Notas iniciais
Corações represados que se rompem transbordando de emoções, de sensações e... desejo.

Por muitos minutos rodopiaram pela pista de dança. Depois de umas três músicas resolveram que era hora de mudar de cenário. William pagou a conta e pegaram o carro, mas não foram muito longe. Ele parou no calçadão e convidou-a para andar.

— Sei que está frio, mas adoraria andar um pouco com você. Prometo que não deixarei você ficar gelada. Vou te abraçar e deixar você quentinha. – William falou segurando as mãos dela como para assegurar que falava muito sério. Depois deu-lhe um beijinho de um lado no canto da boca e depois no outro lado e por fim um longo beijo que deixou os dois sem fôlego. Ela sorriu e concordou.

— Aceito sua proposta desde que depois nós possamos tomar um chocolate quente.

— Fechado. Caminhada e depois chocolate quente.

Saíram de mãos dadas. O ar estava frio, mas a noite linda. Depois da chuva do dia anterior o céu agora estava limpo e cheio de estrelas. Andaram de mãos dadas pelo calçadão durante um tempo. Não houve palavras porque pareciam desnecessárias. O silêncio não era desconfortável, pelo contrário. Havia uma muda compreensão do que o outro sentia, pois era o seu sentimento também. Após alguns metros andados pararam diante de uma escultura. William abraçou-a e implicou com ela.

— Você me deve uma resposta.

— Qual resposta?

— Vai fazer companhia pra minha mãe?

— Não seria errado misturar as coisas?

— Não estaremos misturando nada! Quero alguém de confiança pra olhar por ela quando eu não puder. E você é essa pessoa.

— William, desculpa se estou insegura. Isadora é um amor e teria muito prazer em olhar por ela. Mas também gosto do que está acontecendo entre nós. É algo novo pra mim. E gosto do que estou sentindo. Relações profissionais nem sempre acabam do jeito que se quer. Sempre há divergência de opiniões. Não queria que nada atrapalhasse o que temos neste momento. Mesmo sem saber como será daqui a pouco gostaria de preservar o que temos neste instante.

— Entendo o que você fala. Estive tão empenhado em trabalhar e construir a minha carreira e a empresa, tornar ela conhecida, que acabei deixando de lado algo muito importante.

— O quê?

— O coração. Você está abrindo as comportas de sentimentos há muito represados. Achei que não possuía a capacidade de amar. Deixei de lado as coisas do coração. Evitei me envolver emocionalmente. Não quis ter relacionamentos. Estou repensando. Tem sido tão bom ter você comigo nesse momento difícil. Talvez eu não tivesse encontrado a pessoa certa antes. Ou ainda não fosse o momento. Ou quem sabe eu precisasse encontrar você. Também não quero estragar o que temos. Quero que melhore cada vez mais.

William enlaçou Beatriz pela cintura. Beijou suas pálpebras. Roçou seus lábios que se entreabriram. Beijaram-se docemente a princípio, mas o beijo ficou mais intenso e exigente. Quando se afastaram estavam ofegantes. E começaram a rir muito. Voltaram até o carro.

— Agora chocolate quente. Onde tem chocolate quente a essa hora.

— Na confeitaria lá perto de casa ou na minha casa.

— Certo. Verificaremos a confeitaria primeiro. Se estiver fechada iremos pra sua casa.

A confeitaria estava fechada. Seguiram para casa. No apartamento de Beatriz foram para a cozinha. William sentou-se observando tudo ao redor enquanto ela fazia o chocolate quente. Ele gostou do que via. Tudo era simples, mas de bom gosto e organizado de forma prática.

Quando o chocolate quente ficou pronto foram para a sala que também era um ambiente sem ostentação, mas com muito bom gosto. Tinha uma estante de livros no lado contrário ao da entrada e uma mesa de escritório sobre a qual tinha um notebook, uns livros e material de anotação. Algumas caixas estavam empilhadas ao lado da mesa. Os estofados eram confortáveis e dispostos de forma agradável. Tinha um aparador na entrada com um vaso de folhagem. E na mesa de centro um vaso baixo com rosas vermelhas. As rosas que ele dera estavam na mesa de trabalho. William sentiu-se muito bem ali. Era tudo muito aconchegante. Ao que tudo indicava o apartamento não era grande, mas aquilo que ele via estava decorado de uma forma gostosa que o deixava a vontade.

— Gosto do seu apartamento. Hummm e o chocolate está delicioso. Acho que não provo um assim faz muito tempo. Minha mãe faz um parecido.

— Obrigado!! A receita é dela. Embora seja calórico, nesse frio é uma das minhas bebidas prediletas.

— Você disse que gosta de escrever. O que escreve?

— Poesias, contos, crônicas. Mas nos últimos tempos tinha pouco tempo e inspiração e não estava fazendo nada.

— Já publicou alguma coisa?

— Não. Quer dizer, na época de colégio e na faculdade participei de atividades que acabaram virando livro. Mas uma publicação só minha, ainda não aconteceu.

— O que falta pra isso acontecer?

— Tempo. Dinheiro. Alguém que se interesse em ver meu trabalho e queira publicar.

— Bom, está aí mais uma razão pra você aceitar a proposta que te fiz. Você teria tempo nos momentos em que minha mãe dorme para escrever. E tenho alguns conhecidos que poderiam ver seu material sem compromisso. Se gostarem poderão publicar.

Beatriz sorriu. Realmente colocando a ideia assim ficava mais interessante. Ela não ficaria parada. Ganharia um salário e poderia fazer o que queria, mas até então, não pudera. Já tinha pensado em procurar um lugar mais barato para morar e usar as suas economias enquanto escrevia, mas achava perigoso ficar sem ter uma entrada fixa.

— Você é um sujeito de bons argumentos. Estou convencida. Vou ficar com a Isadora enquanto você cuida das suas coisas. E não será por um longo tempo. Ela deverá se recuperar logo.

— Quanto a isso não sei. Leve o tempo que precisar. Cuidaremos dela. Pretendo chamar a minha assistente para ir cuidando de preparar o novo escritório, assim terei mais tempo pra você e pra mamãe.

— Gostei muito dessa parte. – ela abraçou-o e lhe deu um beijo. Quando ela ia escapando ele a segurou no abraço. E voltou a beijá-la.

— Como é bom ter você assim.

— Estou começando a acreditar em magia.

— Seus lábios são mágicos. Você é mágica. – beijaram-se de novo. William puxou-a mais para si. Nesse instante a magia se intensificou. E o desejo invadiu os dois. Por fim, ele afastou-se olhando-a nos olhos de forma profunda. Ela que estava perdida em meio a tantas sensações que a invadiam pareceu não entender o que os olhos dele perguntavam de forma muda.

— A coisa que mais quero nesse instante é não ter que te deixar, mas acho que é hora de ir pro meu apartamento. Tentarei voltar a serenidade e talvez dormir. Será difícil. – Levantou e seguiu para a porta. Beatriz seguiu-o. Na porta beijaram–se de novo.

— Preciso ir. Ou ficarei por aqui pra sempre. E creio que ainda não é momento.

— Sentirei saudade.

— Sonhe comigo. Boa noite!

— Boa noite! Durma bem.

Notas finais
Novas atividades. Velhas aspirações. Intriga.