Cordas de amor
1 Um encontro do destino
— Tom, essa semana será a sua última sessão do mês, depois vamos aguardar a reação do seu corpo. – Explicou o Doutor Rolland, meu oncologista.
— Essa semana ele está mais quieto do que o normal, Lews. Estou preocupada.
— Mãe, não precisa falar de mim como se eu não tivesse aqui.
— Gina, digamos que esse comportamento é normal. – o Doutor ergueu os dedos, fazendo aspas.
— Mesmo assim. As últimas semanas foram mais tranquilas. – Continuou ela.
— Que inferno. Já mandei parar com isso. – Berrei.
— Tomas, não fale assim comigo.
— É tão bom não é? Pedir para fazer algo que seria normal, mas não. Quanto mais eu peço para não me tratar como um moribundo, mais você faz. – saí da sala batendo a porta. – Estou no carro.
— Desculpas, Lews.
— Não se preocupe, Gina. Daqui a pouco passa.
Cheguei à rua meio ofegante. Minha cabeça está girando um pouco e me senti tonto o bastante para me fazer sentar num banco próximo. Era tarde de outono, a pequena praça estava coberta de folhas e sol era quase frio, se isso é possível. Ajeitei a touca na cabeça e fiquei de olhos fechados, respirando pausadamente. Até que minha mãe me alcançou.
— Por que fez aquela cena, Tomas?
— Mãe, de novo não. Por favor.
— Tom, você precisa entender.
— Para, mãe. – Falei pausadamente. Ainda de olhos fechados.
— Parar com o quê? De me preocupar? De cuidar de você?
— De me tratar como uma criança indefesa, prestes a tropeçar no próprio cadarço e cair no chão.
— Você não entende.
— Você não respeita meu espaço.
— Okay, é espaço que você quer? Pois vai ter.
— Mãe...
— Não, Tomas. Vou fazer o que você quer.
— Não começa com o teatro.
— Para começar, vá para casa andando. Vou sozinha de carro. São apenas 2 quarteirões daqui.
— O quê?
— Isso mesmo. Não quer espaço? Pois tenha-o.
— Você não está fazendo isso. Deve ser brincadeira.
— Fique com o celular na mão. Caso caia pelo caminho, tente ligar para a emergência.
Minha mãe levantou do banco e saiu andando em direção ao carro. Seus passos eram firme e seguros, mas suas mão vacilaram quando ela chegou ao carro e tirou as chaves do bolso. Pude ver o brilho do sol refletido nas lágrimas que escorriam de seu rosto. Mas ela não titubeou. Abriu a porta e antes de entrar gritou para mim:
— Apesar de tudo, eu te amo.
E assim ela entrou no carro, me deixando ali, sozinho.
— Okay, então é isso. Normalmente faria uns 6 minutos até em casa andando. Mas nas minhas condições atuais, devo levar 6 anos.
Coloquei meu fone no ouvido direito e fui andando devagar. Desde que descobrira o tumor, o máximo que fazia sozinho era tomar banho, de porta aberta. Minha mãe estava neurótica, tinha medo até do meu espirro. Dizia para eu ser cauteloso ao espirrar. A tarde começava a cair e sol ficava cada vez mais fraco e o chão foi tomando um tom marrom, quase dourado. Há muito tempo eu não admirava a natureza. Nos últimos meses eu apenas reclamei.
— Está frio, vou colocar meu casaco. Só me falta agora ficar resfriado na última sessão de quimio desse mês.
Abri e mochila e percebi que o casaco não estava lá.
— Ah que bom. O casado ficou no carro. Parabéns Tomas. Você é um gênio. Agora é encarar o ventinho frio e torcer para que a pneumonia não seja tão ruim assim.
Antes de fechar a mochila, no passo seguinte, me desequilibrei. Pensei que fosse entrar na terra, de tão forte que foi o impacto que cai n chão. Mochila aberta de um lado, celular para outro. Mais um pouco e eu mesmo viro um quebra cabeças. Me certifiquei de não haver sangue no ouvido esquerdo antes de levantar. Confesso que me senti aliviado ao ver a mão seca. Meu corpo doía, mas percebi que não havia me machucado de fato.
— Espero que as câmeras de seguranças estejam desligadas e que minha queda não apareça no jornal das 7.
Fechei a mochila e fui para casa. Devo ter chegado igual uma múmia recém ressuscitada, porque a cara do meu irmão foi impagável. Depois descobri que minha touca parecia um chapéu de folhas. Depois do banho e da janta, fui para meu quarto ler um pouco. Mas ao abrir a mochila, percebo que algo está faltando.
— Que legal, perdi meu diário.
Perguntei minha mãe se estava no carro e nada. Liguei para o médico e nada. Fiz Taisson voltar à praça onde estive para procurar, e não estava lá.
— Deve ter caído da mochila quando eu fui ao chão. Como as folhas estavam cobrindo o chão, não o vi. Melhor eu dormir antes que perca mais alguma coisa ou tente me enterrar vivo no chão outra vez.
"Segunda feira, mais um dia de batalha. Até quando vou aguentar isso? Até quando meu corpo vai suportar? Não aguento mais esses malditos efeitos colaterais. Hoje normalmente seria um dia feliz. Depois da escola iria treinar no estádio da cidade com o time da categoria de base e à noite assistiria um filme com a galera, pois segunda é dia de pagar meia entrada no cinema. Mas não, agora tudo é diferente. Minha rotina não é mais a mesma. Logo pela manhã eu vou fazer a primeira sessão da semana de quimioterapia. Quando meu corpo reage bem e os efeitos colaterais não são muito agressivos eu vou à escola no período da tarde. Assim vivo eu, dia após dia, literalmente. Não posso fazer planos, não faço ideia de mais nada. Apenas sei que a qualquer momento a bomba relógio que virei vai fazer boom e explodir. É inacreditável como uma simples dor de dente pôde mudar minha vida. Lembro que senti muita dor naquele dia, mas como meu siso estava por nascer, imaginei que ele estava dando sinais de vida. Mas a dor persistiu e meu corpo estava estranho. Me sentia pesado, sem fome, dor de cabeça frequente. Passei a semana inteira com esses sintomas até que meu ouvido esquerdo amanheceu sangrando numa manhã de sábado, o que me levou até o hospital da cidade, desacordado. Após alguns exames, o diagnóstico, havia um tumor do tamanho de um limão siciliano no corte esquerdo do meu cérebro. Foram os dias mais pesarosos da minha vida. Passadas as primeiras semanas, com a medicação fazendo efeito, então voltei para casa depois de um tempo no hospital. Agora estou aqui, vivo. Não sei até quando nem como, mas agora estou vivo. Talvez dure mais uma semana, um mês quem sabe, com sorte, vivo mais um ano ou mesmo, posso desabar no próximo segundo. Bom, passou um segundo e estou aqui. Uma das opções já posso eliminar. E é isso, estou doente, lutando por mais uma chance na vida. Esse ano lá na escolinha de futebol eu não faço mais os testes, mas com certeza no próximo ano estarei pronto para passar e serei aceito num grande time da capital. Sou forte, sempre fui. – T."
— Então essa é sua história. Mas quem será T? Preciso ligar para Mikaela e falar sobre esse diário que achei hoje na rua quando voltava da escola.
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