Yolanda.
***
Yolanda estava ouvindo música e tomando vinho em seu apartamento. Recebeu uma mensagem em seu celular, escrita “Número Desconhecido”:
“Serviço feito. E agora, a grana?”.
“Se certificou se ela morreu?”. – respondeu Yolanda por SMS
“Não dá pra saber...”.
– Merda. Será que essa vaca não faz nada direito?! É tão difícil matar uma coroa flácida?! Um tiro! Um maldito tiro!
A campainha tocou. Quando Yolanda foi abrir, se surpreendeu por um soco de Timóteo. Limpou o sangue perto da boca, e continuou surpresa:
– Só digo uma coisa, sua magricela! Eu vim aqui para lhe informar do que aconteceu com a sua tia, mas eu ouvi o que acabou de dizer. Você planejou tudo! E vai pagar pelo que fez!
– Pagar? Nesse maldito país?! Nem que a vaca tussa. A Dilma me ama e não me põe naquelas jaulas nem a pau.
– Você ainda brinca? Sua tia quase morreu!!! Exatamente, seu plano de mata-la falhou! A Isadora está viva!!!
– Por enquanto...
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