Corações Represados
5 Capítulo 5
Notas iniciais
A batida no vidro do carro interrompeu um momento perfeito. De tão perfeito e certo do que aconteceria William sentia seus lábios formigarem. Com um grande suspiro virou-se para ver quem batia no vidro. Abriu a janela e o garoto ofereceu rosas que estava vendendo.
— Quer comprar uma rosa para a sua namorada?
— Quanto custa?
— Cindo reais cada uma.
— Quero quatro. Escolha as mais bonitas.
O menino correu até o balde onde as rosas estavam e realmente escolheu as mais bonitas. Entregou-as e recebeu o pagamento. Sorriu um sorriso largo e voltou para o seu balde para contar quantas rosas ainda havia para vender.
William separou três rosas e depositou a quarta no banco detrás. Virou-se para Beatriz e a surpreendeu.
— Uma rosa para cada dia desde que nos conhecemos.
— Tem uma rosa a mais. Só nos conhecemos a dois dias.
— Bom... a terceira é um convite. Janta comigo?
Beatriz apenas balançou a cabeça afirmativamente. Estava com uma sensação de que sua voz pudesse traí-la se falasse. Estava emocionada e seus olhos chegaram a ficar umedecidos. Era uma reação tola, ela sabia, mas não podia evitar.
Passaram no hospital mais uma vez. Beatriz conversou baixinho como se Isadora pudesse escutar e entender. Contou-lhe que compraram alguns livros e que enquanto a senhora estivesse debilitada, ela leria todos os dias. E para confirmar o que acabara de dizer, leu um poema que falava da beleza do outono e de como as folhas das árvores ficavam coloridas antes de cair.
William ficou encantado com a forma como Beatriz lia as poesias para sua mãe. Tão absorto ficou em seus pensamentos que não percebeu quando ela parou de ler e aproximou-se ficando ao seu lado lhe observando. Apesar da preocupação com a saúde da mãe, aquela tarde havia sido perfeita. Seus olhos encontraram os dela e ali se demoraram. Percorreram os contornos do rosto dela como se o tocasse. Demorou-se nos lábios. Como desejava beijá-los. E mais esse momento mágico foi interrompido. A enfermeira entrou para verificar os sinais vitais e administrar mais uma dose de medicamento.
— Como ela está?
— Lutando bravamente. Tenham fé. Ela parece ser uma mulher forte.
— Obrigado!!!
— Vamos pra casa? – pergunta William enquanto se acerca da mãe e lhe faz um carinho nos cabelos. Deposita um beijo na testa e então olha para Beatriz. Ela também faz um carinho nas mãos de Isadora e lhe dá um beijo.
— Voltamos mais tarde, querida. Está tudo bem. Descanse e se recupere.
— Podemos ir. – disse Beatriz pegando a bolsa e se dirigindo para a porta do quarto e olhou a rosa que William deixou para a mãe num vaso perto da janela.
No carro os dois comentaram suas impressões sobre a saúde de Isadora. E a esperança de que tudo terminasse bem.
Ao chegar ao prédio, William entrou direto pela garagem. E subiram com o elevador. Não queria responder as perguntas do porteiro, pois não havia novidades. Chegando na porta de Beatriz, ela abriu a porta e o convidou a entrar. Ele olhou aqueles olhos profundos e castanhos. Gostaria muito de entrar, mas iria deixar para mais tarde. Agradeceu o convite. Inclinou-se e lhe beijou o rosto. Combinando o horário para saírem para jantar.
Beatriz sentiu um misto de desapontamento e ansiedade. Queria muito sentir o beijo dele em seus lábios, mas não aconteceu. Será que ele se arrependera? O que ele estaria pensando? Resolveu se esmerar na produção pro jantar. Separou um vestido de lã preto e justo que lhe caía muito bem. Lavou e fez escova em seus longos cabelos castanhos. Preferiu meias finas decoradas com delicados desenhos na parte de trás da perna. Escolheu seus sapatos pretos com detalhes em prata. E separou a bolsa preta com detalhes também em prata para combinar com os sapatos. Não esqueceu do perfume. Uma fragrância floral levemente amadeirada. Não gostava dos perfumes doces. Achava que não combinavam com ela.
William ligou para sua assistente. Apesar da diferença de horário ela não devia estar dormindo ainda. Afinal era fim de semana. Contou-lhe o que aconteceu e pediu que lhe enviasse alguns dados de que precisava para continuar o trabalho. Pediu que cancelasse seus compromissos daquela semana e explicasse aos clientes que estava com problemas de saúde na família e que não estava no país.
Depois enviou mais dois e-mails que julgou necessários, já que permaneceria ali nos próximos dias. Depois quase se assustou quando olhou pro relógio. Deixou tudo como estava e se apressou com o banho. Escolheu seu terno azul de lã inglesa. Caprichou ao pentear os cabelos rebeldes. Quando estava na porta já, acabou voltado ao quarto. Lembrou-se de que não havia usado seu perfume predileto. A noite precisava ser perfeita e com certeza um perfume a tornaria mais mágica.
Ele suspendeu a respiração quando Beatriz abriu a porta. Estava linda. Seu coração chegou a dar um salto no peito. Aboca estava seca. Sorriu e estendeu a mão para pegar a dela. Beijou-a de forma suave, apenas roçando os lábios sobre seus dedos. Um arrepio percorreu sua espinha. Como era possível alguém lhe afetar dessa forma. As sensações que lhe vinham eram incríveis e indescritíveis. Não podia dizer que era apenas desejo. Seus sentimentos em relação a Beatriz eram mais profundos. Ele pela primeira vez não encontrava as palavras certas para descrever o que sentia.
Beatriz por sua vez sentiu suas pernas fracas parecendo gelatina. Seu coração acelerou quando ele beijou sua mão. E aquele perfume era uma deliciosa tortura para seus sentidos. Em sua vida conhecera muita gente, tivera muitos colegas e até uns namoricos, mas nada se igualava ao que sentia por William. O sentimento era de quero mais. Quero sentir mais. Descobrir mais a respeito dele. Sentia-se num sonho. Desses, tipo conto de fadas. Quem diria. Ela que debochara e menosprezara os sentimentos de suas amigas, agora sentia-se num idílio.
— Minha linda. Está encantadora. Serei o homem mais bem acompanhado nesta noite.
— Não seja exagerado. Assim me deixa sem jeito.
— Estou sendo muito sincero. Vamos, se não acabaremos nos atrasando. E estou com fome.
No carro a todo instante seus olhos se cruzavam. Sorriam um para o outro. E pareciam muito bobos, mas felizes.
No restaurante a conversa foi amena e falaram sobre seus livros prediletos. Seus autores preferidos. E descobriram que em alguns pontos tinham gostos parecidos.
Depois da sobremesa William convidou-a para ir até a pista e dançarem um pouco. Ela desculpou-se por não ser boa dançarina, mas ele não aceitou recusa. A música era agradável e os aproximava mais. Sentirem-se tão próximos os elevava num estágio que parecia um mundo paralelo. Cheio de sensações incríveis. Os corações ficaram muito acelerados. As respirações entrecortadas. Olhos nos olhos. Até a boca de William baixar e roças os lábios de Beatriz. Tudo sumiu a volta deles. Nada mais importava. Um novo roçar dos lábios e depois um beijo mais profundo. Beatriz escondeu seu rosto no ombro dele. Era tudo muito maior e melhor do que podiam ter imaginado. Realmente era mágico.
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